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Cantigas
Desafoga pelas vozes
A paixão, que oprime o peito,
Não te envergonha a verdade,
Ter amor não é defeito.
Aceita de amor cadeias,
Do modo que eu as aceito,
Os ferros de amor dão honra,
Ter amor não é defeito.
Com amor não há fugir-lhe,
Nem por força, nem por jeito,
Que importa amar e servi-lo?
Ter amor não é defeito.
É Glória amar um semblante,
Tão gentil e tão perfeito;
Se é sem defeito o motivo,
Ter amor não é defeito.
Belisa, gentil Belisa,
Eu te adoro, eu te respeito,
Não me castigues por isso
Ter amor não é defeito.
Em contemplar os teus olhos
O dia, e noite aproveito,
Contemplar é ação d’alma,
Ter amor não é defeito.
Eu acordo em ti cuidando,
Em ti cuidando me deito,
Não é defeito o cuidado,
Ter amor não é defeito.
Aos homens a natureza,
Impôs de amor o preceito,
O defeito está no modo,
Ter amor não é defeito.
Desafoga pelas vozes
A paixão, que oprime o peito,
Não te envergonha a verdade,
Ter amor não é defeito.
Aceita de amor cadeias,
Do modo que eu as aceito,
Os ferros de amor dão honra,
Ter amor não é defeito.
Com amor não há fugir-lhe,
Nem por força, nem por jeito,
Que importa amar e servi-lo?
Ter amor não é defeito.
É Glória amar um semblante,
Tão gentil e tão perfeito;
Se é sem defeito o motivo,
Ter amor não é defeito.
Belisa, gentil Belisa,
Eu te adoro, eu te respeito,
Não me castigues por isso
Ter amor não é defeito.
Em contemplar os teus olhos
O dia, e noite aproveito,
Contemplar é ação d’alma,
Ter amor não é defeito.
Eu acordo em ti cuidando,
Em ti cuidando me deito,
Não é defeito o cuidado,
Ter amor não é defeito.
Aos homens a natureza,
Impôs de amor o preceito,
O defeito está no modo,
Ter amor não é defeito.
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Roteiro da Poesia
Brasileira — Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença
Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo
— SP; Domingos Caldas Barbosa (1738 — 1800), nascido no Rio de
Janeiro, foi poeta, violonista, compositor e cantor de modinhas,
teatrólogo e presbítero; fixou residência em Lisboa — Portugal, por
volta de 1772, fez curso de formação religiosa e ordenou-se; fundou a Academia de Belas Artes, a Nova Arcádia,
em Portugal, juntamente com Bocage e outros poetas; sob
o pseudônimo de Lereno Selenuntino, aderiu à Arcádia Romana; o poeta árcade
teve sua obra vinculada à canção popular; Viola de Lereno foi
publicada em 1798.
