quinta-feira, 30 de julho de 2009

P. da Silva: A pá lavra

A pá lavra nas bocas
de quem quer plantar
pra saciar a fome do mundo.

A pá lavra nos sonhos
de quem se recusa a buscar sonhos
nos cortiços, favelas e ruas
dos centros urbanos.

A pá lavra nas armas tão toscas
dos que resistem a fuzis, metralhadoras,
escudos e coletes à prova de balas
dos defensores de latifúndios improdutivos.

A pá lavra que mata ecoa
floresta propaga de boca em boca:
Vergonha!

A pá lavra numa vida inteira
e em sete palmos de terra.
Amém!

A pá lavra, enfim,
em duas só palavras:
REFORMA AGRÁRIA!
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P. da Silva (Genésio dos Santos), maio/1996: poema desenvolvido por ocasião das mortes de 19 trabalhadores rurais sem-terra, no sul do Pará, em 17 de abril de 1996, trabalhadores esses executados pela polícia paraense num episódio amplamente registrado na mídia como o Massacre de Eldorado dos Carajás; á época, três meses após as mortes, o Sindicato dos Bancários de São Paulo promovera um ato público itinerante lembrando o triste e revoltante acontecimento, e, durante a caminhada pelo centro de São Paulo, foi distribuido à população um documento pelo qual se cobrava o não esquecimento e a punição dos matadores e responsáveis pela chacina  no verso do documento fez-se constar o poema acima.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Genésio dos Santos: Último poema

Sofregamente
restam-me algumas horas,
alguns dias talvez.

Tantos já se foram,

tantos ainda permanecem
com certeza ou incertamente.

Ontem mesmo

eu vi levarem mais um,
um a mais.

Tocam

a
campainha.

1982

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Genésio dos Santos nasceu no Ano 52 do Século e Milênio passados; este poema foi publicado no devezenquandário Na Moita  março de 1993, um jornaleco que circulava nas seções e departamentos da ex-Agência Centro do BB em São Paulo e adjacências e que tinha como responsáveis (nem tão ocultos!) os ativistas da palavra, este que vos relata (P.da Silva) e Jorge Nagao (P.Cunha); o jornaleco Na Moita foi produzido e distribuído desde 1991 e até 1997.

sábado, 25 de julho de 2009

Genésio dos Santos: Ato

Livro: Número Um De Genésio Dos Santos
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Sobe o pano.
O palco regurgita de atores
bem vestidos
ou maltrapilhos,
cada qual no seu papel,
cenas que fazem rir
ou chorar,
cenas que chocam,
que aguçam nossas mentes,
e eu a imaginar:
Como? Por quê?

Gente esmolambando
gente vivendo
gente chorando
gente rei
gente súdito
gente adulta
gente criança
gente rumo a sei lá onde
gente que dá pena ver,
e eu a imaginar:
Como? Por quê?

Guerras
poluições
moléstias
pesquisas
debates
lógicas
absurdos
sinal vermelho
mas ninguém pára,
e eu a imaginar:
Como? Por quê?

Desce o pano.
Aplausos
delírios
críticas
xingamentos
gente que entra em choque
uns participam
outros se omitem
o povo é o povo,
e eu a imaginar:
Como? Por quê?

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Genésio dos Santos, Número Um  1978.

Genésio dos Santos: A palavra (1982)

A pá lavra.

A imagem pode conter: 1 pessoa
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Genésio dos Santos é poeta.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Genésio dos Santos: Forma

Clique no título acima e prossiga.

Livro: Número Um De Genésio Dos Santos
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A métrica
é tétrica.

É um empecilho
ao filho.

Minha foto
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Número Um, 1978, Edição do Autor, São Paulo — SP; Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991  1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Cornélio Pires: O dia da inleição

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 Muita gente na cidade?
 Nem fale, primo Bastião...
mais de tuda qualidade
tinha gente na inleição!

Fiquei meio atrapaiado:
fui votá co Coroné
que pagô o dotô formado
que curô minha muié,

quando chegô Nhô Travasso,
pa quem devo treis favô,
e me pegano po braço,
disse: "Este é meu inleitô!",

Votei co'ele, que fazê!?
Mais porém, nôtra inleição,
o Coroné há de vê
que eu tô no seu bataião.

De tardinha, quano eu sube
que ia havê úa cervejada
na casa grande do crube
fui pra lá vê a rapaziada.

Ôta povo! Mais que terno!
Tudo era ali bem tratado...
Êta baruio do inferno!
Fiquei meio turtuviado.

A gente ganha sapato,
ganha rôpa de argodão,
come frango, come pato,
quano é dia de inleição.

O tár crube é um bão cevêro,
os chefe são cevadô,
é gente que tem dinhêro
pa garantí o inleitô.

Pa vancê sê visitado
nos tempo das inleição,
é perciso sê alistado...
Se aliste, primo Bastião.

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Musa Caipira — As estrambóticas aventuras do Joaquim Bentinho (o Queima-campo), edição comemorativa do centenário do nascimento de Cornélio Pires, editado pela Prefeitura Municipal de Tietê — SP; Cornélio Pires (1884  1958)paulista de Tietê, autodidata, foi jornalista, escritor, folclorista, etnógrafo, ativista cultural, conferencista, poeta, contador de causos e cantador, enfim, um estudioso da cultura e dialeto caipiras; teve sua estréia na imprensa como aprendiz de tipógrafo em O Tietê (1905); trabalhou e/ou colaborou com os jornais O Comércio de São PauloO Estado de São PauloA Cidade de Santos, e também com as revistas O Pirralho, dirigida por Oswald de Andrade, A Careta, do Rio de Janeiro, A Farpa, de São Paulo, além de em outras publicações; dirigiu o hebdomadário O Movimento, de São Manuel  SP; em Piracicaba, colaborou com O Jornal e Jornal de Piracicaba; fundou com o caricaturista e desenhista Voltolino, o semanário humorístico O Sacy (1926); em 1909 teve suas poesias publicadas no Almanaque d’O Malho; escreveu e publicou Musa Caipira (1910), O Monturo (poemetos, 1911), Versos (1912), Tragédia Cabocla (novela, 1914), Quem conta um conto... (1916), Conversas ao Pé do Fogo (1921), Cenas e Paisagens da minha terra (reunião de sua obra poética, 1921), As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho o Queima-Campo (1924), Seleta Caipira (1926), Continuação das Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho o Queima-Campo (1929), Sambas e Cateretês (folclore, 1932), Tá no Bocó (1935) e outros; realizou os filmes Brasil Pitoresco (com auxílio técnico do cineasta paulista Flamínio de Campos Gatti, 1923) e Vamos passear? (documentário, 1934); o ativista cultural Cornélio Pires viajou pelo país afora divulgando e apresentando o que pesquisava, também produziu e deixou registrado seus causos e outros achados caipiras (modas de viola, anedotas, cururus  e outros ritmos caipiras...) em dezenas de discos gravados nos anos 29 e 30 com duplas caipiras e artistas por ele descobertos.

Nhô Bentico (Abílio Víctor): Meu bairro

Nhô moço, já tenho andado
in quage tudos Estado,
já passiei nas Capitá;
vi coisas de nuvidade,
um mundaréu de cidade
c'um movimento inferná.

Vi tanta lindeza, tanta,
mais nada disso m'incanta
cumo o meu torrão natá: 
O sapezêro, as paióça,
as caminhada da roça,
o chêro dos cafezá.

O riberão, a lagoa,
minha bençuada canoa,
minhas vara de pescá.
Os campo i as gadaria,
as zuada das mataria,
quano o vento vem bejá.

A festa dos passarinho,
as frôr que pinta os caminho,
a branquidão do argoduá.
A lúita, cum tanto impenho,
dos burro virano o ingenho,
fazeno o ingenho chorá...

Meu bairro tem maravia,
parece dizê poesia
tudas coisa que tem lá...
Num tróco nem por riqueza,
le digo cum bem franqueza: 
Cumo meu bairro num há!

(Nhô Bentico)

"Puis tem bolinho de frango
que eu, na hora do rango,
nunca isqueço de prová!
Parece que tem fitiço,
i quem provô sabe disso: 
Im ôtros bairro num há!!!"(1)
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Folhas do Mato  versos caipiras, Prefácio de Manoel Cerqueira Leite, 2ª edição aumentada, 1940, Gráfica Sorocabana, Sorocaba  SP; Nhô Bentico e Abílio Soares Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; escreveu e publicou Folhas do Mato (1938), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.

(1) Versos criados, e acrescentados à poesia de Nhô Bentico, por Genésio dos Santos, caipira e itapetiningano, em puro e incorrigível atrevimento do também poeta e cronista (01.11.2009).

Juó Bananére: O molero, o seu figlio i o burigno — Fabula de La Fontana

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ERA una veiz un molêro veligno,
Che tigna un figlio e tigna un burigno,
I chi n'un dia di prontidó,
Xamô o figlio i giunto risorvêro
Vendê o burro per quarquere dignero
Intó pigáro o pobri ruminante,
Amarráro us p'e delli c'un barbante,
I gada un intó pigô d'un lado,
Butáro elli nas gosta i intusiasmado,
La si furo s'imbora os dois gamponio
Come si u burro fossi un Sant'Antonio.

Un uómo chi apassava per la strada,
Assurtô una brutta gargagliada
I disse:  Aposto giá dieci testó
Chi sô u Hermeze co Piedadó
Perché só duas aguia come esta
Era gapaiz di acarregá una besta.
O molero molto invergognado,
Di sê co Hermeze acumparado,
Disamarrô as patta du burigno,
Fiz amuntá inzima u rapazigno,
Butô pr'a frente u burro co rapaiz
E illo fui andáno a pé atraiz.

Ma non tenia andado molto adiante,
Che surgi na strada treiz viajante
I un dos treiz gritô indignado:
Desça daí ó figlio snaturado!
Chi farta ingollossal di inducaçó
I amuntado inzima o marmanjó
I o goitado du veligno a pé.
Desça daí feiçó di giacaré!
O gamponez assi gh'isto iscuitô
Fiz disapiá u figlio i amuntô,

Ma logo adianti surge treis piquena
Bunitignas ugual da Maddalena,
I una disse ista ricramaçó;
 Mio Deuse do çéu, che brutta giudiaçó!
I amuntado aquillo Xipanzé,
Io pobri rapazigno a pé...
 Xipanzé, migna sinhóra , é a vó!
Disse furioso c'o a gomparaçó,
O pobri du molero, ma disposa
Rifletti i pensó migliore na cosa,
I achô che illas intim tigna razô,
Pigô intó u figlio i amuntô
Insima da garupa du burigno,
I ingontinmuô be chetto o suo camigno.

Non tigna andado quasi nada,
Che s'incontrosi c'una rapaziada,
I un dellis fiz ista insgulhambaçó:
 Oglia che dois suggeto garadura!
Illos scaxa c'a cavargadura...
Quano sigá nu fin do suo gamigno,
Non resta mais chi os osso du burigno.
 Che trôxa chi só io, disso o molero!
Quereno acuntentá o mundo intero!
Tuttavia noiz vammo sprimentá
Si ninguê áxá mais o que aparlá.
Descêro intó d'ingoppa du burigno,
I furo andáno a pé pelo gamigno.

Trinta passo talveiz nun tigna andado,
Chi apassáro no strada dois surdado,
I undisse pr'u otro:  O' gamarata!
I' os donno a pé i u burro na frescata,
Sará per acaso arguna moda nóva?
Só mesimo dando nellis uns sova!...
Era migliore pigá giá nu gavallo,
Butalo n'un altaro i aduralo
Come un Santo. Daquillas griatura,
Qual dus treiz é a maior cavargadura?
 Sê duvida sô io, disse o molero,
Che quero acuntentá o mundo intêro;
Ma diga chi quizé, o che quizé,
Chi non mi faiz andá maise di a pé,
Non dô satisfaçó mais p'ra ninguê:
 E' di afazê o che quizé afazê.

... I fiz molto bê.

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La Divina Increnca, publicado em 1915  Livro di Prupaganda da Literatura Nazionale. Juó Bananére, edição fac-similar, 2001 reimpressão, 2007  Editora 34, São Paulo  SP; Candidato á Gademia Baolista de Letras  Arma Virunque Cano! Ferri  E di sai du governimo acarregado nus braço du povo! Hermeze  A bandiera du P. R. C. á di sê pindurada na porta du Palazzo né chi sejia tutto furada di bala i lameada di sangue! Capitó  Juó Bananére, pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado (1892 1933), paulista de Pindamonhangaba, formado pela Escola Politécnica da USP São Paulo, foi engenheiro civil, escritor e poeta satírico; é considerado um dos precursores do Modernismo literário e artístico, que desaguou na Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo; colaborou com seus textos nos periódicos O Estado de São Paulo e O Pirralho; fez paródias de textos de Olavo Bilac, Gonçalves Dias, Camões, La Fontaine, Machado de Assis e outros; sua principal obra, La Divina Increnca (1915), parodia A Divina Comédia de Dante; em 1933, ano de sua morte, criou o jornal semanal Diário do Abax’o Piques e que durou 21 números.

Genésio dos Santos: Estava escrito! (18.03.2002)

Encontrar solução à vida alheia,
parece estar escrito, é minha sina,
é o que o Existir a mim destina,
e assim vou me enredando nesta teia.

Tal qual a uma pepita pequenina,
como que garimpando em bateia,
pincei-a entre muitos grãos de areia,
e fui me enamorar desta menina.

Mas eis que de repente vem um susto,
e acompanhando o susto vêm meus medos...
Consulto a razão a muito custo.

Desfilam em minha mente meus segredos,
e quanto mais os sinto mais me assusto...
E a vejo escapulir por entre os dedos.
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Genésio dos Santos é poeta e cronista.

Genésio dos Santos: Minha droga (2003)

Minhas poesias são a minha droga,
de vez em quando eu me apóio nelas.
Injeto-as em minhas veias,
minhas narinas as aspiram,
ou as bebo.

E,
ao me ver em estado de overdose,
vomito-as sem contemplação.

Para não morrer!
Para me manter vivo!


Minha foto
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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

Genésio dos Santos: O boi (18.11.2006)


Resultado de imagem para boi no pasto
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Lá longe
o boi
rumina
no pasto.

Pertinho
o homem
também
rumina:

 Será
que é bom
ser boi?

O boi
não sabe
nem pensa.

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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista e itapetinigano, caipira, quase ex-telegrafista, filho de ferroviário, é poeta, cronista e aprendiz de blogueiro.