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[traduzido por Daniel Martineschen]
[a]*
Talismãs no livro quero diluir
pra que tudo pese o mesmo.
Crente, espeta a agulha a esmo:
palavra boa vais fluir.
[b]
Quem nasceu em dias piores
acha até os ruins melhores.
[c]
O mar vai e vem,
a terra não o retém.
[d]
Pra manter-se no respeito
tem que ter boa pelagem.
Tudo se caça com falcão,
menos o porco selvagem.
[e]
Pra que um vil ladrão não limpe tua despensa,
esconde teu ouro, tuas fugas, a tua crença.
[f]
Que colorida comunidade!
Na mesa de Deus sentam ódio e amizade.
[g]
Quem cala tem pouco a temer,
sob a língua é possível se esconder.
[h]
Não é tolice que sua opinião
cada um queira enaltecer
se Islã é a divina submissão,
ao Islã vamos viver e morrer.
[i]
Estás sempre bem cuidado,
isto não se retira:
dois amigos despreocupados,
cálice, canção e lira.
[j]
“Por que enfeitas aquela mão
mais do que possa merecer?”
O que resta à esquerda então,
senão a direita enaltecer?
[k]
Se o asno de Cristo
fosse a Meca, retornaria
e o mesmo asno ele seria,
e nada melhor que isto.
[l]
Ó boas almas, não se iludam!
Quem não falha vê onde outros falham;
mas só quem falha consegue saber,
pois viu com os outros como fazer.
[m]
A maré da paixão, ela avança em vão
contra a terra firme e incontida —
Deixa pérolas poéticas no chão,
e isso já é um ganho na vida.
(Divã
Ocidento-Oriental —
Livro dos Provérbios)
Hikmet
Nameh: Buch der Sprüche
[a]
Talismane werd ich in dem Buch
zerstreuen;
Das bewirkt ein Gleichgewicht.
Wer mit gläubger Nadel sticht,
Überall soll gutes Wort ihn
freuen.
[b]
Wer geboren in bös’sten Tagen,
Dem werden selbst die bösen
behagen.
[c]
Das Meer flutet immer,
Das Land behält es nimmer.
[d]
Sich im Respekt zu erhalten,
Muß man recht borstig sein.
Alles jagt man mit Falken,
Nur nicht das wilde Schwein.
[e]
Soll man dich nicht auf’s schmählichste berauben,
Verbirg dein Gold, dein Weggehn, deinen Glauben!
[f]
Welch eine bunte Gemeinde!
An Gottes Tisch sitzen Freund
und Feinde.
[g]
Wer
schweigt,
hat wenig zu sorgen;
Der Mensch bleibt unter der
Zunge verborgen.
[h]
Närrisch, daß jeder in seinem
Falle
Seine besondere Meinung
preist!
Wenn Islam "Gott
ergeben" heißt,
In Islam leben und sterben wir
alle.
[i]
Du
bist auf
immer geborgen,
Das nimmt dir niemand wieder:
Zwei Freunde ohne Sorgen,
Weinbecher, Büchlein Lieder.
[j]
"Was schmückst du die
eine Hand denn nun
Weit mehr als ihr
gebührte?"
Was sollte denn die Linke tun,
Wenn sie die Rechte nicht
zierte?
[k]
Wenn man auch nach Mekka
triebe
Christus’ Esel, würd’ er nicht
Dadurch besser abgericht,
Sondern stets ein Esel bliebe.
[l]
Betrübt euch nicht, ihr guten Seelen!
Denn wer nicht fehlt, weiß wohl, wenn andre fehlen;
Allein wer fehlt, der ist erst recht daran,
Er weiß nun deutlich, wie sie wohl getan.
[m]
Die Flut der Leidenschaft, sie
stürmt vergebens
Ans unbezwungne feste Land:
Sie wirft poetische Perlen an
den Strand,
Und das ist schon Gewinn des Lebens.
(West-östlicher
Divan —
Hikmet Nameh [:Buch der Sprüche])
* Nota do blog Verso e Conversa: o acréscimo das letras de [a] a [m],
na separação dos provérbios ora selecionados é de única e exclusiva
responsabilidade do atrevido aprendiz de blogueiro desta página; tais letras não
constam na obra traduzida, nem na obra consultada no original alemão em https://kalliope.org/da/text/goethe2000082983,
e cumprem tão somente a função de facilitar a identificação/comparação do provérbio
traduzido e sua correspondente transcrição no original.
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Goethe: Divã
Ocidento-Oriental, bilíngue [+ Notas e Ensaios para melhor compreensão do Divã
Ocidento-Oriental], Tradução e Posfácio de Daniel Martineschen e Apresentação
de Marcus Mazzari, 1ª edição, 2020, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Johann
Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro
Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se
em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral,
teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou
suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune
des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774),
Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo
(drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides
(Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789),
Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro
(1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (1801—1803), Fausto
(parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das
Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha
vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos
autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental,
1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e
muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez
parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o
expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito
de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven,
Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito,
Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt,
Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann,
Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

