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domingo, 21 de dezembro de 2025

Batista Cepelos: A espera

 
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Com sua voz assustadinha e doce,
doce como um trinar de passarinho,
ela me disse que esperá-la fosse,
fosse esperá-la à beira do caminho.

Mas o tempo da espera prolongou-se,
prolongou-se demais! E, então, sozinho,
passei o dia. Veio a tarde e trouxe,
trouxe arrulhos de amor, de ninho em ninho.

Desespero. O silêncio me tortura.
Mas, de repente, alvoroçado, escuto
um farfalhar de folhas na espessura.

Ela chega e tão linda, de maneira
que só para gozar este minuto
eu a esperara a minha vida inteira.


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador do livro 60 Poetas Trágicos, ali registrou acerca do poeta Batista Cepelos:
De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), ou Baptista Cepellos, paulista de Cotia, formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, romancista, tradutor e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, obra prefaciada por Olavo Bilac, 1906, e 3ª edição refundida e modificada em 1911), Os Corvos (prosa, 1907), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire, Paul Verlaine e Lorenzo Stecchetti; como promotor público, Batista Cepelos trabalhou em Apiaí SP, Itapetininga SP e Cantagalo RJ.

domingo, 30 de novembro de 2025

Batista Cepelos: O trem de ferro

 
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Um fino apito, estrídulo sibila,
rangem as rodas num arranco perro,
e, lentamente, a se arrastar, desfila,
fumegante e luzente, o trem de ferro.

Soa no espaço um derradeiro berro
e tão rápido corre que horripila,
esse monstro a rolar de cerro em cerro,
apavorando a solidão tranqüila.

Vence choupanas, matagais tristonhos,
despenhadeiros, báratros medonhos,
nada lhe amaina o rábido furor.

Corre, corre veloz, nada o embaraça,
desfraldando a bandeira de fumaça,
como um bravo guerreiro vencedor!


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador do livro 60 Poetas Trágicos, ali registrou acerca do poeta Batista Cepelos:
De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), ou Baptista Cepellos, paulista de Cotia, formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, romancista, tradutor e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, obra prefaciada por Olavo Bilac, 1906, e 3ª edição refundida e modificada em 1911), Os Corvos (prosa, 1907), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire, Paul Verlaine e Lorenzo Stecchetti; como promotor público, Batista Cepelos trabalhou em Apiaí SP, Itapetininga SP e Cantagalo RJ.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Batista Cepelos*: O fundador de S. Paulo

 
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Rumoreja a cidade, em febril movimento.
Ondeia como um rio a imensa populaça;
E, maculando o olhar azul do firmamento,
Erguem-se as chaminés, golfejando fumaça.

Estende-se o comércio, em soberbo incremento;
Circula como um sangue a riqueza na praça;
E, numa rapidez superior à do vento.
Os prelos dão à luz e o trem de ferro passa...

E, enquanto o poviléu rola de rua em rua,
Onde o luxo se ostenta e a vida tumultua,
Eu mergulho no sonho e na contemplação.

E, na sua modéstia e na sua roupeta.
De repente me surge a figura de Anchieta,
Melancolicamente apoiada a um bordão...

(Os Bandeirantes, 1906)


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador do livro 60 Poetas Trágicos, ali registrou acerca do poeta Batista Cepelos:
De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.
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Antologia Brasileira — Seleta em Prosa e Verso de Escritores Nacionais, por Eugenio Werneck, 30ª edição, atualizada, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), ou Baptista Cepellos, paulista de Cotia, formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, romancista, tradutor e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, obra prefaciada por Olavo Bilac, 1906, e 3ª edição refundida e modificada em 1911), Os Corvos (prosa, 1907), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire, Paul Verlaine e Lorenzo Stecchetti; como promotor público, Batista Cepelos trabalhou em Apiaí SP, Itapetininga SP e Cantagalo RJ.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Baptista Cepellos*: Maternidade

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Sob uma latada amena,
Onde a folhagem se entrança
A luz se infiltra serena,
Como um olhar de criança...

Lili, graciosa pequena,
Numa rede se embalança,
Mais ligeira que uma pena.
Mais linda que uma esperança,

E, nesse grato abandono,
Com voz monótona e incerta,
Convida os olhos ao sono...

E, mãe que adora o seu filho,
Entre os bracinhos aperta,
Uma boneca... de milho!

Os Bandeirantes (1911, H. Garnier,
Rio de Janeiro — RJ)


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador do livro 60 Poetas Trágicos, ali registrou acerca do poeta Batista Cepelos:
De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.
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Poesias Selectas (várias autorias) — Apresentação de Alvaro Reis e Compilação de Odette F. Pitta e Daniel L. A. César, sem data [com dedicatória manuscrita à tinta e data de 16.2.923], Imprensa Methodista, São Paulo — SP; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), ou Baptista Cepellos, paulista de Cotia, formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, romancista, tradutor e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, obra prefaciada por Olavo Bilac, 1906, e 3ª edição refundida e modificada em 1911), Os Corvos (crônicas, 1907), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire, Paul Verlaine e Lorenzo Stecchetti; como promotor público, Batista Cepelos trabalhou em Apiaí SP, Itapetininga SP e Cantagalo RJ.

quinta-feira, 2 de março de 2023

Batista Cepelos *: Nas ondas de uns cabelos

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Soltos, ombros abaixo, os revoltos cabelos,
que te envolvem num longo e veludoso abraço;
e, como um rio negro, os seus negros novelos
rolam no vale em flor do teu brando regaço.

E na louca embriaguez dos meus sentidos, pelos
cinco oceanos do sonho o meu roteiro faço,
a senti-los na mão, beijá-los e mordê-los
até morrer de amor, sucumbir de cansaço!

E pousando a cabeça em teu seio, que estua,
sinto um sono ligeiro, um sussurro de brisa,
que me suspende ao céu e pelo céu flutua...

E num sonho feliz, como num mar profundo,
a minha alma desliza, a minha alma desliza
como as naus de Colombo, à procura de um mundo...


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador deste 60 Poetas Trágicos registrou acerca do poeta Batista Cepelos: “De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.
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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), paulista de Cotia, formado em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, tradutor, romancista e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, 1906), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire e Paul Verlaine.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Batista Cepelos: Nas Ondas de uns Cabelos

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Soltas, ombros abaixo, os revoltos cabelos,
Que te envolvem num longo e veludoso abraço;
E, como um rio negro, os seus negros novelos
Rolam no vale em flor do teu brando regaço.

E, na louca embriaguez dos meus sentidos, pelos
Cinco oceanos do Sonho o meu roteiro faço,
A senti-los na mão, beijá-los e mordê-los,
Até morrer de amor, sucumbir de cansaço!

E, pousando a cabeça em teu seio, que estua,
Sinto um sono ligeiro, um sussurro de brisa,
Que me suspende ao céu e pelo céu flutua...

E, num sonho feliz, como num mar profundo,
A minh’alma desliza, a minh’alma desliza,
Como as Naus de Colombo, a procura de um Mundo...

(Vaidades, 1908, Laemmert &
 C., S. Paulo, pág. 125.)

Resultado de imagem para Batista Cepelos
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume V — Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), paulista de Cotia, formado em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, tradutor, romancista e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, 1906), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Francisco de Gôngora, Baudelaire e Paul Verlaine.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Batista Cepelos: Ecce Homo *

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Trazendo à Natureza uma pujança brava
A doirada sazão do viço e da alegria,
Dispersada por tudo, a Vida triunfava,
Enquanto o Sol, por toda a esfera, ria... ria...

Ria de flor em flor; no inseto que passava,
Ria; nas virações, no azul, na pedra fria,
No pássaro gentil, na furna esconsa e cava,
Ria; por toda parte, em suma, ria... ria...

E o Rei da Criação, o Homem, pausado e lento,
Cravou o olhar no céu, numa grande tristeza,
Que era a sombra talvez de um grande pensamento...

E, alto, na solidão, que lhe aumentava o porte,
Em meio às expansões joviais da Natureza,
Ele tinha na fronte a palidez da morte...



* Nota do Organizador: A tristeza do homem vem-lhe da condição de ser racional, que antevê a própria morte, e sofre com isso. O soneto possui, no fim, um ar satânico.
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), paulista de Cotia, formado em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, tradutor, romancista e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, 1906), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, de Stéphane Mallarmé; traduziu também Francisco de Gôngora, Baudelaire e Paul Verlaine.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Batista Cepelos: Como um bloco de pedra inanimado e forte, . . . [soneto]

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Como um bloco de pedra, inanimado e forte,
tens a idéia. Pois bem: trabalha na obra-prima!
E, antes de começar, num sublime transporte,
aguarda a inspiração, que baixa lá de cima…

Depois te quero ver, mais duro que Mavorte,
batendo com o martelo e rilhando com a lima!
E, talhado de rijo, em soberbo recorte,
gire o verso, a cantar, no eixo de ouro da rima…

E que um dia nos venha, extraordinário amigo,
um soneto que vibre, entre clarões dispersos,
levantando o rumor de um campanário antigo…

E, no sumo apogeu das formas desejadas,
grite pelo metal dos seus quatorze versos,
relampagueando ao sol, como quatorze espadas!

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Batista Cepelos (1872  1915), paulista de Cotia, soldado, advogado e promotor público, foi poeta, tradutor, romancista e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, 1906), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, obra de de Stéphane Mallarmé, o poema ‘Azul’; traduziu também Francisco de Gôngora e Paul Verlaine.