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Quando vim da minha terra,
se é que vim da minha terra
(não estou morto por lá?),
a correnteza do rio
me sussurrou vagamente
que eu havia de quedar
lá donde me despedia.
Os morros, empalidecidos
no entrecerrar-se da tarde,
pareciam me dizer
que não se pode voltar,
porque tudo é consequência
de um certo nascer ali.
Quando vim, se é que vim
de algum para outro lugar,
o mundo girava, alheio
à minha baça pessoa,
e no seu giro entrevi
que não se vai nem se volta
de sítio algum a nenhum.
Que carregamos as coisas,
moldura da nossa vida,
rígida cerca de arame,
na mais anônima célula,
e um chão, um riso, uma voz
ressoma incessantemente
em nossas fundas paredes.
Novas coisas, sucedendo-se,
iludem a nossa fome
de primitivo alimento.
As descobertas são máscaras
do mais obscuro real,
essa ferida alastrada
na pele de nossas almas.
Quando vim da minha terra,
não vim, perdi-me no espaço,
na ilusão de ter saído.
Ai de mim, nunca saí.
Lá estou eu, enterrado
por baixo de falas mansas,
por baixo de negras sombras,
por baixo de lavras de ouro,
por baixo de gerações,
por baixo, eu sei, de mim mesmo,
este vivente enganado, enganoso.
[Farewell — 1996]
La
Ilusión del Emigrante
(versión de Manuel Graña Etcheverry)
Cuando salí de mi tierra,
si es que vine de mi tierra
¿yo no estoy muerto, allá?
l correntada del río
me susurra vagamente
que yo habría de quedarme
allá, donde me despedí.
Los montes, palideciendo
en el caer de la tarde,
parecía que me decían
que no se puede volver,
porque todo es consecuencia
de haber por allá nacido.
Cuando vine, si es que vine
de algún lugar para algún otro,
el mundo giraba, ajeno
a esta mi baja persona,
y en su girar entreví
que no se va ni se vuelve
de algún sitio a ningún otro.
Que cargamos esas cosas,
moldura de nuestra vida,
rígido cerco de alambre,
en la célula más anónima,
y un suelo, una sonrisa, una voz
resuena incesantemente
en nuestras hondas paredes.
Cosas nuevas, sucediéndose,
ilusionan nuestra hambre
de primitivo alimento.
Los descubrimientos son máscaras
de lo más oscuro real,
esa herida desparramada
en la piel de nuestras almas.
Cuando vine de mi tierra,
no viene, me perdí en el espacio,
en la ilusión de haber salido.
ay de mí, nunca salí.
Allá estoy yo, enterrado,
debajo de mansos discursos,
debajo de negras sombras,
debajo de minas de oro,
debajo de generaciones,
debajo de mí mismo,
este engañado, engañoso.
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Caminhos Drummondianos: Itabira — MG,
edição bilíngue, [poemas de] Carlos Drummond de Andrade, versões em espanhol
por Manuel Graña Etcheverry e Marina Sviatopolk Mirski Pais, Texto introdutório
de João Izael Querino Coelho, prefeito de Itabira — MG [gestões 2005-2008 e
2009-2012], Projeto gráfico: C4 Comunicação e Design, Realização: Prefeitura de
Itabira, Patrocínio: Vale [do Rio Doce], sem data [2009 !]; Carlos Drummond de Andrade
(1902 — 1987), mineiro e itabirano, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar
Dr. Carvalho Brito, de Itabira, formado em Farmácia pela Escola de Odontologia
e Farmácia de Belo Horizonte, não exerceu o ofício, foi poeta, contista,
cronista, funcionário público em várias repartições, redator e chefe de redação
em jornais e revistas; em 1921, publicou seus primeiros trabalhos no Diário de
Minas; foi professor de Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano em Itabira; viveu intensamente o seu
tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em
livros, jornais e revistas (Diário de Minas, A Revista [modernista], Revista do
Ensino, Minas Gerais, A Tribuna, Estado de Minas, Diário da Tarde, Revista
Acadêmica, revista Euclides [foi responsável pela seção ‘Conversa de
Livraria’], Tribuna Popular [diário comunista, foi co-diretor convidado por
Luís Carlos Prestes, e ali permanecendo por alguns meses], A Manhã [colaborou
no suplemento literário], Política e Letras, Jornal do Brasil; suas obras: Alguma
Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942);
Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas;
Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios
na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas
(1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de
Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo
(1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder
Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo
II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera,
e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984);
Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996)
e outros textos; teve obras traduzidas para o alemão, búlgaro, chinês,
dinamarquês, francês, holandês, inglês, italiano, espanhol, latim, norueguês,
sueco, tcheco, e em linguagem braille; traduziu para a língua portuguesa:
François Mauriac, Choderlos de Laclos, Honoré de Balzac, Marcel Proust, García Lorca, Maurice Maeterlinck, Molière, Th. Descourtilz
[estudioso e pesquisador ornitológico] Knut Hamsun [escritor norueguês];
colaborou em programas radiofônicos; recebeu premiações várias.