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sábado, 6 de setembro de 2025

Carlos Drummond de Andrade: A Ilusão do Migrante

 
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Quando vim da minha terra,
se é que vim da minha terra
(não estou morto por lá?),
a correnteza do rio
me sussurrou vagamente
que eu havia de quedar
lá donde me despedia.

Os morros, empalidecidos
no entrecerrar-se da tarde,
pareciam me dizer
que não se pode voltar,
porque tudo é consequência
de um certo nascer ali.

Quando vim, se é que vim
de algum para outro lugar,
o mundo girava, alheio
à minha baça pessoa,
e no seu giro entrevi
que não se vai nem se volta
de sítio algum a nenhum.

Que carregamos as coisas,
moldura da nossa vida,
rígida cerca de arame,
na mais anônima célula,
e um chão, um riso, uma voz
ressoma incessantemente
em nossas fundas paredes.

Novas coisas, sucedendo-se,
iludem a nossa fome
de primitivo alimento.
As descobertas são máscaras
do mais obscuro real,
essa ferida alastrada
na pele de nossas almas.

Quando vim da minha terra,
não vim, perdi-me no espaço,
na ilusão de ter saído.
Ai de mim, nunca saí.
Lá estou eu, enterrado
por baixo de falas mansas,
por baixo de negras sombras,
por baixo de lavras de ouro,
por baixo de gerações,
por baixo, eu sei, de mim mesmo,
este vivente enganado, enganoso.

[Farewell — 1996]


La Ilusión del Emigrante

(versión de Manuel Graña Etcheverry)

Cuando salí de mi tierra,
si es que vine de mi tierra
¿yo no estoy muerto, allá?
l correntada del río
me susurra vagamente
que yo habría de quedarme
allá, donde me despedí.

Los montes, palideciendo
en el caer de la tarde,
parecía que me decían
que no se puede volver,
porque todo es consecuencia
de haber por allá nacido.

Cuando vine, si es que vine
de algún lugar para algún otro,
el mundo giraba, ajeno
a esta mi baja persona,
y en su girar entreví
que no se va ni se vuelve
de algún sitio a ningún otro.

Que cargamos esas cosas,
moldura de nuestra vida,
rígido cerco de alambre,
en la célula más anónima,
y un suelo, una sonrisa, una voz
resuena incesantemente
en nuestras hondas paredes.

Cosas nuevas, sucediéndose,
ilusionan nuestra hambre
de primitivo alimento.
Los descubrimientos son máscaras
de lo más oscuro real,
esa herida desparramada
en la piel de nuestras almas.

Cuando vine de mi tierra,
no viene, me perdí en el espacio,
en la ilusión de haber salido.
ay de mí, nunca salí.
Allá estoy yo, enterrado,
debajo de mansos discursos,
debajo de negras sombras,
debajo de minas de oro,
debajo de generaciones,
debajo de mí mismo,
este engañado, engañoso.
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Caminhos Drummondianos: Itabira — MG, edição bilíngue, [poemas de] Carlos Drummond de Andrade, versões em espanhol por Manuel Graña Etcheverry e Marina Sviatopolk Mirski Pais, Texto introdutório de João Izael Querino Coelho, prefeito de Itabira — MG [gestões 2005-2008 e 2009-2012], Projeto gráfico: C4 Comunicação e Design, Realização: Prefeitura de Itabira, Patrocínio: Vale [do Rio Doce], sem data [2009 !]; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro e itabirano, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, de Itabira, formado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, não exerceu o ofício, foi poeta, contista, cronista, funcionário público em várias repartições, redator e chefe de redação em jornais e revistas; em 1921, publicou seus primeiros trabalhos no Diário de Minas; foi professor de Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano em Itabira; viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas (Diário de Minas, A Revista [modernista], Revista do Ensino, Minas Gerais, A Tribuna, Estado de Minas, Diário da Tarde, Revista Acadêmica, revista Euclides [foi responsável pela seção ‘Conversa de Livraria’], Tribuna Popular [diário comunista, foi co-diretor convidado por Luís Carlos Prestes, e ali permanecendo por alguns meses], A Manhã [colaborou no suplemento literário], Política e Letras, Jornal do Brasil; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos; teve obras traduzidas para o alemão, búlgaro, chinês, dinamarquês, francês, holandês, inglês, italiano, espanhol, latim, norueguês, sueco, tcheco, e em linguagem braille; traduziu para a língua portuguesa: François Mauriac, Choderlos de Laclos, Honoré de Balzac, Marcel Proust, García Lorca, Maurice Maeterlinck, Molière, Th. Descourtilz [estudioso e pesquisador ornitológico] Knut Hamsun [escritor norueguês]; colaborou em programas radiofônicos; recebeu premiações várias.

domingo, 8 de junho de 2025

Carlos Drummond de Andrade: Terrores

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Na Rua do Matadouro
e no Beco do Calvário
a nuvem de mau agouro
e o clarão extraordinário
vão gritando o fim do mundo
mal a vida começara
e o corpo, esse trem imundo
que em pecado se atolara,
não tem tempo de lavar-se
para o Dia do Juízo
nem de vestir-se o disfarce
que cause dó sob riso.
Nas lajes de ferro e medo
os pés correm desvairados
sentindo chegar tão cedo
a morte em seus véus queimados
Fuge, fuge, itabirano,
que embora o raio te pegue
na porta de Emereciano,
o Diabo não te carregue
antes que vejas teu pai
e lhe passes num olhar
o que da boca não sai
mas se conta sem falar.

            A procissão corta
o passo.
São vultos encapuzados
são fantasmas alinhados
pesadelos esticados
fantoches tochas fachos
almas uivando
todos os antepassados
sem missa
presos
da cadeia em ruinas
soltos em bando
o assassino do Carmo
e sua faca-relâmpago
enorme, sobre a igreja,
os anjinhos que vão sendo carregados
tão depressa que é um apostar corrida
de caixões brancos no escuro
da Rua do Matadouro
rumo ao Beco do Calvário
onde te espera o carrasco
e o capeta com seu casco
de fogo ao pé do carrasco.

(Boitempo — 1968)

C. Drummond de A.

Terrores

(versión de Manuel Graña Etcheverry)

En la calle del Matadero
y en el Callejón del Calvario
la nube de mal augurio
y el claror extraordinario
van gritando el fin del mundo
apenas la vida comenzara
y el cuerpo, ese carruaje inmundo
que en pecado se embarró,
no tiene tiempo de lavarse
para el Día del Juicio
ni de ponerse el disfraz
que cause dolor bajo la risa.
En las losas de hierro y miedo
los pies corren alocados
sintiendo llegar tan temprano
a la muerte en sus velos quemados,
Huye, huye, itabirano,
que aunque te alcance el rayo
en la puerta del Emerenciano
el Diablo no te cargue
antes de que veas a tu padre
y le pases una mirada
lo que de la boca no sale
pero se cuenta sin hablar.

La procesión acorta
el paso.
Son bultos encapuchados
son fantasmas alineados
pesadillas estiradas
fantoches antorchas teas
almas ululando
todos los antepasados
sin misa
presos
de la cárcel en ruinas
sueltos en bandada
el asesino del Carmen
y su faca-relámpago
enorme sobre la iglesia,
los angelitos que están siendo cargados
tan rápidamente que es un apostar en una carrera

de cajones blancos en la oscuridad
de la calle del Matadero
rumbo al callejón del Calvario
donde te espera el verdugo
el demonio con su casco
de fuego al pie del verdugo.
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Caminhos Drummondianos: Itabira — MG, edição bilíngue, [poemas de] Carlos Drummond de Andrade, versões em espanhol por Manuel Graña Etcheverry e Marina Sviatopolk Mirski Pais, Texto introdutório de João Izael Querino Coelho, prefeito de Itabira — MG [gestões 2005-2008 e 2009-2012], Projeto gráfico: C4 Comunicação e Design, Realização: Prefeitura de Itabira, Patrocínio: Vale [do Rio Doce], sem data [2009 !]; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro e itabirano, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, de Itabira, formado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, não exerceu o ofício, foi poeta, contista, cronista, funcionário público em várias repartições, redator e chefe de redação em jornais e revistas; em 1921, publicou seus primeiros trabalhos no Diário de Minas; foi professor de Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano em Itabira; viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas (Diário de Minas, A Revista [modernista], Revista do Ensino, Minas Gerais, A Tribuna, Estado de Minas, Diário da Tarde, Revista Acadêmica, revista Euclides [foi responsável pela seção ‘Conversa de Livraria’], Tribuna Popular [diário comunista, foi co-diretor convidado por Luís Carlos Prestes, e ali permanecendo por alguns meses], A Manhã [colaborou no suplemento literário], Política e Letras, Jornal do Brasil; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos; teve obras traduzidas para o alemão, búlgaro, chinês, dinamarquês, francês, holandês, inglês, italiano, espanhol, latim, norueguês, sueco, tcheco, e em linguagem braille; traduziu para a língua portuguesa: François Mauriac, Choderlos de Laclos, Honoré de Balzac, Marcel Proust, García Lorca, Maurice Maeterlinck, Molière, Th. Descourtilz [estudioso e pesquisador ornitológico], Knut Hamsun [escritor norueguês]; colaborou em programas radiofônicos; recebeu premiações várias.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Carlos Drummond de Andrade: O Maior Trem do Mundo

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O maior trem do mundo
leva minha terra
para a Alemanha
leva minha terra
para o Canadá
leva minha terra
para o Japão.

O maior trem do mundo
puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
engatadas geminadas desembestadas
leva meu tempo, minha infância, minha vida
triturada em 163 vagões de minério e destruição.

O maior trem do mundo
transporta a coisa mínima do mundo
meu coração itabirano.

Lá vai o trem maior do mundo
vai serpenteando vai sumindo
e um dia, eu sei, não voltará

pois nem terra nem coração existem mais.

[publicado em 1984 — Jornal “O Cometa Itabirano”]

Drummond

El Mayor Tren del Mundo

(versión de Manuel Graña Etcheverry)

El mayor tren del mundo
lleva a mi tierra
para Alemania
lleva mi tierra
para el Canadá
lleva mi tierra
para el Japón.

El mayor tren del mundo
arrastrado por cinco locomotoras a óleo diesel
enganchadas adosadas desenfrenadas
lleva mi tempo, mi infancia, mi vida
triturada en 163 vagones de mineral y destrucción.

El mayor tren del mundo
transporta la cosa mínima del mundo,
mi corazón itabirano.

Allá va el mayor tren del mundo
va serpenteando va desapareciendo
y un día, yo sé, no volverá

porque ni tierra ni corazón existen más.
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Caminhos Drummondianos: Itabira — MG, edição bilíngue, [poemas de] Carlos Drummond de Andrade, versões em espanhol por Manuel Graña Etcheverry e Marina Sviatopolk Mirski Pais, Texto introdutório de João Izael Querino Coelho, prefeito de Itabira — MG [gestões 2005-2008 e 2009-2012], Projeto gráfico: C4 Comunicação e Design, Realização: Prefeitura de Itabira, Patrocínio: Vale [do Rio Doce], sem data [2009 !]; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro e itabirano, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, de Itabira, formado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, não exerceu o ofício, foi poeta, contista, cronista, funcionário público em várias repartições, redator e chefe de redação em jornais e revistas; em 1921, publicou seus primeiros trabalhos no Diário de Minas; foi professor de Geografia e Português em Itabira; viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas (Diário de Minas, A Revista [modernista], Revista do Ensino, Minas Gerais, A Tribuna, Estado de Minas, Diário da Tarde, Revista Acadêmica, revista Euclides [foi responsável pela seção ‘Conversa de Livraria’], Tribuna Popular [diário comunista, foi co-diretor convidado por Luís Carlos Prestes, e ali permanecendo por alguns meses], A Manhã [colaborou no suplemento literário], Política e Letras, Jornal do Brasil; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos; teve obras traduzidas para o alemão, búlgaro, chinês, dinamarquês, francês, holandês, inglês, italiano, espanhol, latim, norueguês, sueco, tcheco, e em linguagem braille; traduziu para a língua portuguesa: François Mauriac, Choderlos de Laclos, Honoré de Balzac, Marcel Proust, García Lorca, Maurice Maeterlinck, Molière, Th. Descourtilz [estudioso e pesquisador ornitológico], Knut Hamsun [escritor norueguês]; colaborou em programas radiofônicos; recebeu premiações várias.