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Com
o suor ao rosto teu...
mais
o pranto das estrelas
colma
os campos com o céu!...
Jardineira
que lidaste
os
canteiros da ilusão:
Mas,
que rosas tu criaste?
Que
merecem uma oração...
Gleba
fria, inanimada,
como
a chuva e o sol Te querem?
Dar-te
beijos sol e chuva,
Quente
como os de mulher!...
O
teu trigo é puro e casto
como
o corpo da hóstia pura:
cor
da Lua, p’lo céu vasto...
Quando
as noutes são escuras!...
Quando
a terra no seu seio
guarda
a sombra e sorve o orvalho
Quando
tudo é só receio...
e
o nevoeiro, agasalho!...
Soa
ao longe a rude enxada
pela
terra que sussurra...
Bendiz
a mão que a esmurra,
dando-lhe
rudes pancadas!?
Cava
a vida! Cava a cova...
Entre
a enxada e o pensamento
há
parentesco divino:
Uma
cava e o outro cava,
Ambos
têm igual destino!...
Cava
o Pão e cava a morte:
cava
o sepulcro que encerra
os
sofrimentos da sorte...
Cavador
da minha cova
cavarás
bem funda e larga:
a
minha sombra e no cipreste
dando
sombra negra e amarga
Ao
plantar o corpo meu,
quero
que plantes também:
a
agonia de um cipreste,
que
é a imagem de quem quer bem!...
Cavador,
que cavas tanto
que
cavaste a vida inteira
tu
cavas a minha cova
Junto
ao pé de uma aroeira
O
que fazes não Te chega
p’ra
morreres esfomeado
morrer
de fome às cegas
como
um lobo pelo prado
Se
os recursos que possuis
Não
Te dão para viver
Mais
nos val’ mandar a enxada
p’ro
diabo e se perder:!...
Se
mal chega p’ra morares
na
miséria impiedosa
mais
nos val’ assim par’ceres,
como
a sorte mentirosa?
Somos
todos cavadores
uns
da Arte outros do Sonho:
Se
na vida as flor’s dão pranto
Se
o viver é um val’ medonho?!...
[1]946
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Cidade do ócio: entre sonetos e retalhos
— Ernani Rosas, Organizado por Zilma Gesser Nunes, 2008, Editora da UFSC, Florianópolis
— SC; Ernani Salomão Rosas Ribeiro de Almeida (1886 — 1955), catarinense de Desterro,
atual Florianópolis, foi poeta; desde os três anos de idade passou a residir na
cidade do Rio de Janeiro e, depois, com a morte do pai (Oscar Rosas, político e
também poeta, que basicamente lhe garantia as mesadas), mudou-se com a mãe e irmãs
para Nova Iguaçu, também no Rio, onde morreu em difíceis condições; levou uma vida
boêmia e sofreu discriminação pela sua gagueira e homossexualidade; foi um homem
reservado que tentou ficar o máximo possível no anonimato; colaborou com os periódicos
O Imparcial, Maçã, A Época e revista Orpheu (Portugal); obras: Certa Lenda numa
Tarde — Paráfrasis de Narciso (assina Rictus da Cruz, 1917), Poemas do Ópio (1918)
e Silêncios (sem data); após sua morte, houve o resgate de sua obra poética: em
Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Organização de Andrade Muricy (1952)
foram incluídos vinte e sete de seus poemas, e em Poesias — Organização de Iaponan
Soares e Dalila Carneiro da Cunha Luz Varella (1989) estão reunidos oitenta e oito
poemas, manuscritos e plaquetes* encontrados, já nos arquivos da Academia Catarinense
de Letras; depois vieram outros estudos: História do Gosto e Outros Poemas — Organização
de Ana Brancher (1997) e Cidade do Ócio: entre sonetos e retalhos — Organização
de Zilma Gesser Nunes (2008).
* Nota deste Verso e Conversa: plaquetes:
o atrevido aprendiz de blogueiro desta página expõe que, conforme o História do
Gosto e Outros Poemas (1997), as plaquetes, em torno de trinta e sete e organizadas
pelo poeta, são pequenos livros costurados à mão e com barbante, com capa de papel
“de embrulho”, onde foi escrito à mão o título da plaquete; por elas, tem-se que
Ernani Rosas também fez uso de alguns pseudônimos para assiná-las: N. Cáspio, A.
Luzo, N. Luzo e Rictus da Cruz; já neste Cidade do Ócio: entre sonetos e retalhos,
a autora relata os pseudônimos Narciso Cáspio, Antonio Luzo, Narciso Luzo e Alda
Trigueiros, além de Rictus da Cruz.