domingo, 28 de julho de 2013

Glauco Mattoso: 2.23 — Soneto Futurista



George Orwell diz que a imagem do futuro
é a bota sobre um rosto, eternamente,
e a nítida impressão que a gente sente
é que vivemos já num tempo escuro.

O Burgess, por sua vez, também foi duro
quando pegou seu jovem delinqüente
e o converteu num ser subserviente
que só lambia sola, robô puro.

O Glauco aqui, que vive do passado,
saudoso duma infância de opressão
(só fui pelos moleques abusado),

É o mesmo Glauco agora, e lambe o chão
pisado pelo mesmo tipo sado;
só que antes enxergava, e agora não.

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Centopéia: Sonetos Nojentos & Quejandos (Ciência do Acidente, 1999, São Paulo — SP); Glauco Mattoso é poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias; Pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva (paulistano de 1951), o nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); tem publicado uma extensa obra poética e outros textos: Jornal Dobrábil: 1977/1981 (compilados em um único volume, Iluminuras, 2001, São Paulo — SP), Revista Dedo Mingo (duas parcelas, completa o Jornal Dobrábil, 1982, São Paulo — SP), Memórias de um Pueteiro: As Melhores Gozações de Glauco Mattoso (poemas, Edições Trote, 1982, Rio de Janeiro — RJ), Línguas na Papa (poemas, Edições Pindaíba, 1982, São Paulo — SP), Panacéia — Sonetos Colaterais, (Nankin Editorial, São Paulo — SP, 2000), Paulisséia Ilhada: Sonetos Tópicos (Ciência do Acidente, 1999, São Paulo — SP), Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (Ciência do Acidente, 1999, São Paulo — SP), Melopéia: Sonetos Musicados (compact-disc, com diversos compositores e intérpretes, 2001, Rotten Records, São Paulo — SP), O que é: Poesia Marginal (ensaio, Editora Brasiliense, 1981, São Paulo — SP), O que é: Tortura (ensaio, Editora Brasiliense, 1984, São Paulo — SP), O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil (ensaio, EMW Editores, 1985, São Paulo — SP) etc etc etc; Pedro José Ferreira da Silva, hoje bancário aposentado, foi funcionário do Banco do Brasil.

Gregório de Matos: Carregado de mim ando no mundo, ...

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Segue neste soneto a máxima de bem viver que é envolver-se na confusão dos néscios para passar melhor a vida

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,*
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c'os demais que só, sisudo.


* ousadas: James Amado registra ornadas.
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Gregório de Matos — Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo — SP; Gregório de Matos Guerra (1636? 1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923), Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última — volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

Bocage: Proposição das Rimas do Poeta















Incultas produções da mocidade 
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores:

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração de seus favores;

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns cuja aparência
Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.
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Bocage — Sonetos Completos, Primeira Edição, Primeira Impressão, 1989, Editora Núcleo, São Paulo — SP; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 1805), nascido em Setúbal Portugal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; segue para Lisboa (1783), se alista na marinha de guerra, passa a participar da vida boêmia da cidade, e, após, parte para Goa, colônia portuguesa na Índia (1786), depois segue para Damão, outra colônia naquele país, daí seguindo para Macau, possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal (1790); Bocage escrevia desde a mais tenra idade, e, ao publicar sua primeira obra, Rimas (1791), foi convidado a participar da academia de belas artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo de Elmano Sadino (Elmano anagrama de Manoel, e Sadino homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, sua cidade natal); em 1797, acusado de heresia e de levar vida devassa, o poeta foi encarcerado e, após passar por diversas prisões, hospícios e conventos, foi libertado no último dia de 1798; publicou mais duas novas séries de poesias, às quais também deu o nome de Rimas (1799 e 1804); outros escritos: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina, ...

Bocage: Magro, de olhos azuis, carão moreno, ... *


Magro, de olhos azuis, carão moreno, *
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.


* Este soneto costuma ser considerado um auto-retrato de Bocage.

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Bocage Literatura Comentada (seleção de textos, notas, estudos biográfico e crítico Marisa Lajolo; estudo histórico Ricardo Maranhão), 1988, Editora Nova Cultural Ltda., São Paulo SP; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 1805), nascido em Setúbal Portugal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; segue para Lisboa (1783), se alista na marinha de guerra, passa a participar da vida boêmia da cidade, e, após, parte para Goa, colônia portuguesa na Índia (1786), depois segue para Damão, outra colônia naquele país, daí seguindo para Macau, possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal (1790); Bocage escrevia desde a mais tenra idade, e, ao publicar sua primeira obra, Rimas (1791), foi convidado a participar da academia de belas artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo de Elmano Sadino (Elmano  anagrama de Manoel, e Sadino  homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, sua cidade natal); em 1797, acusado de heresia e de levar vida devassa, o poeta foi encarcerado e, após passar por diversas prisões, hospícios e conventos, foi libertado no último dia de 1798; publicou mais duas novas séries de poesias, às quais também deu o nome de Rimas (1799 e 1804); outros escritos: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina, ...

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Gregório de Matos: Décima (a um livreiro que havia comido um canteiro de alfaces com vinagre)

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Levou um livreiro a dente
de alface todo um canteiro,
e comeu, sendo livreiro,
desencadernadamente.
Porém, eu digo que mente
a quem disso o quer taxar;
antes é para notar
que trabalhou como um mouro,
pois meter folhas no couro,
também é encadernar.
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Gregório de Matos — Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo — SP; Gregório de Matos Guerra (1636?  1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923), Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) Última (Última — volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

domingo, 14 de julho de 2013

Eugênio de Castro: Ao Cair da Noite


Numa das margens do saudoso rio,
Contemplo a outra que sorri defronte:
Lá, sob o sol que baixa no horizonte,
Verdes belezas, enlevado, espio.

Ali (digo eu), será menos sombrio
O viver que me põe rugas na fronte…
E erguendo-me, atravesso então a ponte,
Com meu bordão, cheio de fome e frio.

Chego. Desilusão! Da margem verde,
Eis que o encanto, de súbito, se perde:
Bem mais bela era a margem que eu deixei!

Quero voltar atrás. Noite fechada!
E a ponte, pelas águas destroçada,
Por mais que a procurasse, não a achei!
(Descendo a Encosta, Obras Poéticas,
 Volume X, Lumen, Lisboa Portugal)

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Presença da Literatura Portuguesa IV — Simbolismo, por Antonio Soares Amora, 1969, Difusão Européia do Livro, São Paulo SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 1944), português coimbrense, foi poeta e professor da Universidade de Coimbra, onde também formou-se em Letras; um dos fundadores da revista Os Insubmissos (1889), colaborador da revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do Simbolismo Francês, o poeta dirigiu a Arte (1895 a 1897), a mais importante revista literária portuguesa da época; obra poética: Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias, Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates (1907), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma Candeia Velha (1925) etc.