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sábado, 12 de março de 2016

Augusto Meira: Brenha *

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Na selva escura e densa do direito
É que vivem as feras mais sombrias,
Garras e esgares, o mortal despeito,
Almas de rastros, feias cobras, frias.

Ali crescem a treva e as bastardias,
Ali do engodo o lastimoso leito,
Onde a injustiça amolga as cobardias
Do banho vil que o ronda contrafeito.

Por entre as leis, há lobos e micróbios,
E escusos vermes, torvos aneuróbios,
Crebros perigos e ameaças tredas...

A selva do direito é mais soturna
Que essa de Cacus, temerosa furna,
Que o Inferno do Dante em labaredas.


* Nota do Organizador: Na obra Auréolas, de onde extraímos a poesia, consta ao final a data: “17/07/1937”.
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Lírica do Direito — Antologia de Versos Jurídicos — Conexão Migalhas — Organizador: Miguel Matos, Ano 2, n.2 (diversos poetas e tradutores), sem data, Millenium Editora Ltda., Campinas — SP; José Augusto Meira Dantas (1873  1964), potiguar de Ceará-Mirim, formado pela Faculdade de Direito de Recife, foi promotor público, advogado, delegado de polícia, político (senador e deputado federal), professor, escritor, jornalista e poeta; colaborou regularmente com os periódicos Folha do Norte, Estado do Pará, Província do Pará, Jornal do Brasil e Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro; escreveu e publicou Alciones (poesias, 1907), Falenas e nenúfares (poesias, 1907), Autonomia Acreana (1913), Rui Barbosa e Rio Branco (1918), Brasileis (poesia, 1927), Amazonas versus Pará (1932), Auréolas (poesias, 1937) e outros títulos, além de obras na área do Direito.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Gregório de Matos: Soneto (Senhor Doutor, muito bem-vindo seja)

Livro: Lirica do Direito Antologia de Versos Juridicos - Miguel ...
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Ao desembargador Belchior da Cunha Brochado,
 chegando do Rio de Janeiro à cidade da  Bahia,
 recorre o poeta, satirizando um julgador,
que o prendeu por acusar o furto de uma negra,
 a tempo que soltou o ladrão dela.

Senhor Doutor, muito bem-vinda seja
A esta mofina e mísera cidade,
Sua justiça agora, e eqüidade,
E letras com que a todos causa inveja.

Seja muito bem-vindo, porque veja
O maior disparate e iniqüidade,
Que se tem feito em uma e outra idade
Desde que há tribunais, e quem os reja.

Que me há de suceder nestas montanhas
Com um ministro em leis tão pouco visto,
Como previsto em trampas e maranhas?
*

É ministro de império, mero e misto, **
Tão Pilatos no corpo e nas entranhas,
Que solta a um Barrabás, e prende a um Cristo
.

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,Da vossa piedade me despido,Porque quanto mais tenho delinqüido,Vos tenho a perdoar mais empenhado.  Se basta a vos irar tanto um pecado,A abrandar-nos sobeja um só gemido,Que a mesma culpa, que vos há ofendido,Vos tem para o perdão lisonjeado.  Se uma ovelha perdida, e já cobradaGlória tal, e prazer tão repentinovos deu, como afirmais na Sacra História:  Eu sou, Senhor, a ovelha desgarradaCobrai-a, e não queirais, Pastor divino,Perder na vossa ovelha a vossa glória.
- Gregório de Matos (1636 - 1695)

Trampas e maranhas  anota o Professor José Miguel Wisnik que o desembargador desconhece as leis na mesma proporção em que conhece trampas e maranhas, i.é., enganos e intrigas.
** Império mero e misto  jurisdição que o soberano dá aos magistrados para julgar as controvérsias, e impor pena de morte, confisco de bens, etc.
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Lírica do Direito — Antologia de Versos Jurídicos — Conexão Migalhas — Organizador: Miguel Matos, Ano 2, n.2 (diversos poetas e tradutores), sem data, Millenium Editora Ltda., Campinas SP; Gregório de Matos Guerra (1636 ? 1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do séc. XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo  volume 1, 1923), Lírica (Lyrical volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa  volume 3, 1930), Satírica (Satirical volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última  volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

sábado, 23 de novembro de 2013

Augusta Dubsky Ponte: Trova (sobre o ofício de juiz e de médico)

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Ah!  exclama o velho juiz
de rosto severo e nobre:
"Como o médico é feliz!
Seus erros a terra cobre!"

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Lírica do Direito — Antologia de Versos Jurídicos — Conexão Migalhas — Organizador: Miguel Matos, Ano 2, n.2 (diversos poetas e tradutores), sem data, Millenium Editora Ltda., Campinas  SP;  Augusta Dubsky Ponte (1901 — 1977), paulista de Guaratinguetá, poetisa, publicou seus versos em jornais locais, alguns com o pseudônimo de "Cláudia Barata".

terça-feira, 2 de julho de 2013

Lacerda Coutinho: Juiz consciencioso

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 "Oficiais de justiça!
"façam calar esta gente!"
gritava, em certa audiência,
irritado, o presidente.

"Se continua o barulho,
"fica a sessão encerrada;
"é já a décima causa
"que julgo, sem ouvir nada".


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Lírica do Direito  Antologia de Versos Jurídicos  Conexão Migalhas Organizador: Miguel Matos, Ano 2, n.2 (diversos poetas e tradutores), sem data, Millenium Editora Ltda., Campinas — SP; José Cândido de Lacerda Coutinho (1845 ? 1900), nascido em Desterro, hoje Florianópolis SC, foi poeta, médico, professor e político; em seus escritos utilizou-se de diversos pseudônimos; Bedel Aposentado, Napoleão da Silva, Antonio Pio, Pio da Piedade, Crispim Crispiniano, Ferrão de Aguiar, J. Serrão; algumas de suas obras: Amimone (Poesia, XIX), Cenas da Vida de Estudante (Romance e Novela, 1863), Greenhalgh (Poesia, XIX), Lendas Escandinavas (Conto, 1917), Ovidianas (Poesia, 1910), Páginas Soltas (Poesia, 1913), Quem desdenha quer comprar (Teatro, XIX).

Trilussa: O Gato Advogado

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[traduzido por Paulo Duarte]

A coisa foi assim: a Tartaruga,
saindo em busca de um lugar seguro
para dormir tranquilamente, estuga
o passo, tropeça e cai ao pé do muro.
O pior de tudo é que, ao escorregar,
ficou de casca e pernas para o ar!

A uma Cadela que se achava ao lado
pediu ajuda, sob a condição
de regalá-la com um frango assado
que ela vira na casa do patrão.
Aceita a condição, de boa fé,
a Cadela ajudou-a a pôr-se em pé.

 E o frango? Reclamou depois.  Hein? Qual?
 O frango do contrato!  Que contrato?
 Ah! Não se lembra agora? É natural!
Mas eu vou me queixar ao velho Gato,
contarei tudo tim-tim por tim-tim,
e veremos se a coisa fica assim!

O Gato, que era um ótimo advogado,
inteira-se da estória e fala: 
 Penso
que se trata de um caso delicado;
não é questão apenas de bom senso
e, em certas coisas, como diz Horácio,
“Promissio boni viri est obligatio”.

Porém vejamos, antes que me exprima,
se, posta a Tartaruga ao mesmo jeito
antigo, isto é, de ventre para cima,
sustenta ou não o compromisso feito;
veremos se se trata de moral
só válida em decúbito dorsal.

Assim foi feito. E a Tartaruga, agora,
posta diante do fato mais concreto,
diz, com minúcias, onde, há meia hora,
se achava o frango. E o Gato circunspecto:
 Para confirmação do depoimento,
converto em diligência o julgamento…

Regressa o Gato ao fim do dia:  Os nossos
argumentos valeram, diz radiante.
 Bravo! aplaude a Cadela. E o frango? 
 Os ossos
já se acham ao dispor da querelante,
quanto à carne, conforme texto expresso,
esta ficou nas custas do processo.



Trilussa

Er Gatto Avvocato

La cosa annò così. La Tartaruga,
mentre cercava un posto più sicuro
pe' magnasse una foja de lattuga,
j'amancò un piede e cascò giù dar muro:
e, quer ch'é peggio, ne la scivolata
rimase co' la casa arivortata.

Allora chiese ajuto a la Cagnola;
dice: Se me rimetti in posizzione
t'arigalo, in compenso, una braciola
che ciò riposta a casa der padrone.
Accetti? Accetto. E, quella, in bona fede,
co' du' zampate l'arimise in piede.

Poi chiese: E la braciola? Dice: Quale?
Ah! dice mó te butti a Santa Nega!
T'ammascheri da tonta! È naturale!
Ma c'è bona giustizzia che te frega!
Mó chiamo er Gatto, j'aricconto tutto,
e te levo la sete cór preciutto! —

Er Gatto, che faceva l'avvocato,
intese er fatto e j'arispose: Penso
che è un tasto un pochettino delicato
perché c'è la questione der compenso:
e in certi casi, come dice Orazzio,
”promisso boni viri est obbligatio”.

Ma prima ch'io decida è necessario
che la bestia medesima sia messa
co' la casa vortata a l'incontrario
finché nun riconferma la promessa,
pe' stabbili s'è un metodo ch'addopra
solo quanno se trova sottosopra.

Così fu fatto. Er Micio disse: Spero 
che la braciola veramente esista...
La Tartaruga je rispose: È vero!
Sta accosto a la gratticola... L'ho vista.
Va bene, dice er Gatto nu' ne dubbito:
mó faccio un soprallogo e torno subbito.

E ritornò, defatti, verso sera.
Avemo vinto! dice a la criente.
Dice: Davvero? E la braciola? C'era...
ma m'è rimasto l'osso solamente
perché la carne l'ho finita adesso
pe' sostené le spese der processo.
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Lírica do Direito  Antologia de Versos Jurídicos  Conexão Migalhas Organizador: Miguel Matos, Ano 2, n.2 (diversos poetas e tradutores), sem data, Millenium Editora Ltda., Campinas SP; Carlo Alberto Salustri (1871 1950), Trilussa (anagrama do sobrenome), italiano de Roma, poeta de sátiras político social, e também fabulista, escreveu em dialeto romanesco; alguns de seus escritos: Stelle de Roma: versi romaneschi (Cerroni e Solaro, Roma, 1889); Quaranta sonetti romaneschi (Enrico Voghera, Roma, 1895); Favole romanesche (Enrico Voghera, Roma, 1901); Ommini e bestie (Enrico Voghera, Roma, 1914); Lupi e agnelli (Enrico Voghera, Roma, 1919); La Gente (A. Mondadori, Milano, 1927); Acqua e vino (A. Mondadori  Tip.Operaia Romana, Roma, 1945) e outros títulos.