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1.
Acordei com coceira no hímem. No bidê com espelhinho examinei o local. Não
surpreendi indícios de moléstia. Meus olhos leigos na certa não percebem que um
rouge a mais tem significado a mais. Passei pomada branca até que a pele
(rugosa e murcha) ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente meus
projetos de ir de bicicleta à ponta do Arpoador. O selim poderia reavivar a
irritação. Em vez decidi me dedicar à leitura.
2.
Ontem na recepção virei inadvertidamente a cabeça contra o beijo de
saudação de Antônia. Senti na nuca o bafo seco do susto. Não havia como
desfazer o engano. Sorrimos o resto da noite. Falo o tempo todo em mim. Não deixo
Antônia abrir sua boca de lagarta beijando para sempre o ar. Na saída nos
beijamos de acordo, dos dois lados. Aguardo crise aguda de remorsos.
3.
A crise parece controlada. Passo o dia a recordar o gesto involuntário.
Represento a cena ao espelho. Viro o rosto à minha própria imagem sequiosa. Depois
me volto, procuro nos olhos dela signos de decepção. Mas Antônia continuaria
inexorável. Saio depois de tantos ensaios. O movimento das rodas me desanuvia
os tendões duros. Os navios me iluminam. Pedalo de maneira insensata.
(Poética, 2016, Companhia das Letras, São Paulo — SP,
© Flavio Lenz Cesar.), [Cenas de abril — 1979]
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Antologia do Poema em Prosa no Brasil [várias autorias], Seleção e
Organização de Fernando Paixão, 2024, Editora Unicamp e Ateliê Editorial, São
Paulo — SP; Ana Cristina Cruz Cesar (1952 — 1983), ou Ana C., carioca, formada
em Letras pela PUCRJ — Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com
mestrado em comunicação pela UFRJ — Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi
escritora, tradutora, professora, crítica literária e poetisa; ainda criança, aos
sete anos de idade, teve poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa, depois,
antes de ingressar na Faculdade de Letras, como participante de um programa de intercâmbio
estudou na Richmond School for Girls, em Londres; na Inglaterra, também cursou Teoria
Prática da Tradução Literária na Universidade de Essex, seu segundo mestrado; foi
professora do ensino médio e em escolas de idiomas, escreveu para os periódicos
Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e foi analista de textos da TV Globo; obras
publicadas: poesias: Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979), Luvas
de pelica (1980), A Teus Pés (1982), Inéditos e Dispersos (1985), Novas Seletas
(póstumo, organizado por Armando Freitas Filho), Poética (obra completa, 2013),
crítica literária: Literatura não é documento (1980), Crítica e Tradução (1999);
foi colaboradora do Jornal Opinião, um semanário da chamada imprensa alternativa
que fazia oposição à ditadura militar iniciada em 1964; suicidou-se em 29 de outubro
de 1983, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no sétimo andar de um
edifício no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro; é considerada um dos principais
nomes da geração mimeógrafo — também conhecida como poesia marginal da década de
1970.















