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sexta-feira, 20 de março de 2026

Octavio Paz: Imprólogo

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[traduzido por Nelson Ascher]

Pediram-me um prólogo.
Curto, disseram-me, poucas palavras
mas que abram lonjuras.
Mais perspectivas que cenografia.
No fundo, entre as contumazes confusões
brenhas conceituais, paradoxos, espinhos ,
ao pé de um penedo tatuado
pela paciência das estações:
Vasko Popa,
                    caçador de reflexos errantes.
Sento-me e começo minha prosa
uma, duas, três, quatro, cem vezes.
Entre minha cabeça e a pena
entre a pena e esta página,
interpõe-se sempre a mesma cena:
um entardecer de pele translúcida
e sob o penedo que rasga o vento:
Vasko,
          O sol poente baila
sobre a mira de sua infalível escopeta.
Não há ninguém a vista
mas Vasko empunha a arma e dispara.
Cada disparo inventa um alvo,
ideias que, apenas tocadas,
voam como exclamações.
Anoto para meu prólogo:
a escopeta de Vasko não mata,
é doadora de imagens.
E enquanto escrevo estas palavras
um fumo acre cobre minha escritura.
Há uma dança de chispas entre as letras,
uma fuga de vogais em fogo,
um confuso rumor de consoantes
correndo sobre cinzas calcinadas:
arde o extremo norte da página!
Bato em retirada para o sul.
Porém ali, nas margens brancas,
chove, interminavelmente chove.
Céu hidrópico, trovões, socos.
Surdo rebate:
                     sobre o tambor terrestre,
rachado pelo raio, baila o aguaceiro.
Isto que escrevo já é um pântano.
De pronto, um sol violento rompe entre nuvens.
Súbito escampado:
                              uma planície hirsuta,
três penhascos imberbes, marismas,
círculo da malária:
lianas, fantasmas, febres, puas,
uma vegetação rancorosa e armada
em marcha para o assalto da página.
Morte pela água ou morte pelo fogo:
a prosa ou se queima ou se afoga.
Desisto.
             Não um prólogo,
mereces um poema épico,
um romance de aventuras seriado.
Digam o que quiserem os críticos
não te pareces com Kafka o dispéptico
nem com o anêmico Becket.
Vens do poema de Ariosto,
sais de um conto grotesco de Ramón.
És uma estória contada por uma avó,
uma inscrição sobre uma pedra tombada,
um desenho e um nome sobre uma parede.
És o lobo que guerreou mil anos
e leva agora a lua pela mão
pelo corredor sem fim do inverno
até a praça de maio:
                                 já floresceu a pereira
e à sua sombra os homens bebem em roda
um licor de sol destilado.
O vento detém-se para ouvi-los
e repete esse som  pelas colinas.
No entretanto fugiste com a lua.
És lobo e és menino e tens cem anos.
Teu riso celebra o mundo e diz Sim
a tudo que nasce, cresce e morre.
Teu riso reconforta os mortos.
És jardineiro e cortas a flor de névoa
que nasce na memória da velha
e a convertes no cravo de chamas
que a menina pôs no seio.
És minerador descestes até o fundo,
dizes e teu sorriso torna pensativa
a veemente primavera.
És mecânico eletricista
e tanto iluminas uma consciência
quanto aqueces os ossos do inverno.
És ceramista e és carpinteiro,
tuas vasilhas cantam e dão-nos de beber,
tuas escadas servem para subir e descer
no interior de nós mesmos,
tuas mesas, cadeiras, camas
para conversar, comer, descansar,
para viajar sem nos movermos,
para amar e morrer integramente.
No meio desta página me planto
e digo: Vasko Popa.
Responde-me um gêiser de sóis.

(Da edição mexicana das poesias de Vasko Popa [POPA, Vasko. Poesia
imprologo” de Octavio Paz. Traducción de Juan Octavio Prenz, México,
Fondo de Cultura Económica, 1985; POPA, Vasko, Collected Poems
(1943-1976)Translated by Ann Pennington, wich na introduction by
 Ted Huges, New York, Persia Books, 2nd printing, 1979.])

Octavio Paz

Imprólogo

Me han pedido un prólogo.
Corto, me dijeron, pocas palabras
pero que abran lejanías.
Una perspectiva más que una escenografía.
Al fondo, entre las contumaces confusiones
breñas conceptuales, paradojas, espinas ,
al pie de un farallón tatuado
por la paciencia de las estaciones:
Vasko Popa,
                    cazador de reflejos errantes.
Me siento y comienzo mi prosa
una, dos, tres, cuatro, cien veces.
Entre mi cabeza y la pluma,
entre la pluma y esta página,
se interpone siempre la misma escena:
un atardecer de piel translúcida
y bajo el farallón que rompe el viento:
Vasko,
          El sol poniente baila
sobre la mira de su infalible escopeta.
No hay nadie a la vista
pero Vasko empuña el arma y dispara.
Cada disparo inventa un blanco,
ideas que, apenas tocadas,
vuelan como exclamaciones.
Anoto para mi prólogo:
la escopeta de Vasko no mata,
es dadora de imágenes.
Y mientras escribo estas palabras
un humo acre cubre mi escritura.
Hay una danza de chispas entre las letras,
una fuga de vocales en fuego,
un confuso rumor de consonantes
corriendo sobre cenizas calcinadas,
¡arde el extremo norte de la página!
Me repliego hacia el sur.
Pero allá, en los márgenes blancos,
llueve, interminablemente llueve.
Cielo hidrópico, truenos y puñetazos.
Sordo redoble:
                       sobre el tambor terrestre,
rajado por el rayo, baila el chubasco.
Esto que escribo ya es un pantano.
De pronto, un sol violento rompe entre nubes.
Súbito escampado:
                              un llano hirsuto,
tres peñascos lampiños, marismas,
circo de la malaria:
lianas, fantasmas, fiebres, púas,
una vegetación rencorosa y armada
en marcha el asalto de la página.
Muerte por agua o muerte por llama:
la prosa o se quema o se ahoga.
Desisto.
             No un prólogo,
tú mereces un poema épico,
una novela de aventuras por entregas.
Digan lo que digan los críticos
no te pareces a Kafka el dispéptico
ni el anémico Becket.
Vienes del poema de Ariosto,
sales de un cuento grotesco de Ramón.
Eres una conseja contada por una abuela,
una inscripción sobre una piedra caída,
un dibujo y un nombre sobre una pared.
Eres el lobo que guerreó mil años
y ahora lleva a la luna de la mano
por el corredor sin fin del invierno
hasta la plaza de mayo:
                                      ya floreció el peral
y a su sombra los hombres beben en rueda
un licor de sol destilado.
El viento se detiene para oírlos
y repite esse son por las colinas.
Mientras tanto te has fugado con la luna.
Eres lobo y eres niño y tienes cien años.
Tu risa celebra al mundo y dice Sí
a todo lo que nace, crece y muere.
Tu riso reconforta a los muertos.
Eres jardinero y cortas la flor de niebla
que nace en la memoria de la vieja
y la conviertes en el clavel de llamas
que se ha puesto en el seno la muchacha.
Eres minero has bajado allá abajo,
dices y tu sorrisa pone pensativa
a la vehemente primavera.
Eres mecánico electricista
y lo mismo iluminas una conciencia
que calientas los huesos del invierno.
Eres alfarero y eres capintero,
tus vasijas cantan y nos dan de beber,
tus escaleras sirven para subir y bajar
en el interior de nosotros mismos,
tus mesas, sillas, camas
para conversar, comer, descansar,
para viajar sin movermos,
para amar y morir con entereza.
En mitad de esta página me planto
y digo: Vasko Popa.
Me responde un géiser de soles.

(México, 17 de março de 1985)
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Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Octavio Paz Lozano (1914 1998), mexicano da Cidade do México, foi escritor, poeta, diplomata, ensaísta e tradutor; teve seus primeiros poemas publicados em 1931, na revista Barandal, dirigiu as revistas Taller (1939) e Hijo pródigo (1943); suas obras: em poesia, Luna silvestre (1933), ¡No pasarán! (1936), Bajo tu clara sombra y otros poemas sobre España (1937), Raíz del hombre (1937), Entre la piedra y la flor (1941), Semillas para un himno (1954), Piedra de sol (1957), Viento entero (1965), Ladera Este (1968), Topoemas (1971), El Mono gramático (prosa poética, 1974), Poemas, 1935-1975 (1979) ..., ensaios: El labirinto de la soledad: Vida y pensamento de Mexico (1950), ¿Águila o sol? (libro de prosa de influencia surrealista, 1951), El arco y la lira (1956), Cuadrivio (1965), El signo y el garabato (1973), El ogro filantrópico: historia y política, 1971-1978 (1979), Primeras Letras, 1931-1943 (antología de sus prosas de juventud, 1988) ...; traduziu Sendas de Oku (de Matsuo Bashô, em colaboração com Eikichi Hayashiya, 1957), Antología (de Fernando Pessoa, 1962) e Versiones y diversiones (coleção de traduções de várias autorias para o espanhol, 1974), teve obras traduzidas para os idiomas inglês e francês; recebeu premiações por suas obras, entre as quais Prêmio Jerusalém (1977), Prêmio Miguel de Cervantes (1981), Prêmio Internacional Nedustadt de Literatura (1982), Prêmio Nobel de Literatura (1990) ... e outras honrarias.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Vasko Popa: Khílandar

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Negra mãe Trímana

Estende-me uma palma na mão
Para que me banhe no oceano mágico
Estende-me outra palma da mão
Para que me farte da doçura das pedras

E estende-me a terceira palma
Para que pernoite no ninho dos versos

Egresso do caminho
Poeirento e faminto
E ávido de outro mundo

Estende-me três pequenas ternuras
Antes que mil névoas caiam sobre os meus olhos
E minha cabeça role

Antes que te cortem as três mãos

Negra mãe Trímana

(A Terra Ereta — 1972)

Vasko Popa

ХИЛАНДАР

Црна мајко Тројеручице

Пружи ми један длан
Да се у чаробном мору окупам
Пружи ми други длан
Да се слатког наједем камења

И трећи длан ми пружи
Да у гнезду стихова преноћим

Приспео сам с пута
Прашњав и гладан
И жељан другачијег света

Пружи ми три мале нежности
Док ми не падне хиљаду магли на очи
И главу не изгубим

И док теби све три руке не одсеку
Црна мајко Тројеручице

([Усправна земља], Uspravna Zemlja — 1972)
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Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca ([збирке Кора], Kora, 1953), O Campo do Desassossego (Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta ([Усправна земљаUspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Vasko Popa: Porco

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Só quando ouviu
A faca furiosa na garganta
A cortina vermelha
Explicou-lhe o jogo
E ele lamentou
Ter-se desprendido
Dos braços do lamaçal
E à noite do campo
Tão alegre ter corrido
Corrido para o portão amarelo

(Casca — 1953)

Vasko Popa

СВИЊА

Тек када је чула
Бесни нож у грлу
Црвена завеса
Објаснила јој игру
И било јој је жао
Што се истргла
Из наручја каљуге
И што је вечером с поља
Тако радосно јурила
Јурила капији жутој

([збирке Кора], Kora, 1953)
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Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca ([збирке Кора], Kora, 1953), O Campo do Desassossego ([Непочин поље], Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta ([Усправна земља], Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Haroldo de Campos: brinde (mallarmeano) a vasko popa

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović,
com a colaboração de Vasko Popa]

um monumento ao ar
                                       brasília
para o olhar flamante de vasko
popa
        meu amigo à proa
de vidro do sonho que voa.

entre o mármore passivo e o oxigênio
móvel
         preferir este último
que enraíza nas veias o mais íntimo
reduto do homem: o seu pulso.

no livro ler além do livro
ler na arquitetura o espaço livre
leciona esse olhar.

poetariado: à senha da poesia
circula um verso subversivo
e em teu nome vasko eu saúdo
os carbonários desse verso vivo.

São Paulo, 16 de abril de 1987.

Haroldo de Campos

zdravica (malarmeovska) vasku popi

spomenik vazduhu
                                        brazilskom
za sjajno oko vaska
pope
                  mog prijatelja na staklenom
pramcu sna koji leti.

izmedju neotpornog mermera i pokretnog
kiseonika
                 više voleti ovaj poslednji
koji ukorenjuge u venama najprisnijem
čovekovom strovištu: njegov damar.

u knjizi čitati spoljašnost-knjigu
čitati i neimarstvu slobodan prostor
pogled ovaj naš uči.

poetarijat: pod znamenjem pesništva
kruži prevratnički jedan korak
i u tvoje ime vasko ja pozdravljam
karbonare živog ovog stiha.

(publicada no jornal diário iugoslavo Politika,
em 1987, juntamente com reportagem
sobre a visita de Vasko Popa ao Brasil.)
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Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Haroldo Eurico Browne de Campos (1929 2003), paulista e paulistano, fez seus estudos secundários no Colégio São Bento, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco) e com doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (USP), foi professor universitário, ensaísta, crítico literário, poeta e tradutor; ainda no Colégio São Bento, aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros (latim, inglês, espanhol e francês); em 1952 foi coinventor da revista literária Noigandres em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e passou a ser reconhecido como um dos criadores do Concretismo e um dos representantes e difundidores do movimento internacional da Poesia Concreta; em 1972, no doutorado pela FFLCH USP e sob a orientação de Antonio Candido, apresentou a tese Para uma teoria da prosa modernista brasileira: morfologia do Macunaíma, transformada em livro no ano seguinte; como professor universitário, lecionou na PUC SP e na Universidade do Texas, em Austin USA; suas obras: Auto do Possesso (1950), O Âmago do Ômega (1956), Fome de Forma (1959), Re-Visão de Sousândrade (crítica literária, em conjunto com Augusto de Campos, 1962), Morfologia do Macunaíma (crítica literária, 1973), Xadrez de Estrelas: Percurso Textual, 19491974 (antologia, 1976), Signantia: Quase Coelum Signância: quase céu (1979), A educação dos cinco sentidos (1985), Galáxias (1986), Metalinguagem & outras metas (crítica literária, 1992), Crisantempo no espaço curvo nasce um (1998), O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Matos (crítica literária, 2000), etc. etc.; Haroldo de Campos também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu autores (Ezra Pound, Mallarmé, Homero, Dante, Poesia Russa Moderna, Eclesiastes [livro bíblico], Octavio Paz, Kaváfis, Maiakóvski), em voo solo ou em co-autoria com estudiosos da literatura, inclusos Augusto de Campos, Décio Pignatari e Boris Schnaiderman; o poeta e ensaísta teve obras premiadas, 5 Prêmios Jabuti inclusos.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Vasko Popa: São Sava

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Em torno de sua cabeça voam abelhas
E constroem uma auréola viva

Em sua barba ruiva
Forrada de flores de tília
Trovões e relâmpagos brincam de cabra-cega

Em seu pescoço pendem correntes
E balançam no sonho de ferro

Em seu ombro um galo reluz
Nas mãos um cajado sábio canta
A canção dos caminhos cruzados

À sua esquerda corre o tempo
À sua direita corre o tempo

Ele caminha pela estiagem
Seguindo os seus lábios

Vasko Popa

СВЕТИ САВА

Око његове главе лете пчеле
И граде му живи златокруг

У риђој му бради
Засутој липовим цветом
Громови с муњама играју жмурке

О врату му вериге висе
И трзају се у гвозденом сну

На рамену петао му пламти
У руци штап премудри пева
Песму укрштених путева

Лево од њега тече време
Десно од њега тече време

Он корача по сувом
У пратњи својих вукова
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Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca (Kora, 1953), O Campo do Desassossego (Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta (Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Vasko Popa: Musgo

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Sonho amarelo da ausência
Do alto das telhas ingênuas
Aguarda

Aguarda para descer
Sobre as pálpebras fechadas da terra
Sobre as faces apagadas das casas
Sobre as mãos apaziguadas das árvores

Aguarda imperceptível
Para a mobília enviuvada
Abaixo no quarto
Revestir cuidadoso
De uma capa amarela

(Casca — 1953)

Vasko Popa

МАХОВИНА

Жути сан одсутности
Са наивних црепова
Чека

Чека да се спусти
На склопљене очне капке земље
На угашена лица кућа
На смирене руке дрвећа

Чека неприметно
Да на обудовљени намештај под собом
Пажљиво навуче
Навлаку жуту

([збирке Кора], Kora, 1953)
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Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca ([збирке Кора], Kora, 1953), O Campo do Desassossego ([Непочин поље], Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta ([Усправна земља], Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 9 de agosto de 2025

Vasko Popa: No final

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Osso eu osso tu
Por que me engoliste
Não me vejo mais

O que tens
Tu é que me engoliste
Não me vejo a mim também

Onde estou agora

Agora não se sabe
Quem está onde quem é quem
Tudo é sonho horrível da poeira

Será que me ouves

Ouço a ti e a mim
O canto do galo canta em nós

(O Campo do Desassossego — 1956)

Vasko Popa

Нa kpajy

Kост ја кост ти
3ашто си ме прогутала
Не видим се више

Шта је теби
Прогутала си ти мене
Не видим ни ја себе

Где сам ја сад

Сад се више не зна
Ни ко је где ни ко је ко
Све је ружан сан прашине

Чујеш ли ме

Чујем и тебе и себе
Кукуриче из нас кукурек

(1956)
(Непочин поље — 1956)
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Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca ([збирке Кора], Kora, 1953), O Campo do Desassossego ([Непочин поље] Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta ([Усправна земља], Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.