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terça-feira, 5 de março de 2024

Júlia Cortines: A Giacomo Leopardi

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Leio-te: e a triste e máscula poesia
Que dos teus lábios flui, dolente e forte,
Enche a minha alma de melancolia.

Como tu, nada vejo além da morte
No tormentoso pélago da vida
Que a uma plaga serena nos transporte.

Volvo, contigo, a vista entristecida
Ao silencioso pó da morta idade,
Que o mundo enchia de rumor e lida.

Punge-me a dor, lacera-me a saudade,
Quando cantas a doce e breve hora
Das ilusões da curta mocidade.

Sofres? Também minha alma sofre e chora:
Prélios inúteis, ilusões desfeitas,
Toda a miséria do viver deplora.

Quanta amargura nesse olhar que deitas
Às glórias vãs ao amor, que agita e passa,
E às almas, todas ao sofrer sujeitas!

Bebo também do tédio a amara taça,
E sinto, quando a tua angústia leio,
Que esse teu coração, que a dor enlaça,

É o coração que pulsa-me no seio.

[revista A Mensageira, de 15 de Abril de 1898,
Ano I, nº 13, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; da vida da poetisa e cronista Maria Júlia Cortines Laxe (1863 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco se sabe: de sua avó recebeu “instrução elementar”, prosseguiu seus estudos em Niterói e, autodidata, adquiriu formação literária e pedagógica; portas foram abertas para que ela atuasse no magistério, é o que se supõe; colaborou com as revistas A Semana e A Mensageira, redigiu para o jornal O País, no qual manteve a coluna “Através da Vida”; no início do século XX, no meio literário brasileiro, foi considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); escreveu seus primeiros versos aos 13 anos, e aos 21 já colaborava em periódicos da Corte Imperial; deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905), ambos de poesia; ”praticamente esquecida em nossos dias”, em 2010 a Academia Brasileira de Letras publicou o volume Versos & Vibrações de Júlia Cortines e mais três poemas inéditos, “Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32”, com apresentação/estudo, Descortinando Júlia, de Gilberto Araújo e o texto A poesia esquecida de Júlia Cortines, de Fausto Cunha; no Rio de Janeiro existe uma rua com seu nome, além de também ter o nome emprestado a escolas e logradouros de outras cidades (Rua Júlia Cortines, em São Paulo, Escola Municipal Julia Cortines, em Niterói...).

terça-feira, 29 de março de 2022

Giacomo Leopardi: O Infinito

 
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[traduzido por Henriqueta Lisboa]

Sempre caro me foi este ermo outeiro
e esta sebe, que ao último horizonte
circundando me impede ao longe a vista.
Sentado e contemplando mais além
os espaços, silêncios sobre-humanos
percebendo e uma calma profundíssima,
em pensamento me transfundo. Quase
meu coração se espanta. E ao ouvir o vento
que sussurra entre as árvores, comparo
ao silêncio infinito sua voz.
Sobreleva-me então o eterno: evoco
as mortas estações e da presente
sinto a vida através de seus rumores.
Na imensidão mergulho o pensamento
e nestes mares naufragar me é doce.

([1819] publicado em Canti 1831)

Giacomo Leopardi

L’Infinito

Sempre caro mi fu quest'ermo colle,
e questa siepe, che da tanta parte
dell'ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
spazi di là da quella, e sovrumani
silenzi, e profondissima quïete
io nel pensier mi fingo, ove per poco
il cor non si spaura. E come il vento
odo stormir tra queste piante, io quello
infinito silenzio a questa voce
vo comparando: e mi sovvien l'eterno,
e le morte stagioni, e la presente
e viva, e il suon di lei. Così tra questa
immensità s'annega il pensier mio:
e il naufragar m'è dolce in questo mare.

([1819] Canti 1831)
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Antologia de Poemas para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Giacomo Leopardi (1798 1837), italiano de Recanati, incentivado pelo pai e com uma vasta biblioteca à sua disposição, desde os seis anos de idade estudou com preceptores, aprendeu latim, grego, hebraico, francês e outras línguas modernas, cultivou interesses filológicos, traduziu e comentou os clássicos que lia (Homero, entre outros), foi ensaísta, filólogo e poeta; obras: Storia dell’astronomia (1813), Saggio sopra gli errori popolari degli antichi (1815), Canti (coleção de poemas, 1ª edição em 1831) e outras obras em prosa, estudos e pensamentos.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Giacomo Leopardi: A si mesmo

 
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[traduzido por Alexei Bueno]

Enfim repousas sempre
Meu lasso coração. Findo é o engano
Que perpétuo julguei. Findou. Bem sinto
Quem em nós dos caros erros
Mais que a esperança, o próprio anelo é extinto.
Repousa sempre. Muito
Palpitaste. Nenhuma coisa vale
Teus impulsos, nem digna é de suspiros
A terra. Nojo e tédio
É a vida, nada mais, e lama é o mundo.
Repousa. E desespera
A última vez. À nossa espécie o fado
Não deu mais que o morrer. Enfim despreza
A natureza, o rudo
Poder que, oculto, o comum dano gera
E a vacuidade sem final de tudo.

Giacomo Leopardi

A se stesso

Or poserai per sempre,
Stanco mio cor. Perì l’inganno estremo,
Ch’eterno io mi credei. Perì. Ben sento,
In noi di cari inganni,
Non che la speme, il desiderio è spento.
Posa per sempre. Assai
Palpitasti. Non val cosa nessuna
I moti tuoi, nè di sospiri è degna
La terra. Amaro e noia
La vita, altro mai nulla; e fango è il mondo.
T’acqueta omai. Dispera
L’ultima volta. Al gener nostro il fato
Non donò che il morire. Omai disprezza
Te, la natura, il brutto
Poter che, ascoso, a comun danno impera,
E l’infinita vanità del tutto.
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Cinco séculos de poesia (diversos autores) — poemas traduzidos, Tradução e Prefácio de Alexei Bueno, edição bilíngue, 2013, Editora Record, São Paulo — SP; Giacomo Leopardi (1798 1837), italiano de Recanati, incentivado pelo pai e com uma vasta biblioteca à sua disposição, desde os seis anos de idade estudou com preceptores, aprendeu latim, grego, hebraico, francês e outras línguas modernas, cultivou interesses filológicos, traduziu e comentou os clássicos que lia (Homero, entre outros), foi ensaísta, filólogo e poeta; obras: Storia dell’astronomia (1813), Saggio sopra gli errori popolari degli antichi (1815), Canti (coleção de poemas, 1ª edição em 1831) e outras obras em prosa, estudos e pensamentos.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Giacomo Leopardi: Eu que vagando em torno da portada . . .

 
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[traduzido por Alexei Bueno]

Fragmento XXXVIII

Eu que vagando em torno da portada
Em vão a chuva invoco e a tempestade
Para retê-la dentro da morada.

Mas no bosque ia o vento sem piedade
E entre as nuvens mugia o troar errante
Sem que no céu raiasse a claridade.

Ó céu, terra, verdor, nuvem vagante,
Minha amada se vai: piedade, cruenta
Terra em que raro a encontra um triste amante.

Ergue-te, turbilhão, agora, e intenta
Submergir-me, negror, agora, enquanto
A outras terras o sol não se apresenta.

Raia o céu, finda o sopro, em cada canto
Repousam a erva e a fronde, e me deslumbra
Com suas luzes o Sol cheias de pranto.

Giacomo Leopardi

Frammento XXXVIII

[Io qui vagando]

Io qui vagando al limitare intorno,
Invan la pioggia invoco e la tempesta,
Acciò che la ritenga al mio soggiorno.

Pure il vento muggia nella foresta,
E muggia tra le nubi il tuono errante,
Pria che l’aurora in ciel fosse ridesta.

O care nubi, o cielo, o terra, o piante,
Parte la donna mia: pietà, se trova
Pietà nel mondo un infelice amante.

O turbine, or ti sveglia, or fate prova
Di sommergermi, o nembi, insino a tanto
Che il sole ad altre terre il dì rinnova.

S’apre il ciel, cade il soffio, in ogni canto
Posan l’erbe e le frondi, e m’abbarbaglia
Le luci il crudo Sol pregne di pianto.

Canti — 1831
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Cinco séculos de poesia (diversos autores) — poemas traduzidos, Tradução e Prefácio de Alexei Bueno, edição bilíngue, 2013, Editora Record, São Paulo — SP; Giacomo Leopardi (1798 1837), italiano de Recanati, incentivado pelo pai e com uma vasta biblioteca à sua disposição, desde os seis anos de idade estudou com preceptores, aprendeu latim, grego, hebraico, francês e outras línguas modernas, cultivou interesses filológicos, traduziu e comentou os clássicos que lia (Homero, entre outros), foi ensaísta, filólogo e poeta; obras: Storia dell’astronomia (1813), Saggio sopra gli errori popolari degli antichi (1815), Canti (coleção de poemas, 1ª edição em 1831) e outras obras em prosa, estudos e pensamentos.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Giacomo Leopardi: O Infinito

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

Sempre cara me foi esta colina erma
e esta sebe que de extensa parte
dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar  intermináveis
espaços para além, e sobre-humanos
silêncios e quietudes profundíssimas,
na mente vou sonhando  de tal forma
que quase o coração me aflige. E, ouvindo
o vento sussurrar por entre as plantas,
o silêncio infinito à sua voz
comparo: é quando me visita o eterno,
e as estações já mortas e a presente
e viva com seus cantos. Assim, nessa
imensidão se afoga o pensamento
e doce é naufragar-me nesses mares.

Giacomo Leopardi

L’Infinito

Sempre caro mi fu quest’ermo colle
e queste siepe, che da tanta parte
dell’ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
spazi de là da quella, e sovrumani
silenzi, e profondissime quiete
io nel pensier mi fingo; ove per poco
il cor non si spaura. E come il vento
odo stormir tra queste piante, io quello
infinito silenzio a questa voce
vo comparando: e mi sovvien l’eterno
e le morte stagioni, e la presente
e viva, e il suon di lei. Così tra questa
immensità s’annega il pensier mio;
e il naufragar m’è dolce in questo mare.

([1819] Canti — 1831)
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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, edição bilíngue, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Giacomo Leopardi (1798 1837), italiano de Recanati, incentivado pelo pai e com uma vasta biblioteca à sua disposição, desde os seis anos de idade estudou com preceptores, aprendeu latim, grego, hebraico, francês e outras línguas modernas, cultivou interesses filológicos, traduziu e comentou os clássicos que lia (Homero, entre outros), foi poeta, ensaísta e filólogo; obras: Storia dell’astronomia (1813), Saggio sopra gli errori popolari degli antichi (1815), Canti (coleção de poemas, 1ª edição em 1831) e outras obras em prosa, estudos e pensamentos.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Giacomo Leopardi: A calma depois da tempestade

 
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[traduzido por Alexei Bueno]

Passou a tempestade:
Ouço a aérea alacridade, e a galinha
Que volta e recomeça
Seu ciscar costumeiro. Eis que o céu limpo
Ressurge do poente, na montanha;
Alegra-se a campanha
E claro o riacho surge lá no vale.
Todo peito se alegra, a todo lado
Retornam os rumores
E o labor costumado.
O artesão, fito o olhar no úmido espaço,
Canta, empunhando a obra,
Na porta. Alegremente
Sai a aldeã a recolher a água
Da tormenta recente.
A voz sempre presente
Do homem das ervas erra
Pelas trilhas de terra.
Eis o Sol de retorno, que irradia
Nos montes e casais. Cada família
Nos balcões e terraços logo assoma:
E, da estrada molhada, se ouve ao longe
Chocalhos a tinir; o carro chia
Do viajante que o rumo enfim retoma.

Em toda alma um ardor
Doce, se espalha enfim,
Quando é, a vida, assim?
Quando com tanto amor
No estudo o homem se alenta?
Ou à obra torna? ou coisa nova intenta?
Quando dos males seus se lembra menos?
Prazer, filho da ânsia;
Vão deleite, que é fruto
Do passado temor, onde tremeu
Quem, não amando a vida,
Teve medo da morte,
Onde, em longo tormento,
Muda, fria, transida,
Toda gente arfa e sua, apenas vendo
Cobrir-nos de uma vez
Raios, granizo e vento.

Natureza cortês,
Eis teu dom portentoso,
São esses os deleites
Que ofertas aos mortais. Fugir de penas
Entre nós é um gozo.
Penas espalhas de mão cheia, a dor
Surge espontânea, e se um prazer, acaso,
Por monstruoso milagre algumas vezes
Nasce da angústia, grande é o ganho. Impura
Raça aos Céus cara! Já és feliz bastante
Respirando um instante
De alguma dor; bendita
Se a ti de toda dor a morte cura.


La quiete dopo la tempesta

XXIV

Passata è la tempesta:
Odo augelli far festa, e la gallina,
Tornata in su la via,
Che ripete il suo verso. Ecco il sereno
Rompe là da ponente, alla montagna;
Sgombrasi la campagna,
E chiaro nella valle il fiume appare.
Ogni cor si rallegra, in ogni lato
Risorge il romorio
Torna il lavoro usato.
L’artigiano a mirar l’umido cielo,
Con l’opra in man, cantando,
Fassi in su l’uscio; a prova
Vien fuor la femminetta a còr dell’acqua
Della novella piova;
E l’erbaiuol rinnova
Di sentiero in sentiero
Il grido giornaliero.
Ecco il Sol che ritorna, ecco sorride
Per li poggi e le ville. Apre i balconi,
Apre terrazzi e logge la famiglia:
E, dalla via corrente, odi lontano
Tintinnio di sonagli; il carro stride
Del passeggier che il suo cammin ripiglia.

Si rallegra ogni core.
Sì dolce, sì gradita
Quand’è, com’or, la vita?
Quando con tanto amore
L’uomo a’ suoi studi intende?
O torna all’opre? o cosa nova imprende?
Quando de’ mali suoi men si ricorda?
Piacer figlio d’affanno;
Gioia vana, ch’è frutto
Del passato timore, onde si scosse
E paventò la morte
Chi la vita abborria;
Onde in lungo tormento,
Fredde, tacite, smorte,
Sudàr le genti e palpitàr, vedendo
Mossi alle nostre offese
Folgori, nembi e vento.

O natura cortese,
Son questi i doni tuoi,
Questi i diletti sono
Che tu porgi ai mortali. Uscir di pena
È diletto fra noi.
Pene tu spargi a larga mano; il duolo
Spontaneo sorge e di piacer, quel tanto
Che per mostro e miracolo talvolta
Nasce d’affanno, è gran guadagno. Umana
Prole cara agli eterni! assai felice
Se respirar ti lice
D’alcun dolor: beata
Se te d’ogni dolor morte risana.

Canti — 1831
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Cinco séculos de poesia (diversos autores) — poemas traduzidos, Tradução e Prefácio de Alexei Bueno, edição bilíngue, 2013, Editora Record, São Paulo — SP; Giacomo Leopardi (1798 1837), italiano de Recanati, incentivado pelo pai e com uma vasta biblioteca à sua disposição, desde os seis anos de idade estudou com preceptores, aprendeu latim, grego, hebraico, francês e outras línguas modernas, cultivou interesses filológicos, traduziu e comentou os clássicos que lia (Homero, entre outros), foi ensaísta, filólogo e poeta; obras: Storia dell’astronomia (1813), Saggio sopra gli errori popolari degli antichi (1815), Canti (coleção de poemas, 1ª edição em 1831) e outras obras em prosa, estudos e pensamentos.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Leopardi: A noite do dia de festa

 
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[traduzido por Décio Pignatari]

Noite sem vento, doce, clara. A lua
Flutua sobre tetos e pomares,
Serena, revelando, ao longe, os montes.
As ruas e os caminhos silenciam,
Minha amada. Pelos balcões, são raros
Os lampiões, um sono suave invade
Os aposentos, você dorme, nada
Perturba o seu repouso, muito menos
A chaga que me abriu dentro do peito!
Mas você dorme, e ao céu de aspecto ameno
E à antiga natureza onipotente
Que me vota à aflição dirijo os olhos.
“Para você nem mesmo uma esperança;
Para os seus olhos, só um brilho: lágrimas”,
Ela me disse. Mas que dia magnífico!
Dormem danças e jogos, mas, em sonho
Talvez para você desfilem todos
De quem gostou ou aos quais agradou
(Menos eu, que nesse rol não compareço).
Mas se calculo os dias que me restam,
Vejo-me aos gritos, a rolar na terra:
Que vida horrível numa vida jovem!
Vai pela rua o canto solitário
De quem já trabalhou, passou na tasca,
E volta tarde para a casa pobre.
Vai-me apertando, amargo, o coração,
Se penso sem como tudo passa e passa,
Quase sem deixar rastro. Já se foi
O dia de festa, e agora chega o dia
Normal, e tudo se escoa no tempo,
Todos os atos humanos. E o estrondo
Dos antigos, as vozes dos heróis
De ontem, onde estão? e o grande império,
E as armas e o fragor que faz tremer
Os caminhos da terra e do oceano?
Tudo é paz e silêncio. O mundo
Tudo aquieta. Já não se pensa em nada.
Quando criança, vinha a espera ansiosa
Do dia de festa, que findava logo.
Sofrendo, comprimia o travesseiro,
Ao ouvir pela noite aquele canto
Que ia morrendo, aos poucos, lentamente,
Morrendo e me apertando o coração.

([1820] publicado em Canti  1831)

Giacomo Leopardi

XIII

La sera del dì di festa

Dolce e chiara è la notte e senza vento,
E queta sovra i tetti e in mezzo agli orti
Posa la luna, e di lontan rivela
Serena ogni montagna. O donna mia,
Già tace ogni sentiero, e pei balconi
Rara traluce la notturna lampa:
Tu dormi, che t’accolse agevol sonno
Nelle tue chete stanze; e non ti morde
Cura nessuna; e già non sai nè pensi
Quanta piaga m’apristi in mezzo al petto.
Tu dormi: io questo ciel, che sì benigno
Appare in vista, a salutar m’affaccio,
E l’antica natura onnipossente,
Che mi fece all’affanno. A te la speme
Nego, mi disse, anche la speme; e d’altro
Non brillin gli occhi tuoi se non di pianto.
Questo dì fu solenne: or da’ trastulli
Prendi riposo; e forse ti rimembra
In sogno a quanti oggi piacesti, e quanti
Piacquero a te: non io, non già, ch’io speri,
Al pensier ti ricorro. Intanto io chieggo
Quanto a viver mi resti, e qui per terra
Mi getto, e grido, e fremo. Oh giorni orrendi
In così verde etate! Ahi, per la via
Odo non lunge il solitario canto
Dell’artigian, che riede a tarda notte,
Dopo i sollazzi, al suo povero ostello;
E fieramente mi si stringe il core,
A pensar come tutto al mondo passa,
E quasi orma non lascia. Ecco è fuggito
Il dì festivo, ed al festivo il giorno
Volgar succede, e se ne porta il tempo
Ogni umano accidente. Or dov’è il suono
Di que’ popoli antichi? or dov’è il grido
De’ nostri avi famosi, e il grande impero
Di quella Roma, e l’armi, e il fragorio
Che n’andò per la terra e l’oceano?
Tutto è pace e silenzio, e tutto posa
Il mondo, e più di lor non si ragiona.
Nella mia prima età, quando s’aspetta
Bramosamente il dì festivo, or poscia
Ch’egli era spento, io doloroso, in veglia,
Premea le piume; ed alla tarda notte
Un canto che s’udia per li sentieri
Lontanando morire a poco a poco,
Già similmente mi stringeva il core.

([1820] Canti — 1831)
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31 Poetas 214 Poemas — do Rig-Veda e Safo a Apollinaire: Antologia de poemas traduzidos, Seleção, Apresentação, Notas e Comentários de Décio Pignatari, 1996 — Companhia das Letras, São Paulo — SP; Giacomo Leopardi (1798 1837), italiano de Recanati, incentivado pelo pai e com uma vasta biblioteca à sua disposição, desde os seis anos de idade estudou com preceptores, aprendeu latim, grego, hebraico, francês e outras línguas modernas, cultivou interesses filológicos, traduziu e comentou os clássicos que lia (Homero, entre outros), foi ensaísta, filólogo e poeta; suas obras: Storia dell’astronomia (1813), Saggio sopra gli errori popolari degli antichi (1815), Canti (coleção de poemas, 1ª edição em 1831) e outras obras em prosa, estudos e pensamentos.