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E agora oh! Produtor, oh! Férvido Operário
Que escravo, sonolento, exausto e moribundo
N’um século de luz, sucumbes sem vestuário,
Faminto e obcecado, inerte e gemebundo:
Não esperes jamais que o Estado, teu coveiro,
Te venha defender das garras da riqueza:
O Estado é teu verdugo, O Estado é carniceiro,
O Estado é a burguesia, o Estado é a torpeza!
Os maiores ladrões e os grandes criminosos
Ali vão se acoitar buscando impunidade!
Só eles são os bens, nós somos “perigosos”
Defendendo a Justiça e exigindo a Verdade!
Os homens do poder impedem que se aspire
A flor da liberdade, a estrela do Anarquismo!
Porque ele vem trazer por certo quem conspire
Contra os crimes senis do falso socialismo!
É por isso que espero e sonho o Povo unido,
Soldado, camponês, doutores e operários
Na mesma inspiração de um Ideal Partido
Que destrua de fato a força dos sicários!
Eu quero ser humano e praticar a Justiça!
E vê-la praticada em todo este universo...
E desejo igualmente a extinção da cobiça
Pela união geral desse povo disperso!
A terra não tem dono! As terras se tranqueiam!
E entretanto ainda existe a tal propriedade!
P’ra dividir o Mundo em pátrias que guerreiam
Combatendo o Direito, o Amor e a Liberdade!
Abaixo esta justiça iníqua que se vende!
Abaixo as leis do pobre e não dos abastados!
Que tal desigualdade o nosso brio ofende
E nos faz com razão eternos revoltados!
* Nota da pesquisadora e historiadora Yara Aun Khoury,
autora do texto/documento A Poesia Anarquista: Poesia impressa, sem referências.
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Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº
15 — Órgão da ANPUH — Associação Nacional dos Professores Universitários de História,
Volume 8, setembro de 1987 / fevereiro de 1988, vários autores, Editora Marco Zero
— São Paulo — SP; Adalberto Viana, ou Adalberto Vianna, foi poeta, barbeiro e militante
anarquista; nos relata Yara Aun
Khoury, historiadora, no Texto/Documento A Poesia Anarquista, neste Sociedade
& Cultura — Revista Brasileira de História nº 15:
‘... Adalberto Viana, barbeiro de profissão,
juntamente com onze colegas, redigiu e assinou dois documentos publicados no jornal
anarquista Spartacus em sua edição de 18 de outubro de 1919. Eram eles as Bases
de Acordo e o Regulamento de Organização do que o jornal intitulava “Um Ensaio de
Livre Organização do Trabalho”, que consistia na fundação de um salão para que aqueles
profissionais, vítimas das perseguições dos patrões em função de recente greve da
categoria pudessem trabalhar. No entanto, o Salão Liberdade, como foi designado
por seus 12 fundadores, possuía características diferentes de todos os outros estabelecimentos
do gênero. Segundo suas Bases de Acordo, todos os seus 12 fundadores e sócios fariam
parte de seu conselho de administração, que se reuniria semanalmente para tratar
de todas as questões referentes ao salão. O mesmo conselho, integrado por todos
os participantes do Salão, elegeria um administrador, um tesoureiro e um escriturário
(que deveriam todos ser trabalhadores do salão) cujas funções poderiam ser revogadas
a qualquer momento. O administrador deveria prestar contas duas vezes por mês e
toda féria diária entregue ao tesoureiro e depois de contada e conferida juntada
à féria bruta, de onde sairia o retorno financeiro para os associados e para o próprio
Salão.
No Salão Liberdade, que se localizaria na rua José Maurício
atual República do Líbano, 41) todo associado poderia retirar até 50 mil réis além
do que havia produzido, sendo o dinheiro que sobrasse reinvestido no salão. Começando
a trabalhar às 8 horas da manhã, os integrantes do Salão se comprometiam a pagar
a seus componentes de acordo com o memorial de seu sindicato, a União dos Oficiais
de Barbeiro, assim como a cumprir quaisquer resoluções daquele sindicato. Ressalvava-se
que “em nenhum caso o Salão poderá pertencer a quem pretenda explorar com ordenados
a outros barbeiros; isto é, a quem se proponha a ser patrão”.
Os princípios autogestionários e de apoio mútuo que
orientavam a criação do Salão Liberdade eram produto direto da maneira como os
barbeiros anarquistas tiveram que se organizar para sobreviver durante a greve
da categoria em 1919. A 02 de agosto de 1919 o Spartacus em sua coluna Ação
Proletária noticiava a eclosão da greve dos barbeiros no dia anterior, cansados
da exploração patronal, lutando por um salário razoável, participação
proporcional nos lucros e abolição completa da gorjeta. “Como se vê — comentava
o jornal — as pretensões dos oficiais barbeiros não se limitam a melhorias de
ordem econômica, pois a abolição da humilhante gorjeta tem uma significação
altamente moral”. No número seguinte o jornal comentava que os barbeiros
grevistas estavam exercendo seu ofício nas sedes das associações operárias,
tendo como fregueses os trabalhadores e, desta forma, também boicotando as
barbearias que permaneciam abertas, furando a greve. ...’.