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sexta-feira, 13 de junho de 2025

Teixeira Bastos: O Sol da Nova Idéia

 
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As imagens dos célicos devassos
Em negro pó desfeitas o ar semeiam;
Levadas para o vento revolteiam
As crenças divinas em estilhaços.

Os deuses já morreram nos espaços
Os altivos e os templos bamboleiam;
Os tronos d’ouro estalavam ou baqueiam
e fogem dos reis trêmulos dos paços.

Dos credos sem sentido as densas brumas
Se dissolvem na noite, quais espumas
Na areia da praia que reluz!

O mundo velho dorme em longa treva
Entanto ao longe vejo que se eleva
O Sol da nova ideia a branca luz!

(Publicado em “A Voz Operária”, Campinas, 05/10/1919.)
(Documentação: A Poesia Anarquista, por Yara Aun Khoury —
Depto. de História da FCS/PUC-SP [Rev. Bras. de Hist. —
S. Paulo, v.8 nº 15, pp. 215-247, set.1987/fev.1988])

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Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15 — Órgão da ANPUH — Associação Nacional dos Professores Universitários de História, Volume 8, setembro de 1987 / fevereiro de 1988, [várias autorias, Editora Marco Zero — São Paulo — SP; Francisco José Teixeira Bastos (1857 1901), português e lisboeta, formado pelo Curso Superior de Letras [atual Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa], foi poeta, jornalista, publicista e ensaísta que, nos últimos vinte e cinco anos do século XIX, adquiriu reconhecimento, sendo considerado um dos indutores da teoria positivista de Augusto Comte em Portugal; ladeado por Teófilo Braga, Teixeira Bastos editou vários periódicos de crítica literária: dirigiu a revista Era Nova, a Revista de Estudos Livres, o jornal O Positivismo, e colaborou nos periódicos O Século, Renascença, A Mulher, O Pantheon, Galeria republicana, Livre Exame, entre outros; suas obras: Rumores vulcânicos (poesia, 1879), Luís de Camões e a Nacionalidade Portuguesa (ensaio, 1880), Ensaios sobre a Evolução da Humanidade (ensaios, 1882), Vibrações do Século (poesia, 1882), Princípios da Filosofia Positiva (ensaio, 1883), Teófilo Braga e a sua Obra (ensaio, 1892), A crise: estudo sobre a situação política, financeira, econômica e moral da nação (ensaio, 1894), Poetas brasileiros (crítica literária, 1895) ...; foi sócio-eleito da Academia Real das Ciências de Lisboa.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Adalberto Vianna: Raciocinando


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Tudo é mentira! Deus, Moral e Humanidade!
Mentira o céu, mentira a fé, mentira o Amor!
Só se vive do mal, da dor, da iniquidade,
E todo este progresso é morte e despudor!

Há sempre covardia, infâmia, atrocidade,
Canalhas no prazer, canalhas numa dor,
Fingidos que a chorar imploram caridade,
E falsa proteção que imita o benfeitor!

É crime cobiçar os frutos do trabalho,
Pedir junto ao burguês aumento de ordenado,
Alguém que esteja nu não peça um agasalho…

E pobre mortal que queira a Liberdade…
Pois não se vai bolir no cancro alicerçado,
Que se convencionou chamar de Propriedade!

* Nota da pesquisadora e historiadora Yara Aun Khoury, autora do texto/documento A Poesia Anarquista: Publicado em “A Plebe”, São Paulo, 23/07/1927.
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Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15 — Órgão da ANPUH — Associação Nacional dos Professores Universitários de História, Volume 8, setembro de 1987 / fevereiro de 1988 [vários autores], Editora Marco Zero — São Paulo — SP; Adalberto Viana, ou Adalberto Vianna, foi poeta, barbeiro e militante anarquista; nos relata Yara Aun Khoury, historiadora, no Texto/Documento A Poesia Anarquista, neste Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História nº 15:
          “É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; [ . . . ]; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância; ...”;
Edgar Rodrigues, historiador, pesquisador e arquivista, escreve em Os pedreiros da anarquia [VERVE: Revista Semestral do NU-SOL — Núcleo de Sociabilidade Libertária/Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP. Nº 7 (maio 2005)]:
          “... Conheci e soube de operários barbeiros, Amílcar dos Santos, Adalberto Viana (bom poeta libertário), Daniel Montalvão, Zacarias de Lima, e empregados do comércio: Adelino Tavares de Pinho, Antônio Duarte Candeias, Atílio Pessagno, Aquilino Massena, F.G. Sousa Passos (autor de vários opúsculos e deixou uma excelente obra inédita, O Sentido Artístico do Anarquismo). ...”;
Já Milton Lopes expõe no Emecê — Boletim do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa — Ano III, nº 10. Novembro de 2008:
          ‘... Adalberto Viana, barbeiro de profissão, juntamente com onze colegas, redigiu e assinou dois documentos publicados no jornal anarquista Spartacus em sua edição de 18 de outubro de 1919. Eram eles as Bases de Acordo e o Regulamento de Organização do que o jornal intitulava “Um Ensaio de Livre Organização do Trabalho”, que consistia na fundação de um salão para que aqueles profissionais, vítimas das perseguições dos patrões em função de recente greve da categoria pudessem trabalhar. No entanto, o Salão Liberdade, como foi designado por seus 12 fundadores, possuía características diferentes de todos os outros estabelecimentos do gênero. Segundo suas Bases de Acordo, todos os seus 12 fundadores e sócios fariam parte de seu conselho de administração, que se reuniria semanalmente para tratar de todas as questões referentes ao salão. O mesmo conselho, integrado por todos os participantes do Salão, elegeria um administrador, um tesoureiro e um escriturário (que deveriam todos ser trabalhadores do salão) cujas funções poderiam ser revogadas a qualquer momento. O administrador deveria prestar contas duas vezes por mês e toda féria diária entregue ao tesoureiro e depois de contada e conferida juntada à féria bruta, de onde sairia o retorno financeiro para os associados e para o próprio Salão.
          No Salão Liberdade, que se localizaria na rua José Maurício atual República do Líbano, 41) todo associado poderia retirar até 50 mil réis além do que havia produzido, sendo o dinheiro que sobrasse reinvestido no salão. Começando a trabalhar às 8 horas da manhã, os integrantes do Salão se comprometiam a pagar a seus componentes de acordo com o memorial de seu sindicato, a União dos Oficiais de Barbeiro, assim como a cumprir quaisquer resoluções daquele sindicato. Ressalvava-se que “em nenhum caso o Salão poderá pertencer a quem pretenda explorar com ordenados a outros barbeiros; isto é, a quem se proponha a ser patrão”.
          Os princípios autogestionários e de apoio mútuo que orientavam a criação do Salão Liberdade eram produto direto da maneira como os barbeiros anarquistas tiveram que se organizar para sobreviver durante a greve da categoria em 1919. A 02 de agosto de 1919 o Spartacus em sua coluna Ação Proletária noticiava a eclosão da greve dos barbeiros no dia anterior, cansados da exploração patronal, lutando por um salário razoável, participação proporcional nos lucros e abolição completa da gorjeta. “Como se vê — comentava o jornal — as pretensões dos oficiais barbeiros não se limitam a melhorias de ordem econômica, pois a abolição da humilhante gorjeta tem uma significação altamente moral”. No número seguinte o jornal comentava que os barbeiros grevistas estavam exercendo seu ofício nas sedes das associações operárias, tendo como fregueses os trabalhadores e, desta forma, também boicotando as barbearias que permaneciam abertas, furando a greve. ...’.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Adalberto Vianna: Aos crentes*


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Mortais, crede com fé, com viso de verdade,
Verdade de pureza heroica e irrefutável,
Que a crença que domina a tola humanidade
É uma crença imbecil, corrupta e detestável.

Da solidão astral nos chega a luz vigente
A luz que a nossa treva afugenta e ilumina,
E assim o amotinas vereis incontinente
Na crença virtual a que julgais divina.

Ao histrião e ao pulha e mesmo ao que domine
Símbolos dessa crença infame, e desse mal,
Daremos por lições a ler Kropotkine
E não devemos crer que nossa alma é imortal!

Gozemos com fervor o mundo, esse conjunto
De crenças, de ilusões, de prantos, de maldades;
Exploremos sem pejo a flor do tal assunto
Ao forte despertar arcano das verdades…

Funâmbulos, mastias, assim desta maneira
Irão provavelmente atrás sem freguesia:
Acabam-se os missais, a grande pagodeira.
E o baile religioso ecoando vilania.

Hipócritas de “deus”, palhaços infamantes,
Impudentes cristãos e falsos clericais,
Não mais conseguirão com capas de farsantes
Vestir a humanidade em almas imortais!

Brademos com fervor, mas com fervor imenso,
Fervor que ao deus-natura alegrará por certo:
Como um sábio qualquer a revirar com senso
As folhas colossais de um grande livro aberto.

* Nota da pesquisadora e historiadora Yara Aun Khoury, autora do texto/documento A Poesia Anarquista: Obra impressa, sem referências.
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Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15 — Órgão da ANPUH — Associação Nacional dos Professores Universitários de História, Volume 8, setembro de 1987 / fevereiro de 1988 [vários autores], Editora Marco Zero — São Paulo — SP; Adalberto Viana, ou Adalberto Vianna, foi poeta, barbeiro e militante anarquista; nos relata Yara Aun Khoury, historiadora, no Texto/Documento A Poesia Anarquista, neste Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História nº 15:
          “É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; [ . . . ]; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância; ...”;
Edgar Rodrigues, historiador, pesquisador e arquivista, escreve em Os pedreiros da anarquia [VERVE: Revista Semestral do NU-SOL Núcleo de Sociabilidade Libertária/Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP. Nº 7 (maio 2005)]:
          “... Conheci e soube de operários barbeiros, Amílcar dos Santos, Adalberto Viana (bom poeta libertário), Daniel Montalvão, Zacarias de Lima, e empregados do comércio: Adelino Tavares de Pinho, Antônio Duarte Candeias, Atílio Pessagno, Aquilino Massena, F.G. Sousa Passos (autor de vários opúsculos e deixou uma excelente obra inédita, O Sentido Artístico do Anarquismo). ...”;
Já Milton Lopes, expõe no Emecê — Boletim do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa — Ano III, nº 10. Novembro de 2008:
          ‘... Adalberto Viana, barbeiro de profissão, juntamente com onze colegas, redigiu e assinou dois documentos publicados no jornal anarquista Spartacus em sua edição de 18 de outubro de 1919. Eram eles as Bases de Acordo e o Regulamento de Organização do que o jornal intitulava “Um Ensaio de Livre Organização do Trabalho”, que consistia na fundação de um salão para que aqueles profissionais, vítimas das perseguições dos patrões em função de recente greve da categoria pudessem trabalhar. No entanto, o Salão Liberdade, como foi designado por seus 12 fundadores, possuía características diferentes de todos os outros estabelecimentos do gênero. Segundo suas Bases de Acordo, todos os seus 12 fundadores e sócios fariam parte de seu conselho de administração, que se reuniria semanalmente para tratar de todas as questões referentes ao salão. O mesmo conselho, integrado por todos os participantes do Salão, elegeria um administrador, um tesoureiro e um escriturário (que deveriam todos ser trabalhadores do salão) cujas funções poderiam ser revogadas a qualquer momento. O administrador deveria prestar contas duas vezes por mês e toda féria diária entregue ao tesoureiro e depois de contada e conferida juntada à féria bruta, de onde sairia o retorno financeiro para os associados e para o próprio Salão.
          No Salão Liberdade, que se localizaria na rua José Maurício atual República do Líbano, 41) todo associado poderia retirar até 50 mil réis além do que havia produzido, sendo o dinheiro que sobrasse reinvestido no salão. Começando a trabalhar às 8 horas da manhã, os integrantes do Salão se comprometiam a pagar a seus componentes de acordo com o memorial de seu sindicato, a União dos Oficiais de Barbeiro, assim como a cumprir quaisquer resoluções daquele sindicato. Ressalvava-se que “em nenhum caso o Salão poderá pertencer a quem pretenda explorar com ordenados a outros barbeiros; isto é, a quem se proponha a ser patrão”.
          Os princípios autogestionários e de apoio mútuo que orientavam a criação do Salão Liberdade eram produto direto da maneira como os barbeiros anarquistas tiveram que se organizar para sobreviver durante a greve da categoria em 1919. A 02 de agosto de 1919 o Spartacus em sua coluna Ação Proletária noticiava a eclosão da greve dos barbeiros no dia anterior, cansados da exploração patronal, lutando por um salário razoável, participação proporcional nos lucros e abolição completa da gorjeta. “Como se vê — comentava o jornal — as pretensões dos oficiais barbeiros não se limitam a melhorias de ordem econômica, pois a abolição da humilhante gorjeta tem uma significação altamente moral”. No número seguinte o jornal comentava que os barbeiros grevistas estavam exercendo seu ofício nas sedes das associações operárias, tendo como fregueses os trabalhadores e, desta forma, também boicotando as barbearias que permaneciam abertas, furando a greve. ...’.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Adalberto Vianna: Aos operários *

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E agora oh! Produtor, oh! Férvido Operário
Que escravo, sonolento, exausto e moribundo
N’um século de luz, sucumbes sem vestuário,
Faminto e obcecado, inerte e gemebundo:

Não esperes jamais que o Estado, teu coveiro,
Te venha defender das garras da riqueza:
O Estado é teu verdugo, O Estado é carniceiro,
O Estado é a burguesia, o Estado é a torpeza!

Os maiores ladrões e os grandes criminosos
Ali vão se acoitar buscando impunidade!
Só eles são os bens, nós somos “perigosos”
Defendendo a Justiça e exigindo a Verdade!

Os homens do poder impedem que se aspire
A flor da liberdade, a estrela do Anarquismo!
Porque ele vem trazer por certo quem conspire
Contra os crimes senis do falso socialismo!

É por isso que espero e sonho o Povo unido,
Soldado, camponês, doutores e operários
Na mesma inspiração de um Ideal Partido
Que destrua de fato a força dos sicários!

Eu quero ser humano e praticar a Justiça!
E vê-la praticada em todo este universo...
E desejo igualmente a extinção da cobiça
Pela união geral desse povo disperso!

A terra não tem dono! As terras se tranqueiam!
E entretanto ainda existe a tal propriedade!
P’ra dividir o Mundo em pátrias que guerreiam
Combatendo o Direito, o Amor e a Liberdade!

Abaixo esta justiça iníqua que se vende!
Abaixo as leis do pobre e não dos abastados!
Que tal desigualdade o nosso brio ofende
E nos faz com razão eternos revoltados!

* Nota da pesquisadora e historiadora Yara Aun Khoury, autora do texto/documento A Poesia Anarquista: Poesia impressa, sem referências.
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Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15 — Órgão da ANPUH — Associação Nacional dos Professores Universitários de História, Volume 8, setembro de 1987 / fevereiro de 1988, vários autores, Editora Marco Zero — São Paulo — SP; Adalberto Viana, ou Adalberto Vianna, foi poeta, barbeiro e militante anarquista; nos relata Yara Aun Khoury, historiadora, no Texto/Documento A Poesia Anarquista, neste Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História nº 15:
     “É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; [ . . . ]; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância; ...”;
Edgar Rodrigues, historiador, pesquisador e arquivista, escreve em Os pedreiros da anarquia [VERVE: Revista Semestral do NU-SOL Núcleo de Sociabilidade Libertária/Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP. Nº 7 (maio 2005)]:
     “... Conheci e soube de operários barbeiros, Amílcar dos Santos, Adalberto Viana (bom poeta libertário), Daniel Montalvão, Zacarias de Lima, e empregados do comércio: Adelino Tavares de Pinho, Antônio Duarte Candeias, Atílio Pessagno, Aquilino Massena, F.G. Sousa Passos (autor de vários opúsculos e deixou uma excelente obra inédita, O Sentido Artístico do Anarquismo). ...”;
Já Milton Lopes expõe no Emecê — Boletim do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa — Ano III, nº 10. Novembro de 2008:
     ‘... Adalberto Viana, barbeiro de profissão, juntamente com onze colegas, redigiu e assinou dois documentos publicados no jornal anarquista Spartacus em sua edição de 18 de outubro de 1919. Eram eles as Bases de Acordo e o Regulamento de Organização do que o jornal intitulava “Um Ensaio de Livre Organização do Trabalho”, que consistia na fundação de um salão para que aqueles profissionais, vítimas das perseguições dos patrões em função de recente greve da categoria pudessem trabalhar. No entanto, o Salão Liberdade, como foi designado por seus 12 fundadores, possuía características diferentes de todos os outros estabelecimentos do gênero. Segundo suas Bases de Acordo, todos os seus 12 fundadores e sócios fariam parte de seu conselho de administração, que se reuniria semanalmente para tratar de todas as questões referentes ao salão. O mesmo conselho, integrado por todos os participantes do Salão, elegeria um administrador, um tesoureiro e um escriturário (que deveriam todos ser trabalhadores do salão) cujas funções poderiam ser revogadas a qualquer momento. O administrador deveria prestar contas duas vezes por mês e toda féria diária entregue ao tesoureiro e depois de contada e conferida juntada à féria bruta, de onde sairia o retorno financeiro para os associados e para o próprio Salão.
     No Salão Liberdade, que se localizaria na rua José Maurício atual República do Líbano, 41) todo associado poderia retirar até 50 mil réis além do que havia produzido, sendo o dinheiro que sobrasse reinvestido no salão. Começando a trabalhar às 8 horas da manhã, os integrantes do Salão se comprometiam a pagar a seus componentes de acordo com o memorial de seu sindicato, a União dos Oficiais de Barbeiro, assim como a cumprir quaisquer resoluções daquele sindicato. Ressalvava-se que “em nenhum caso o Salão poderá pertencer a quem pretenda explorar com ordenados a outros barbeiros; isto é, a quem se proponha a ser patrão”.
     Os princípios autogestionários e de apoio mútuo que orientavam a criação do Salão Liberdade eram produto direto da maneira como os barbeiros anarquistas tiveram que se organizar para sobreviver durante a greve da categoria em 1919. A 02 de agosto de 1919 o Spartacus em sua coluna Ação Proletária noticiava a eclosão da greve dos barbeiros no dia anterior, cansados da exploração patronal, lutando por um salário razoável, participação proporcional nos lucros e abolição completa da gorjeta. “Como se vê  comentava o jornal  as pretensões dos oficiais barbeiros não se limitam a melhorias de ordem econômica, pois a abolição da humilhante gorjeta tem uma significação altamente moral”. No número seguinte o jornal comentava que os barbeiros grevistas estavam exercendo seu ofício nas sedes das associações operárias, tendo como fregueses os trabalhadores e, desta forma, também boicotando as barbearias que permaneciam abertas, furando a greve. ...’.