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Como se não bastasse o excesso de população do mundo, há muito andam os homens detectando a existência de outros mundos habitados no espaço sideral, e há quem exclame, emocionado: "Não estamos sós." Mas quem disse que estamos sós, se vivemos tão acotovelados pelas avenidas da Terra, e há tamanha falta de lugar para todos que querem viver? Pois como se tudo isto não fosse suficiente, correm às matas da região banhada pelo Rio Mucuri, lá onde Minas, Bahia e Espírito Santo se confundem, e de suas brenhas retiram José Pedro, o último promeneur solitaire de que havia notícia, o homem que vivia ao lado de uma fogueira acesa, espantando onças e, sobretudo, gente.
— Vem, rapaz! Queremos que você participe das maravilhas da civilização!
Ao que José teria respondido:
— Vocês me arranjam casa pra morar?
— Bem, isso está meio difícil, José, ainda mais com o fim da denúncia vazia.
— E emprego?
— Só se você for concursado e houver vaga, dentro do período de validade do concurso.
— Comida?
— Comida, José, você terá que esperar que as roças plantadas pelo Ministro Delfim cresçam e apareçam. Não importa, venha assim mesmo, estão nos chamando de outras galáxias, está assim de disco voador, e você não pode perder o espetáculo de confraternização cósmica.
José recalcitra. Estava tão bem ali! Não paga aluguel, não preenche formulário verde ou azul do imposto de renda, não obedece a horário nem patrão, come carne variada, segunda-feira, paca, terça, peixe, quarta, aves lacustres, quinta, raízes e tubérculos, sexta, frutas, sábado...
— Mais uma razão para vir. Está desfrutando privilégios, e todos são iguais perante a lei, ainda mais agora, com o Presidente Figueiredo interessado em implantar democracia.
Outra razão, que se ministrou a José, é que os fazendeiros do Mucuri reclamam contra o homem estranho, enfurnado no mato, sabe Deus o quê. Coisa boa não é. Será o último subversivo, maquinando sortidas contra o gado, para aliciar gente e destruir as conquistas da Revolução?
Inutilmente José alega que ajuda os rurícolas espantando onça com o seu facho noturno. As onças não devem ser espantadas, sustentam o que resta de beleza selvagem na região.
Esse homem não trabalha na lavoura de mandioca, tal como os outros homens; não produz, não rende, e, embora não pese a ninguém, pesa globalmente no espírito de todos, com o seu mistério. O fato de não produzir não é o mais grave, e tolera-se no asfalto e na praia, à luz do dia, civilizadamente: mas no interior do mato? Que idéia faz esse sujeito do contrato social? Está-se ninando para o contrato social. Não é possível, dizem os civilizados. Tragam esse homem para perto de nós, ele tem de aprender ou reaprender a vida apertada que levamos.
José tem medo. Os homens, as cidades, os códigos, até os prazeres intervalares da vida social lhe causam pavor. O motor de sua volta ao estado natural foi menos o amor à natureza do que o pânico diante do desenvolvimento urbano. Em cada homem vê o perigo, em cada situação a ameaça, em cada palavra a condenação. Com árvores e bichos, ele se entende. Nu e experimentado, conhece e domina o ambiente, e nele vive sem maiores riscos. Na cidade, não praticara ação criminosa, e foi precisamente isso que o fez embrenhar-se no mato. Inocente, faltavam-lhe as provas negativas de sua inocência. Se cometesse qualquer malfeito, poderia mentir e salvar-se, mas estando puro e desarmado diante da ordem social, como mentir senão confessando a falta imaginária e, portanto, condenando-se? A solução era virar bicho. Fez.
Agora trazem José para uma capital, ele é fichado, fotografado, carimbado, numerado, entrevistado, televisionado, condenado a viver, como tantos outros, em subcondição humana, mas sob o amparo nominal da lei. De todas as leis da República e da civilização.
José está salvo ou perdido? É pergunta dessas de se fazer ao povo nas ruas, cada qual com sua opinião, e as opiniões se multiplicam. Há a intenção de proteger José, ou a intenção de fazer de José um escravo ou um pária como tantos outros, porque não é justo escapar à sorte da maioria? Onde já se viu bancar o índio sem ser índio? E, além do mais, índio solitário, sem ligação com os maxacalis ou os saudosos aimorés? Nada disso. Todos são iguais perante a lei. E, daí, não estamos sós.
O certo é que nunca mais brilhará, na noite das matas do Mucuri, aquele foguinho solitário de espantar onça. E gente. José será contribuinte, eleitor e infeliz.
— Vem, rapaz! Queremos que você participe das maravilhas da civilização!
Ao que José teria respondido:
— Vocês me arranjam casa pra morar?
— Bem, isso está meio difícil, José, ainda mais com o fim da denúncia vazia.
— E emprego?
— Só se você for concursado e houver vaga, dentro do período de validade do concurso.
— Comida?
— Comida, José, você terá que esperar que as roças plantadas pelo Ministro Delfim cresçam e apareçam. Não importa, venha assim mesmo, estão nos chamando de outras galáxias, está assim de disco voador, e você não pode perder o espetáculo de confraternização cósmica.
José recalcitra. Estava tão bem ali! Não paga aluguel, não preenche formulário verde ou azul do imposto de renda, não obedece a horário nem patrão, come carne variada, segunda-feira, paca, terça, peixe, quarta, aves lacustres, quinta, raízes e tubérculos, sexta, frutas, sábado...
— Mais uma razão para vir. Está desfrutando privilégios, e todos são iguais perante a lei, ainda mais agora, com o Presidente Figueiredo interessado em implantar democracia.
Outra razão, que se ministrou a José, é que os fazendeiros do Mucuri reclamam contra o homem estranho, enfurnado no mato, sabe Deus o quê. Coisa boa não é. Será o último subversivo, maquinando sortidas contra o gado, para aliciar gente e destruir as conquistas da Revolução?
Inutilmente José alega que ajuda os rurícolas espantando onça com o seu facho noturno. As onças não devem ser espantadas, sustentam o que resta de beleza selvagem na região.
Esse homem não trabalha na lavoura de mandioca, tal como os outros homens; não produz, não rende, e, embora não pese a ninguém, pesa globalmente no espírito de todos, com o seu mistério. O fato de não produzir não é o mais grave, e tolera-se no asfalto e na praia, à luz do dia, civilizadamente: mas no interior do mato? Que idéia faz esse sujeito do contrato social? Está-se ninando para o contrato social. Não é possível, dizem os civilizados. Tragam esse homem para perto de nós, ele tem de aprender ou reaprender a vida apertada que levamos.
José tem medo. Os homens, as cidades, os códigos, até os prazeres intervalares da vida social lhe causam pavor. O motor de sua volta ao estado natural foi menos o amor à natureza do que o pânico diante do desenvolvimento urbano. Em cada homem vê o perigo, em cada situação a ameaça, em cada palavra a condenação. Com árvores e bichos, ele se entende. Nu e experimentado, conhece e domina o ambiente, e nele vive sem maiores riscos. Na cidade, não praticara ação criminosa, e foi precisamente isso que o fez embrenhar-se no mato. Inocente, faltavam-lhe as provas negativas de sua inocência. Se cometesse qualquer malfeito, poderia mentir e salvar-se, mas estando puro e desarmado diante da ordem social, como mentir senão confessando a falta imaginária e, portanto, condenando-se? A solução era virar bicho. Fez.
Agora trazem José para uma capital, ele é fichado, fotografado, carimbado, numerado, entrevistado, televisionado, condenado a viver, como tantos outros, em subcondição humana, mas sob o amparo nominal da lei. De todas as leis da República e da civilização.
José está salvo ou perdido? É pergunta dessas de se fazer ao povo nas ruas, cada qual com sua opinião, e as opiniões se multiplicam. Há a intenção de proteger José, ou a intenção de fazer de José um escravo ou um pária como tantos outros, porque não é justo escapar à sorte da maioria? Onde já se viu bancar o índio sem ser índio? E, além do mais, índio solitário, sem ligação com os maxacalis ou os saudosos aimorés? Nada disso. Todos são iguais perante a lei. E, daí, não estamos sós.
O certo é que nunca mais brilhará, na noite das matas do Mucuri, aquele foguinho solitário de espantar onça. E gente. José será contribuinte, eleitor e infeliz.
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Boca de Luar, crônicas, 1984, Editora Record, Rio de
Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987), mineiro de Itabira, poeta,
contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado
incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do
Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e
artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro
Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de
Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e
artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira,
crônicas (1957); A Bolsa & A Vida,
crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira
de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão,
crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As
Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo
II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a
Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas
sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar,
crônicas (1984); Corpo, novos poemas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O
Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996)
e tantos outros...
