5 de junho de 2010

Rousseau: Os devaneios do caminhante solitário

TERCEIRA CAMINHADA

Envelheço aprendendo sempre.

Sólon com freqüência repetia esse verso em sua velhice(*). Ele tem um sentido que eu também poderia aplicar à minha; porém, há vinte anos a experiência me fez adquirir um conhecimento bastante triste: a ignorância ainda é preferível. A adversidade sem dúvida é uma grande mestra, mas cobra caro por suas lições, e em geral o proveito que temos não vale o preço que custaram. Além disso, antes que tenhamos obtido todos esses haveres com lições tão tardias, a oportunidade de usá-los passa. A juventude é o momento de estudar a sabedoria; a velhice é o momento de praticá-la. A experiência sempre instrui, reconheço-o; contudo, é proveitosa apenas para o que temos à nossa frente. No momento de morrer, haverá tempo de aprender como deveríamos ter vivido?

Oh, de que me servem luzes, tão tardia e tão dolorosamente adquiridas, sobre o meu destino e sobre as paixões dos outros, das quais este é obra? Aprendi a melhor conhecer os homens apenas para melhor sentir a miséria em que me mergulharam, sem que esse conhecimento, ao me revelar todas as sua armadilhas, tenha me feito evitar alguma. Por que não permaneci para sempre nesta débil mas doce confiança que me tornou durante tantos anos a presa e o joguete de meus ruidosos amigos, sem que tivesse, envolvido em todas as suas tramas, nem a mínima suspeita! Era enganado e vítima, é verdade, mas me acreditava amado por eles, e meu coração gozava da amizade que me inspiravam, atribuindo-lhes o mesmo por mim. Essas doces ilusões foram destruídas. A triste verdade, que o tempo e a razão desvelaram ao me fazerem sentir minha desgraça, me fez ver que não havia remédio e que me restava apenas a resignação. Assim, todas as experiências da minha idade, em meu estado, não tem para mim utilidade no presente e proveito no futuro.

Entramos em cena no nascimento, dela saímos na morte. De que serve aprender a melhor conduzir seu carro quando se está no fim da corrida? Só resta pensar como sair dela. O estudo de um velho, se ainda tem algum a fazer, é apenas aprender a morrer, e é justamente o que menos se faz na minha idade; se pensa em tudo, menos nisso. Todos os velhos têm mais apego à vida que as crianças e saem dela com maior má vontade  que os jovens. Como todas as suas obras foram para essa mesma vida, vêem a seu fim que trabalharam em vão. Todos os seus esforços, todos os seus bens, todos os frutos de suas laboriosas vigílias, tudo é deixado quando partem. Não pensaram em adquirir algo em suas vidas que pudessem levar na morte.

Pensei tudo isso quando era tempo de pensá-lo, e se não soube tirar melhor partido de minhas reflexões não foi por deixar de fazê-las a tempo e não tê-las digerido bem. Atirado, desde a infância, no turbilhão da sociedade, aprendi em boa hora através da experiência que não fora feito para nela viver e que nela nunca chegaria ao estado  de que meu coração sentia necessidade. Cessando, portanto, de buscar entre os homens a felicidade que sentia ali não poder encontrar, minha ardente imaginação saltava por sobre a extensão de minha vida, recém-começada, como por um terreno que me fosse estranho, para repousar em um estado tranqüilo em que pudesse me fixar.
...

(*) Citado por Plutarco em Vida de Sólon (Nota da Tradutora)
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Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), Les Réveriers du Promeneur Solitaire, tradução de Júlia de Rosa Simões, L&PM Editores, 2008, Porto Alegre - RS; nascido em 28 de junho de 1712, começou a redigir Os devaneios do caminhante solitário, sua última obra, no outono ou inverno de 1776; dividiu-a em Caminhadas, sendo que a última, a Décima, restou inconclusa, pois o pensador a iniciara apenas dois meses antes de sua morte ocorrida em 02 de julho de 1778. Nesta postagem transcreveu-se tão somente um trecho (os quatro primeiros parágrafos!) da Terceira Caminhada.

Um comentário:

  1. Estou lendo esta excelente Obra. Para mim está sendo uma caminhada pela a mente e a sensibilidade deste nobre ser.


    Dimas Luna
    http://filosofiatual.blogspot.com.br/2012/08/os-devaneios-do-caminhante-solitario002.html


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