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quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Alfonsina Storni *: Moderna

 
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[traduzido por Luís Antônio Pimentel]

Dançarei numa alfombra de verdura.
O vinho será posto em taça de ouro,
própria para servir um licor louro,
brindando a noite plena de frescura.

Dançarei como a terra, a terra pura,
como a terra serei algum tesouro,
e o dar-me pura não será desdouro,
pois dar-se é uma alta forma de ternura.

Dançarei para que de tudo esqueças
e hei de embriagar-te, amor, sem que adormeças,
até que Vênus passe pelos céus.

Algo, porém, de ti será escondido,
porque pagã, de um século falido,
não deixarei cair todos os véus.

Alfonsina Storni

Moderna

Yo danzaré en alfombra de verdura,
ten pronto el vino en el cristal sonoro,
nos beberemos el licor de oro
celebrando la noche y su frescura.

Yo danzaré como la tierra pura,
como la tierra yo seré un tesoro,
y en darme pura no hallaré desdoro,
Que darse es una forma de la Altura.

Yo danzaré para que todo olvides
y habré de darte la embriaguez que pides
hasta que Venus pase por los cielos.

Mas algo acaso te será escondido,
que pagana de un siglo empobrecido
no dejaré caer todos los velos.

* Nota do Organizador Vasco de Castro Lima: Embora tenha nascido na Suíça, é considerada argentina, porque na Argentina viveu toda a sua vida. Forma, com Gabriela Mistral e Juana de Ibarbourou, o trio feminino de maior inspiração poética no Continente [América do Sul, México e Caribe], em língua espanhola. Suicidou-se em Mar del Plata, apressando o fim de seu mal incurável.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto: Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Alfonsina Storni Martignoni (1892 1938), nascida em Sala Capriasca Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, tendo, a partir daí, levado uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento da família, trabalhou como costureira e operária; já aos 12 anos, Alfonsina escreveu seus primeiros versos, e, logo depois, como operária em fábrica de gorros, se destacou por seu humor e participação “na luta pelas reivindicações sociais, engajada nas fileiras anarquistas”; também teve destaque em experiências como atriz em companhia teatral e, em turnê que durou um ano, se apresentou em várias localidades do país; estudou na Escuela Normal Mixta de Maestros Rurales de Coronda, onde também trabalhou, depois de formada mudou-se para Rosário e ali exerceu o ofício de professora, colaborou regularmente nas revistas Mundo Rosarino e Monas y Monadas, tornando-se dirigente do Comitê Feminista de Santa Fé; já em Buenos Aires, agora trabalhando em farmácia e também como vendedora de loja, logo tornou-se “corresponsal psicológico”, na empresa Freixas Hermanos, importadora de azeite de oliva; estreou com seu primeiro livro (La inquietud del rosal), fez suas primeiras colaborações literárias nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, El Hogar, Mundo Argentino, La Nota, estabeleceu vínculos com o grupo intelectual da revista Nosotros, participou de saraus, passou a recitar seus poemas em bibliotecas, prosseguiu com a militância em grupos feministas e socialistas; depois, colaborou com o jornal La Nacion, fazendo uso do pseudônimo Tao-Lao; continuando no desempenho da atividade de professora, lecionou em várias escolas: Colegio Marcos Paz, Escuela de Niños Débiles del parque Chacabuco, Instituto de Teatro Infantil Labardén, Escuela Normal de Lenguas vivas, Conservatório de Música y Declamación e Escuela de Adultos Bolivar, onde, em aulas noturnas, ensinou “castellano y aritmética”; suas obras: La inquietud del rosal (1916), El Dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Poemas de Amor (poemas em prosa, 1926), Mundo de siete pozos (1934), Mascarilla y trébol (1938) e outros títulos em prosa e verso e peças teatrais; com suas atitudes inovadoras, as mulheres do seu tempo, umas a admiravam e outras a viam como perigosa e, com a publicação do poema 'La Loba', Alfonsina causou escândalo; recebeu premiações por sua obra; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada por Mercedes Sosa; teve seu corpo resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se enviou para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Isamu Yoshii: A vida é breve *

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[traduzido do original japonês
por Luís Antônio Pimentel]

Amemo-nos agora… A vida é breve!
 Enquanto é rubra a tua boca em flor,
teu sangue, que hoje é sol por sobre a neve,
amanhã, quem dirá qual sua cor?

Amemo-nos agora .. A vida é breve!
De braços dados, vamos, sem temor,
no manso barco que por fim nos leve
a um mundo feito para o nosso amor…

Vagando suavemente pelo mar,
quero em meu peito a tua pulsação,
sem que ninguém nos venha perturbar.


Vivamos hoje, amor, essa paixão,
mantendo acesa a chama de um altar
que arde, perene, em nosso coração.


Yoshii Isamu.JPG
Isamu Yoshii

* Nota: Vasco de Castro Lima, organizador deste O Mundo Maravilhoso do Soneto, nos informa que o poema-soneto ‘A vida é breve’ de Isamu Ioshii foi traduzido “diretamente do japonês”, e prossegue: 'Devem ser particularmente penosas e quase impraticáveis, tanto a adaptação de um soneto de língua estrangeira para o japonês, como a tradução de um soneto japonês para qualquer outra língua. Isto porque, pela índole do idioma, o poema nipônico não pode ter rimas, tem de ser construído com versos “brancos”. Os poetas modernos do Japão, esclarece J. G — de Araújo Jorge , procuram utilizar, com habilidade, os caracteres gráficos. Podem metrificar os seus versos, mas a contagem silábica é diferente, porque todas as sílabas da língua "são tônicas, ou melhor dizendo: átonas, não havendo, portanto, elisões". Além disso, "a frase japonesa termina sempre em verbo e as terminações dos verbos e das palavras são, necessariamente, em vogais — a, e, i, o, u — o que terá de dar aos versos uma insuportável monotonia'. Daí, não conseguirem “as variações de sonoridades das línguas ocidentais”.'
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Isamu Yoshii (1886 1960), japonês nascido em Tóquio, foi poeta, romancista e dramaturgo.