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quinta-feira, 10 de julho de 2025

Cícero França: Olhar aziago

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Para o Santa Rita Júnior

A luz daquele olhar que eu canto no meu verso,
Daquele olhar sombrio, olhar triste, aziago,
Andar doente faz-me, andar soturno, imerso
Da mais austera dor no funerário lago.

Daquele olhar tristonho, olhar que eu amo e afago,
A luz mortiça e calma o riso faz inverso...
Faz-me o cálix sorver do amargor, trago a trago,
Do amargor mais cruel que existe no Universo...

Aquele olhar, silente, olhar duns negros olhos,
Banha-me da tristeza atroz do cemitério
E me enche do terror que infunde um mar de escolhos...

Tem-me feito sofrer e me fará, magoado,
Descer à sepultura, ao badalar funéreo
Dos sinos duma igreja em dobres de finado!...

Bahia — 1902.
(Necrotério d’Alma, 2ª edição, pág. 11, Curitiba, 1953.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Cícero Marcondes de França (1884 1908), paranaense nascido em Fazendinha, hoje Fazenda Rosal do Cruzeiro, município de Palmas PR, estudou no Colégio Paranaense, consta ter frequentado as Faculdades de Direito de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, mas não chegou a concluir o curso, foi poeta do simbolismo; ainda estudante colegial, escreveu seus primeiros versos e os publicou n’O Estudo, periódico cultural do Colégio; em 1905, já acometido da tuberculose e debilitado há algum tempo, em Curitiba, organizou e lançou o livro Necrotério d’Alma (obra composta por 26 sonetos) e, em União da Vitória, fundou o jornal O Rebate; ainda em 1905, a revista simbolista Stellario, de Curitiba, contou com a colaboração do poeta; consta das escassas notícias e notas biográficas a respeito de Cícero França que, em 1908, já tendo se afastado dos estudos e bastante enfraquecido, o poeta, acompanhado de seu irmão caçula Vespertino França, de doze anos de idade, em viagem de Curitiba com destino a Porto União, na passagem por Ponta Grossa hospedou-se no Hotel Palermo e ali faleceu na noite de 10 de julho; o relato de seu irmão é que conversaram até quase de madrugada e foram dormir: Vespertino, a testemunha do fato, foi a última e “a única pessoa presente nas suas derradeiras horas de vida” e a primeira pessoa que viu o corpo na manhã do dia seguinte; a obra Necrotério d’Alma, que teve uma segunda edição em 1953 (acrescida de Pedras Brutas, póstumo, incluindo outros 27 sonetos), nos revela o poeta simbolista e decadentista e assim também Cícero França é consignado quando citado por estudos e antologias literárias do simbolismo.