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domingo, 10 de maio de 2026

Tristan Corbière: Paris diurna

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

Ver grande esfera ao céu, rubro cobre a brilhar,
Caçarola imensa onde Deus faz cozinhar
Restos de refeição, maná, úmido em suor
Sempre o prato do dia e úmido de amor.

Os cachorros em círculo aguardam lá ao forno,
Ouve-se ao leve a carne rançosa a soar,
Os bêbados também, canecas a virar;
O mísero tirita esperando seu turno.

Crês assim que o sol frita para todo mundo
Gordas férvidas sobras que o ouro em cheio inunda?
Não, o caldo do cão em nós cai lá do céu.

Eles sob o luzir e nós sob a goteira,
Para nós, desventura sem a lumeeira.
Nossa própria substância é o saco de fel.


Paris diurne

Vois aux cieux le grand rond de cuivre rouge luire,
Immense casserole où le bon Dieu fait cuire
La manne, l'arlequin, l'éternel plat du jour:
C'est trempé de sueur et c'est trempé d'amour.

Les laridons en cercle attendent près du four,
On entend vaguement la chair rance bruire,
Et les soiffards aussi sont là, tendant leur buire;
Le marmiteux grelotte en attendant son tour.

Crois-tu que le soleil frit donc pour tout le monde
Ces gras graillons grouillants qu'un torrent d'or inonde?
Non, le bouillon de chien tombe sur nous du ciel.

Eux sont sous le rayon et nous sous la gouttière.
A nous le pot au noir qui froidit sans lumière.
Notre substance à nous, c'est notre poche à fiel.
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874, Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Théophile Gautier: A caravana

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

A caravana humana ao Saara do mundo,
Nesse trilhar dos anos sem mais retomada
Vai arrastando o pé em fogo solar queimada,
E bebendo nos braços o suor que inunda.

Ruge o grande leão e a tormenta retumba:
No horizonte que foi, nem minarete ou torre;
Só uma sombra lá está, a do abutre que percorre
O céu a procurar a sua presa imunda.

Caminha sempre em frente e eis que ela se defronta
Com um algo de verde para o qual se aponta:
É um bosque de ciprestes de pedras alvéreas.

Deus, pra vos repousar no deserto do tempo,
Assim como os oásis, fez os cemitérios:
Deitai-vos e dormis andantes sem alento.

Théophile Gautier

La Caravane

La caravane humaine au Sahara du monde,
Par ce chemin des ans qui n'a pas de retour,
S'en va traînant le pied, brûlée aux feux du jour,
Et buvant sur ses bras la sueur qui l'inonde.

Le grand lion rugit et la tempête gronde;
A l'horizon fuyard, ni minaret, ni tour;
La seule ombre qu'on ait, c'est l'ombre du vautour,
Qui traverse le ciel cherchant sa proie immonde.

L'on avance toujours, et voici que l'on voit
Quelque chose de vert que l'on se montre au doigt:
C'est un bois de cyprès semé de blanches pierres.

Dieu, pour vous reposer, dans le désert du temps,
Comme des oasis, a mis les cimetières:
Couchez-vous et dormez voyageurs haletants.
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Théophile Gautier (1811 1872), francês de Tarbes, matriculado como aluno interno do Collège Louis-le-Grand, Paris, logo o abandonou, ingressou como estudante externo no Collège Charlemagne [também em Paris] foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; criança precoce, desde os cinco anos fez suas primeiras leituras: Robinson Crusoe, Paul et Virginie ...; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou pelo romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; em diferentes períodos trabalhou e/ou colaborou nos periódicos La Chronique de Paris, La Presse [primeiro responsável pela crítica de arte], Moniteur Universel [crítico de arte e espetáculo], Le Figaro, La Caricature, Musée des Familles, Revue de Paris [co-proprietário], Revue des Deux Mondes, revue La France littéraire, Le Pays, L’Artist, L'Entr'acte [foi diretor] e outros; andejou por várias regiões francesas e várias cidades da Inglaterra, Holanda, Alemanha, Argélia, Itália, Espanha, Grécia, Egito, regiões da Ásia menor, Rússia, produzindo relatos de viagem; suas obras: Poésies (livro de estréia, 1830), La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Les Jeunes: France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mor (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852 e várias edições incluindo novos poemas), Voyage en Italie (relatos de viagem, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867), Histoire du Romantisme [as dernière œuvre, inachevée] (1874) e outros títulos; Théophile Gautier conviveu literariamente com Gérard de Nerval, Victor Hugo ..., escreveu e publicou profusamente ensaios, estudos, críticas [dramática, artística, literária], relatos de viagem, variedades, poemas, em jornais e revistas, muitos dos quais compilados em livros, em edições e reedições ampliadas; produziu libretos para ópera, dança, balé, entre estes Giselle, La Péri, Paquerette...; o poeta participou de associações literárias e de artes, dirigiu algumas, foi presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Alfred de Musset: O salgueiro

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

Alva estrela da tarde e arauto distante,
Cuja fronte a luzir vem dos véus do poente,
De teu palácio azul, um seio do firmamento,
Que vês no prado em teu mirante?

A tormenta se afasta, os ventos amainados 
Chora sobre a charneca o bosque irrequieto;
A falena dourada, em seu leve trajeto,
Transpõe os campos perfumados.
Que buscaria no torpor bucólico?
Pelos montes, porém, eu te vejo descer;
Tu partindo a sorrir, amiga melancólica,
E teu trêmulo olhar a fim de fenecer.

Estrela, tu que desces em verde colina,
Triste lágrima em prata do manto da Treva,
Tu que o pastor andando ao longe descortinas
Enquanto vem passando o rebanho que leva 
Estrela, aonde vais por esta noite imensa?
Pelos juncos da margem buscas teu assento?
Aonde vais tão bela, à hora do silêncio,
Qual pérola a cair no fundo das correntes?
Ah! se deves morrer, lindo astro, e a cabeça
Vai imergir no mar os teus louros cabelos,
Antes de nos deixar, um só instante arrefece;
Não desças mais dos céus, estrela do desvelo!

Alfred de Musset

Le Saule

[extrait]

Pâle étoile du soir, messagère lointaine,
Dont le front sort brillant des voiles du couchant,
De ton palais d'azur, au sein du firmament,
Que regardes-tu dans la plaine?

La tempête s'éloigne, et les vents sont calmés.
La forêt, qui frémit, pleure sur la bruyère;
Le phalène doré, dans sa course légère,
Traverse les prés embaumés.
Que cherches-tu sur la terre endormie?
Mais déjà vers les monts je te vois t'abaisser;
Tu fuis, en souriant, mélancolique amie,
Et ton tremblant regard est près de s'effacer.

Étoile qui descends vers la verte colline,
Triste larme d'argent du manteau de la Nuit,
Toi que regarde au loin le pâtre qui chemine,
Tandis que pas à pas son long troupeau le suit,
Étoile, où t'en vas-tu, dans cette nuit immense?
Cherches-tu sur la rive un lit dans les roseaux?
Où t'en vas-tu si belle, à l'heure du silence,
Tomber comme une perle au sein profond des eaux?
Ah! si tu dois mourir, bel astre, et si ta tête
Va dans la vaste mer plonger ses blonds cheveux,
Avant de nous quitter, un seul instant arrête;
Étoile de l'amour, ne descends pas des cieux!

[...]
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

sábado, 1 de junho de 2024

Walt Whitman: Broadway


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[traduzido por José Lino Grünewald]

Que apressadas correntes humanas, ou de dia ou de noite!
Que paixões, ganhos, perdas, ardores, nadam em tuas águas!
Que redemoinhos de maldade, alegria e tristeza, te contêm!
Que curiosos olhares interrogativos cintilações de amor!
Olhar irônico, inveja, desdém, menosprezo, esperança, aspiração!
Tu és portal tu és arena tu, da miríade de extensas linhas e
grupos!
(Apenas tuas lajes, parapeitos, fachadas podem contar suas histórias
inimitáveis;
Tuas ricas janelas e enormes hotéis tuas amplas calçadas;)
Tu dos infindos pés de passo curto, deslizando, arrastando!
Tu, como o próprio mundo multicolorido como a infinita, fértil e
escarnecedora vida!
Tu disfarçada, grandiosa, indizível exibição e lição!

Walt Whitman

Broadway

What hurrying human tides, or day or night!
What passions, winnings, losses, ardors, swim thy waters!
What whirls of evil, bliss and sorrow, stem thee!
What curious questioning glances glints of love!
Leer, envy, scorn, contempt, hope, aspiration!
Thou portal thou arena thou of the myriad long-drawn lines and
groups!
(Could but thy flagstones, curbs, facades, tell their inimitable tales;
Thy windows rich, and huge hotel thy side-walks wide;)
Thou of the endless sliding, mincing, shuffling feet!
Thou, like the parti-colored world itself like infinite, teeming,
mocking life!
Thou visor'd, vast, unspeakable show and lesson!
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Walt Whitman (1819 1892), nascido em Huntington USA, foi poeta, jornalista e ensaísta; desde os onze anos trabalhou com serviços de tipografia e edição de jornais e atuou na imprensa da época; escreveu e publicou Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de Relva, primeira edição em 1855 e, depois, mais uma dezena de edições com modificações e acréscimo de outros poemas), Drum-Taps (1865), Democratic Vistas (1871) e outros títulos; Whitman é considerado por muitos estudiosos como o "pai do verso livre".

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Walt Whitman: A Ti, Ó Democracia


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[traduzido por José Lino Grünewald]

Venha, farei o continente indissolúvel,
Farei a mais esplêndida raça sobre a qual o sol jamais brilhou,
Farei divinas terras magnéticas,
Com o amor dos camaradas,
Com o amor de toda vida dos camaradas.

Plantarei o companheirismo copioso como árvores ao longo de todos
os rios da América e ao longo das margens dos grandes lagos e por todas as pradarias,
Farei cidades inseparáveis, cada uma com os braços em volta do
pescoço da outra,
Pelo amor de camaradas,
Pelo másculo amor de camaradas.

A ti, isto de mim, Ó Democracia, a fim de servi-la ma femme!
A ti, a ti estou trinando estas canções.

Walt Whitman

For You O Democracy

Come, I will make the continent indissoluble,
I will make the most splendid race the sun ever shone upon,
I will make divine magnetic lands,
With the love of comrades,
With the life-long love of comrades.

I will plant companionship thick as trees along all the rivers of 
America, and along the shores of the great lakes, and all over the prairies,
I will make inseparable cities with their arms about each other’s necks,
By the love of comrades,
By the manly love of comrades.

For you these from me, O Democracy, to serve you ma femme!
For you, for you I am trilling these songs.
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Walt Whitman (1819 1892), nascido em Huntington USA, foi poeta, jornalista e ensaísta; desde os onze anos trabalhou com serviços de tipografia e edição de jornais e atuou na imprensa da época; escreveu e publicou Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de Relva, primeira edição em 1855 e, depois, mais uma dezena de edições com modificações e acréscimo de outros poemas), Drum-Taps (1865), Democratic Vistas (1871) e outros títulos; Whitman é considerado por muitos estudiosos como o "pai do verso livre".

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Lautréamont: Os Cantos de Maldoror [excerto]


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[traduzido por José Lino Grünewald]

(Canto primeiro — estrofe 2)

Leitor, talvez seja o ódio que você queira que eu invoque no início desta obra! Quem lhe diz que você não torcerá o nariz, banhado em inúmeras voluptuosidades, tal como queira, com suas narinas orgulhosas, grandes e estreitas, revirando o ventre, como um tubarão, no ar belo e, negro, como se você compreendesse a importância deste ato e a importância não menor de seu legítimo apetite, lentamente e majestosamente, as emanações vermelhas? Eu lhe asseguro, elas irão alegrar os dois buracos informes de teu museu hediondo, ó monstro, se todavia você antes se dedicasse a respirar três mil vezes seguidas a maldita consciência do Eterno! Tuas narinas que ficarão desmesuradamente dilatadas de satisfação inefável, de êxtase imóvel, não vão pedir qualquer coisa de melhor ao espaço, de ter vindo embalsamado tal como perfumes e incensos; pois elas estarão saciadas de uma felicidade total, como os anjos que moram na paz e magnificência de céus aprazíveis.

Lautréamont

(Les Chants de Maldoror:
Chant premier — strophe 2)

Lecteur, c'est peut-être la haine que tu veux que j'invoque dans le commencement de cet ouvrage! Qui te ditque tu n'en renifleras pas, baigné dans d'innombrables voluptés, tant que tu voudras, avec tes narines orgueilleuses, larges et maigres, en te renversant de ventre, pareil à un requin, dans l'air beau et noir, comme si tu comprenais l'importance de cet acte et l'importance non moindre de ton appétit légitime, lentement et majestueusement, les rouges émanations? Je t'assure, elles réjouiront les deux trous informes de ton museau hideux, ô monstre, si toutefois tu t'appliques auparavant à respirer trois mille fois de suite la conscience maudite del'Éternel! Tes narines, qui seront démesurément dilatées de contentement ineffable, d'extase immobile, ne demanderont pas quelque chose de meilleur à l'espace, devenu embaumé comme de parfums et d'encens; car, elles seront rassasiées d'un bonheur complet, comme les anges qui habitent dans la magnificence et la paix des agréables cieux.
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Conde de Lautréamont (1846 1870), pseudônimo literário de Isidore Lucien Ducasse, uruguaio de Montevidéu, educado por jesuítas, aos quatorze anos embarcou para a França e ali se tornou aluno interno do Liceu Imperial de Tarbes e, depois, do de Pau, estudou letras e ciências [Retórica e Filosofia] e foi poeta; suas obras: Les Chants de Maldoror (Os Cantos de Maldoror [I, II, III, IV, V e VI], 1869) e Poésies (em dois fascículos, textos em prosa de natureza ensaística, 1870); consta que André Breton (1896 1966), escritor tido como pai e fundador do Movimento Surrealista, considerava Lautréaumont, de certa forma, como um dos precursores do surrealismo; ainda em criança, Isidore Ducasse era tido como “de inteligência precoce, mas de saúde delicada” e que “rapidamente se destacou pelo seu humor bastante selvagem”; morreu jovem, a 24 de novembro de 1870; é o que se encontrou de sua biografia.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

José María de Heredia: Os Conquistadores


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[traduzido por José Lino Grünewald]

Tal voo dos falcões, lá do ninho natal,
Cansados de trazer misérias altaneiras,
Do Palos, de Moguer, capitães e guerreiros
Partiam, ébrios num sonho heroico e brutal.

Iam a conquistar fabuloso metal
Que guardava Cipango em minas sem fronteira,
E as antenas dos ventos alíseos à beira,
Nas margens de mistério em mundo ocidental.

Cada noite, esperando as alvoradas épicas,
O azul fosforescente pelo mar dos Trópicos
Encantava o dormir em miragem dourada;

Ou, pendidos na proa de alvas caravelas,
Eles viam subir por um céu ignorado
Do fundo do Oceano outras novas estrelas.

José María de Heredia

Les Conquérants

Comme un vol de gerfauts hors du charnier natal,
Fatigués de porter leurs misères hautaines,
De Palos de Moguer, routiers et capitaines
Partaient, ivres d'un rêve héroique et brutal.

Ils allaient conquérir le fabuleux métal
Que Cipango mûrit dans ses mines lointaines,
Et les vents alizés inclinaient leurs antennes
Aux bords mystérieux du monde occidental.

Chaque soir, espérant des lendemains épiques,
L'azur phosphorescent de la mer des Tropiques
Enchantait leur sommeil d'un mirage doré;

Ou penchés à l'avant des blanches caravelles,
Ils regardaient monter en un ciel ignoré
Du fond de l'Océan des étoiles nouvelles.

[Les Trophées — 1893]
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; José María de Heredia Girard (1842 1905), nascido em Cuba (à época, colônia espanhola), na localidade de Cafeyre, próxima a Santiago de Cuba, aos oito anos tendo sido mandado para a França, estudou e bacharelou-se no colégio dos padres vicentinos, o liceu Saint-Vincent, em Senlis, foi poeta, escritor e tradutor; em 1859, de volta a Cuba, Havana, onde permaneceu por pouco mais de um ano, aprofundou os conhecimentos da língua e da literatura espanhola, compôs seus primeiros poemas franceses que chegaram até nós, e depois retornou para Paris França; fez parte do grupo que tinha em Leconte de Lisle um “chefe e mestre”, e do qual também participavam François Coppée, Sully Prudhomme, Paul Verlaine e outros, todos se tornando conhecidos como os poetas do Parnaso, “os parnasianos”; José María de Heredia, que naturalizou-se francês, publicou Les Trophées (118 sonetos e 4 poemas de maior extensão, 1893) e no ano seguinte foi eleito membro da Academia Francesa; também foi diretor da Biblioteca do Arsenal, de Paris, e organizou uma edição crítica das obras do poeta André Chénier; Heredia é reconhecido como um dos poetas do Parnasianismo francês, embora com “produção pouco abundante, mas de boa qualidade”; além da já citada publicação de Les Tropheés, deixou-nos também sua obra esparsa em revistas literárias da época e contribuiu para a Revue de Deux Mondes, o Le Temps e o Journal des Débats; traduziu, do espanhol para o francês, A Verdadeira História da Conquista da Nova-Espanha — 3 volumes, do Capitão Bernal Diaz del Castillo (Véridique histoire de la conquête de la Nouvelle-Espagne — 3 volumes, 1877-1878).

sábado, 14 de outubro de 2023

Walt Whitman: Murmúrios da morte celestial

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[traduzido por José Lino Grünewald]

Murmúrios da morte celestial sussurrados ouvi,
Conversa labial da noite, coros sibilantes,
Passos ascendendo suavemente, aragens místicas vogavam amenas
e baixo,
Ondulações de rios invisíveis, marés de uma corrente a fluir, sempre a
fluir,
(Ou será o salpicar de lágrimas? as ilimitadas águas das lágrimas
humanas?)

Vejo, vejo exatamente em direção ao céu, imensas massas de nuvens,
Lugubremente devagar elas flutuam, silenciosamente dilatando-se
e mesclando-se,
Com às vezes uma entristecida estrela, remota e semi-eclipsada,
Aparecendo e desaparecendo.

(Provavelmente algum parto, algum nascimento solene e imortal;
Impenetrável sobre as fronteiras para os olhos,
Alguma alma está passando por cima.)

Walt Whitman

Whispers of heavenly death

Whispers of heavenly death murmur’d I hear,
Labial gossip of night, sibilant chorals,
Footsteps gently ascending, mystical breezes wafted soft and low,
Ripples of unseen rivers, tides of a current flowing, forever flowing,
(Or is it the plashing of tears? the measureless waters of human
tears?)

I see, just see skyward, great cloud-masses,
Mournfully slowly they roll, silently swelling and mixing,
With at times a half-dimm’d sadden’d far-off star,
Appearing and disappering.

(Some parturition rather, some solemn immortal birth;
On the frontiers, to eyes impenetrable,
Some soul is passing over.)
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Walt Whitman (1819 1892), nascido em Huntington USA, foi poeta, jornalista e ensaísta; desde os onze anos trabalhou com serviços de tipografia e edição de jornais e atuou na imprensa da época; escreveu e publicou Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de Relva, primeira edição em 1855 e, depois, mais uma dezena de edições com modificações e acréscimo de outros poemas), Drum-Taps (1865), Democratic Vistas (1871) e outros títulos; Whitman é considerado por muitos estudiosos como o "pai do verso livre".

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Edgar Allan Poe: O Coliseu


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[traduzido por José Lino Grünewald]

Signo da Roma antiga! Rico relicário
De grandioso contemplar entregue ao Tempo
Por séculos sepultos de poder e pompa!
Afinal afinal depois de tantos dias
De penoso peregrinar e sede ardente
(Sede das fontes de saber que em ti ficaram),
Ajoelho-me, um homem humilde e mudado,
No meio de tuas sombras, e bebo dentro
Da própria alma tua grandeza, glória e trevas!

Imensidão! e Idade! e Memórias de Outrora!
Silêncio! e Tristeza! e uma Noite difusa!
Sinto-vos neste instante sinto-vos na força
Ó enlevos infalíveis, nem Rei da Judéia
Jamais os ensinou nos jardins de Getsêmani!
Ó encantos mais pujantes, que a Caldéia em êxtase
Jamais arrebatou lá das estrelas tranqüilas!

Aqui, onde caiu um herói, cai uma coluna!
Aqui, onde a águia mimética luziu em ouro,
Um vigia à noite contém o morcego negro!
Aqui, onde as damas romanas, cabelos dourados
Ondulavam ao vento, ondulam o cardo e o junco!
Aqui, onde em trono de ouro flanava o monarca,
Desliza, espectro, até sua mansão de mármore,
Pela lívida luz da lua em corno, aceso
O silente e veloz lagarto das lápides!

Mas ficam! muros arcadas cobertas de hera
Os plintos em pó úmidos e pretos fustes
Vagos entablamentos frisos desagregados
Cornijas em pedaços o caos a ruína
Estas pedras ai! estas pedras pardas são todas
Todas elas da fama, e o colossal legado
Por horas corrosivas ao Destino e a Mim?

“Nem tudo” os Ecos me respondem “nem tudo!
“Sons altos e proféticos, erguem-se sempre
“De nós e da Ruína até o conhecimento,
“Tal qual a melodia de Mêmnon ao Sol.
“Regemos almas de homens do poder regemos
“Com um vaivém despótico mentes imensas.
“Não somos impotentes nós, pálidas pedras.
“Todo o nosso poder não se foi nem a fama
“Nem toda a mágica de nosso alto renome
“Nem toda maravilha que aqui nos rodeia
“Nem todos os mistérios que em nós permanecem
“Nem todas as memórias que pairam acima
“E estão girando em torno a nós qual vestuário
“Guarnecendo-nos num manto maior que a glória.”

Edgar Allan Poe

The Coliseum

Type of the antique Rome! Rich reliquary
Of lofty contemplation left to Time
By buried centuries of pomp and power!
At length at length after so many days
Of weary pilgrimage and burning thirst,
(Thirst for the springs of lore that in thee lie,)
I kneel, an altered and an humble man,
Amid thy shadows, and so drink within
My very soul thy grandeur, gloom, and glory!

Vastness! and Age! and Memories of Eld!
Silence! and Desolation! and dim Night!
I feel ye now I feel ye in your strength
O spells more sure than e’er Judaean king
Taught in the gardens of Gethsemane!
O charms more potent than the rapt Chaldee
Ever drew down from out the quiet stars!

Here, where a hero fell, a column falls!
Here, where the mimic eagle glared in gold,
A midnight vigil holds the swarthy bat!
Here, where the dames of Rome their gilded hair
Waved to the wind, now wave the reed and thistle!
Here, where on golden throne the monarch lolled,
Glides, spectre-like, unto his marble home,
Lit by the wanlight wan light of the horned moon,
The swift and silent lizard of the stones!

But stay! these walls these ivy-clad árcades
These mouldering plinths these sad and blackened shafts
These vague entablatures this crumbling frieze
These shattered cornices this wreck this ruin
These stones — alas! these gray stones are they all
All of the famed, and the colossal left
By the corrosive Hours to Fate and me?

“Not all” the Echoes answer me “not all!
“Prophetic sounds and loud, arise forever
“From us, and from all Ruin, unto the wise,
“As melody from Memnon to the Sun.
“We rule the hearts of mightiest men we rule
“With a despotic sway all giant minds.
“We are not impotent we pallid stones.
“Not all our power is gone not all our fame
“Not all the magic of our high renown
“Not all the wonder that encircles us
“Not all the mysteries that in us lie
“Not all the memories that hang upon
“And cling around about us as a garment,
“Clothing us in a robe of more than glory.”
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Edgar Allan Poe (1809 1849), norte-americano nascido em Boston — Massachusetts, foi escritor, contista, romancista, poeta, crítico literário, conferencista e editor; Poe, órfão de mãe e com o pai abandonando a família, foi acolhido por família rica, o que lhe possibilitou boa educação; ingressou na Universidade de Virgínia, se destaca em Línguas Românicas antigas e modernas (neolatinas); envolveu-se com mulheres, bebidas e jogos, se endividou, saiu da faculdade, engajou-se no exército, de onde foi expulso por indisciplina; escreveu abundantemente e publicou seus textos em uma diversidade de jornais e revistas, ganhou diversos prêmios; foi colaborador no jornal Messenger, de Richmond, no qual chegou a ser editor; também foi editor associado da revista Burton’s Gentleman’s Ma­gazine e da Graham’s, além de ter tido acesso e contribuído em outros periódicos; Edgar Allan Poe, escrevendo contos de terror, policiais e de mistério, é tido como inaugurador de um novo gênero e estilo na literatura, sendo considerado figura expoente do romantismo americano e tendo influenciado e inspirado muitos escritores Melville, Conan Doyle, Agatha Christie, Chesterton, Jorge Luis Borges e outros; suas obras: em poesia, Tamerlane and other Poems (1827), Al Aaraaf (1829), The City in the Sea (1831), Silence (1840), Lenore (1843), The Raven (O Corvo, 1845), A Dream Within a Dream (1849), Annabel Lee (1849), The Bells (1849), em prosa, contos, Berenice (1835), The Fall of the House of Usher (A Queda da Casa de Usher, 1839), The Murders in the Rue Morgue (Os Assassinatos da Rua Morgue, 1841), The Pit and the Pendulum (O Poço e o Pêndulo, 1842), The Gold-Bug (O Escaravelho de Ouro, 1843), The Black Cat (O Gato Preto, 1843), The Cask of Amontillado (O Barril Amontillado, 1846), The philosophy of composition (A Filosofia da Composição — ensaio-análise do poema O Corvo, 1846), e outros textos em verso e prosa.