terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Luís Canelo de Noronha: Soneto joco-sério

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A um menino, que estando colhendo flores picou um Áspide, e morreu

Para que colhe flores meu meni
Neste Campo, ou jardim, ou nesse pra
Se lhe há de suceder u’a desgra
De morder-lhe na mão um cruel bi?

Pero se é um menino pequeni
Não lhe estava melhor o papar pa?
Se quer flores, não basta a sua gra?
Para graça não sobre o ser boni?

Mas se pois é pensão a desventu
De quem nasce gentil, que quer ago?
Pague à morte, meu belo, o seu tribu;

Nesse canto porém enquanto cho
Namorada assim minha triste Mu
As exéquias lhe faz por este mo


Nota de Péricles Eugênio da Silva Ramos: Amputam-se, no soneto, as sílabas átonas finais. Há precedentes catalães para o verso cortado, que o poeta servilhano Alfonso Alvarez de Soria usou em princípios do século XVII com finalidades humorísticas; Cervantes empregou versos de “cabo roto” no Quixote. Filipe Nunes, em 1615, referia-se em nossa língua a esses versos, que ele chamava “truncados”. Vide Tomás Navarro, Métrica Española, 193; o verso 12 era de início “Que as exéquias porém, enquanto cho“ e o verso 14 trazia “Este canto” em vez de “As exéquias”. As emendas são em letra diferente.
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Poesia Barroca, Antologia Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1967, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; sobre Luís Canelo de Noronha (1689 —  ? ), poeta, consta nos mini-traços biobibliográficos deste Poesia Barroca, ter nascido ou em Vila Nova, no Reino, ou em Penedo, alternativas estas consignadas por Pedro Calmon e apoiadas em documentos da época; Péricles Eugênio faz constar ainda que “Luís Canelo é poeta culto e inquieto, capaz do uso de figuras como as dos versus applicati, de latinismos, de agudezas, de construir sonetos joco-sérios dos melhores dos Esquecidos (Academia Brasílica dos Esquecidos), inclusive alguns com rima em apa, epa, ipa, opa e upa, ou acha, echa, icha, ucha e de variar as formas métricas além dos sonetos e décimas, chegando às redondilhas de quebrados, aos madrigais, etc. É, por vários aspectos, principalmente formais, dos poetas mais ricos dos códices dos Esquecidos.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Alphonsus de Guimaraens: Canção das núpcias

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Que céu tão cheio de véus de noivas,
Que céu tão cheio de véus de viúvas...
Oh luar sublime, com quem te noivas?
Oh noite triste, de quem te enviúvas?

Senhora minha, deusa das noivas,
De cauda branca, de brancas luvas,
Por que de flores roxas engoivas
As tranças negras da cor das uvas?

Olhos tão cheio de véus de noivas,
Olhos tão cheio de véus de viúvas...
Senhora minha, com quem te noivas?
Antes eu diga  de quem te enviúvas?

Não chores nunca, deusa das noivas!
Um céu turvado, cheio de chuvas...
Por que de prantos roxos engoivas
Os olhos negros da cor das uvas?

Dona mística (1899)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Simbolismo, Seleção e Prefácio de Lauro Junkes, 2006, Global Editora e Distribuidora, São Paulo — SP; Alphonsus de Guimaraens (1870 1921), pseudônimo de Afonso Henrique da Costa Guimarães, mineiro de Ouro Preto, cursou Direito, foi juiz, promotor de justiça, poeta e escritor; colaborou nos jornais Diário Mercantil, Comércio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de São Paulo e A Gazeta; principais obras publicadas: Setenário das Dores de Nossa Senhora (1899), Câmara Ardente (1899), Dona Mística (1899), Kyriale (1902), Mendigos (prosa, 1920), Pauvre Lyre (1921) e, postumamente, Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte (1923), Escada de Jacó e Púlvis.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Stéphane Mallarmé: Introduzir-me em tua história . . . [soneto] *

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[traduzido por José Lino Grünewald]

Introduzir-me em tua história
Será como herói espantado
Se o calcanhar tinha tocado
Uma relva do território

Às geleiras atentatório
Desconheço o ingênuo pecado
Ao qual não terias vedado
Rir bem alto sua vitória

Diga se não estou feliz
Nos eixos raios e rubis
De ver no ar que o fogo açoda


Com os reinados em ramagens
Como morrer púrpura a roda
No vir das minhas carruagens


Stéphane Mallarmé

M'introduire dans ton histoire...

M'introduire dans ton histoire
C'est en héros effarouché
S'il a du talon nu touché
Quelque gazon de territoire

A des glaciers attentatoire
Je ne sais le naïf péché
Que tu n'auras pas empêché
De rire très haut sa victoire

Dis si je ne suis pas joyeux
Tonnerre et rubis aux mouyeux
De voir en l'air que ce feu troue

Avec des rouyaumes épars
Comme mourir pourpre la roue
Du seul vespéral de me chars.


* Comentário de José Lino Grünewald: Este soneto de oito sílabas foi publicado em La Vogue, nº 8, de 13 a 20 de junho de 1886. A ausência de pontuação, novamente, e um tipo de sintaxe que parece insinuar o convite para o poema ser lido de uma só golfada. E, nessa toada de leitura, um mar de exegeses — quase todas em torno da sugestão do erotismo.
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Poemas — Stéphane Mallarmé, Tradução e Notas de José Lino Grünewald, (Saraiva de Bolso), 2015, Editora Nova Fronteira, Rio deJaneiro — RJ; Stéphane Mallarmé (1842  1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Mário de Sá-Carneiro: O recreio

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Na minha alma há um balouço
Que está sempre a balouçar 
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...

— E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia,
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...

— Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

— Mudar a corda era fácil...
Tal idéia nunca tive...

Paris, outubro de 1915

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Poesia Reunida — Mário de Sá-Carneiro — Texto Integral, Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Edições Saraiva de Bolso, 2014, Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português de Lisboa, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, depois, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; são de sua autoria Amizade peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Manoel Botelho de Oliveira: Rosa, e Anarda

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Soneto XX

Rosa da formosura, Anarda bela
igualmente se ostenta como a rosa;
Anarda mais que as flores é fermosa,
mais fermosa que as flores brilha aquela.

A rosa com espinhos se desvela,
arma-se Anarda espinhos de impiedosa;
na fronte Anarda tem púrpura airosa,
a rosa é dos jardins purpúrea estrela.

Brota o carmim da rosa doce alento,
respira olor de Anarda o carmim breve, **
ambas dos olhos são contentamento:

mas esta diferença Anarda teve:
que a rosa deve ao sol seu luzimento,
o sol seu luzimento a Anarda deve.



Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* O soneto compara Anarda com a rosa, para só no terceto final apontar a diferença entre uma e outra: o Sol ilumina a rosa, mas Anarda é que empresta o brilho ao Sol...
** entenda-se: o carmim da rosa produz perfume, e assim também o breve carmim (boca) de Anarda.
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Poesia Barroca, Antologia  Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1967, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Manoel Botelho de Oliveira (1636 1711), baiano de Salvador, formou-se em Direito na Universidade de Coimbra Portugal e, de volta ao Brasil, exerceu advocacia, dedicou-se à política e foi poeta barroco; Manoel Botelho escreveu versos na forma de sonetos, madrigais, décimas, redondilhas, romances, oitavas e silvas; tendo sido cultor da poesia de Góngora, é tido como o maior representante do culteranismo gongórico no Brasil; bibliografia: Música do Parnasso (apresentado em quatro línguas: português, espanhol, italiano e latim, 1705).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Glauco Mattoso: Soneto formal [955]

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Discute-se qual gênero é mais puro
haicai, soneto, glosa, oitava ou trova
e cada defensor mostra uma prova
que num o verso é solto e noutro, duro.

Uns acham que este aqui tem mais apuro,
enquanto aquele traz algo que inova;
alguns mais radicais chamam de "cova",
"prisão", "túnel do tempo" e "quarto escuro".

Nem oito, nem oitenta: a poesia
é boa ou má conforme o testemunho
que dá de seu autor enquanto a cria.

Se sai-me redondinha, é que meu punho
encaixa em cada sílaba outro dia
vivido, sem minuta nem rascunho.

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As Mil e Uma Línguas  Série Mattosiana, Volume 3, 2008, Dix Editorial — Annablume, São Paulo — SP; Glauco Mattoso, ou Pedro José Ferreira da Silva, nascido em 1951, paulista e paulistano, é poeta, ensaísta, ficcionista e articulista em diversas mídias; seu pseudônimo e nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); cursou Biblioteconomia (Escola de Sociologia e Política, São Paulo) e Letras Vernáculas, na USP São Paulo; tem publicado uma extensa obra poética e outros textos: Jornal Dobrábil — de 1977 a 1981 (compilado em um único volume pela Iluminuras, São Paulo SP, em 2001), Revista Dedo Mingo (duas parcelas, 1982, completa o Jornal Dobrábil), Memórias de um Pueteiro: As Melhores Gozações de Glauco Mattoso (poemas, 1982, Edições Trote, Rio de Janeiro RJ), Línguas na Papa (poemas, 1982, Edições Pindaíba, São Paulo SP), Paulisséia Ilhada: Sonetos Tópicos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo SP), Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo SP), Panacéia — Sonetos Colaterais (2000, Nankin Editorial, São Paulo SP), Melopéia: Sonetos Musicados (2001, compact-disc, com diversos compositores e intérpretes, Rotten Records, São Paulo SP), O que é: Poesia Marginal (ensaio, 1981, Editora Brasiliense, São Paulo SP), O que é: Tortura (ensaio, 1984, Editora Brasiliense, São Paulo SP), O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil (ensaio, 1985, EMW Editores, São Paulo SP) etc etc etc, e bota etecétera nisso; colaborou em vários jornais e revistas da imprensa alternativa e em diversos periódicos literários, e ainda colabora; Pedro José Ferreira da Silva, hoje bancário aposentado, foi funcionário do Banco do Brasil; é sonetista inveterado.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Baudelaire: O espelho

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XL

                    Um sujeito medonho entra e se olha no espelho.
                     Por que é que você se olha no espelho, se o que vê não pode lhe causar senão desgosto?
                    O homem me respondeu:
                    — Monsieur, segundo os imortais princípios de 1789, todos os homens têm os mesmo direitos. Tenho, portanto, o direito de me olhar, com gosto ou desgosto, e isso compete apenas à minha vontade.
                    Em nome do bom senso eu tinha com certeza razão; mas do ponto de vista da lei, ele não estava, em absoluto, errado.

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Baudelaire

XL

Le miroir

Un homme épouvantable entre et se regarde dans la glace.

 Pourquoi vous regardez-vous au miroir, puisque vous ne pouvez vous y voir qu'avec déplaisir?

L'homme épouvantable me répond:  Monsieur, d'après les immortels principes de 89, tous les hommes sont égaux en droits; donc je possède le droit de me mirer; avec plaisir ou déplaisir, cela ne regarde que ma conscience.

Au nom du bon sens, j'avais sans doute raison; mais, au point de vue de la loi, il n'avait pas tort.
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821  1867), nascido em Paris  França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Hilda Hilst: A voz que diz o verso e a cantiga . . .

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VII

A voz que diz o verso e a cantiga
Tem repetido mil vezes que te ama.
A voz amante, amor, não tem medida
E lenta é quase sempre leve e branda.

Que não conheça o grito a minha garganta
Porque bem sei quem és e de onde vens.
E nem penses que a mim me desencantam
As filhas que eu não tive e que tu tens.

Amo-te a ti e a todos esses bens.
Fosse maior o amor tu saberias
Que se te amo a ti, amo tuas filhas.
(Se as vejo são meus olhos que te vêem).

Amo-te tanto. Sendo breve a vida,
Impossível a volta àquela infância,
Que seja a tua ternura desmedida
Como se eu fosse também... uma criança.

(Roteiro do Silêncio, 1959 —
 Sonetos que não são — VII)

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Exercícios — Hilda Hilst, organizado por Alcir Pécora, 2002, Editora Globo, São Paulo SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930  2004), paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Da Morte. Odes Mínimas (1980), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios (2002) entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio (1992), Cartas de um sedutor (1991) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volume I (2000); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas  SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a séde do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Luís Carlos: Triunfo máximo

Triunfar na vida não é ter vencido
Esquadras ou exércitos em luta;
Nem pelo emprego hostil da força bruta
Calcar o pusilânime oprimido.

Não é ter ao pináculo subido
Do trono real, em púrpura impoluta;
Nem ter nome que o mundo repercuta
Com glória, boca em boca, ouvido a ouvido.

Não é sobreviver à dor terrena,
Não é transpor o mar, subir o Pindo
Galgar o abismo, a noite, a imensidade.

É ter nas mãos grilhões de alheia pena
E as mãos abrir, magnânimas, sorrindo
Para o perdão e para a liberdade!

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Poesias Escolhidas — Luís Carlos, Preâmbulo de Luís Carlos Junior e Apresentação/Prefácio de Lasinha Luís Carlos, 1970, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

sábado, 21 de janeiro de 2017

José Oiticica: A volta

Fogo apagado! Um lar vazio! O ermo é tão mudo
Que ecoa a água a pingar de um furo da torneira.
A alma antiga morreu, o musgo alastra em tudo
As alfaias estão sob um lençol de poeira.

Velha casa! Ao tornar de longe, eu te saúdo!
Quantos sonhos guardais, ó caibros de madeira!
Quanto idílio escutaste ó paredão desnudo!...
Dói muito ver chegada a estância derradeira...

Brocadas de cupim, essas vigas parecem
Um símbolo de ruína e esses muros fendidos,
A cada passo meu, pelo assoalho, estremecem.

Venho, ó casa, buscar a paz do teu abrigo,
Para chorar, sozinho, a dor dos tempos idos,
E, à sombra da saudade, envelhecer contigo!

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Poesias Selectas (vários autores) Compiladores: Odette F. Pitta e Daniel L. A. César, sem data *, Imprensa Methodista, São Paulo SP; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882 1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes no Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os periódicos Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) e Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa, e colaborou com a imprensa operária libertária, através dos jornais A Lanterna, Spartacus, Livre Pensador, A Plebe, e a revista A Vida; obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955), e outros títulos.

* Nota: neste Poesias Selectas, em sua primeira página em branco, há um manuscrito com autógrafo e a data 16.2.923.