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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Magalhães de Azeredo: Às Abelhas

 
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Louras abelhas que Platão amava,
que lhe pousáveis na divina boca,
onde o prestígio da Palavra os séculos
                    inda seduz eterno;

abelhas d’ouro, esbeltas e operosas,
em cujo império de opulência e de ordem
acaso o gérmen da ideal República
                    seu gênio descobrira;

vós, que talvez, com o lépido zumbido,
imitais a harmonia das esferas,
e menos caras ao supremo Espírito
                    não sois do que as estrelas;

vós, que o desejo insaciável tendes
da luz, da cor, do aroma e da beleza,
e a vida breve consumis, miríades
                    de flores afagando;

vós, que trazeis no imponderável corpo
o diáfano pólen resplendente
do Sol, que vos fascina e atrai, qual rútila,
                    ígnea Flor do Infinito;

em torno a mim voai, leves coreias
formando; dai-me ao pensamento e ao verso
o ritmo encantador, suave límpido,
                    da vossa aérea dança;

dai-me o gosto sutil da formosura,
e a nunca extinta febre do trabalho,
que tão úteis a um tempo e tão poéticas
                    rara aliança! vos tornam.

Em meus lábios pousai (julgueis embora
ser inaudita presunção a minha
de pedir simplesmente os mesmos ósculos
                    que a Platão prodigastes),

em meus lábios pousai, para que claro
meu verbo tenha graça e melodia,
e à das imagens e paixões a música
                    das estrofes se case;

em meus lábios pousai, de mel ungi-os,
para que a Amada, quando os beije, neles
sentir não possa das bebidas lágrimas
                    a insistente amargura;

mas doces os meus lábios lhe pareçam,
doces do vosso cálido contato,
ainda que (perdoai-me, abelhas fúlgidas!)
                    não tanto como os dela...

(Odes e Elegias — 1904,
Roma: F. Centenari, pp. 11-14.)

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Magalhães de Azeredo — Série Essencial 38, Academia Brasileira de Letras, Organização de Haron Jacob Gamal, 2011, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Carlos Magalhães de Azeredo (1872 1963), carioca, fez seus primeiros estudos no Porto Portugal, complementados no Colégio São Luís, em Itu SP, formou-se na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP), foi advogado, diplomata, embaixador, jornalista, escritor e poeta; colaborou nos jornais paulistas Diário Popular, Gazeta Mercantil, O Estado de São Paulo, entre outros veículos informativos; obras: Alma Primitiva (contos, 1895), José de Alencar (ensaio, 1895), Procelárias (poesia, 1898), Baladas e Fantasias (contos, 1900), Homens e Livros (estudos, 1902), Horas Sagradas (poesia, 1903), Odes e Elegias (poesia, 1904), Vida e Sonho (poesia, 1919), Ariadne (conto, 1921), Casos do Amor e do Instinto (contos, 1924), O Eterno e o Efêmero (contos, 1936) etc.; na diplomacia exerceu funções no Uruguai, em Cuba, na Grécia, e no Vaticano, em Roma; Magalhães de Azeredo foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

domingo, 26 de dezembro de 2021

Magalhães de Azeredo: O Beijo

 
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Cousa tão simples, afinal, o beijo!
Simples como um olhar, como um aceno;
Mas que precioso vinho benfazejo
Nele se bebe ou que mortal veneno!

Quanto ele diz, em rápido lampejo!...
Leves carícias de um amor sereno,
Insistentes reclamos do desejo,
Triunfante expressão de gosto pleno...

E ora o sangue nas veias eletriza,
Ora as almas eleva e diviniza,
Num sagrado esplendor de preces mudas...

Beijo de mãe, beijo de irmã confiante,
Beijo faminto e cálido de amante...
Mas há também o beijo vil da Judas!

(Procelárias — 1898, Porto: Empresa
Literaria e Typographica, p.47.)

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Magalhães de Azeredo — Série Essencial 38, Academia Brasileira de Letras, Organização de Haron Jacob Gamal, 2011, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Carlos Magalhães de Azeredo (1872 1963), carioca, fez seus primeiros estudos no Porto Portugal, complementados no Colégio São Luís, em Itu SP, formou-se na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP), foi advogado, diplomata, embaixador, jornalista, escritor e poeta; colaborou nos jornais paulistas Diário Popular, Gazeta Mercantil, O Estado de São Paulo, entre outros veículos informativos; obras: Alma Primitiva (contos, 1895), José de Alencar (ensaio, 1895), Procelárias (poesia, 1898), Baladas e Fantasias (contos, 1900), Homens e Livros (estudos, 1902), Horas Sagradas (poesia, 1903), Odes e Elegias (poesia, 1904), Vida e Sonho (poesia, 1919), Ariadne (conto, 1921), Casos do Amor e do Instinto (contos, 1924), O Eterno e o Efêmero (contos, 1936) etc.; na diplomacia exerceu funções no Uruguai, em Cuba, na Grécia, e no Vaticano, em Roma; Magalhães de Azeredo foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Magalhães de Azeredo: Melancolia Crepuscular

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Quando se esconde o sol, e a tarde fria
desce envolvida em sua bruma escura,
mais pungente me acossa a má ventura,
e a tristeza me enluta mais sombria.

Da taciturna treva na clausura
desmaia a minha efêmera alegria;
de minha alma também some-se o dia:
com a noite a saudade se conjura.

Lembro o tempo, em que, livre e sossegado,
vivia sem paixões. Minha alma sente
quanto, do que já fui, estou mudado.

E entre lágrimas vejo, então, somente
mais lúgubre o presente, que o passado,
mais lúgubre o futuro que o presente.

(Memórias, AZEREDO, Carlos Magalhães de.
Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2003, p. 93.)

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Magalhães de Azeredo — Série Essencial 38, Academia Brasileira de Letras, Organização de Haron Jacob Gamal, 2011, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Carlos Magalhães de Azeredo (1872 1963), carioca, fez seus primeiros estudos no Porto Portugal, complementados no Colégio São Luís, em Itu SP, formou-se na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP), foi advogado, diplomata, embaixador, jornalista, escritor e poeta; colaborou nos jornais paulistas Diário Popular, Gazeta Mercantil, O Estado de São Paulo, entre outros veículos informativos; bibliografia: Alma Primitiva (contos, 1895), José de Alencar (ensaio, 1895), Procelárias (poesia, 1898), Baladas e Fantasias (contos, 1900), Homens e Livros (estudos, 1902), Horas Sagradas (poesia, 1903), Odes e Elegias (poesia, 1904), Vida e Sonho (poesia, 1919), Ariadne (conto, 1921), Casos do Amor e do Instinto (contos, 1924), O Eterno e o Efêmero (contos, 1936) etc.; na diplomacia exerceu funções no Uruguai, em Cuba, na Grécia, e no Vaticano, em Roma; Magalhães de Azeredo foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Magalhães de Azeredo: Estátua Mutilada

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De alvíssimo pentélico as formas divinas refulgem.
Certo, gerou-te a pátria da Beleza,

a Hélade eterna. Ó corpo sublime, que bárbaras garras
torpes te mutilaram atrozmente?

Psique, Afrodite ou Juno, quem quer que tu foste, sem pena
o martelo sacrílego feriu-te,

os brancos pés quebrou-te, rompeu-te os esplêndidos braços;
(onde essas mãos liriais foram dispersas?)

nívea petrina, seios em flor, belos flancos polidos
como urnas... nada, ah! nada te pouparam.

Somente o rosto. Intacto, sereno ele brilha. Sereno,
hierático, impassível, e perfeito.

Eram assim as Deusas. Tu és uma Deusa. Debalde
te ofenderam, debalde ignaras gentes

aqui te relegaram supina, nesta orla do bosque,
numa rústica e sórdida morada.

Debalde, ano após ano, por séculos lentos e escuros,
entre almas incapazes de entender-te,

de te sentir o arcano prestígio, dormiste em silêncio.
Tu sabias (as Deusas tudo sabem)

que eu de longínquas terras viria, de terras selvagens,
para te amar, ó Deusa, de joelhos...

Odes e Elegias — 1904, Roma: F.Centenari, p.21

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Magalhães de Azeredo — Série Essencial 38, Academia Brasileira de Letras, Organização de Haron Jacob Gamal, 2011, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Carlos Magalhães de Azeredo (1872 1963), carioca, fez seus primeiros estudos no Porto Portugal, complementados no Colégio São Luís, em Itu SP, formou-se na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP), foi advogado, diplomata, embaixador, jornalista, escritor e poeta; colaborou nos jornais paulistas Diário Popular, Gazeta Mercantil, O Estado de São Paulo, entre outros veículos informativos; bibliografia: Alma Primitiva (contos, 1895), José de Alencar (ensaio, 1895), Procelárias (poesia, 1898), Baladas e Fantasias (contos, 1900), Homens e Livros (estudos, 1902), Horas Sagradas (poesia, 1903), Odes e Elegias (poesia, 1904), Vida e Sonho (poesia, 1919), Ariadne (conto, 1921), Casos do Amor e do Instinto (contos, 1924), O Eterno e o Efêmero (contos, 1936) etc.; na diplomacia exerceu funções no Uruguai, em Cuba, na Grécia, e no Vaticano, em Roma; Magalhães de Azeredo foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Magalhães de Azeredo: Velhos Papéis

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Dormem ali, no pó do esquecimento,
Meus vãos amores e meus pobres versos,
Pérolas soltas e festões dispersos,
Do sol ao fogo e às cóleras do vento.

Ora os relembro, frio e desatento,
Com os olhos já sem pranto, em sono imersos;
Como relembram ânimos perversos
Um nobre culto, um belo sentimento...

E, expulso, como Adão, do paraíso,
Eu, pensando naqueles puros gozos,
Que na alma decaída já não cabem,

Sinto nos lábios um amargo riso;
Porque sou hoje um desses desditosos,
Quem nem riem porque chorar não sabem!

(Procelárias — 1898, Porto: Empresa
Literaria e Typographica, 1898, p.44.)

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Magalhães de Azeredo — Série Essencial 38, Academia Brasileira de Letras, Organização de Haron Jacob Gamal, 2011, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Carlos Magalhães de Azeredo (1872 1963), carioca, fez seus primeiros estudos no Porto Portugal, complementados no Colégio São Luís, em Itu SP, formou-se na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP), foi advogado, diplomata, embaixador, jornalista, escritor e poeta; colaborou nos jornais paulistas Diário Popular, Gazeta Mercantil, O Estado de São Paulo, entre outros veículos informativos; bibliografia: Alma Primitiva (contos, 1895), José de Alencar (ensaio, 1895), Procelárias (poesia, 1898), Baladas e Fantasias (contos, 1900), Homens e Livros (estudos, 1902), Horas Sagradas (poesia, 1903), Odes e Elegias (poesia, 1904), Vida e Sonho (poesia, 1919), Ariadne (conto, 1921), Casos do Amor e do Instinto (contos, 1924), O Eterno e o Efêmero (contos, 1936) etc.; na diplomacia exerceu funções no Uruguai, em Cuba, na Grécia, e no Vaticano, em Roma; Magalhães de Azeredo foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Magalhães de Azeredo: Estoicismo

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Ouve tu, homem bom! ouve, alma forte e pura!
Se a Vida destruiu teu santo ideal antigo;
Se teu pai te expulsou, como um torpe mendigo,
Por que fosses trilhar a rua da amargura;
Se a amante te traiu, num beijo de ternura;
Se te vendeu, sorrindo, o teu melhor amigo;
Se o déspota, da tua altivez em castigo,
Na prisão te deixou por leito a terra dura...
Não te queixes! não dês ao tirano e ao perverso
O prazer de escutar-te um ai... Consciência justa,
Tu podes, num só gesto, esmagar o universo!
Sofre, pois, mudo, sem um gemido mesquinho;
Envolve-te na Dor silenciosa e augusta,
Como num manto real de púrpura e de arminho!

(Procelárias — 1898, Porto:
Empresa Literaria e Typographica, p.20.)

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Magalhães de Azeredo — Série Essencial 38, Academia Brasileira de Letras, Organização de Haron Jacob Gamal, 2011, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Carlos Magalhães de Azeredo (1872 1963), carioca, fez seus primeiros estudos no Porto Portugal, complementados no Colégio São Luís, em Itu SP, formou-se na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP), foi advogado, diplomata, embaixador, jornalista, escritor e poeta; colaborou nos jornais paulistas Diário Popular, Gazeta Mercantil, O Estado de São Paulo, entre outros veículos informativos; bibliografia: Alma Primitiva (contos, 1895), José de Alencar (ensaio, 1895), Procelárias (poesia, 1898), Baladas e Fantasias (contos, 1900), Homens e Livros (estudos, 1902), Horas Sagradas (poesia, 1903), Odes e Elegias (poesia, 1904), Vida e Sonho (poesia, 1919), Ariadne (conto, 1921), Casos do Amor e do Instinto (contos, 1924), O Eterno e o Efêmero (contos, 1936) etc.; na diplomacia exerceu funções no Uruguai, em Cuba, na Grécia, e no Vaticano, em Roma; Magalhães de Azeredo foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.