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[traduzido por Gondin da Fonseca]
À memória de C.T.W.
Soldado que foi da Real Guarda Montada.
Morreu na Prisão de Sua Majestade, Reading, Berkshire
7 de julho de 1896.
I
Ele despira a túnica vermelha;
mas sangue púrpuro, encarnado,
sangue e vinho das mãos lhe gotejavam,
quando o viram, alucinado,
junto do leito dela, — o seu amor,
seu pobre amor apunhalado.
Ia andando entre os mais, e era cinzento
o traje velho que vestia.
Usava um gorro às listas, e o seu passo
ligeiro e alegre parecia.
Porém eu nunca vi homem que olhasse,
tão anelante, a luz do dia.
Jamais, jamais vi homem contemplar,
com tão profundo sentimento,
essa breve, essa estreita faixa azul
que os presos chamam firmamento:
e as nuvens brancas, velas cor de prata,
vogando no ar, flutuando ao vento!
Eu, com outras almas angustiadas, ia
andando em pátio separado,
a cismar qual o crime, grande ou leve,
por que o teriam condenado,
— quando alguém sussurrou atrás de mim:
"vão pendurar esse coitado!"
Jesus! as próprias grades da prisão
rodam, de súbito, em delírio!
Pesa o céu sobre mim, qual elmo de aço
que o Sol inflama, — ardente círio!
E a minha alma, de mágoas trespassada,
esquece, olvida o seu martírio.
Eu soube, então, a idéia lacerante
que o atormenta, e o faz correr,
e o faz olhar, tristonho, o céu radiante,
radiante, e alheio ao seu sofrer:
ele matou aquela que adorava,
— por causa disso vai morrer.
No entanto (ouvi!) cada um mata o que adora:
o seu amor, o seu ideal.
Alguns com uma palavra de lisonja,
outros com um frio olhar brutal.
O covarde assassina dando um beijo,
o bravo mata com um punhal.
Uns matam o Amor velhos;
outros, jovens;
(quando o amor finda, ou o
amor começa);
matam-no alguns com a mão do
Ouro, e alguns
com a mão da Carne, — a mão possessa!
E os mais bondosos, esses
apunhalam,
— que a morte, assim, vem mais
depressa.
[ . . . ]
The
Ballad of Reading Gaol*
In Memoriam
C. T. W.
Sometime Trooper oh the Royal Horse
Guards.
Obit H. M. Prision, Reading, Berkshire,
July 7th, 1896
I
He did not wear his scarlet
coat,
For blood and wine are red,
And blood and wine were on his
hands
When they found him with the
dead,
The poor dead woman whom he
loved,
And murdered in her bed.
He walked amongst the Trial
Men
In a suit of shabby grey;
A cricket cap was on his head,
And his step seemed light and
gay;
But I never saw a man who
looked
So wistfully at the day.
I never saw a man who looked
With such a wistful eye
Upon that little tent of blue
Which prisoners call the sky,
And at every drifting cloud
that went
With sails of silver by.
I walked, with other souls in
pain,
Within another ring,
And was wondering if the man
had done
A great or little thing,
When a voice behind me
whispered low,
"That fellow's got to
swing."
Dear Christ! the very prison
walls
Suddenly seemed to reel,
And the sky above my head
became
Like a casque of scorching
steel;
And, though I was a soul in
pain,
My pain I could not feel.
I only knew what hunted
thought
Quickened his step, and why
He looked upon the garish day
With such a wistful eye;
The man had killed the thing
he loved,
And so he had to die.
Yet each man kills the thing
he loves,
By each let this be heard,
Some do it with a bitter look,
Some with a flattering word,
The coward does it with a
kiss,
The brave man with a sword!
Some kill their love when they
are young,
And some when they are old;
Some strangle with the hands
of Lust,
Some with the hands of Gold:
The kindest use a knife,
because
The dead so soon grow cold.
[ . . . ]
* Nota do tradutor Gondin da Fonseca: Texto da 7ª edição da "Balada". Leonard Smithers, Londres, 1899.
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O Livro de Ouro da Poesia de Angústia,
Sofrimento e Morte — edição bilíngue (diversos autores), tradução de Gondin da Fonseca,
sem data, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Oscar Wilde (1854 — 1900), irlandês de Dublin,
Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, estudou no Trinity College Dublin e na Universidade
de Oxford, desde jovem falava fluentemente o francês e o alemão, foi poeta, dramaturgo,
contista, novelista, romancista e jornalista; desde 1879 passou a viver em Londres;
em 1895, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão por atentado ao pudor e
homossexualismo, apesar de inúmeras intervenções por clemência vindas de setores
progressistas e dos mais importantes círculos literários da Europa e, por consequência,
teve seus livros recolhidos e suas comédias retiradas de cartaz; obras: Poems
(coletânea de poesias publicadas em periódicos e revistas durante o tempo da faculdade,
1881), The Happy Prince and Other Stories (O Príncipe Feliz e Outros Contos, 1888),
A Hopuse of Pomegranates (Uma Casa de Romãs, contos, 1891), The Picture of Dorian
Gray (O Retrato de Dorian Gray, romance, 1891), Salome (Salomé, tragédia em um ato,
1891), The Importance of Being Earnest (peça teatral cômica, 1895), The Ballad
of Reading Gaol (A Balada do Cárcere de Reading, poema escrito na prisão,
1896), De Profundis (longa carta a Lord Alfred Douglas, escrita da prisão,
primeira publicação em 1897) e outros textos em verso e prosa e para
dramaturgia.








