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terça-feira, 19 de maio de 2026

e. e. cummings: "do não do engodo advém..."

 
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[traduzido por Nelson Ascher]

do não do engodo advém
a verdade de um sim
(só ela mesma e quem
é sem jamais ter fim)

e assim todo demente
(como eu no inverno) aceita
que assunto algum da mente
vale uma violeta

e. e. cummings

“out of the lie of no . . .”

out of the lie of no
rises a truth of yes
(only herself and who
illimitably is)

making fools understand
(like wintry me) that not
all matterings of mind
equal one violet
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Poesia Alheia: 124 poemas traduzidos, edição bilíngue [poetas diversos], Coleção Lazuli, Tradução, Prefácio e Notas biográficas por Nelson Ascher, e Apresentação [orelhas do livro] por Arthur Nestrovski, 1998, Imago Editora, Rio de Janeiro — RJ; e. e. cummings (1894 1962), ou Edward Estlin Cummings, estadunidense de Cambridge, Massachusetts, estudou na Harvard University, graduou-se em Artes e recebeu o título de Mestre, especializou-se em literatura greco-latina na Cambridge Latin High School, foi poeta de vanguarda, pintor, ensaísta e dramaturgo; escrevia poemas “diariamente” desde os oito anos; em 1917, ainda estudante, teve seus primeiros poemas publicados na coletânea Eight Harvard Poets; após formar-se trabalhou para um livreiro; andejou pela Europa e África, inscreveu-se como voluntário na primeira guerra mundial; em 1923, veio à luz sua coletânea poética de estreia: Tulips and Chimneys; trabalhou como ensaísta e retratista para a revista Vanity Fair, suas obras: The Enormous Room (1922), Tulips and Chimneys (1923), &, XLI Poems (ambos em 1925), is 5 (1926), Him (teatro, 1928), W (ViVa, 1931), CIOPW (“charcoal, ink, oil, pencil, watercolor”, desenhos e pinturas, 1931), No Thanks (1935), Collected Poems (1938), 1 x 1 (1944), Santa Claus: A Morality (teatro, 1946), XAIPE: Seventy-One Poems (1950), 95 Poems (1948), 73 Poems (phosthumous, 1963) etc.; cummings também escreveu livros para o mundo infantil; recebeu premiações por sua obra.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Nelson Ascher: Encontros

 
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Há gente que eu encontro
na rua e me sorri
(o fósforo, dormindo
ensimesmado dentro

da caixa, sonha incêndios)
e eu lhes sorrio; há gente
que encontro numa loja
e me sorri (a lâmina

da faca que repousa
numa gaveta aguarda
o dedo distraído)
e eu lhes sorrio; há gente

que encontro na garagem
e me sorri (o fio
se aquece na parede
acalentando alguma

faísca) e eu lhes sorrio;
há gente que eu encontro
até no elevador
e me sorri (a carne

que está na geladeira
fermenta aos poucos sua
toxina), eu lhes sorrio
e cada qual de nós,

descendo em seu andar,
ligando o carro (salvo
se acaba de guardá-lo),
fazendo (ou não) as compras

e prosseguindo rua
abaixo ou rua acima,
medita na segunda
lei da termodinâmica.

(Parte alguma: poesia 1997-2004 — 2005)

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Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (70 poetas e 205 poemas), Organização, Apresentação e Comentários de Manuel da Costa Pinto, 2006, Edições Publifolha, São Paulo — SP; Nelson Ronny Ascher, nascido em 1958, paulista e paulistano, iniciou curso de Medicina, abandonou, formou-se em Administração pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), São Paulo, especializou-se em Comunicações e Semiótica, é poeta, jornalista, editor, tradutor de poesia e crítico de literatura e cinema; ainda estudante de medicina, no jornal do centro acadêmico da faculdade, em texto de estréia no mundo literário discorreu sobre a obra de Jorge Luís Borges; no final dos anos 70 publicou sua primeira resenha na Folha da Tarde, à época jornal de grande circulação, logo após passou a escrever para a Folha de São Paulo, ali se tornando um dos editores culturais: editou o Folhetim — suplemento dominical de cultura, prestou constante colaboração, escreveu críticas, traduziu T. S. Eliot e Herberto Padilla; criou e editou a Revista da USP; traduziu e ainda traduz poesias de várias línguas: inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, russo e húngaro; suas obras: em poesia, Ponta da língua (1983), O sonho da razão (1993), Algo do sol (1996), Parte alguma: poesia 1997-2004 (2005), ensaio: Pomos da discórdia (antologia de traduções, 1996), traduções: Poesia alheia: 124 poemas traduzidos (1998), foi um dos organizadores das antologias Nothing the Sun could not explain: 20 Contemporary Brazilian Poets (1997), Folhetim — poemas traduzidos (1987) e outros.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Nelson Ascher: 14 versos

 
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Não zombes, crítico, da forma
que, além de poetas como Dante,
Quevedo ou Mallarmé durante
os séculos quando era a norma,

Púchkin, narrando com maestria
um duelo em seu Ievguêni Oniéguin
(num duelo desses morreria),
usou como outros não conseguem.

Sem rejeitar a própria era,
Drummond e Rilke, todavia,
levaram o soneto a extremos

de perfeição e, em sua cegueira,
Borges também, conforme via,
mais do que nós, que vemos, vemos.

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Parte alguma: Poesia (1997- 2004) — Nelson Ascher, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Nelson Ronny Ascher, nascido em 1958, paulista e paulistano, iniciou curso de Medicina, abandonou, formou-se em Administração pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), São Paulo, especializou-se em Comunicações e Semiótica, é poeta, jornalista, editor, tradutor de poesia e crítico de literatura e cinema; ainda estudante de medicina, no jornal do centro acadêmico da faculdade, em texto de estréia no mundo literário discorreu sobre a obra de Jorge Luís Borges; no final dos anos 70 publicou sua primeira resenha na Folha da Tarde, à época jornal de grande circulação, logo após passou a escrever para a Folha de São Paulo, ali se tornando um dos editores culturais: editou o Folhetim — suplemento dominical de cultura, prestou constante colaboração, escreveu críticas, traduziu T. S. Eliot e Herberto Padilla; criou e editou a Revista da USP; traduziu e ainda traduz poesias de várias línguas: inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, russo e húngaro; suas obras: em poesia, Ponta da língua (1983), O sonho da razão (1993), Algo do sol (1996), Parte alguma: poesia 1997-2004 (2005), ensaio: Pomos da discórdia (antologia de traduções, 1996), traduções: Poesia alheia: 124 poemas traduzidos (1998), foi um dos organizadores das antologias Nothing the Sun could not explain: 20 Contemporary Brazilian Poets (1997), Folhetim — poemas traduzidos (1987) e outros.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Hölderlin: A Despedida (Terceira Versão)

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[traduzido por Nelson Ascher]

Não parecia certo e bom nos separarmos?
   Então por que, mais do que um crime, isto assombrou-nos?
      Deconhecemo-nos, pois dentro
         de nós um deus reina supremo.

Como trair a quem primeiro nos deu vida
   e atribuiu sentido a nós, deus tutelar
      que suscitou o nosso amor?
         Traí-lo é algo que eu não posso.

O mundo tem, contudo, em mente um outro equívoco,
   exerce outro afazer de bronze, as suas leis
      são outras e o costume, dia
         a dia, nos subtrai a alma.

Que seja: eu o sabia. Desde quando o medo,
   que se arraigou disforme, após mortais e deuses,
      devem morrer, para aplacá-lo
         com sangue, os corações dos que amam.

Hölderlin

Der Abschied (Dritte Fassung)

Trennen wollten wir uns? wähnten es gut und klug?
   Da wirs taaten, warum schrökte, wie Mord, die Tat?
      Ach! wir kennen uns wenig,
         Denn es waltet ein Gott in uns.

Den verraten? ach ihn, welcher uns alles erst
   Sinn und Leben erschuf, ihn” den beseelenden
      Schutzgott unserer Liebe,
         Dies, dies Eine vermag ich nicht.

Aber anderen Fehl denket der Weltsinn sich
   Andern ebernen Dienst übt er und anders Recht
      Und es listet die Seele
         Tag für Tag der Gebrauch uns ab.

Wohl ich wusst’ es zuvor, seit die gewurzelte
   Ungestalte die Furcht Götter und Menschen trennt,
      Muss, mit Blut sie zu sühnen,
         Muss der Liebenden Herz vergehn.
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Poesia Alheia: 124 poemas traduzidos, edição bilíngue [poetas diversos], Coleção Lazuli, Tradução, Prefácio e Notas biográficas por Nelson Ascher, e Apresentação [orelhas do livro] por Arthur Nestrovski, 1998, Imago Editora, Rio de Janeiro — RJ; Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 1843), alemão de Lauffen, região da Suábia, foi poeta, romancista, dramaturgo, tradutor e filósofo; estudou teologia no convento de Tübingen, recebeu formação humanística, conviveu com Hegel e Schelling, tendo colaborado com estes na formação inicial da corrente filosófica conhecida como Idealismo alemão; frequentou a Universidade de Iena; na sua trajetória intelectual, também conviveu e estabeleceu relações com Schiller, Fichte e Goethe; o poeta teve quatro de suas poesias publicadas pela primeira vez no Almanaque das Musas para o ano de 1792 (Musenalmanach für das Jahr 1792), depois vieram outras publicações no Florilégio Poético para o Ano de 1793 (Poetische Blumenlese für das Jahr 1793), na edição de inverno da revista Nova Thalia (Neue Thalia), Almanaque das Musas de 1807 (Musenalmanach 1807)...; traduziu Sófocles e os fragmentos de Píndaro; suas obras: A Morte de Empédocles (fragmentos, drama, 17971800), Hiperion ou O Eremita na Grécia (17971799), Tragédias de Sófocles (1804), Poemas de Friedrich Hölderlin (editados por Ludwig Uhland e Gustav Schwab, 1826), Gedichte vor 1800 (Poemas anteriores a 1800, volume 1, 1944), Gedichte nach 1800 (Poemas após 1800, volume 2, 1961)...; relata a sua biografia que, a partir de 1807 e pelo resto de sua vida, o poeta viveu confinado em uma torre, sendo cuidado pela família e auxiliares, após ter recebido o diagnóstico médico de loucura ou insanidade irreversível; Hölderlin, mesmo após esta data, continuou escrevendo e produziu textos em seus momentos de lucidez.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Ingeborg Bachmann: Ao Sol

 
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[traduzido por Nelson Ascher]

Mais belo que a notável lua e sua nobre luz
Mais belo que as estrelas, as insígnias célebres da noite,
Muito mais belo que a irrupção em chamas de um cometa
E eleito para algo mais belo que outro astro qualquer,
Pois minha e tua vida a ele estão ligadas dia a dia, é o sol.

Belo sol que, ao se erguer, não esqueceu suas tarefas
E as cumpre ainda com mais beleza no verão quando, na costa,
Um dia se evapora e, refletidas sem esforço, as velas passam
Pelo teu olho até que te fatigues e abrevies a derradeira.

Sem o sol mesmo a arte volta a pôr o véu,
Não me apareces mais e, vergastados pelas sombras,
Areia e mar abrigam-se sob minha pálpebra.

Bela luz que nos dá calor, nos guarda e propicia esse prodígio
Que é novamente ver e te rever.

Nada mais belo sob o sol do que estar sob o sol...

Nada mais belo do que ver a haste na água e, no alto, o pássaro
Ponderando seu vôo e, embaixo, os peixes em cardumes
de muitas cores, multiformes e trazidos num jato de luz ao mundo,
Ver a circunferência, o quadrilátero de um campo, ângulos mil do meu
país
E o vestido que vestes. Teu vestido azul em forma de campânula.

Tão belo azul no qual pavões, passeando, fazem reverências,
Azul dos longes, de regiões felizes que têm climas para meus
humores,
Azulíssimo acaso no horizonte. E, arrebatados, os meus olhos
dilatam-se outra vez e piscam e ardem doloridos.

Belo sol que merece a ilimitada admiração do próprio pó,
Por isto e não devido à lua ou às estrelas nem à noite
Que, procurando me fazer de tola, ostenta seus cometas,
Mas sim por tua causa e, em breve sem cessar, que em torno de mais
nada,
Lamentarei a perda inevitável dos meus olhos.

Ingeborg Bachmann

An die Sonne

Schöner als der beachtliche Mond und sein geadeltes Licht,
Schöner als die Sterne, die berühmten Orden der Nacht,
Viel schöner als der feurige Auftritt eines Kometen
Und zu weit Schönrem berufen als jedes andre Gestirn,
Weil dein und mein Leben jeden Tag an ihr hängt, ist die Sonne.

Schöne Sonne, die aufgeht, ihr Werk nicht vergessen hat
Und beendet, am schönsten im Sommer, wenn ein Tag
An den Küsten verdampft und ohne Kraft gespiegelt die Segel
Über dein Aug ziehn, bis du müde wirst und das letzte verkürzt.

Ohne die Sonne nimmt auch die Kunst wieder den Schleier,
Du erscheinst mir nicht mehr, und die See und der Sand,
Von Schatten gepeitscht, fliehen unter mein Lid.

Schönes Licht, das uns warm hält, bewahrt und wunderbar sorgt,
Daß ich wieder sehe und daß ich dich wiedersehet.

Nicht Schönres unter der Sonne als unter der Sonne zu sein…

Nicht Schönres als den Stab im Wasser zu sehn und den Vogeloben,
Der seinen Flug überlegt, und unten die Fische im Schwarm,

Gefärbt, geformt, in die Welt gekommen mit einer Sendung von Licht,
Und den Umkreis zu sehn, das Geviert eines Felds, das Tausendeck
meines Lands
Und das Kleid, das du angetan hast. Und dein Kleid, glockig und blau!

Schönes Blau, in dem die Pfauen spazieren und sich verneigen,
Blau der Fernen, der Zonen des Glücks mit den Wettern für mein
Gefühl,
Blauer Zufall am Horizont! Und meine begeisterten Augen
Weiten sich wieder und blinken und brennen sich wund.

Schöne Sonne, der vom Staub noch die größte Bewundrung gebührt,
Drum werde ich nicht wegen dem Mond und den Sternen und nicht,
Weil die Nacht mit Kometen prahlt und in mir einen Narren sucht,
Sondern deinetwegen und bald endlos und wie um nichts sonst
Klage führen über den unabwendbaren Verlust meiner Augen.

[1956]
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Poesia Alheia: 124 poemas traduzidos, edição bilíngue [poetas diversos], Coleção Lazuli, Tradução, Prefácio e Notas biográficas por Nelson Ascher, e Apresentação [orelhas do livro] por Arthur Nestrovski, 1998, Imago Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ingeborg Bachmann (1926 1973), austríaca de Klagenfurt, estudou Filosofia e Direito nas universidades de Innsbruck, Graz e Viena, foi escritora, dramaturga, professora, tradutora e poeta; após se formar e doutorar-se trabalhou como roteirista e editora da rádio austríaca Rot-Weiss-Rot; a poeta lecionou nas universidades de Harvard (EUA) e Frankfurt (Alemanha); suas obras: Ein Geschaft mit Traumen (peça radiofônica, 1952), Die gestundete Zeit (coletânea de poesias, 1953), Die Zikaden (peça radiofônica, 1955), Todesarten/The Book of Franza & Requiem for Fanny Goldmann (romance inconcluso, 1955), Anrufung des großen bären (coletânea de poesias, 1956), Der güte Gott von Manhattan (peça radiofônica, 1959), Der Prinz von Homburg (libreto de ópera, 1960), Der junge Lord (libreto de ópera, 1965), Das dreißigste Jahr (contos, 1961), Malina (romance, 1971), Simultan/Three Paths to the Lake (contos, 1972), Ich weiß keine bessere Welt (poemas não publicados, 2000) ...; traduziu para o idioma alemão o escritor estadunidense Thomas Wolfe (A Mansão) e o poeta italiano Giuseppe Ungaretti (Poemas); recebeu premiações por suas obras em poesia e peças para rádio; teve poemas musicados; Ingeborg Bachmann, que também fez uso do pseudônimo Ruth Keller, veio a morrer após sofrer graves queimaduras por incêndio em seu apartamento em Roma Itália.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Nelson Ascher: Tentativa e erro

 
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Tentei hoje e ninguém
mais sabe nem adianta
dizer quanto por quantos
caminhos diferentes

chegar ao compromisso
em tempo e não deu certo
tentei deus sabe e caso
não saiba já perdi

também a conta quanto
com quantas rezas bravas
lembrar o que ontem mesmo
lembrava e não deu certo

tentei mas professor
nenhum nem quis saber
quanto nem quantas vezes
passar com dez com nove

e meio ou pelo menos
com cinco e não deu certo
tentei quem sabe quanto
em quantos infinitos

lugares encontrar
as chaves que quarenta
anos atrás pus sobre
a mesa e não deu certo

prometo que amanhã
tão cedo quanto for
possível vou de quantos
nem sei modos tentar

ainda tentar não só
ressuscitar os mortos
como acordar além
do mais cedo amanhã.

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Parte alguma: Poesia (1997-2004) — Nelson Ascher, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Nelson Ronny Ascher, nascido em 1958, paulista e paulistano, iniciou curso de Medicina, abandonou, formou-se em Administração pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), São Paulo, especializou-se em Comunicações e Semiótica, é poeta, jornalista, editor, tradutor de poesia e crítico de literatura e cinema; ainda estudante de medicina, no jornal do centro acadêmico da faculdade, em texto de estréia no mundo literário discorreu sobre a obra de Jorge Luís Borges; no final dos anos 70 publicou sua primeira resenha na Folha da Tarde, à época jornal de grande circulação, logo após passou a escrever para a Folha de São Paulo, ali se tornando um dos editores culturais: editou o Folhetim — suplemento dominical de cultura, prestou constante colaboração, escreveu críticas, traduziu T. S. Eliot e Herberto Padilla; criou e editou a Revista da USP; traduziu e ainda traduz poesia de várias línguas: inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, russo e húngaro; suas obras: em poesia, Ponta da língua (1983), O sonho da razão (1993), Algo do sol (1996), Parte alguma: 1997-2004 (2005), ensaio: Pomos da discórdia (antologia de traduções, 1996), traduções: Poesia alheia: 124 poemas traduzidos (1998), foi um dos organizadores das antologias Nothing the Sun could not explain: 20 Contemporary Brazilian Poets (1997), Folhetim — poemas traduzidos (1987) e outros.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Jules Laforgue: Lamento da Boa Defunta

 
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[paráfrase* de Régis Bonvicino]

Pela avenida ela fugia,
Iluminada eu a seguia,
Adivinhei! O olho dizia,
Hélas! Eu a reconhecia!

Iluminada eu a seguia,
Boca ingênua, nada via,
Oh! sim eu a reconhecia,
Ou sonhaborto ela seria?

Boca murcha, olho-fantasia;
Branco cravo, azul esvaía;
O sonhaborto amanhecia!
Ela em morta se convertia.

Jaz, cravo, de azul esvaía,
A vida humana prosseguia
Sem ti, defunta em demasia.
Oh! já em casa, boca vazia!

Claro, eu não a conhecia.

Jules Laforgue

Complainte de la bonne défunte

Elle fuyait par l'avenue,
Je la suivais illuminé,
Ses yeux disaient: "J'ai deviné 
Hélas! que tu m'as reconnue!"

Je la suivis illuminé!
Yeux désolés, bouche ingénue,
Pourquoi l'avais-je reconnue,
Elle, loyal rêve mort-né?

Yeux trop mûrs, mais bouche ingénue;
OEillet blanc, d'azur trop veiné;
Oh! oui, rien qu'un rêve mort-né,
Car, défunte elle est devenue.

Gis, oeillet, d'azur trop veiné,
La vie humaine continue
Sans toi, défunte devenue.
Oh! je rentrerai sans dîner!

Vrai, je ne l'ai jamais connue.

* Nota do tradutor Régis Bonvicino:Esta tradução é, de fato, uma paráfrase. A alternância rímica está toda modificada. Mantive a métrica de oito sílabas.
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Litanias da lua: Jules Laforgue Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; em 1881 escreveu Stéphane Vassiliew, uma novela; consta de sua biografia ter escrito cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; e que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); em Paris, teve artigos publicados no Le Figaro e na Revue Indépendantepostumamente editaram-se os livros Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), Stéphane Vassiliew (novela escrita em 1881 e publicada en 1943) ...; a maior parte de sua obra só veio à luz após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes"; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Octavio Paz: Imprólogo

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[traduzido por Nelson Ascher]

Pediram-me um prólogo.
Curto, disseram-me, poucas palavras
mas que abram lonjuras.
Mais perspectivas que cenografia.
No fundo, entre as contumazes confusões
brenhas conceituais, paradoxos, espinhos ,
ao pé de um penedo tatuado
pela paciência das estações:
Vasko Popa,
                    caçador de reflexos errantes.
Sento-me e começo minha prosa
uma, duas, três, quatro, cem vezes.
Entre minha cabeça e a pena
entre a pena e esta página,
interpõe-se sempre a mesma cena:
um entardecer de pele translúcida
e sob o penedo que rasga o vento:
Vasko,
          O sol poente baila
sobre a mira de sua infalível escopeta.
Não há ninguém a vista
mas Vasko empunha a arma e dispara.
Cada disparo inventa um alvo,
ideias que, apenas tocadas,
voam como exclamações.
Anoto para meu prólogo:
a escopeta de Vasko não mata,
é doadora de imagens.
E enquanto escrevo estas palavras
um fumo acre cobre minha escritura.
Há uma dança de chispas entre as letras,
uma fuga de vogais em fogo,
um confuso rumor de consoantes
correndo sobre cinzas calcinadas:
arde o extremo norte da página!
Bato em retirada para o sul.
Porém ali, nas margens brancas,
chove, interminavelmente chove.
Céu hidrópico, trovões, socos.
Surdo rebate:
                     sobre o tambor terrestre,
rachado pelo raio, baila o aguaceiro.
Isto que escrevo já é um pântano.
De pronto, um sol violento rompe entre nuvens.
Súbito escampado:
                              uma planície hirsuta,
três penhascos imberbes, marismas,
círculo da malária:
lianas, fantasmas, febres, puas,
uma vegetação rancorosa e armada
em marcha para o assalto da página.
Morte pela água ou morte pelo fogo:
a prosa ou se queima ou se afoga.
Desisto.
             Não um prólogo,
mereces um poema épico,
um romance de aventuras seriado.
Digam o que quiserem os críticos
não te pareces com Kafka o dispéptico
nem com o anêmico Becket.
Vens do poema de Ariosto,
sais de um conto grotesco de Ramón.
És uma estória contada por uma avó,
uma inscrição sobre uma pedra tombada,
um desenho e um nome sobre uma parede.
És o lobo que guerreou mil anos
e leva agora a lua pela mão
pelo corredor sem fim do inverno
até a praça de maio:
                                 já floresceu a pereira
e à sua sombra os homens bebem em roda
um licor de sol destilado.
O vento detém-se para ouvi-los
e repete esse som  pelas colinas.
No entretanto fugiste com a lua.
És lobo e és menino e tens cem anos.
Teu riso celebra o mundo e diz Sim
a tudo que nasce, cresce e morre.
Teu riso reconforta os mortos.
És jardineiro e cortas a flor de névoa
que nasce na memória da velha
e a convertes no cravo de chamas
que a menina pôs no seio.
És minerador descestes até o fundo,
dizes e teu sorriso torna pensativa
a veemente primavera.
És mecânico eletricista
e tanto iluminas uma consciência
quanto aqueces os ossos do inverno.
És ceramista e és carpinteiro,
tuas vasilhas cantam e dão-nos de beber,
tuas escadas servem para subir e descer
no interior de nós mesmos,
tuas mesas, cadeiras, camas
para conversar, comer, descansar,
para viajar sem nos movermos,
para amar e morrer integramente.
No meio desta página me planto
e digo: Vasko Popa.
Responde-me um gêiser de sóis.

(Da edição mexicana das poesias de Vasko Popa [POPA, Vasko. Poesia
imprologo” de Octavio Paz. Traducción de Juan Octavio Prenz, México,
Fondo de Cultura Económica, 1985; POPA, Vasko, Collected Poems
(1943-1976)Translated by Ann Pennington, wich na introduction by
 Ted Huges, New York, Persia Books, 2nd printing, 1979.])

Octavio Paz

Imprólogo

Me han pedido un prólogo.
Corto, me dijeron, pocas palabras
pero que abran lejanías.
Una perspectiva más que una escenografía.
Al fondo, entre las contumaces confusiones
breñas conceptuales, paradojas, espinas ,
al pie de un farallón tatuado
por la paciencia de las estaciones:
Vasko Popa,
                    cazador de reflejos errantes.
Me siento y comienzo mi prosa
una, dos, tres, cuatro, cien veces.
Entre mi cabeza y la pluma,
entre la pluma y esta página,
se interpone siempre la misma escena:
un atardecer de piel translúcida
y bajo el farallón que rompe el viento:
Vasko,
          El sol poniente baila
sobre la mira de su infalible escopeta.
No hay nadie a la vista
pero Vasko empuña el arma y dispara.
Cada disparo inventa un blanco,
ideas que, apenas tocadas,
vuelan como exclamaciones.
Anoto para mi prólogo:
la escopeta de Vasko no mata,
es dadora de imágenes.
Y mientras escribo estas palabras
un humo acre cubre mi escritura.
Hay una danza de chispas entre las letras,
una fuga de vocales en fuego,
un confuso rumor de consonantes
corriendo sobre cenizas calcinadas,
¡arde el extremo norte de la página!
Me repliego hacia el sur.
Pero allá, en los márgenes blancos,
llueve, interminablemente llueve.
Cielo hidrópico, truenos y puñetazos.
Sordo redoble:
                       sobre el tambor terrestre,
rajado por el rayo, baila el chubasco.
Esto que escribo ya es un pantano.
De pronto, un sol violento rompe entre nubes.
Súbito escampado:
                              un llano hirsuto,
tres peñascos lampiños, marismas,
circo de la malaria:
lianas, fantasmas, fiebres, púas,
una vegetación rencorosa y armada
en marcha el asalto de la página.
Muerte por agua o muerte por llama:
la prosa o se quema o se ahoga.
Desisto.
             No un prólogo,
tú mereces un poema épico,
una novela de aventuras por entregas.
Digan lo que digan los críticos
no te pareces a Kafka el dispéptico
ni el anémico Becket.
Vienes del poema de Ariosto,
sales de un cuento grotesco de Ramón.
Eres una conseja contada por una abuela,
una inscripción sobre una piedra caída,
un dibujo y un nombre sobre una pared.
Eres el lobo que guerreó mil años
y ahora lleva a la luna de la mano
por el corredor sin fin del invierno
hasta la plaza de mayo:
                                      ya floreció el peral
y a su sombra los hombres beben en rueda
un licor de sol destilado.
El viento se detiene para oírlos
y repite esse son por las colinas.
Mientras tanto te has fugado con la luna.
Eres lobo y eres niño y tienes cien años.
Tu risa celebra al mundo y dice Sí
a todo lo que nace, crece y muere.
Tu riso reconforta a los muertos.
Eres jardinero y cortas la flor de niebla
que nace en la memoria de la vieja
y la conviertes en el clavel de llamas
que se ha puesto en el seno la muchacha.
Eres minero has bajado allá abajo,
dices y tu sorrisa pone pensativa
a la vehemente primavera.
Eres mecánico electricista
y lo mismo iluminas una conciencia
que calientas los huesos del invierno.
Eres alfarero y eres capintero,
tus vasijas cantan y nos dan de beber,
tus escaleras sirven para subir y bajar
en el interior de nosotros mismos,
tus mesas, sillas, camas
para conversar, comer, descansar,
para viajar sin movermos,
para amar y morir con entereza.
En mitad de esta página me planto
y digo: Vasko Popa.
Me responde un géiser de soles.

(México, 17 de março de 1985)
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Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Octavio Paz Lozano (1914 1998), mexicano da Cidade do México, foi escritor, poeta, diplomata, ensaísta e tradutor; teve seus primeiros poemas publicados em 1931, na revista Barandal, dirigiu as revistas Taller (1939) e Hijo pródigo (1943); suas obras: em poesia, Luna silvestre (1933), ¡No pasarán! (1936), Bajo tu clara sombra y otros poemas sobre España (1937), Raíz del hombre (1937), Entre la piedra y la flor (1941), Semillas para un himno (1954), Piedra de sol (1957), Viento entero (1965), Ladera Este (1968), Topoemas (1971), El Mono gramático (prosa poética, 1974), Poemas, 1935-1975 (1979) ..., ensaios: El labirinto de la soledad: Vida y pensamento de Mexico (1950), ¿Águila o sol? (libro de prosa de influencia surrealista, 1951), El arco y la lira (1956), Cuadrivio (1965), El signo y el garabato (1973), El ogro filantrópico: historia y política, 1971-1978 (1979), Primeras Letras, 1931-1943 (antología de sus prosas de juventud, 1988) ...; traduziu Sendas de Oku (de Matsuo Bashô, em colaboração com Eikichi Hayashiya, 1957), Antología (de Fernando Pessoa, 1962) e Versiones y diversiones (coleção de traduções de várias autorias para o espanhol, 1974), teve obras traduzidas para os idiomas inglês e francês; recebeu premiações por suas obras, entre as quais Prêmio Jerusalém (1977), Prêmio Miguel de Cervantes (1981), Prêmio Internacional Nedustadt de Literatura (1982), Prêmio Nobel de Literatura (1990) ... e outras honrarias.