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terça-feira, 4 de outubro de 2022

Affonso Ávila: Frases-Feitas


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“... uma família de espíritos finos e medidos, cujo maior defeito estaria em certa propensão para rebuscar, ora a frase, ora o conceito.”
Antonio Cândido (Literatura caligráfica)

façamos a revolução
antes que o povo a faça
antes que o povo à praça
antes que o povo a massa
antes que o povo na raça
antes que o povo: A FARSA

o senso grave da ordem
o censo grávido da ordem
o incenso e o gáudio da ordem
a infensa greve da ordem
a imensa grade DA ORDEM

terra do lume e do pão
terra do lucro e do não
terra do luxo e do não
terra do urso e do não
terra da usura e DO NÃO

mais da lei que dos homens
mais da grei que os come
mais do dê que do tome
mais do rei que do nome
mais da rês que DA FOME

num peito de ferro
é um coração de ouro
é o quorum a ação do ouro
é o coro a ação do ouro
é a cor a ópio-ação do ouro
é a gorda nação DO OURO

modesto como convém
austero como é do gosto
aufere como é do gosto
ao ferro como é do gosto
ar estéril como é do gosto
austero comendo A GOSTO

solidário só no câncer
solidário só no câmbio
solidário só na canga
solidário só na campa
solidário só NA CAMA

aos inimigos bordoada
aos amigos marmelada
aos contíguos marmelada
aos conspícuos marmelada
aos promíscuos marmelada
aos ambíguos MARMELADA

o crime é não vencer
o crime é não vender
o crime é não vir a ser
o crime é não virar cedo
o crime é o NÂO VEZES CEM

libertas quae sera tamen
liberto é o ser que come
livre terra ao sertanejo
livro aberto será a trama
LIBERTO QUE SERÁ O HOMEM

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Affonso Celso Ávila (1928 2012), mineiro de Belo Horizonte, foi ensaísta, jornalista, crítico, pesquisador e poeta; colaborou com os jornais Diário de Minas, Estado de Minas e foi colunista do Estado de São Paulo, entre outros periódicos; co-fundador da revista de vanguarda Tendência e participante da revista Invenção, orientada para o concretismo, foi um dos organizadores da Semana de Poesia de Vanguarda, evento realizado em 1963, em Belo Horizonte; dirigiu a revista Barroco — Revista de Ensaio e Pesquisa, publicação do Centro de Estudos Mineiros da UFMG, que se tornou leitura obrigatória a estudiosos do assunto; escreveu e publicou O açude e Sonetos da descoberta (poesias, ambos em 1953), Carta do solo (poesias, 1961) Frases-feitas (poesias, 1963), Resíduos Seiscentistas em Minas (ensaio, dois volumes, 1967), O poeta e a consciência crítica (ensaio, 1969), Gertrude’s instante (poema-postal, 1969), Código de Minas e Poesia anterior (ambos em 1969), O lúdico e as projeções do mundo barroco (ensaio, 1971), Código nacional de trânsito (poesias, 1972), Cantaria barroca (1975), Modernismo (ensaio, 1975), Discurso da difamação do poeta (poesias, 1976), Masturbações (1980), Barrocolagens (1981), Delírios dos cinquent’anos (1984), O visto e o imaginado (poesias, laureado com o Prêmio Jabuti, 1990), Cantigas do Falso Alfonso El Sabio (poesias, 2006, obteve o Prêmio Jabuti em 2007) etc., além de premiações.

domingo, 26 de julho de 2015

Affonso Ávila: Discurso da difamação do poeta 11 / Pobre velha música

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O poeta falava e as pessoas o ouviam atentamente

O poeta falava e as pessoas costumavam ouvi-lo atentamente

O poeta falava e as pessoas costumavam ouvi-lo com alguma atenção

O poeta falava e as pessoas às vezes o ouviam com alguma atenção

O poeta falava e algumas pessoas o ouviam com alguma atenção

O poeta falava mas raras pessoas o ouviam com alguma atenção

O poeta falava e as pessoas o ouviam sem atenção

O poeta falava e as pessoas já não o ouviam

O poeta falava e as pessoas já o olhavam sem ouvir

O poeta mal fala e as pessoas já abrem a boca em fastio

A ATITUDE DIANTE DO POETA É O BOCEJO

(Transcrito de Discurso da difamação
 do poeta  1978, pág. 103)

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Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século — Seleção de José Nêumanne Pinto, Textos introdutórias e Notas biobibliográficas de Rinaldo de Fernandes, 1a. edição, 2001, Geração Editorial, São Paulo — SP; Affonso Celso Ávila (1928  2012), mineiro de Belo Horizonte, foi ensaísta, jornalista, crítico, pesquisador e poeta; colaborou com os jornais Diário de Minas, Estado de Minas e foi colunista do Estado de São Paulo, entre outros periódicos; foi co-fundador da revista de vanguarda Tendência e participou da revista Invenção, voltada para o concretismo; escreveu e publicou O açude e Sonetos da descoberta (poesias, ambos em 1953), Carta do solo (poesias, 1961) Frases-feitas (poesias, 1963), Resíduos Seiscentistas em Minas (ensaio, dois volumes, 1967), O poeta e a consciência crítica (ensaio, 1969), Gertrude’s instante (poema-postal, 1969), Código de Minas e Poesia anterior (ambos em 1969), O lúdico e as projeções do mundo barroco (ensaio, 1971), Código nacional de trânsito (poesias, 1972), Cantaria barroca (1975), Modernismo (ensaio, 1975), Discurso da difamação do poeta (poesias, 1976), Delírios dos cinquent’anos (1984), e outros títulos; foi vencedor de prêmios por suas publicações.