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segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Antônio Botto: Querer-te mal, porquê? — Foste quem eras: . . . [soneto]

 
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Querer-te mal, porquê? Foste quem eras:
Um corpo gentilíssimo, perfeito,
Que se amoldava ao meu e a qualquer jeito
No pântano de todas as quimeras!

Que culpa tinhas tu se ainda esperas
O lugar prometido aqui no peito
E sais de minha vida e do meu leito
Com a simplicidade que trouxeras?

A culpa tenho-a eu que fui um triste
A desejar no alto do meu sonho
Beijar a perfeição que não existe.

Fui esta coisa inútil, complicada,
Não me encontrando aonde me suponho
E encontrando-me aonde não há nada.

(As Canções de Antônio Botto — 1941)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Thomaz Botto (1897 1959), português de Concavada, concelho de Abrantes, distrito de Santarém, “não se lhe conhecendo instrução formal aprofundada”, consta ter sido autodidata, trabalhou de ajudante em uma livraria, foi funcionário público, poeta, contista e dramaturgo; escreveu para adultos e crianças, como funcionário público, trabalhou em Lisboa e, por um período, em Angola e Luanda; suas obras: em poesia: Trovas (1917), Cantigas da Saudade (1918), Canções (1921), Motivos de Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Pequenas Esculturas (1925), Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Baionetas da Morte (1936), A vida que te dei (1938), Sonetos (1938), As Canções de Antônio Botto (reunião dos volumes anteriores, 1941), em prosa: Os Contos de Antônio Botto para crianças e adultos (1924) e Ódio e Amor (contos, 1947) e para teatro: Flor do Mal (1919), Alfama (1933), Antônio (1933), 9 de Abril (1938), Aqui ninguém nos ouve (1942), O Livro das Crianças (literatura infantil, 1944); de seus traços biográficos, consta, em relação à sua homossexualidade, ter sido ele “o primeiro à escala global [com sua arte] a assumir-se abertamente e sem rodeios. A sua obra, largamente elogiada pelo genial Fernando Pessoa, não mais seria olhada da mesma forma. Há quase cem anos, António Botto chocou a pudica sociedade portuguesa.”; em 1921, com a publicação de Canções, sua arte se expôs “de forma despudorada, descomplexada e clara numa preferência pela estética do amor homossexual”, e, em 1922, com a obra reeditada por Fernando Pessoa, causou escândalo, teve os exemplares aprendidos nas livrarias e queimados, de nada valendo os apoios recebidos favoravelmente de Fernando Pessoa, poeta e editor, e dos intelectuais do Grupo Presença, entre estes o de José Régio; Canções também recebeu uma tradução inglesa feita pelo próprio Pessoa; em 1942, António Botto foi demitido de seu humilde emprego público, “por alegadamente não saber manter o decoro no local de trabalho”; em 1947, o poeta exilou-se voluntariamente no Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro; em 16 de março de 1959, António Botto veio a falecer vítima de atropelamento em uma avenida da cidade, teve morte abrupta.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

António Botto: Pelos que andaram no amor . . .

 
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Pelos que andaram no amor
Amarrados ao desejo
De conquistar a verdade
Nos movimentos de um beijo;
Pelos que arderam na chama
Da ilusão de vencer
E ficaram nas ruínas
Do seu falhado heroísmo
Tentando ainda viver!,
Pela ambição que perturba
E arrasta os homens à Guerra
De resultados fatais!,
Pelas lágrimas serenas
Dos que não podem sorrir
E resignados, suicidam
Seus humaníssimos ais!
Pelo mistério sutil,
Imponderável, divino,
De um silêncio, de uma flor!,
Pela beleza que eu amo
E o meu olhar adivinha,
Por tudo que a vida encerra
E a morte sabe guardar,
Bendito seja o destino
Que Deus tem para nos dar!

(As canções de Antônio Botto — 1941)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Thomaz Botto (1897 1959), português de Concavada, concelho de Abrantes, distrito de Santarém, “não se lhe conhecendo instrução formal aprofundada”, consta ter sido autodidata, trabalhou de ajudante em uma livraria, foi funcionário público, poeta, contista e dramaturgo; escreveu para adultos e crianças, como funcionário público, trabalhou em Lisboa e, por um período, em Angola e Luanda; suas obras: em poesia: Trovas (1917), Cantigas da Saudade (1918), Canções (1921), Motivos de Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Pequenas Esculturas (1925), Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Baionetas da Morte (1936), A vida que te dei (1938), Sonetos (1938), As Canções de Antônio Botto (reunião dos volumes anteriores, 1941), em prosa: Os Contos de Antônio Botto para crianças e adultos (1924) e Ódio e Amor (contos, 1947) e para teatro: Flor do Mal (1919), Alfama (1933), Antônio (1933), 9 de Abril (1938), Aqui ninguém nos ouve (1942), O Livro das Crianças (literatura infantil, 1944); de seus traços biográficos, consta, em relação à sua homossexualidade, ter sido ele “o primeiro a escala global [com sua arte] a assumir-se abertamente e sem rodeios. A sua obra, largamente elogiada pelo genial Fernando Pessoa, não mais seria olhada da mesma forma. Há quase cem anos, António Botto chocou a pudica sociedade portuguesa.”; em 1921, com a publicação de Canções, sua arte se expôs “de forma despudorada, descomplexada e clara numa preferência pela estética do amor homossexual”, e, em 1922, com a obra reeditada por Fernando Pessoa, causou escândalo, teve os exemplares aprendidos nas livrarias e queimados, de nada valendo os apoios recebidos favoravelmente de Fernando Pessoa, poeta e editor, e dos intelectuais do Grupo Presença, entre estes o de José Régio; Canções também recebeu uma tradução inglesa feita pelo próprio Fernando; em 1942, António Botto foi demitido de seu humilde emprego público, “por alegadamente não saber manter o decoro no local de trabalho”; em 1947, o poeta exilou-se voluntariamente no Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro; em 16 de março de 1959, António Botto veio a falecer vítima de atropelamento em uma avenida da cidade, teve morte abrupta.

sábado, 1 de março de 2025

António Botto: Se fosses luz serias a mais bela . . .

 
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Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: a luz do dia!
Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água — música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!

(As canções de Antônio Botto — 1941)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Thomaz Botto (1897 1959), português de Concavada, concelho de Abrantes, distrito de Santarém, “não se lhe conhecendo instrução formal aprofundada”, consta ter sido autodidata, trabalhou de ajudante em uma livraria, foi funcionário público, poeta, contista e dramaturgo; escreveu para adultos e crianças, como funcionário público, trabalhou em Lisboa e, por um período, em Angola e Luanda; suas obras: em poesia: Trovas (1917), Cantigas da Saudade (1918), Canções (1921), Motivos de Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Pequenas Esculturas (1925), Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Baionetas da Morte (1936), A vida que te dei (1938), Sonetos (1938), As Canções de Antônio Botto (reunião dos volumes anteriores, 1941), em prosa: Os Contos de Antônio Botto para crianças e adultos (1924) e Ódio e Amor (contos, 1947) e para teatro: Flor do Mal (1919), Alfama (1933), Antônio (1933), 9 de Abril (1938), Aqui ninguém nos ouve (1942), O Livro das Crianças (literatura infantil, 1944); de seus traços biográficos, consta, em relação à sua homossexualidade, ter sido ele “o primeiro a escala global [com sua arte] a assumir-se abertamente e sem rodeios. A sua obra, largamente elogiada pelo genial Fernando Pessoa, não mais seria olhada da mesma forma. Há quase cem anos, António Botto chocou a pudica sociedade portuguesa.”; em 1921, com a publicação de Canções, sua arte se expôs “de forma despudorada, descomplexada e clara numa preferência pela estética do amor homossexual”, e, em 1922, com a obra reeditada por Fernando Pessoa, causou escândalo, teve os exemplares aprendidos nas livrarias e queimados, de nada valendo os apoios recebidos favoravelmente de Fernando Pessoa, poeta e editor, e dos intelectuais do Grupo Presença, entre estes o de José Régio; Canções também recebeu uma tradução inglesa feita pelo próprio Fernando; em 1942, António Botto foi demitido de seu humilde emprego público, “por alegadamente não saber manter o decoro no local de trabalho”; em 1947, o poeta exilou-se voluntariamente no Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro; em 16 de março de 1959, António Botto veio a falecer vítima de atropelamento em uma avenida da cidade, teve morte abrupta.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Antônio Botto: À Memória de Fernando Pessoa

 
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[“Poema de Cinza”]

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão —
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida — esta boemia
Coberta de farrapos e de estrelas
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio da descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga; as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...

Poetas, escutai-me: transformemos
A nossa natural angústia de pensar
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!


(As canções de Antônio Botto)
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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Thomaz Botto (1897 1959), português de Concavada, concelho de Abrantes, distrito de Santarém, “não se lhe conhecendo instrução formal aprofundada”, consta ter sido autodidata, trabalhou de ajudante em uma livraria, foi funcionário público, poeta, contista e dramaturgo; escreveu para adultos e crianças, como funcionário público, trabalhou em Lisboa e, por um período, em Angola e Luanda; suas obras: em poesia: Trovas (1917), Cantigas da Saudade (1918), Canções (1921), Motivos de Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Pequenas Esculturas (1925), Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Baionetas da Morte (1936), A vida que te dei (1938), Sonetos (1938), As Canções de Antônio Botto (reunião dos volumes anteriores, 1941), em prosa: Os Contos de Antônio Botto para crianças e adultos (1924) e Ódio e Amor (contos, 1947) e para teatro: Flor do Mal (1919), Alfama (1933), Antônio (1933), 9 de Abril (1938), Aqui ninguém nos ouve (1942), O Livro das Crianças (literatura infantil, 1944); de seus traços biográficos, consta, em relação à sua homossexualidade, ter sido ele “o primeiro a escala global [com sua arte] a assumir-se abertamente e sem rodeios. A sua obra, largamente elogiada pelo genial Fernando Pessoa, não mais seria olhada da mesma forma. Há quase cem anos, António Botto chocou a pudica sociedade portuguesa.”; em 1921, com a publicação de Canções, sua arte se expôs “de forma despudorada, descomplexada e clara numa preferência pela estética do amor homossexual”, e, em 1922, com a obra reeditada por Fernando Pessoa, causou escândalo, teve os exemplares aprendidos nas livrarias e queimados, de nada valendo os apoios recebidos favoravelmente de Fernando Pessoa, poeta e editor, e dos intelectuais do Grupo Presença, entre estes o de José Régio; Canções também recebeu uma tradução inglesa feita pelo próprio Fernando; em 1942, António Botto foi demitido de seu humilde emprego público, “por alegadamente não saber manter o decoro no local de trabalho”; em 1947, o poeta exilou-se voluntariamente no Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro; em 16 de março de 1959, António Botto veio a falecer vítima de atropelamento em uma avenida da cidade, teve morte abrupta.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Antônio Botto: Tenho a certeza . . .

 
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Tenho a certeza
De que entre nós tudo acabou.
Não há bem que sempre dure,
E o meu, bem pouco durou.

Não levantes os teus braços
Para de novo cingir
A minha carne de seda;
Vou deixar-te, vou partir!

E se um dia te lembrares
Dos meus olhos cor de bronze
E do meu corpo franzino,
Acalma
A tua sensualidade
Bebendo vinho e cantando
Os versos que te mandei
Naquela tarde cinzenta!

Adeus!
Quem fica sofre, bem sei;
Mas sofre mais quem se ausenta!

(As canções de Antônio Botto — 1941)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Thomaz Botto (1897 1959), português de Concavada, concelho de Abrantes, distrito de Santarém, “não se lhe conhecendo instrução formal aprofundada”, consta ter sido autodidata, trabalhou de ajudante em uma livraria, foi funcionário público, poeta, contista e dramaturgo; escreveu para adultos e crianças, como funcionário público, trabalhou em Lisboa e, por um período, em Angola e Luanda; suas obras: em poesia: Trovas (1917), Cantigas da Saudade (1918), Canções (1921), Motivos de Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Pequenas Esculturas (1925), Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Baionetas da Morte (1936), A vida que te dei (1938), Sonetos (1938), As Canções de Antônio Botto (reunião dos volumes anteriores, 1941), em prosa: Os Contos de Antônio Botto para crianças e adultos (1924) e Ódio e Amor (contos, 1947) e para teatro: Flor do Mal (1919), Alfama (1933), Antônio (1933), 9 de Abril (1938), Aqui ninguém nos ouve (1942), O Livro das Crianças (literatura infantil, 1944); de seus traços biográficos, consta, em relação à sua homossexualidade, ter sido ele “o primeiro a escala global [com sua arte] a assumir-se abertamente e sem rodeios. A sua obra, largamente elogiada pelo genial Fernando Pessoa, não mais seria olhada da mesma forma. Há quase cem anos, António Botto chocou a pudica sociedade portuguesa.”; em 1921, com a publicação de Canções, sua arte se expôs “de forma despudorada, descomplexada e clara numa preferência pela estética do amor homossexual”, e, em 1922, com a obra reeditada por Fernando Pessoa, causou escândalo, teve os exemplares aprendidos nas livrarias e queimados, de nada valendo os apoios recebidos favoravelmente de Fernando Pessoa, poeta e editor, e dos intelectuais do Grupo Presença, entre estes o de José Régio; Canções também recebeu uma tradução inglesa feita pelo próprio Fernando; em 1942, António Botto foi demitido de seu humilde emprego público, “por alegadamente não saber manter o decoro no local de trabalho”; em 1947, o poeta exilou-se voluntariamente no Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro; em 16 de março de 1959, António Botto veio a falecer vítima de atropelamento em uma avenida da cidade, teve morte abrupta.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

António Botto: Beijemo-nos, apenas . . .

 
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Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda
Para outro momento
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me sou outro...

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos, És lindo!

A morte,
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos apenas!
Que mais precisamos nós?

(As Canções de Antônio Botto — 1941)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Thomaz Botto (1897 1959), português de Concavada, concelho de Abrantes, distrito de Santarém, “não se lhe conhecendo instrução formal aprofundada”, consta ter sido autodidata, trabalhou de ajudante em uma livraria, foi funcionário público, poeta, contista e dramaturgo; escreveu para adultos e crianças, como funcionário público, trabalhou em Lisboa e, por um período, em Angola e Luanda; suas obras: em poesia: Trovas (1917), Cantigas da Saudade (1918), Canções (1921), Motivos de Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Pequenas Esculturas (1925), Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Baionetas da Morte (1936), A vida que te dei (1938), Sonetos (1938), As Canções de Antônio Botto (reunião dos volumes anteriores, 1941), em prosa: Os Contos de Antônio Botto para crianças e adultos (1924) e Ódio e Amor (contos, 1947) e para teatro: Flor do Mal (1919), Alfama (1933), Antônio (1933), 9 de Abril (1938), Aqui ninguém nos ouve (1942), O Livro das Crianças (literatura infantil, 1944); de seus traços biográficos, consta, em relação à sua homossexualidade, ter sido ele “o primeiro a escala global [com sua arte] a assumir-se abertamente e sem rodeios. A sua obra, largamente elogiada pelo genial Fernando Pessoa, não mais seria olhada da mesma forma. Há quase cem anos, António Botto chocou a pudica sociedade portuguesa.”; em 1921, com a publicação de Canções, sua arte se expôs “de forma despudorada, descomplexada e clara numa preferência pela estética do amor homossexual”, e, em 1922, com a obra reeditada por Fernando Pessoa, causou escândalo, teve os exemplares aprendidos nas livrarias e queimados, de nada valendo os apoios recebidos favoravelmente de Fernando Pessoa, poeta e editor, e dos intelectuais do Grupo Presença, entre estes o de José Régio; Canções também recebeu uma tradução inglesa feita pelo próprio Fernando; em 1942, António Botto foi demitido de seu humilde emprego público, “por alegadamente não saber manter o decoro no local de trabalho”; em 1947, o poeta exilou-se voluntariamente no Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro; em 16 de março de 1959, António Botto veio a falecer vítima de atropelamento em uma avenida da cidade, teve morte abrupta.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

António Botto: Homens que vens de humanas desventuras, . . . [soneto]

 
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Homem que vens de humanas desventuras,
Que te prendes à vida e te enamoras,
Que tudo sabes e que tudo ignoras,
Vencido herói de todas as loucuras;

Que te debruças pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras
E na ambição das coisas mais impuras
És grande simplesmente quando choras;

Que prometes cumprir e que te esqueces,
Que te dás à virtude e ao pecado,
Que te exaltas, e cantas e aborreces,

Arquiteto do sonho e da ilusão,
Ridículo fantoche articulado
Eu sou teu camarada e teu irmão.

(As Canções de Antônio Botto — 1941)

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O Mundo Maravilhoso do Soneto: Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Thomaz Botto (1897 1959), português de Concavada, concelho de Abrantes, distrito de Santarém, “não se lhe conhecendo instrução formal aprofundada”, consta ter sido autodidata, trabalhou de ajudante em uma livraria, foi funcionário público, poeta, contista e dramaturgo; escreveu para adultos e crianças, como funcionário público, trabalhou em Lisboa e, por um período, em Angola e Luanda; suas obras: em poesia: Trovas (1917), Cantigas da Saudade (1918), Canções (1921), Motivos de Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Pequenas Esculturas (1925), Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Baionetas da Morte (1936), A vida que te dei (1938), Sonetos (1938), As Canções de Antônio Botto (reunião dos volumes anteriores, 1941), em prosa: Os Contos de Antônio Botto para crianças e adultos (1924) e Ódio e Amor (contos, 1947) e para teatro: Flor do Mal (1919), Alfama (1933), Antônio (1933), 9 de Abril (1938), Aqui ninguém nos ouve (1942), O Livro das Crianças (literatura infantil, 1944); de seus traços biográficos, consta, em relação à sua homossexualidade, ter sido ele “o primeiro a escala global [com sua arte] a assumir-se abertamente e sem rodeios. A sua obra, largamente elogiada pelo genial Fernando Pessoa, não mais seria olhada da mesma forma. Há quase cem anos, António Botto chocou a pudica sociedade portuguesa.”; em 1921, com a publicação de Canções, sua arte se expôs “de forma despudorada, descomplexada e clara numa preferência pela estética do amor homossexual”, e, em 1922, com a obra reeditada por Fernando Pessoa, causou escândalo, teve os exemplares aprendidos nas livrarias e queimados, de nada valendo os apoios recebidos favoravelmente de Fernando Pessoa, poeta e editor, e dos intelectuais do Grupo Presença, entre estes o de José Régio; Canções também recebeu uma tradução inglesa feita pelo próprio Fernando; em 1942, António Botto foi demitido de seu humilde emprego público, “por alegadamente não saber manter o decoro no local de trabalho”; em 1947, o poeta exilou-se voluntariamente no Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro; em 16 de março de 1959, António Botto veio a falecer vítima de atropelamento em uma avenida da cidade, teve morte abrupta.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

António Botto: Se passares pelo adro . . .

 
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Se passares pelo adro
No dia do meu enterro,
Dize à terra que não coma
Os anéis do meu cabelo.
Já não digo que viesses
Cobrir de rosas meu rosto,
Ou que num choro dissesses
A qualquer do teu desgosto;
Nem te lembro que beijasses
Meu corpo delgado e belo,
Mas que sempre me guardasses
Os anéis do meu cabelo.
Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo;
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.
Se a minha voz conseguisse
Dissuadir essa frieza
E a tua boca sorrisse!
Mas sóbria por natureza
Não a posso renovar
E o brilho vai-se perdendo...
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

(As Canções de Antônio Botto — 1941)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Thomaz Botto (1897 1959), português de Concavada, concelho de Abrantes, distrito de Santarém, “não se lhe conhecendo instrução formal aprofundada”, consta ter sido autodidata, trabalhou de ajudante em uma livraria, foi funcionário público, poeta, contista e dramaturgo; escreveu para adultos e crianças, como funcionário público, trabalhou em Lisboa e, por um período, em Angola e Luanda; suas obras: em poesia: Trovas (1917), Cantigas da Saudade (1918), Canções (1921), Motivos de Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Pequenas Esculturas (1925), Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Baionetas da Morte (1936), A vida que te dei (1938), Sonetos (1938), As Canções de Antônio Botto (reunião dos volumes anteriores, 1941), em prosa: Os Contos de Antônio Botto para crianças e adultos (1924) e Ódio e Amor (contos, 1947) e para teatro: Flor do Mal (1919), Alfama (1933), Antônio (1933), 9 de Abril (1938), Aqui ninguém nos ouve (1942), O Livro das Crianças (literatura infantil, 1944); de seus traços biográficos, consta, em relação à sua homossexualidade, ter sido ele “o primeiro a escala global [com sua arte] a assumir-se abertamente e sem rodeios. A sua obra, largamente elogiada pelo genial Fernando Pessoa, não mais seria olhada da mesma forma. Há quase cem anos, António Botto chocou a pudica sociedade portuguesa.”; em 1921, com a publicação de Canções, sua arte se expôs “de forma despudorada, descomplexada e clara numa preferência pela estética do amor homossexual”, e, em 1922, com a obra reeditada por Fernando Pessoa, causou escândalo, teve os exemplares aprendidos nas livrarias e queimados, de nada valendo os apoios recebidos favoravelmente de Fernando Pessoa, poeta e editor, e dos intelectuais do Grupo Presença, entre estes o de José Régio; Canções também recebeu uma tradução inglesa feita pelo próprio Fernando; em 1942, António Botto foi demitido de seu humilde emprego público, “por alegadamente não saber manter o decoro no local de trabalho”; em 1947, o poeta exilou-se voluntariamente no Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro; em 16 de março de 1959, António Botto veio a falecer vítima de atropelamento em uma avenida da cidade, teve morte abrupta.