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Querer-te mal, porquê? — Foste
quem eras:
Um corpo gentilíssimo,
perfeito,
Que se amoldava ao meu e a
qualquer jeito
No pântano de todas as
quimeras!
Que culpa tinhas tu se ainda
esperas
O lugar prometido aqui no
peito
E sais de minha vida e do meu
leito
Com a simplicidade que
trouxeras?
A culpa tenho-a eu que fui um
triste
A desejar no alto do meu sonho
Beijar a perfeição que não
existe.
Fui esta coisa inútil,
complicada,
— Não me encontrando aonde me
suponho
E encontrando-me aonde não há
nada.
(As Canções de Antônio Botto —
1941)
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Poesia portuguesa contemporânea
[várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos
por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP;
António Thomaz Botto (1897 — 1959), português de Concavada, concelho de Abrantes,
distrito de Santarém, “não se lhe conhecendo instrução formal aprofundada”, consta
ter sido autodidata, trabalhou de ajudante em uma livraria, foi funcionário público,
poeta, contista e dramaturgo; escreveu para adultos e crianças, como funcionário
público, trabalhou em Lisboa e, por um período, em Angola e Luanda; suas obras:
em poesia: Trovas (1917), Cantigas da Saudade (1918), Canções (1921), Motivos de
Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Pequenas Esculturas (1925), Olimpíadas
(1927), Dandismo (1928), Baionetas da Morte (1936), A vida que te dei (1938), Sonetos
(1938), As Canções de Antônio Botto (reunião dos volumes anteriores, 1941), em prosa:
Os Contos de Antônio Botto para crianças e adultos (1924) e Ódio e Amor (contos,
1947) e para teatro: Flor do Mal (1919), Alfama (1933), Antônio (1933), 9 de Abril
(1938), Aqui ninguém nos ouve (1942), O Livro das Crianças (literatura infantil,
1944); de seus traços biográficos, consta, em relação à sua homossexualidade, ter
sido ele “o primeiro à escala global [com sua arte] a assumir-se abertamente e sem
rodeios. A sua obra, largamente elogiada pelo genial Fernando Pessoa, não mais seria
olhada da mesma forma. Há quase cem anos, António Botto chocou a pudica sociedade
portuguesa.”; em 1921, com a publicação de Canções, sua arte se expôs “de forma
despudorada, descomplexada e clara numa preferência pela estética do amor homossexual”,
e, em 1922, com a obra reeditada por Fernando Pessoa, causou escândalo, teve os
exemplares aprendidos nas livrarias e queimados, de nada valendo os apoios recebidos
favoravelmente de Fernando Pessoa, poeta e editor, e dos intelectuais do Grupo Presença,
entre estes o de José Régio; Canções também recebeu uma tradução inglesa feita pelo
próprio Pessoa; em 1942, António Botto foi demitido de seu humilde emprego público,
“por alegadamente não saber manter o decoro no local de trabalho”; em 1947, o poeta
exilou-se voluntariamente no Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro; em 16 de
março de 1959, António Botto veio a falecer vítima de atropelamento em uma avenida
da cidade, teve morte abrupta.