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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Augusto dos Anjos: Asa de corvo

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Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa...

Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza...

É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte a costureira funerária
Cose para o homem a última camisa!

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Eu, outras poesias, poemas esquecidos — Texto e Nota: Antonio Houaiss, Elogio do poeta: Orris Soares, Notas biográficas: Francisco de Assis Barbosa — 30ª. edição, 1965, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

domingo, 1 de novembro de 2015

Pedro Nava: O Defunto

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A Afonso Arinos de Melo Franco

Quando morto estiver meu corpo,
evitem os inúteis disfarces,
os disfarces com que os vivos,
só por piedade consigo,
procuram apagar no Morto
o grande castigo da Morte.
                 
Não quero caixão de verniz
nem os ramalhetes distintos,
os superfinos candelabros
e as discretas decorações.

Eu quero a morte com mau-gosto!

Dêem-me coroas de pano,
Dêem-me as flores do roxo pano,
angustiosas flores de pano,
enormes coroas maciças,
como enorme salva-vidas,
com fitas negras pendentes.

E descubram bem minha cara:
que a vejam bem os amigos.
Que a não esqueçam os amigos
E que ela lance nos seus espíritos
a incerteza, o pavor, o pasmo...
E a cada um leve bem nítida
A idéia da própria morte.

Descubram bem esta cara!

Descubram bem estas mãos:
Não se esqueçam destas mãos!
 Meus amigos! olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
em que sexos se demoraram
seus sabidos quirodáctilos?
Foram nelas esboçados
todos os gestos malditos:
até os furtos fracassados
e interrompidos assassinatos.

— Meus amigos! olhem as mãos
Que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam!
elas fugiram
da suprema purificação
dos possíveis suicídios...
 Meus amigos! olhem as mãos,
as minhas e as vossas mãos!

descubram bem minhas mãos!

Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo,
e até mesmo do meu corpo
as partes excomungadas,
as sujas partes sem perdão
que eu esmagava nos sábados
e que aos domingos renasciam...

 Meus amigos! olhem as partes...
Fujam das partes.
Das punitivas, malditas partes...
Eu quero a morte nua e crua,
terrífica e habitual,
com seu velório habitual.

 Ah! o seu velório habitual!

Não me envolvam num lençol:
a franciscana humildade,
bem sabeis que se não casa
com meu amor pela Carne,
com meu apego do mundo.

Eu quero ir de casimira:
de jaquetão com debrum,
calça listrada, plastron
e os mais altos colarinhos.
Dêem-me um terno de ministro
ou roupa nova de noivo...
E assim solene e sinistro,
quero ser um tal defunto,
um morto tão acabado,
tão aflitivo e pungente,
que sua lembrança envenene
o que restar aos meus amigos
de vida sem minha vida.

— Meus amigos! lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
deste pobre terrível morto
que vai se deitar para sempre.
calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão
os penetras escorraçados,
as prostitutas recusadas,
e os amantes despedidos.
Que se vai como se vão
os que saem enxotados
e tornariam sem brio
a qualquer gesto de chamada.

 Meus amigos! tenham pena,
senão do morto, ao menos
dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
sapatos pretos de verniz.

Olhai bem estes sapatos
E olhai os vossos também.

23.VII.38

Publicado em Bandeira, Manuel. Antologia dos poetas
 brasileiros bissextos contemporâneos. Rio de Janeiro:
 ed.  Zelio Valverde, 1946; 2ª. ed. aumentada, Rio de
 Janeiro: Simões, 1964, pags.169  183.

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Pedro Nava Nossos Clássicos, por Eneida Maria de Souza (coleção criada em 1957 por Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena), 2005, Agir Editora, Rio de Janeiro RJ; Pedro da Silva Nava (1903 1984), mineiro de Juiz de Fora, formado pela Faculdade de Medicina de Belo Horizonte MG, foi médico, historiador e professor na área médica, escritor memorialista e poeta bissexto; escreveu e publicou Capítulos de História da Medicina no Brasil (1949) e as obras de memória Baú de Ossos (1972), Balão Cativo (1973), Chão-de-Ferro (1973), Beira-Mar (1978), Galo-das-Trevas (1981), O Círio Perfeito (1983) e Cera das Almas (póstumo, incompleto, 2006); recebeu diversas premiações por sua obra; suicidou-se em março de 1984.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Antero de Quental: Em viagem

Resultado de imagem para Antero de Quental — Sonetos, Coleção de Clássicos Sá da Costa
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Pelo caminho estreito, aonde a custo
Se encontra uma só flor, ou ave, ou fonte,
Mas só bruta aridez de áspero monte
E os sóis e a febre do areal adusto,

Pelo caminho estreito entrei sem susto
E sem susto encarei, vendo-os defronte,
Fantasmas que surgiam do horizonte
A acometer meu coração robusto...

Quem sois vós, peregrinos singulares?
Dor, Tédio, Desenganos e Pesares...
Atrás deles a Morte espreita ainda...

Conheço-vos. Meus guias derradeiros
Sereis vós. Silenciosos companheiros,
Bem-vindos, pois, e tu, Morte, bem-vinda!

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Antero de Quental — Sonetos, Coleção de Clássicos Sá da Costa, edição organizada e anotada por Antônio Sérgio e prefaciada por Oliveira Martins, 3ª. edição, 1968, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa — Portugal; Antero Tarquínio de Quental (1842 1891), natural de Ponta Delgada Portugal, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta e escritor; publica seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publica Odes Modernas, na qual enaltece a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português;  em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou: Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886) entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Paul Lafargue: Testamento Político *

Livro O Direito A Preguiça Paul Lafargue
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          Com a mente e o corpo sadios, mato-me antes que a impiedosa velhice, que me tira um a um os prazeres e as alegrias da vida e me despoja de minhas forças físicas e intelectuais acabe por paralisar minhas energias e quebre minha vontade fazendo de mim um peso para os outros e para mim mesmo.
          Há anos prometi a mim mesmo que não passaria dos setenta; marquei a época do ano para minha partida da vida e preparei o modo de execução de minha resolução: uma injeção hipodérmica de ácido cianídrico.
          Morro com a alegria suprema de ter a certeza de que, num futuro próximo, a causa a que me dediquei durante quarenta e cinco anos triunfará.
          Viva o Comunismo.
          Viva o Socialismo Internacional!

The Spark! — KARL MARX REMEMBERED
Paul Lafargue


* Nota: O 'testamento político' acima, deixado escrito num papel como explicação para seu ato de suicídio (26.11.1911), foi publicado em Le Socialiste, de 03 de dezembro de 1911.
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O Direito à Preguiça, Prefácio de Francisco Foot Hardman, 2a. edição, 1980, Kairós Livraria e Editora, São Paulo  SP; Paul Lafargue (1842 1911), cubano de Santiago de Cuba, formado médico, foi jornalista, escritor e ativista político; Lafargue fez seus estudos na França e aderiu à AIT Associação Internacional dos Trabalhadores, criada em 1864, e também conhecida como 'Primeira Internacional' ou 'Internacional'; O escritor e ativista político foi casado com Laura Marx (filha de Karl Marx), e, ele e mulher, em um pacto, suicidaram-se em 26 de novembro de 1911; escritos de Lafargue: Le Droit à la paresse Réfutation du «Droit au travail» de 1848 (O Direito à Preguiça, 1880), Le Parti socialiste allemand (1881), La Politique de la bourgeoisie (1881), Essai critique sur la Révolution française du XVIIIe siècle (1883), Une visite à Louise Michel (1885), Sapho (1886), Le Matriarcat, étude sur les origines de la famille (1886), Origine de la propriété en Grèce (1893), Les Origines du Romantisme (1896), Origine de l'idée du Bien (1899), La Question de la femme (1904), Le Mythe de Prométhée (1904), Le Socialisme et les Intellectuels (1900), La Croyance en Dieu (1909), Le Problème de la connaissance (1910) e outros textos.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Augusto dos Anjos: Volúpia Imortal

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Cuidas que o genesíaco prazer,
Fome do átomo e eurítmico transporte
De todas as moléculas, aborte
Na hora em que a nossa carne apodrecer?!

Não! Essa luz radial, em que arde o Ser,
Para a perpetuação da Espécie forte,
Tragicamente, ainda depois da morte,
Dentro dos ossos, continua a arder!

Surdos destarte a apóstrofes e brados,
Os nossos esqueletos descamados,
Em convulsivas contorções sensuais,

Haurindo o gás sulfídrico das covas,
Com essa volúpia das ossadas novas
Hão de ainda se apertar cada vez mais!


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Eu, outras poesias, poemas esquecidos Texto e Nota: Antônio Houaiss, Elogio do poeta: Orris Soares, Notas biográficas: Francisco de Assis Barbosa 30ª. edição, 1965, Livraria São José, Rio de Janeiro RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, formado em Direito pela Faculdade de Recife, professor, foi poeta e publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Augusto dos Anjos: Psicologia de um vencido


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Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
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Eu, outras poesias, poemas esquecidos — Texto e Nota: Antônio Houaiss, Elogio do poeta: Orris Soares, Notas biográficas: Francisco de Assis Barbosa — 30ª. edição, 1965, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, formado em Direito pela Faculdade de Recife, professor, foi poeta e publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.