sábado, 30 de novembro de 2024

João Alphonsus: Galinha Cega

 
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          Na manhã sadia, o homem de barbas poentas1, entronado na carrocinha, aspirou forte. O ar passava lhe dobrando o bigode ríspido como a um milharal. Berrou arrastadamente o pregão2 molengo:
           Frangos BONS E BARATOS!
          Com as cabeças de mártires obscuros enfiadas na tela de arame os bichos piavam num protesto. Não eram bons. Nem mesmo baratos. Queriam apenas que os soltassem. Que lhes devolvessem o direito de continuar ciscando no terreiro amplo e longe.
           Psiu!
          Foi o cavalo que ouviu e estacou, enquanto o seu dono terminava o pregão. Um bruto homem de barbas brancas na porta de um barracão chamava o vendedor cavando o ar com o braço enorme.
          Quanto? Tanto. Mas puseram-se a discutir exaustivamente os preços. Não queriam por nada chegar a um acordo. O vendedor era macio. O comprador brusco.
           Olhe esta franguinha branca. Então não vale?
           Está gordota3… E que bonitos olhos ela tem. Pretotes4… Vá lá!
          O homem de barbas poentas entronou-se de novo e persistiu em gritar pela rua que despertava:
           Frangos BONS E BARATOS!
          Carregando a franga, o comprador satisfeito penetrou no barracão.
           Olha, Inácia, o que eu comprei.
          A mulher tinha um eterno descontentamento escondido nas rugas. Permaneceu calada.
           Olha os olhos. Pretotes…
           É.
           Gostei dela e comprei. Garanto que vai ser uma boa galinha.
           É.
          No terreiro, sentindo a liberdade que retornava, a franga agitou as penas e começou a catar afobada os bagos de milho que o novo dono lhe atirava divertidíssimo.
* * *
          A rua era suburbana, calada, sem movimento. Mas no alto da colina dominando a cidade que se estendia lá embaixo cheia de árvores no dia e de luzes na noite. Perto havia moitas de pitangueiras a cuja sombra os galináceos podiam flanar5 à vontade e dormir a sesta.
          A franga não notou grande diferença entre a sua vida atual e a que levava em seu torrão natal distante. Muito distante. Lembrava-se vagamente de ter sido embalaiada com companheiros mal-humorados. Carregavam os balaios a trouxe-mouxe6 para um galinheiro sobre rodas, comprido e distinto, mas sem poleiros. Houve um grito lá fora, lancinante7, formidável. As paisagens começaram a correr nas grades, enquanto o galinheiro todo se agitava, barulhando e rangendo por baixo. Rolos de fumo rolavam com um cheiro paulificante8. De longe em longe as paisagens paravam. Mas novo grito e elas de novo a correr. Na noitinha sumiram-se as paisagens e apareceram fagulhas. Um fogo de artifício como nunca vira. Aliás ela nunca tinha visto um fogo de artifício. Que lindo, que lindo.        Adormecera numa enjoada madorna9
          Viera depois outro dia de paisagens que tinham pressa. Dia de sede e fome.
          Agora a vida voltava a ser boa. Não tinha saudades do torrão natal. Possuía o bastante para sua felicidade: liberdade e milho. Só o galo é que às vezes vinha perturbá-la incompreensivelmente. Já lá vinha ele, bem elegante, com plumas, forte, resoluto. Já lá vinha. Não havia dúvida que era bem bonito. Já lá vinha… Sujeito cacete10.
          O galo có, có, có có, có, có rodeou-a, abriu a asa, arranhou as penas com as unhas. Embarafustaram11 pelo mato numa carreira doida. E ela teve a revelação do lado contrário da vida. Sem grande contrariedade a não ser o propósito inconscientemente feminino de se esquivar, querendo e não querendo.
* * *
           A melhor galinha, Inácia! Boa à beça12!
           Não sei por quê.
           Você sempre besta! Pois eu sei…
           Besta! besta, hein?
           Desculpe, Inácia. Foi sem querer. Também você sabe que eu gosto da galinha e fica me amolando.
           Besta é você!
           Eu sei que eu sou.
* * *
          Ao ruído do milho se espalhando na terra, a galinha lá foi correndo defender o seu quinhão13, e os olhos do dono descansaram em suas penas brancas, no seu porte firme, com ternura. E os olhos notaram logo a anormalidade. A branquinha era o nome que o dono lhe botara bicava o chão doidamente e raro alcançava um grão. Bicava quase sempre a uma pequena distância de cada bago de milho e repetia o golpe, repetia com desespero, até catar um grão que nem sempre era aquele que visava.
          O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a, lhe examinou os olhos. Estavam direitinhos, graças a Deus, e muito pretos. Soltou-a no terreiro e lhe atirou mais milho. A galinha continuou a bicar o chão desorientada. Atirou ainda mais, com paciência, até que ela se fartasse. Mas não conseguiu com o gasto de milho, de que as outras se aproveitaram, atinar com a origem daquela desorientação. Que é que seria aquilo, meu Deus do céu? Se fosse efeito de uma pedrada na cabeça e se soubesse quem havia mandado a pedra, algum moleque da vizinhança, ai… Nem por sombra imaginou que era a cegueira irremediável que principiava.
          Também a galinha, coitada, não compreendia nada, absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras? Sentia ainda o calor do sol, mas tudo quase sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que estava a luz, onde é que estava a sombra.
          Foi assim que, certa madrugada, quando abriu os olhos, abriu sem ver coisa alguma. Tudo em redor dela estava preto. Era só ela, pobre, indefesa galinha, dentro do infinitamente preto; perdida dentro do inexistente, pois que o mundo desaparecera e só ela existia inexplicavelmente dentro da sombra do nada. Estava ainda no poleiro. Ali se anularia, quietinha, se fanando14 quase sem sofrimento, porquanto a admirável clarividência dos seus instintos não podia conceber que ela estivesse viva e obrigada a viver, quando o mundo em redor se havia sumido.
          Porém, suprema crueldade, os outros sentidos estavam atentos e fortes no seu corpo. Ouviu que as outras galinhas desciam do poleiro cantando alegremente. Ela, coitada, armou um pulo no vácuo e foi cair no chão invisível, tocando-o com o bico, pés, peito, o corpo todo.
          As outras cantavam. Espichava inutilmente o pescoço para passar além da sombra. Queria ver, queria ver! Para depois cantar.
          As mãos carinhosas do dono suspenderam-na do chão.
          A coitada está cega, Inácia! Cega!
           É.
          Nos olhos raiados15 de sangue do carroceiro (ele era carroceiro) boiavam duas lágrimas enormes.
* * *
          Religiosamente, pela manhãzinha, ele dava milho na mão para a galinha cega. As bicadas tontas, de violentas, faziam doer a palma da mão calosa. E ele sorria. Depois a conduzia ao poço, onde ela bebia com os pés dentro da água. A sensação direta da água nos pés lhe anunciava que era hora de matar a sede; curvava o pescoço rapidamente, mas nem sempre apenas o bico atingia a água: muita vez, no furor da sede longamente guardada, toda a cabeça mergulhava no líquido, e ela a sacudia, assim molhada, no ar. Gotas inúmeras se espargiam16 nas mãos e no rosto do carroceiro agachado junto do poço. Aquela água era como uma bênção para ele. Como a água benta, com que um Deus misericordioso e acessível aspergisse todas as dores animais. Bênção, água benta, ou coisa parecida: uma impressão de doloroso triunfo, de sofredora vitória sobre a desgraça inexplicável, injustificável, na carícia dos pingos de água, que não enxugava e lhe secavam lentamente na pele. Impressão, aliás, algo confusa, sem requintes psicológicos e sem literatura.
          Depois de satisfeita a sede, ele a colocava no pequeno cercado de tela separado do terreiro (as outras galinhas martirizavam muito a branquinha) que construíra especialmente para ela. De tardinha dava-lhe outra vez milho e água, e deixava a pobre cega num poleiro solitário, dentro do cercado.
          Porque o bico e as unhas não mais catassem e ciscassem, puseram-se a crescer. A galinha ia adquirindo um aspecto irrisório de rapace17, ironia do destino, o bico recurvo, as unhas aduncas18. E tal crescimento já lhe atrapalhava os passos, lhe impedia de comer e beber. Ele notou mais essa miséria e, de vez em quando, com a tesoura, aparava o excesso de substância córnea19 no serzinho desgraçado e querido.
          Entretanto, a galinha já se sentia de novo quase feliz. Tinha delidas20 lembranças da claridade sumida. No terreiro plano ela podia ir e vir à vontade até topar a tela de arame, e abrigar-se do sol debaixo do seu poleiro solitário. Ainda tinha liberdade o pouco de liberdade necessário à sua cegueira. E milho. Não compreendia nem procurava compreender aquilo. Tinham soprado a lâmpada e acabou-se. Quem tinha soprado não era da conta dela. Mas o que lhe doía fundamente era já não poder ver o galo de plumas bonitas. E não sentir mais o galo perturbá-la com o seu có-có-có malicioso. O ingrato.
* * *
          Em determinadas tardes, na ternura crescente do parati21, ele pegava a galinha, após dar-lhe comida e bebida, se sentava na porta do terreiro e começava a niná-la com a voz branda, comovida:
           Coitadinha da minha ceguinha!
           Tadinha da ceguinha…
          Depois, já de noite, ia botá-la no poleiro solitário.
* * *
          De repente os acontecimentos se precipitaram
* * *
           Entra!
           Centra22!
          A meninada ria a maldade atávica23 no gozo do futebol originalíssimo. A galinha se abandonava sem protesto na sua treva à mercê dos chutes. Ia e vinha. Os meninos não chutavam com tanta força como a uma bola, mas chutavam, e gozavam a brincadeira.
          O carroceiro não quis saber por que é que a sua ceguinha estava no meio da rua. Avançou como um possesso com o chicote que assoviou para atingir umas nádegas tenras. Zebrou24 carnes nos estalos da longa tira de sola. O grupo de guris se dispersou em prantos, risos, insultos pesados, revolta
* * *
           Você chicoteou o filho do delegado. Vamos à delegacia.
* * *
          Quando saiu do xadrez, na manhã seguinte, levava um nó na garganta. Rubro de raiva impotente. Foi quase que correndo para casa.
           Onde está a galinha, Inácia?
           Vai ver.
          Encontrou-a no terreirinho, estirada, morta! Por todos os lados havia penas arrancadas, mostrando que a pobre se debatera, lutara contra o inimigo, antes deste abrir-lhe o pescoço, onde existiam coágulos de sangue…
          Era tão trágico o aspecto do marido que os olhos da mulher se esbugalharam de pavor.
           Não fui eu não! Com certeza um gambá!
           Você não viu?
           Não acordei! Não pude acordar!
          Ele mandou a enorme mão fechada contra as rugas dela. A velha tombou nocaute25, mas sem aguardar a contagem dos pontos escapuliu para a rua gritando: Me acudam!
* * *
          Quando de novo saiu do xadrez, na manhã seguinte, tinha açambarcado26 todas as iras do mundo. Arquitetava vinganças tremendas contra o gambá. Todo gambá é pau-d’água27. Deixaria uma gamela28 com cachaça no terreiro. Quando o bichinho se embriagasse, havia de matá-lo aos poucos. De-va-ga-ri-nho. GOSTOSAMENTE.
          De noite preparou a esquisita armadilha e ficou esperando. Logo pelas 20 horas o sono chegou. Cansado da insônia no xadrez, ele não resistiu. Mas acordou justamente na hora precisa, necessária. A porta do galinheiro, ao luar leitoso, junto à mancha redonda da gamela, tinha outra mancha escura que se movia dificilmente.
* * *
          Foi se aproximando sorrateiro, traiçoeiro, meio agachado, examinando em olhadas rápidas o terreno em volta, as possibilidades de fuga do animal, para destruí-las de pronto, se necessário. O gambá fixou-o com os olhos espertos e inocentes, e começou a rir:
           Kiss! kiss! kiss!
          (Se o gambá fosse inglês com certeza estaria pedindo beijos. Mas não era. No mínimo estava comunicando que houvera querido alguma coisa. Comer galinhas por exemplo. Bêbado.)
          O carroceiro examinou o bichinho curiosamente. O luar, que favorece os surtos29 de raposas e gambás nos galinheiros, era esplêndido. Mas apenas tocou-o de leve com o pé, já simpatizado:
           Vai embora, seu tratante!
          O gambá foi indo tropegamente30. Passou por baixo da tela e parou olhando para a lua. Se sentia imensamente feliz o bichinho e começou a cantarolar imbecilmente, como qualquer criatura humana:
           A lua como um balão balança!
          A lua como um balão balança!
          A lua como um bal...
          E adormeceu de súbito debaixo de uma pitangueira.

(Galinha Cega, contos — 1931)


Notas da edição: 1. poento: poeirento; 2. pregão: grito de vendedor ambulante; 3. gordota: diminutivo de gorda; 4. pretote: diminutivo de preto; 5. flanar: andar sem rumo; 6. a trouxe-mouxe: desordenadamente; 7. lancinante: agudo, intenso; 8. paulificante: enjoada; 9. madorna: sonolência; 10. cacete: impertinente; 11. embarafustar: adentrar confusamente; 12. à beça [grafado à bessa no original]: em qrande quantidade; 13. quinhão: parte; 14. fanar: murchar; 15. raiado: congestionado, vermelho; 16. espargir: espalhar; 17. rapace: que rouba; 18. adunco: em forma de gancho; 19. córneo: duro como corno (chifre); 20. delido: apagado; 21. parati: cachaça; 22. centrar: lançar a bola; 23. atávico: de nascença; 24. zebrar: cobrir de listras; 25. tombar nocaute: cair (referência ao boxe); 26. açambarcar: concentrar; 27. pau d’água: bêbado; 28. gamela: vasilha de madeira ou barro; 29. surto: aparecimento, ataque; 30. ir tropegamente: andar com dificuldade.
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Contos de João Alphonsus, Apresentação de Ivan Marques e Ilustração de Rogério Coelho, Coleção O Encanto do Conto, 2003, DCL — Difusão Cultural do Livro Ltda., São Paulo — SP; João Alphonsus de Guimaraens (1901 1944), mineiro de Conceição do Serro, hoje Conceição do Mato Dentro, iniciou seus estudos com professora particular, conclui os estudos primários no Grupo Escolar Dr. Gomes Freire, em Mariana MG, iniciou estudos no Seminário Arquiepiscopal de Mariana e, mudando-se para Belo Horizonte, estudou 2 anos de Medicina, desistiu do curso, formou-se em Direito, foi advogado, funcionário público, promotor de justiça, jornalista, contista e poeta modernista; trabalhou no Diário de Minas, na companhia dos então jovens literatos Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura, Pedro Nava e outros, jornal este “que virou uma espécie de ‘quartel-general’ do Modernismo mineiro.”; publicou seus primeiros poemas na revista Fon-Fon, em 1918; colaborou com a cataguasense e modernista revista Verde, criada em 1927 por Antonio Mendes e outros companheiros e poetas de Cataguases e região; suas obras: Galinha Cega (contos, 1931), Totônio Pacheco (romance, 1934), Rola-Moça (romance, 1938), Pesca da Baleia (contos, 1942), Eis a noite! (contos, 1943), Contos e Novelas (1965); teve obras premiadas.

Jorge Luis Borges: Minha vida inteira

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[traduzido por Josely Vianna Baptista]

Aqui outra vez, os lábios memoráveis, único e semelhante a vós.
Persisti outra vez na aproximação da ventura e na intimidade do
sofrimento.
Cruzei o mar.
Conheci muitas terras; vi uma mulher e dois ou três homens.
Amei uma menina altiva e branca, de uma hispânica quietude.
Vi um arrabalde infinito onde se cumpre uma insaciada imortalidade de
poentes.
Saboreei numerosas palavras.
Acredito profundamente que isso é tudo e que não verei nem farei
coisas novas.
Acredito que minhas noites e meus dias se igualam em pobreza e em
riqueza aos de Deus e aos de todos os homens.

(Lua defronte — 1925)

Jorge Luis Borges

Mi Vida Entera

Aquí otra vez, los labios memorables, único y semejante a vosotros.
He persistido en la aproximación de la dicha y en la intimidad de la
pena.
He atravesado el mar.
He conocido muchas tierras; he visto una mujer y dos o tres hombres.
He querido a una niña altiva y blanca y de una hispánica quietud.
He visto un arrabal infinito donde se cumple una insaciada
inmortalidad de ponientes.
He paladeado numerosas palabras.
Creo profundamente que eso es todo y que ni veré ni ejecutaré cosas
nuevas.
Creo que mis jornadas y mis noches se igualan en pobreza y en riqueza
a las de Dios y a las de todos los hombres.

(Luna de enfrente — 1925)
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Primeira poesia: Jorge Luis Borges, traduzido por Josely Vianna Baptista, edição bilíngue, 1ª reimpressão, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (1899 1986), argentino de Buenos Aires, aprendeu a língua inglesa com a avó paterna antes de falar espanhol, suas primeiras leituras se deram naquele idioma, foi poeta, contista, ficcionista, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor universitário e bibliotecário; aos 9 anos de idade escreveu La Visera Fatal, seu primeiro conto “inspirado em episódio da obra de Dom Quixote”; de 1914 a 1920, já com alfabetização bilíngue, viveu com a família na Europa, concluiu seus estudos secundários no Collège de Genève Suiça, ligou-se ao movimento altruísta literário de vanguarda na Espanha, de volta à Argentina, na década de 1920, publicou três livros de poesia e, a partir daí, deu início à publicação de seus contos, invariavelmente na revista Sur, a qual também editou seus livros de ficção; lecionou Literatura Inglesa na Universidade de Buenos Aires, trabalhou na Biblioteca Municipal Miguel Cané e dirigiu a Biblioteca Nacional; em 1956, já sendo proibido pelos oftalmologistas de ler e escrever, passou a conviver com a cegueira que, vindo de forma gradativa desde criança, se instalava em sua vida; suas obras: Fervor de Buenos Aires (poesia, 1923), Luna de enfrente (Lua defronte, poesia, 1925), Inquisiciones (ensaios, 1925), El idioma de los argentinos (ensaio, 1928), Cuaderno San Martín (Caderno San Martín, poesia, 1929), Evaristo Carriego (ensaio, 1930), Historia universal de la infamía (contos, 1935), Historia de la Eternidad (ensaios, 1936), Ficciones (contos, 1944), Nova refutação do tempo (ensaios, 1947), El Aleph (O Aleph, contos, 1949), A morte e a bússola (contos, 1951), El hacedor (1960), Para las seis cuerdas (1967), El oro de los tigres (1972), Elogio de la sombra (1969), Historia de la noche (1976), todos de poesia, e tantos outros títulos em verso e prosa, inclusive em traduções para mais de 35 idiomas; na publicação de seus textos, Jorge Luis Borges também fez uso de vários pseudônimos, entre os quais Alex Ander, Benjamín Beltrán, Andrés Corthis, Pascual Güida, Bernardo Haedo, José Tuntar, Honorio Bustos Domecq e Benito Suárez Linch; teve sua obra transferida para o cinema e a televisão, e também teve textos musicados pelo compositor e instrumentista Astor Piazzolla (Tangos & Milongas); Borges, mesmo cego, não deixou de produzir seus escritos, os quais eram ditados para María Kodama, sua ex-aluna, depois assistente literária e esposa; recebeu inúmeras premiações por sua obra.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Paul Valéry: "Vai! não preciso mais de sua raça ingênua, Cara Serpente . . . [trecho de A Jovem Parca]

 
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     [traduzido por Augusto de Campos]

     [ . . . ]

50 "Vai! não preciso mais de tua raça ingênua,
     Cara Serpente... A mim me enleio, ó ser veloz!
     Cessa de me emprestar teu novelo de nós
     E tua submissão que, a fugir, me incrimina...
     Minha alma já me basta, ornamento da ruína!
55 E pode, em minha sombra diluindo as taras,
     Do meu seio morder, à noite, as pedras raras
     E ali sugar sem fim os delírios, seu mel...
     Deixa desfalecer teu braço de ouropel
     Que ameaça de amor meu fim espiritual...
60 Tudo o que faças me será menos letal
     Ou menos desejável... Calma, assim, as curvas,
     Renuncia aos coleios e às promessas turvas...
     Minha surpresa é breve, estou de olhos abertos.
     Não esperava ter dos meus ricos desertos
65 Menos que a gestação de trança e insensatez:
     Seus pós apaixonados brilham de aridez
     Por mais que eu recomece e me altere a buscar
     Os vãos confins dos meus infernos de pensar...
     Eu sei... A minha angústia é às vezes teatral.
70 Não é tão pura a mente para que, imortal,
     Em sua fuga triste a chama não sucumba
     Aos muros abismais de sua morna tumba.
     Tudo pode medrar de uma espera infinita.
     A sombra mesma cede à agonia que a agita,
75 A alma avara se entreabre e o monstro não descura,
     Que se enrodilha aos pés da porta da loucura...
     Mas, por mais caprichoso e ágil que te faças,
     Réptil, ó vivas curvas de carícias lassas,
     Tão rente impaciência, languidez tão terna,
80 Quem és, ante esta noite de extensão eterna?
     Vias dormir de encanto e minha negligência...
     Mas, com meu labirinto, eu sou de inteligência
     Mais versátil, ó Tirso, e mais periculosa.
     Foge de mim! Retoma a vil senda viscosa!
85 Procura olhos sem luz para as danças massivas.
     Corre em outros dosséis as vestes sucessivas,
     Cobra de quem quiser os germes do seu mal.
     E que nesses anéis do teu sonho animal
     Arqueje até o fim toda inocência ansiosa!...
90 Eu, porém, velo. E saio, amarga e prodigiosa,
     Úmida de um chorar que nem ao menos choro;
     Na ausência de contornos de mortal, me escoro
     Em mim, só... E rompendo um túmulo sereno,
     Me apoio na inquietude, mas ainda reino,
95 E domo estas visões, entre olho e noite, alçando
     Ao menor movimento o orgulho do meu mando.”

     [ . . . ]

Paul Valéry

     [ . . . ]

50 Va! je n’ai plus besoin de ta race naïve,
     Cher Serpent… Je m’enlace, être vertigineux!
     Cesse de me prêter ce mélange de nœuds
     Ni ta fidélité qui me fuit et devine…
     Mon âme y peut suffire, ornement de ruine!
55 Elle sait, sur mon ombre égarant ses tourments,
     De mon sein, dans les nuits, mordre les rocs charmants;
     Elle y suce longtemps le lait des rêveries…
     Laisse donc défaillir ce bras de pierreries
     Qui menace d’amour mon sort spirituel…
60 Tu ne peux rien sur moi qui ne soit moins cruel,
     Moins désirable… Apaise alors, calme ces ondes,
     Rappelle ces remous, ces promesses immondes…
     Ma surprise s’abrège, et mes yeux sont ouverts.
     Je n’attendais pas moins de mes riches déserts
65 Qu’un tel enfantement de fureur et de tresse:
     Leurs fonds passionnés brillent de sécheresse
     Si loin que je m’avance et m’altère pour voir
     De mes enfers pensifs les confins sans espoir…
     Je sais… Ma lassitude est parfois un théâtre.
70 L’esprit n’est pas si pur que jamais idolâtre
     Sa fougue solitaire aux élans de flambeau
     Ne fasse fuir les murs de son morne tombeau.
     Tout peut naître ici-bas d’une attente infinie.
     L’ombre même le cède à certaine agonie,
75 L’âme avare s’entr’ouvre, et du monstre s’émeut
     Qui se tord sur les pas d’une porte de feu…
     Mais, pour capricieux et prompt que tu paraisses,
     Reptile, ô vifs détours tout courus de caresses,
     Si proche impatience et si lourde langueur,
80 Qu’es-tu, près de ma nuit d’éternelle longueur?
     Tu regardais dormir ma belle négligence…
     Mais avec mes périls, je suis d’intelligence,
     Plus versatile, ô Thyrse, et plus perfide qu’eux.
     Fuis-moi! du noir retour reprends le fil visqueux!
85 Va chercher des yeux clos pour tes danses massives.
     Coule vers d’autres lits tes robes successives,
     Couve sur d’autres cœurs les germes de leur mal,
     Et que dans les anneaux de ton rêve animal
     Halète jusqu’au jour l’innocence anxieuse!…
90 Moi, je veille. Je sors, pâle et prodigieuse,
     Toute humide des pleurs que je n’ai point versés,
     D’une absence aux contours de mortelle bercés
     Par soi seule… Et brisant une tombe sereine,
     Je m’accoude inquiète et pourtant souveraine,
95 Tant de mes visions parmi la nuit et l’œil,
     Les moindres mouvements consultent mon orgueil.»

     [ . . . ]

(La Jeune Parque, 1917)
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Linguaviagem — Augusto de Campos: Ensaios, Estudos [acerca] de seis poetas selecionados & poemas traduzidos, Breve introdução e Tradução dos poemas [bilíngue], por Augusto de Campos, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas funções na esfera pública francesa, foi filósofo, professor, crítico, ensaísta e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; em 1924 foi um dos cofundadores da revue littéraire Commerce [revista literária]; suas obras: A Jovem Parca (La Jeune Parque, 1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942), etecetera etecetera; foram publicadas postumamente Mon Fauste (Meu Fausto, 1946), Vues (Visualizações, 1948), Lettres à quelques-uns (Cartas para alguns, 1952), Cahiers, 2 vol. condensés (Cadernos, 2 volumes condensados, 1970) e outros; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke ...

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Branko Miljković: Predicação do amor

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Meu amor perdura, embora eu não mais viva
Vejo-o no sol e onde, podres ossos na terra,
Em sua gratitude outro dia já se encerra,
Como uma música, um deserto, paz passiva.

As intenções nossas sei que ele em si cerra,
E, por graça, os mortos natalícios reaviva.
Sombra desmedida no fio do vento altiva
Dos que não mais vivem nas cinzas se desterra.

Chama-me no tempo morto, peito isolado,
Angústia passada, num mundo renovado.
Já que não descobri o amor, e minha mente
dorme, e o dia é vazio, o dia ainda não surgido,
Ele se estende feito galho, mas inutilmente
Silva, que no vento, digno, seja envolvido.

Branko Miljković

Propovedanje Ljubavi

Nema mene al ima ljubavi moje;
Vidim je u suncu i zemlji gde nam trunu kosti.
Dovršava se an u njenoj zahvalnosti
Slično muzici slično praznini, spokojen.

Ona će sačuvati namere moje i tvoje
I vaskrsnuće mrtve rođjendane po milosti.
U podnožju vetra nemerljiva sen oholosti
Nestaće u pepelu onih što više ne postoje.

U pusto srce u mrtvo vreme me zovi
Minula čežnjo, da se svet ponovi.
Ako ne saznah ljubav i uspavah svoj um,
Pa mi je prazan dan koji još došao nije,
Ko granu koja se izdužuje u uzaludan šum
Neka me nedostojnog vetar obavije.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], edição bilíngue, texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Branko Miljković (1933 1961), nascido em Nis, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), formado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado, foi poeta, ensaísta, resenhista e tradutor: ainda estudante, participou de um grupo literário neo-simbolista; fez contatos e estabeleceu relações de amizade com outros poetas (Vasko Popa entre os quais), recusou adesão e associação partidária, o que acabou resultando na não publicação de sua poesia; seus primeiros poemas denotavam a influência recebida dos simbolistas franceses Paul Valéry e Stéphane Mallarmé, e também do pensamento filosófico de Heráclito; por longos três anos seguidos ouviu nãos das redações de muitas revistas, em 1955 teve seus primeiros poemas publicados na Delo, “abrindo assim as portas de outras editoras e, a partir daí, ganhou as páginas de inúmeras revistas”; em 1956 foi publicada sua primeira coletânea de canções, Acordo-a em vão (Uzalud je budim), obra que obteve “sucesso de público e crítica”; depois vieram as coletâneas de poemas Sangue contra a morte (Smrću protiv smrti, com Blažom Šćepanovićem, 1959), Origem da esperança (Poreklo nade, 1960), O fogo e o nada (Vatra i ništa, 1960), Krv koja svetli (1961) ...; agraciado pela crítica literária e alçado ao topo da poesia sérvia, Branko Miljković foi laureado com o Prêmio Outubro, um dos mais prestigiados de sua época; sabe-se, por sua biografia, que o poeta, “frequentemente visto nas tabernas de Belgrado, onde levava uma vida boêmia e despreocupado, devido ao consumo constante de álcool mostrava seu lado agressivo quando bêbado, se envolvia constantemente em brigas que quase sempre perdia”, e cujo comportamento por várias vezes lhe trazia problemas com o regime [a polícia] de Tito; seus muitos amigos sempre o resgatavam de tais dificuldades; a tais amigos, o poeta chegou a jurar “que nunca mais escreveria”; Branko deixou Belgrado “no outono de 1960”, mudou-se para Zagreb, tornou-se editor do Literarne redakcije zagrebačkog radija (Editorial Literário Escritório da Rádio Zagreb), “provavelmente insatisfeito com sua vida”, continuou se entregando ao álcool e, “na noite entre 11 e 12 de fevereiro” [de 1961], numa floresta próxima à cidade, “segundo a versão oficial, o poeta sérvio suicidou-se”; as razões que levaram Branko a tomar tal atitude permanecem polêmicas, havendo quem, à época, suspeitasse de que o poeta fora morto pela polícia ou apoiadores do regime vigente.

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Alfonsina Storni *: A súplica


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[traduzido por Oswaldo Orico]

Senhor, Senhor, há muito tempo, um dia,
sonhei o amor, como ninguém houvera
ainda sonhado, amor que fosse e que era
a vida toda todo uma poesia.

Passa o inverno e esse amor não chegaria,
passaria também a primavera;
o verão persistente volveria...
E o outono ainda me encontra à sua espera.

Ó Senhor, sobre minha espádua nua,
faze estalar, por mão que seja crua,
o látego que mandas aos perversos,

que já anoitece sobre minha vida
e esta paixão ardente e desmedida
eu a gastei, Senhor, fazendo versos!

Alfonsina Storni

Súplica

Señor, Señor, hace ya tiempo, un día,
Soñé un gran amor como jamás pudiera
Soñarlo nadie; algún amor que fuera
La vida toda, toda la poesía.

Y pasaba el invierno e no venía
Y volvía a llegar la primavera,
Y el verano de nuevo persistia
Y me hallaba el otoño con mi espera.

Señor, Señor, mi espalda está desnuda;
Hay retallos allí con mano ruda
Del látigo que sangras a los perversos!

Que está la tarde ya sobre mi vida
Y esta pasión ardiente y desmedida
la he perdido, Señor, haciendo versos!...

* Nota do Organizador Vasco de Castro Lima: Embora tenha nascido na Suíça, é considerada argentina, porque na Argentina viveu toda a sua vida. Forma, com Gabriela Mistral e Juana de Ibarbourou, o trio feminino de maior inspiração poética no Continente [América do Sul, México e Caribe], em língua espanhola. Suicidou-se em Mar del Plata, apressando o fim de seu mal incurável.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto: Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Alfonsina Storni Martignoni (1892 1938), nascida em Sala Capriasca Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, tendo, a partir daí, levado uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento da família, trabalhou como costureira e operária; já aos 12 anos, Alfonsina escreveu seus primeiros versos, e, logo depois, como operária em fábrica de gorros, se destacou por seu humor e participação “na luta pelas reivindicações sociais, engajada nas fileiras anarquistas”; também teve destaque em experiências como atriz em companhia teatral e, em turnê que durou um ano, se apresentou em várias localidades do país; estudou na Escuela Normal Mixta de Maestros Rurales de Coronda, onde também trabalhou, depois de formada mudou-se para Rosário e ali exerceu o ofício de professora, colaborou regularmente nas revistas Mundo Rosarino e Monas y Monadas, tornando-se dirigente do Comitê Feminista de Santa Fé; já em Buenos Aires, agora trabalhando em farmácia e também como vendedora de loja, logo tornou-se “corresponsal psicológico”, na empresa Freixas Hermanos, importadora de azeite de oliva; estreou com seu primeiro livro (La inquietud del rosal), fez suas primeiras colaborações literárias nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, El Hogar, Mundo Argentino, La Nota, estabeleceu vínculos com o grupo intelectual da revista Nosotros, participou de saraus, passou a recitar seus poemas em bibliotecas, prosseguiu com a militância em grupos feministas e socialistas; depois, colaborou com o jornal La Nacion, fazendo uso do pseudônimo Tao-Lao; continuando no desempenho da atividade de professora, lecionou em várias escolas: Colegio Marcos Paz, Escuela de Niños Débiles del parque Chacabuco, Instituto de Teatro Infantil Labardén, Escuela Normal de Lenguas vivas, Conservatório de Música y Declamación e Escuela de Adultos Bolivar, onde, em aulas noturnas, ensinou “castellano y aritmética”; suas obras: La inquietud del rosal (1916), El Dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Poemas de Amor (poemas em prosa, 1926), Mundo de siete pozos (1934), Mascarilla y trébol (1938) e outros títulos em prosa e verso e peças teatrais; com suas atitudes inovadoras, as mulheres do seu tempo, umas a admiravam e outras a viam como perigosa e, com a publicação do poema 'La Loba', Alfonsina causou escândalo; recebeu premiações por sua obra; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada por Mercedes Sosa; teve seu corpo resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se enviou para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Jan Wagner: frincha


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[traduzido por Douglas Valeriano Pompeu]

o verão, quando me chamaram para dentro,
com andorinhas, exatas como escalpelos
rasantes sobre os campos, aqueles maduros
cachos de trovão por detrás da capela,

e no instante em que os gatos se mandaram
pro porão feito um tiro (o instinto dos bichos,
o contato ancestral), quase desaba em mim mesmo,
o abalo da torre, a batida, já eram cinco.

na manhã seguinte, concedeu-nos o vigário
a subida: pombas de carvão, cheiro de incêndio,
o sino-mestre do tempo dos fuggers

nos primeiros passos logo se via a frincha,
que finamente denteada pelo cobre incidia
assim como um inseto preso sob um vidro.

Jan Wagner

riß

der sommer, als sie mich nach drinnen riefen,
mit schwalben, die präzise wie skalpelle
über die felder schnitten, jenen reifen
gewittertrauben hinter der kapelle,

und gerade als die katze wie gestochen
zum keller rannte (der instinkt der tiere,
der urkontakt), fast in mir selbst das krachen,
vom turm der eine schlag, da war es vier.

am nächsten morgen ließ uns der vikar
nach oben: kohletauben, brandgeruch,
die meisterglocke aus der zeit der fugger

beim nähertreten erst sah man den riß,
der feingezackt über das kupfer kroch
wie ein insekt, gefangen unterm glas.
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Jan Wagner: variações sobre tonéis de chuva, edição bilíngue, Tradução e Posfácio de Douglas Valeriano Pompeu, 2019, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Jan Wagner, nascido em 1971, alemão de Hamburgo, concluiu o ensino médio no Stormarnschule, estudou Inglês e Anglística em Hamburgo, Dublin e Berlim, formou-se pela Universität Hamburgam, pelo Trinity College, Dublin, e pela Humboldt-Universität, Berlin, onde concluiu mestrado, é escritor, tradutor, crítico literário e poeta; suas obras: Probebohrung im Himmel. Gedichte (2001), Guerickes Sperling. Gedichte (2004), Achtzehn Pasteten. Gedichte (2007), Die Sandale des Propheten. Beiläufige Prosa. Essays (2011), Regentonnenvariationen. Gedichte (Variações sobre tonéis de chuva, poesias, 2014) e outros títulos; em 2017, em The Art of Topiary, uma seleção de sua obra foi traduzida para o idioma inglês, além disso, há também poemas seus traduzidos para outras línguas; como tradutor, o poeta verteu para o alemão a poesia de Charles Simic, James Tate, Matthew Sweeney e outros; Jan Wagner colabora regularmente no Frankfurter Rundschau e em outros jornais e rádios; premiações: Hamburger Förderpreis für Literatur (2001), Christine-Lavant-Publikumspreis (2003), Mondseer Lyrikpreis (2004), Ernst-Meister-Preis für Lyrik (2005), Arno-Reinfrank-Literaturpreis (2006), Friedrich-Hölderlin-Preis der Universität und der Universitätsstadt Tübingen (2011), Georg-Büchner-Preis (2017) etc.; Jan Wagner e o também poeta Bjöm Kuhligk coeditaram duas antologias de poesia em língua alemã: Lyrik von Jetzt 74 Stimmen (2003) e Lyrik von Jetzt 2 (2008); vive em Berlim.