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Na manhã sadia, o homem de barbas poentas1,
entronado na carrocinha, aspirou forte. O ar passava lhe dobrando o bigode
ríspido como a um milharal. Berrou arrastadamente o pregão2 molengo:
— Frangos BONS E BARATOS!
Com as cabeças de mártires obscuros enfiadas na tela de
arame os bichos piavam num protesto. Não eram bons. Nem mesmo baratos. Queriam
apenas que os soltassem. Que lhes devolvessem o direito de continuar ciscando
no terreiro amplo e longe.
— Psiu!
Foi o cavalo que ouviu e estacou, enquanto o seu dono
terminava o pregão. Um bruto homem de barbas brancas na porta de um barracão
chamava o vendedor cavando o ar com o braço enorme.
Quanto? Tanto. Mas puseram-se a discutir exaustivamente os
preços. Não queriam por nada chegar a um acordo. O vendedor era macio. O
comprador brusco.
— Olhe esta franguinha branca. Então não vale?
— Está gordota3… E que bonitos olhos ela tem.
Pretotes4… Vá lá!
O homem de barbas poentas entronou-se de novo e persistiu
em gritar pela rua que despertava:
— Frangos BONS E BARATOS!
Carregando a franga, o comprador satisfeito penetrou no
barracão.
— Olha, Inácia, o que eu comprei.
A mulher tinha um eterno descontentamento escondido nas
rugas. Permaneceu calada.
— Olha os olhos. Pretotes…
— É.
— Gostei dela e comprei. Garanto que vai ser uma boa
galinha.
— É.
No terreiro, sentindo a liberdade que retornava, a franga
agitou as penas e começou a catar afobada os bagos de milho que o novo dono lhe
atirava divertidíssimo.
* * *
A rua era suburbana, calada, sem movimento. Mas no alto da
colina dominando a cidade que se estendia lá embaixo cheia de árvores no dia e
de luzes na noite. Perto havia moitas de pitangueiras a cuja sombra os
galináceos podiam flanar5 à vontade e dormir a sesta.
A franga não notou grande diferença entre a sua vida atual
e a que levava em seu torrão natal distante. Muito distante. Lembrava-se
vagamente de ter sido embalaiada com companheiros mal-humorados. Carregavam os
balaios a trouxe-mouxe6 para um galinheiro sobre rodas, comprido e
distinto, mas sem poleiros. Houve um grito lá fora, lancinante7,
formidável. As paisagens começaram a correr nas grades, enquanto o galinheiro
todo se agitava, barulhando e rangendo por baixo. Rolos de fumo rolavam com um
cheiro paulificante8. De longe em longe as paisagens paravam. Mas
novo grito e elas de novo a correr. Na noitinha sumiram-se as paisagens e
apareceram fagulhas. Um fogo de artifício como nunca vira. Aliás ela nunca
tinha visto um fogo de artifício. Que lindo, que lindo. Adormecera numa enjoada
madorna9…
Viera depois outro dia de paisagens que tinham pressa. Dia
de sede e fome.
Agora a vida voltava a ser boa. Não tinha saudades do
torrão natal. Possuía o bastante para sua felicidade: liberdade e milho. Só o
galo é que às vezes vinha perturbá-la incompreensivelmente. Já lá vinha ele,
bem elegante, com plumas, forte, resoluto. Já lá vinha. Não havia dúvida que
era bem bonito. Já lá vinha… Sujeito cacete10.
O galo — có, có, có — có, có, có — rodeou-a, abriu a asa,
arranhou as penas com as unhas. Embarafustaram11 pelo mato numa
carreira doida. E ela teve a revelação do lado contrário da vida. Sem grande
contrariedade a não ser o propósito inconscientemente feminino de se esquivar,
querendo e não querendo.
* * *
— A melhor galinha, Inácia! Boa à beça12!
— Não sei por quê.
— Você sempre besta! Pois eu sei…
— Besta! besta, hein?
— Desculpe, Inácia. Foi sem querer. Também você sabe que eu
gosto da galinha e fica me amolando.
— Besta é você!
— Eu sei que eu sou.
* * *
Ao ruído do milho se espalhando na terra, a galinha lá foi
correndo defender o seu quinhão13, e os olhos do dono descansaram em
suas penas brancas, no seu porte firme, com ternura. E os olhos notaram logo a
anormalidade. A branquinha — era o nome que o dono lhe botara — bicava o chão
doidamente e raro alcançava um grão. Bicava quase sempre a uma pequena
distância de cada bago de milho e repetia o golpe, repetia com desespero, até
catar um grão que nem sempre era aquele que visava.
O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a, lhe
examinou os olhos. Estavam direitinhos, graças a Deus, e muito pretos. Soltou-a
no terreiro e lhe atirou mais milho. A galinha continuou a bicar o chão
desorientada. Atirou ainda mais, com paciência, até que ela se fartasse. Mas
não conseguiu com o gasto de milho, de que as outras se aproveitaram, atinar
com a origem daquela desorientação. Que é que seria aquilo, meu Deus do céu? Se
fosse efeito de uma pedrada na cabeça e se soubesse quem havia mandado a pedra,
algum moleque da vizinhança, ai… Nem por sombra imaginou que era a cegueira
irremediável que principiava.
Também a galinha, coitada, não compreendia nada,
absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que
procurava a sombra das pitangueiras? Sentia ainda o calor do sol, mas tudo
quase sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que estava a luz, onde é
que estava a sombra.
Foi assim que, certa madrugada, quando abriu os olhos,
abriu sem ver coisa alguma. Tudo em redor dela estava preto. Era só ela, pobre,
indefesa galinha, dentro do infinitamente preto; perdida dentro do inexistente,
pois que o mundo desaparecera e só ela existia inexplicavelmente dentro da
sombra do nada. Estava ainda no poleiro. Ali se anularia, quietinha, se fanando14
quase sem sofrimento, porquanto a admirável clarividência dos seus instintos
não podia conceber que ela estivesse viva e obrigada a viver, quando o mundo em
redor se havia sumido.
Porém, suprema crueldade, os outros sentidos estavam
atentos e fortes no seu corpo. Ouviu que as outras galinhas desciam do poleiro
cantando alegremente. Ela, coitada, armou um pulo no vácuo e foi cair no chão
invisível, tocando-o com o bico, pés, peito, o corpo todo.
As outras cantavam.
Espichava inutilmente o pescoço para passar além da sombra. Queria ver, queria
ver! Para depois cantar.
As mãos carinhosas do dono suspenderam-na do chão.
— A coitada está cega, Inácia! Cega!
— É.
Nos olhos raiados15 de sangue do carroceiro (ele
era carroceiro) boiavam duas lágrimas enormes.
* * *
Religiosamente, pela manhãzinha, ele dava milho na mão para
a galinha cega. As bicadas tontas, de violentas, faziam doer a palma da mão
calosa. E ele sorria. Depois a conduzia ao poço, onde ela bebia com os pés
dentro da água. A sensação direta da água nos pés lhe anunciava que era hora de
matar a sede; curvava o pescoço rapidamente, mas nem sempre apenas o bico
atingia a água: muita vez, no furor da sede longamente guardada, toda a cabeça
mergulhava no líquido, e ela a sacudia, assim molhada, no ar. Gotas inúmeras se
espargiam16 nas mãos e no rosto do carroceiro agachado junto do
poço. Aquela água era como uma bênção para ele. Como a água benta, com que um
Deus misericordioso e acessível aspergisse todas as dores animais. Bênção, água
benta, ou coisa parecida: uma impressão de doloroso triunfo, de sofredora
vitória sobre a desgraça inexplicável, injustificável, na carícia dos pingos de
água, que não enxugava e lhe secavam lentamente na pele. Impressão, aliás, algo
confusa, sem requintes psicológicos e sem literatura.
Depois de satisfeita a sede, ele a colocava no pequeno
cercado de tela separado do terreiro (as outras galinhas martirizavam muito a
branquinha) que construíra especialmente para ela. De tardinha dava-lhe outra
vez milho e água, e deixava a pobre cega num poleiro solitário, dentro do
cercado.
Porque o bico e as unhas não mais catassem e ciscassem,
puseram-se a crescer. A galinha ia adquirindo um aspecto irrisório de rapace17,
ironia do destino, o bico recurvo, as unhas aduncas18. E tal
crescimento já lhe atrapalhava os passos, lhe impedia de comer e beber. Ele
notou mais essa miséria e, de vez em quando, com a tesoura, aparava o excesso
de substância córnea19 no serzinho desgraçado e querido.
Entretanto, a galinha já se sentia de novo quase feliz.
Tinha delidas20 lembranças da claridade sumida. No terreiro plano
ela podia ir e vir à vontade até topar a tela de arame, e abrigar-se do sol
debaixo do seu poleiro solitário. Ainda tinha liberdade — o pouco de liberdade
necessário à sua cegueira. E milho. Não compreendia nem procurava compreender
aquilo. Tinham soprado a lâmpada e acabou-se. Quem tinha soprado não era da
conta dela. Mas o que lhe doía fundamente era já não poder ver o galo de plumas
bonitas. E não sentir mais o galo perturbá-la com o seu có-có-có malicioso. O
ingrato.
* * *
Em determinadas tardes, na ternura crescente do parati21,
ele pegava a galinha, após dar-lhe comida e bebida, se sentava na porta do
terreiro e começava a niná-la com a voz branda, comovida:
— Coitadinha da minha ceguinha!
— Tadinha da ceguinha…
Depois, já de noite, ia botá-la no poleiro solitário.
* * *
De repente os acontecimentos se precipitaram
* * *
— Entra!
— Centra22!
A meninada ria a maldade atávica23 no gozo do
futebol originalíssimo. A galinha se abandonava sem protesto na sua treva à
mercê dos chutes. Ia e vinha. Os meninos não chutavam com tanta força como a
uma bola, mas chutavam, e gozavam a brincadeira.
O carroceiro não quis saber por que é que a sua ceguinha
estava no meio da rua. Avançou como um possesso com o chicote que assoviou para
atingir umas nádegas tenras. Zebrou24 carnes nos estalos da longa
tira de sola. O grupo de guris se dispersou em prantos, risos, insultos
pesados, revolta
* * *
— Você chicoteou o filho do delegado. Vamos à delegacia.
* * *
Quando saiu do xadrez, na manhã seguinte, levava um nó na
garganta. Rubro de raiva impotente. Foi quase que correndo para casa.
— Onde está a galinha, Inácia?
— Vai ver.
Encontrou-a no terreirinho, estirada, morta! Por todos os
lados havia penas arrancadas, mostrando que a pobre se debatera, lutara contra
o inimigo, antes deste abrir-lhe o pescoço, onde existiam coágulos de sangue…
Era tão trágico o aspecto do marido que os olhos da mulher
se esbugalharam de pavor.
— Não fui eu não! Com certeza um gambá!
— Você não viu?
— Não acordei! Não pude acordar!
Ele mandou a enorme mão fechada contra as rugas dela. A
velha tombou nocaute25, mas sem aguardar a contagem dos pontos
escapuliu para a rua gritando: — Me acudam!
* * *
Quando de novo saiu do xadrez, na manhã seguinte, tinha
açambarcado26 todas as iras do mundo. Arquitetava vinganças
tremendas contra o gambá. Todo gambá é pau-d’água27. Deixaria uma
gamela28 com cachaça no terreiro. Quando o bichinho se embriagasse,
havia de matá-lo aos poucos. De-va-ga-ri-nho. GOSTOSAMENTE.
De noite preparou a esquisita armadilha e ficou esperando.
Logo pelas 20 horas o sono chegou. Cansado da insônia no xadrez, ele não
resistiu. Mas acordou justamente na hora precisa, necessária. A porta do
galinheiro, ao luar leitoso, junto à mancha redonda da gamela, tinha outra
mancha escura que se movia dificilmente.
* * *
Foi se aproximando sorrateiro, traiçoeiro, meio agachado,
examinando em olhadas rápidas o terreno em volta, as possibilidades de fuga do
animal, para destruí-las de pronto, se necessário. O gambá fixou-o com os olhos
espertos e inocentes, e começou a rir:
— Kiss! kiss! kiss!
(Se o gambá fosse inglês com certeza estaria pedindo
beijos. Mas não era. No mínimo estava comunicando que houvera querido alguma
coisa. Comer galinhas por exemplo. Bêbado.)
O carroceiro examinou o bichinho curiosamente. O luar, que
favorece os surtos29 de raposas e gambás nos galinheiros, era
esplêndido. Mas apenas tocou-o de leve com o pé, já simpatizado:
— Vai embora, seu tratante!
O gambá foi indo tropegamente30. Passou por
baixo da tela e parou olhando para a lua. Se sentia imensamente feliz o bichinho
e começou a cantarolar imbecilmente, como qualquer criatura humana:
— A lua como um balão balança!
A lua como um balão balança!
A lua como um bal...
E adormeceu de súbito debaixo de uma pitangueira.
(Galinha Cega, contos — 1931)
Notas da edição: 1. poento: poeirento; 2. pregão: grito de
vendedor ambulante; 3. gordota: diminutivo de gorda; 4. pretote: diminutivo de
preto; 5. flanar: andar sem rumo; 6. a trouxe-mouxe: desordenadamente; 7. lancinante: agudo, intenso; 8. paulificante: enjoada; 9. madorna: sonolência; 10.
cacete: impertinente; 11. embarafustar: adentrar confusamente; 12. à beça
[grafado à bessa no original]: em qrande quantidade; 13. quinhão: parte; 14.
fanar: murchar; 15. raiado: congestionado, vermelho; 16. espargir: espalhar; 17. rapace: que rouba; 18. adunco: em forma de gancho; 19.
córneo: duro como corno (chifre); 20. delido: apagado; 21. parati: cachaça; 22.
centrar: lançar a bola; 23. atávico: de nascença; 24. zebrar: cobrir de
listras; 25. tombar nocaute: cair (referência ao boxe); 26. açambarcar:
concentrar; 27. pau d’água: bêbado; 28. gamela: vasilha de madeira ou barro; 29.
surto: aparecimento, ataque; 30. ir tropegamente: andar com dificuldade.
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Contos de João Alphonsus,
Apresentação de Ivan Marques e Ilustração de Rogério Coelho, Coleção O Encanto do
Conto, 2003, DCL — Difusão Cultural do Livro Ltda., São Paulo — SP; João Alphonsus de Guimaraens (1901 — 1944), mineiro
de Conceição do Serro, hoje Conceição do Mato Dentro, iniciou seus estudos com professora
particular, conclui os estudos primários no Grupo Escolar Dr. Gomes Freire, em Mariana
— MG, iniciou estudos no Seminário Arquiepiscopal de Mariana e, mudando-se para
Belo Horizonte, estudou 2 anos de Medicina, desistiu do curso, formou-se em Direito,
foi advogado, funcionário público, promotor de justiça, jornalista, contista e poeta
modernista; trabalhou no Diário de Minas, na companhia dos então jovens literatos
Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura, Pedro Nava e outros, jornal este “que
virou uma espécie de ‘quartel-general’ do Modernismo mineiro.”; publicou seus primeiros
poemas na revista Fon-Fon, em 1918; colaborou com a cataguasense e modernista revista
Verde, criada em 1927 por Antonio Mendes e outros companheiros e poetas de Cataguases
e região; suas obras: Galinha Cega (contos, 1931), Totônio Pacheco (romance, 1934),
Rola-Moça (romance, 1938), Pesca da Baleia (contos, 1942), Eis a noite! (contos,
1943), Contos e Novelas (1965); teve obras premiadas.