____________________
[traduzido por André Vallias]
Não sou gata de burguês,
Nunca durmo em almofada.
Perambulo no sereno,
Sou felina e liberada.
No verão eu devaneio
Noite adentro, no telhado;
Canto o que me vem na telha:
Do rom-rom vou pro miado.
Assim fala. E da garganta
Jorram as canções do cio;
Os bichanos do arrabalde
Sentem logo um arrepio.
Correm todos ao encontro
De Mimi, num relampejo;
Todos querem musicar,
Eriçados de desejo.
Mas nenhum é virtuose
Que trafica seu talento;
Com afinco se dedicam
À arte por devotamento.
De instrumentos não carecem,
São sua própria viola e flauta,
As narinas são trompetes,
Os bigodes, sua pauta.
Quando soltam alto as vozes
Em polissonante scherzo 1,
Assemelham-se a uma fuga
De Bach ou Guido d’Arezzo 2.
Desvairadas sinfonias!
Nem Beethoven nem Berlioz 3
Superaram num capriccio 4
Tão sonoros quiproquós.
Manifestações sublimes
Da magia de uma orquestra
Que sacode o céu acima
E as estrelas defenestra!
Quando escuta a milionária
Melodia, a gata mia —
Toda envolta por Selene,
Nuvem prata — mamma mia!
Mas o canto da gatinha
Não convence a prima donna 5
Filomela; ela desdenha
A novata — que vergonha!
Tanto faz! Não obstante
O desprezo da Signora,
Quando finda a cantoria,
Vem sorrindo a fada Aurora.
 |
| Heinrich Heine |
Mimi
Bin kein sittsam Bürgerkätzchen,
Nicht im frommen Stübchen spinn’ ich.
Auf dem Dach in freier Luft,
Eine freie Katze bin ich.
Wenn ich sommernächtlich schwärme,
Auf dem Dache, in der Kühle,
Schnurrt und knurrt in mir Musik,
Und ich singe, was ich fühle.
Also spricht sie. Aus dem Busen
Wilde Brautgesänge quellen,
Und der Wohllaut lockt herbey
Alle Katerjunggesellen.
Alle Katerjunggesellen,
Schnurrend, knurrend, alle kommen,
Mit Mimi zu musiziren,
Liebelechzend, lustentglommen.
Das sind keine Virtuosen,
Die entweiht jemals für Lohngunst
Die Musik, sie blieben stets
Die Apostel heilger Tonkunst.
Brauchen keine Instrumente,
Sie sind selber Bratsch und Flöte;
Eine Pauke ist ihr Bauch,
Ihre Nasen sind Trompeten.
Sie erheben ihre Stimmen
Zum Konzert gemeinsam jetzo;
Das sind Fugen, wie von Bach
Oder Guido von Arezzo.
Das sind tolle Symphonien,
Wie Caprizen von Beethoven
Oder Berlioz, der wird
Schnurrend, knurrend übertroffen.
Wunderbare Macht der Töne!
Zauberklänge sonder Gleichen!
Sie erschüttern selbst den Himmel,
Und die Sterne dort erbleichen.
Wenn sie hört die Zauberklänge,
Wenn sie hört die Wundertöne,
So verhüllt ihr Angesicht
Mit dem Wolkenflor Selene.
Nur das Lästermaul, die alte
Prima-donna Philomele
Rümpft die Nase, schnupft und
schmäht
Mimis Singen — kalte Seele!
Doch gleichviel! Das musiziret,
Trotz dem Neide der Signora,
Bis am Horizont erscheint
Rosig lächelnd Fee Aurora.
[1851]
Notas
de André Vallias:
1
Scherzo: do italiano = “brincadeira,
gracejo”; peça musical ou movimento de uma composição com andamento mais rápido
e “divertido”;
2
Guido d’Arezzo (992 — 1050): monge beneditino italiano, teórico e professor de
música, a quem é atribuída a criação do sistema moderno de notação;
3
Berlioz, Louis Hector (1803 — 1869): compositor, escritor e crítico musical
francês, um dos principais expoentes do romantismo, embora se definisse como “clássico”;
em seu livro Les Soirées de l’Orchèstre,
ele relata como foi repecionado pelo poeta amigo, já doente há seis anos, com
uma voz que parecia sair do túmulo, mas ainda bem-humorada: “Eh! meu caro! Ora,
é você! Entre! Então não me abandonou?... sempre original!”
4
Capriccio: do italiano = “movimento
súbito”, “capricho”, provavelmente de capro (“bode”); tipo de composição
musical caracterizada por uma certa liberdade de realização;
5
Prima donna: do italiano = “primeira mulher”;
expressão originalmente usada nas companhias de ópera para designar a cantora
principal.
____________________
Heine, hein?: poeta
dos contrários — Introdução, Traduções e Notas de André Vallias, 2011, 1ª
edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Christian Johann
Heinrich Heine (1797 — 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta,
ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico
poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Schubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn,
Brahms,
Hugo Wolf, Richard Wagner),
e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze
e Lord Berners;
escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (poesias, Livro
das Canções, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Romanzero (poesias,
Romanceiro, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os
deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (publicação póstuma, Últimos Versos,
1869), entre outros títulos.