domingo, 31 de dezembro de 2017

Emily Dickinson: Examinar, reverente, uma caixa de ébano

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[traduzido por Ivo Bender]

Examinar, reverente, uma caixa de ébano
Depois de passados os anos;
Remover o aveludado pó
Ali deixado pelos verões.

Trazer, sob a luz, uma carta
Pelo tempo esmaecida,
Perscrutar a letra pálida
Que nos aqueceu, feito vinho.

Entre os guardados talvez se encontrem
A corola fanada de uma flor,
Colhida por mão nobre e fértil
Certa manhã, muito longe.

Ou caracóis de frontes,
Por nossa constância olvidadas;
Talvez um antiquado adorno
Em perdidas vestes usado.

Depois, tornar a guardar essas coisas
E voltar aos afazeres,
Como se a pequena caixa de ébano
Não nos dissesse respeito.

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Emily Dickinson

In Ebon Box, when years have flown
To reverently peer 
Wiping away the velvet dust
Summers have sprinkled there!

To hold a letter to the light 
Grown Tawny now, with time 
To con the faded syllables
That quickened us like Wine!

Perhaps a Flower's shrivelled cheek
Among its stores to find 
Plucked far away, some morning 
By gallant  mouldering hand!

A curl, perhaps, from foreheads
Our Constancy forgot 
Perhaps, an Antique trinket 
In vanished fashions set!

And then to lay them quiet back 
And go about its care 
As if the little Ebon Box
Were none of our affair!
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Emily Dickinson  Poemas escolhidos, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Introdução de Ivo Bender, Coleção L&PM Pocket, vol. 436,  2016, L&PM, Porto Alegre  RS; Emily Elizabeth  Dickinson (1830  — 1886), nascida em Amherst, Massachusetts, Estados Unidos, foi poeta; cursou durante um ano o South Hadley Female Seminary e o abandonou após recusa pública em declarar sua fé, daí passou a viver reclusa em sua própria casa, por mais de vinte anos; nada publicou em vida; após sua morte, uma sua irmã, Lavínia, encontrou todos seus textos, uma grande quantidade de poemas inéditos, em cadernos e folhas soltas, e dispôs-se a publicá-los; editou-se, assim, Poems by Emily Dickinson (1890).

sábado, 30 de dezembro de 2017

José Pedro Soares: Com Cupido saí a desafio, . . . [soneto]

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Com Cupido saí a desafio,
por ele mesmo sendo provocado,
queixando-se de mim, por desprezado,
porque zombo do amor, dele me rio.

Tomo um bordão, um canivete afio,
únicas armas em que vou fiado;
Cupido de mil setas vem armado,
mas não me faz temer, não desconfio.

Chegado de brigar o tempo certo,
dispara-me uma seta sem receio,
mas erra, e dá-me as costas muito esperto.

Co’o pau lhe dei nas asas, desasei-o,
aturdido no chão cai de mim perto;
apanhei-o no chão, que fiz? Capei-o.
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Sonetos de Amor & Desamor (vários autores), Organização de Ivan Pinheiro Machado e Notas de Sergio Faraco, Coleção L&PM Pocket, vol. 1095, 2016, Porto Alegre — RS; José Pedro Soares  (1763 ? — 1845), português e lisboeta, foi professor régio de Gramática Latina, tradutor e poeta; lecionou em Ponta Delgada, Açores; bibliografia: Didáctica (1790), Gramatica Latina figurada (1817), Poéticas (1815), Poesias compostas a diversos assuntos, 2 tomos (1816), Poesias recitadas por ocasião dos festejos públicos na cidade de Ponta Delgada da ilha de São Miguel (1823) etc.; traduziu Éclogas (1800), de Virgílio, As Tristes, de Ovídio, e Os sagrados hinos da igreja, 2 tomos, do latim para o português.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Heinrich Heine: Mimi

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[traduzido por André Vallias]

Não sou gata de burguês,
Nunca durmo em almofada.
Perambulo no sereno,
Sou felina e liberada.

No verão eu devaneio
Noite adentro, no telhado;
Canto o que me vem na telha:
Do rom-rom vou pro miado.

Assim fala. E da garganta
Jorram as canções do cio;
Os bichanos do arrabalde
Sentem logo um arrepio.

Correm todos ao encontro
De Mimi, num relampejo;
Todos querem musicar,
Eriçados de desejo.

Mas nenhum é virtuose
Que trafica seu talento;
Com afinco se dedicam
À arte por devotamento.

De instrumentos não carecem,
São sua própria viola e flauta,
As narinas são trompetes,
Os bigodes, sua pauta.

Quando soltam alto as vozes
Em polissonante scherzo 1,
Assemelham-se a uma fuga
De Bach ou Guido d’Arezzo 2.

Desvairadas sinfonias!
Nem Beethoven nem Berlioz 3
Superaram num capriccio 4
Tão sonoros quiproquós.

Manifestações sublimes
Da magia de uma orquestra
Que sacode o céu acima
E as estrelas defenestra!

Quando escuta a milionária
Melodia, a gata mia 
Toda envolta por Selene,
Nuvem prata  mamma mia!

Mas o canto da gatinha
Não convence a prima donna 5
Filomela; ela desdenha
A novata  que vergonha!

Tanto faz! Não obstante
O desprezo da Signora,
Quando finda a cantoria,
Vem sorrindo a fada Aurora.

Heinrich Heine
Heinrich Heine

Mimi

Bin kein sittsam Bürgerkätzchen,
Nicht im frommen Stübchen spinn’ ich.
Auf dem Dach in freier Luft,
Eine freie Katze bin ich.

Wenn ich sommernächtlich schwärme,
Auf dem Dache, in der Kühle,
Schnurrt und knurrt in mir Musik,
Und ich singe, was ich fühle.

Also spricht sie. Aus dem Busen
Wilde Brautgesänge quellen,
Und der Wohllaut lockt herbey
Alle Katerjunggesellen.

Alle Katerjunggesellen,
Schnurrend, knurrend, alle kommen,
Mit Mimi zu musiziren,
Liebelechzend, lustentglommen.

Das sind keine Virtuosen,
Die entweiht jemals für Lohngunst
Die Musik, sie blieben stets
Die Apostel heilger Tonkunst.

Brauchen keine Instrumente,
Sie sind selber Bratsch und Flöte;
Eine Pauke ist ihr Bauch,
Ihre Nasen sind Trompeten.

Sie erheben ihre Stimmen
Zum Konzert gemeinsam jetzo;
Das sind Fugen, wie von Bach
Oder Guido von Arezzo.

Das sind tolle Symphonien,
Wie Caprizen von Beethoven
Oder Berlioz, der wird
Schnurrend, knurrend übertroffen.

Wunderbare Macht der Töne!
Zauberklänge sonder Gleichen!
Sie erschüttern selbst den Himmel,
Und die Sterne dort erbleichen.

Wenn sie hört die Zauberklänge,
Wenn sie hört die Wundertöne,
So verhüllt ihr Angesicht
Mit dem Wolkenflor Selene.

Nur das Lästermaul, die alte
Prima-donna Philomele
Rümpft die Nase, schnupft und schmäht
Mimis Singen  kalte Seele!

Doch gleichviel! Das musiziret,
Trotz dem Neide der Signora,
Bis am Horizont erscheint
Rosig lächelnd Fee Aurora.

[1851]


Notas de André Vallias:
1 Scherzo: do italiano = “brincadeira, gracejo”; peça musical ou movimento de uma composição com andamento mais rápido e “divertido”;
2 Guido d’Arezzo (992  1050): monge beneditino italiano, teórico e professor de música, a quem é atribuída a criação do sistema moderno de notação;
3 Berlioz, Louis Hector (1803  1869): compositor, escritor e crítico musical francês, um dos principais expoentes do romantismo, embora se definisse como “clássico”; em seu livro Les Soirées de l’Orchèstre, ele relata como foi repecionado pelo poeta amigo, já doente há seis anos, com uma voz que parecia sair do túmulo, mas ainda bem-humorada: “Eh! meu caro! Ora, é você! Entre! Então não me abandonou?... sempre original!”
4 Capriccio: do italiano = “movimento súbito”, “capricho”, provavelmente de capro (“bode”); tipo de composição musical caracterizada por uma certa liberdade de realização;
5 Prima donna: do italiano = “primeira mulher”; expressão originalmente usada nas companhias de ópera para designar a cantora principal.
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Heine, hein?: poeta dos contrários — Introdução, Traduções e Notas de André Vallias, 2011, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico poética musicada por vários compositores de sua época (Franz SchubertRobert SchumannFelix Mendelssohn, Brahms, Hugo WolfRichard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha FerreiraHans Werner HenzeLord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (poesias, Livro das Canções, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Romanzero (poesias, Romanceiro,  1851), Der Doktor Faust Ein Tanzpoem (Doutor Fausto um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (publicação póstuma, Últimos Versos, 1869), entre outros títulos.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Maria Ângela Alvim: De tudo me afastei por não querença . . . [soneto]

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De tudo me afastei, por não querença
ou medo de demais querer a tudo
e de fixar em ócio e inexistência
o móbil ser ideal com que me iludo.

E de tudo herdei minha inocência,
este sentido de não ser, agudo,
vivo mistério e tão mortal ciência
que me aprendeu a ouvir o verso mudo.

A vida não vivi,  hora distante
que nunca se deteve em meu caminho.
A imagem vista em ver era bastante.

Mas, se não sei nem mesmo o que devoro,
e me consome a mim, e é sozinho
suor de aurora, poesia, eu fui teu poro.

Poemas  1962/1993

MARIA ÂNGELA ALVIM
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Roteiro da Poesia Brasileira Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, primeira edição, 2007, Editora Global, São Paulo — SP; Maria Ângela Alvim (1926  — 1959), mineira de Volta Grande, Zona da Mata, formada pela Universidade Federal de Minas Gerais, na primeira turma do curso de Assistência Social, foi poeta e tradutora; bibliografia: Superfície (1950),  única obra publicada em vida, e, postumamente, editaram-se Poemas: Superfície e outros poemas (1962), Poemas — seguidos de Carta a um cortador de linho (1993) Superfície — Volume Toda Poesia (edição portuguesa, 2002).

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Luís Carlos: Inquietação

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Desassossego do meu ser humano!
Mórbida exaltação dos meus sentidos
Que me estende a sem-fins desconhecidos
Com profundo sabor de abismo e arcano!

Pesa o Universo em mim como um tirano:
No olhar, cabem-me os Céus indefinidos;
Nas conchas univalves dos ouvidos,
As sinfonias trágicas do Oceano.

Quem sou, no meu conspecto diminuto,
Para encerrar esse desígnio imenso,
De ver e ouvir a essência do absoluto?

Nesta interrogação vivo suspenso,
Sofrendo já, pelo que vejo e escuto,
Sofrendo, muito mais, pelo que penso.

Astros e Abismos  1924, 1ª edição.
Rio de Janeiro: Empresa Brasil Editora, pp. 3233.

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Luís Carlos — Série Essencial 72, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação e Notas de Augusto Sérgio Bastos, 2013, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros  (1880  1932), nascido no Rio de Janeiro RJ,  formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; exerceu a profissão de engenheiro na Estrada de Ferro Central do Brasil e foi nomeado consultor técnico do Ministério da Viação, sem nunca ter deixado de escrever; publicou seus versos em jornais e revistas cariocas, entre os quais Fon Fon, Para Todos e Careta; há críticos literários que o classificam como pertencente à última geração dos parnasianos; reunido a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas  (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924),  Rosal de Ritmos  (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924),  Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Heinrich Heine: Desejos perdidos

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[traduzido por André Vallias]

Pelos traços inequívocos
De um igual temperamento,
Nossos corpos se atraíam,
Mesmo sem consentimento.

Nosso tão modesto amor
De palavras prescindia;
Era um olhar pro outro,
Logo a gente se entendia.

Que saudades que me dá!
Viveria assim pra sempre,
Minha brava irmã de armas,
No mais dolce far niente!

É verdade, eu sempre quis
O aconchego do teu leito!
Para te fazer feliz,
O que eu não teria feito!

Comeria o que te apraz,
E do que não te apetece
Me livrava. Até cigarro
Fumaria, se quisesses.

Historinhas de polaco
Que escancaram o riso teu,
Toda noite eu te contava
No dialeto dos judeus.

Estou farto do estrangeiro 
Dá-me asilo imediato!
Vê se aquece meus joelhos
Na lareira do teu quarto.  

Meus desejos brilham ouro!
Mas são bolhas de sabão 
Feito a vida se me foram,
E eu caído aqui no chão!

Digo adeus! Eles se foram,
Meus desejos: tudo em vão!
Foi mortal o duro golpe
Que atingiu meu coração.

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Heinrich Heine

Verlorene Wünsche

Von der Gleichheit der Gemütsart
Wechselseitig angezogen,
Waren wir einander immer
Mehr als uns bewußt gewogen.

Beide ehrlich und bescheiden,
Konnten wir uns leicht verstehen;
Worte waren überflüssig,
Brauchten uns nur anzusehen.

O wie sehnlich wünscht’ ich immer,
Daß ich bey dir bleiben könnte
Als der tapfre Waffenbruder
Eines Dolcefarniente.

Ja, mein liebster Wunsch war immer,
Daß ich immer bei dir bliebe!
Alles, was dir wohlgefiele,
Alles thät ich dir zu Liebe.

Würde essen, was dir schmeckte,
Und die Schüssel gleich entfernen,
Die dir nicht behagt. Ich würde
Auch Cigarren rauchen lernen.

Manche polnische Geschichte,
Die dein Lachen immer weckte,
Wollt’ ich wieder dir erzählen
In Judäas Dialekte.

Ja, ich wollte zu dir kommen,
Nicht mehr in der Fremde schwärmen 
An dem Herde deines Glückes
Wollt ich meine Kniee wärmen. — 

Goldne Wünsche! Seifenblasen!
Sie zerrinnen wie mein Leben 
Ach, ich liege jetzt am Boden,
Kann mich nimmermehr erheben.

Und Ade! sie sind zerronnen,
Goldne Wünsche, süßes Hoffen!
Ach, zu tödlich war der Faustschlag,
Der mich just in’s Herz getroffen.

[Romanzero  1851]
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Heine, hein?: poeta dos contrários — Introdução, Traduções e Notas de André Vallias, 2011, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico poética musicada por vários compositores de sua época (Franz SchubertRobert SchumannFelix MendelssohnBrahmsHugo WolfRichard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha FerreiraHans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (poesias, Livro das Canções, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Romanzero (poesias, Romanceiro,  1851), Der Doktor Faust  Ein Tanzpoem (Doutor Fausto  um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (publicação póstuma, Últimos Versos, 1869), entre outros títulos.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Lila Ripoll: Canção da chuva

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Cai uma chuva tão fina
que quase nem molha a gente.
É uma música em surdina
que apenas a alma sente.

Junto meu rosto à vidraça
e olho a rua sem pensar.
Fico em estado de graça,
como quem vai comungar.

Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida,
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!

Senhora, tu não devias
permitir tantos enganos.
Há excesso de alegrias,
e excesso de desenganos.

Por onde andaram meus passos
vi sinais de desalentos.
Vaguei por muitos espaços
e senti todos os ventos.

Ventos do sul, vento norte,
ventos do leste e do oeste,
tão diversos como a sorte
que tu, na vida, nos deste.

Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida 
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!

Ilha Difícil  1987

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 30, Seleção e Prefácio de Ivan Junqueira, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo — SP; Lila Ripoll (1905  1967), gaúcha de Quaraí — a partir dos 22 anos viveu em Porto Alegre —, formada em piano no Conservatório de Música (hoje Instituto de Artes da UFRGS), foi poeta, teatróloga, musicista, professora e militante política comunista; ingressou no magistério estadual e lecionou Canto Orfeônico no Grupo Escolar Venezuela; colaborou na Revista Universitária, Província de São Pedro, participou ativamente na Revista Horizonte e na Tribuna (órgão do Partido Comunista); obra poética: De mãos postas (1938), Céu vazio (1941), Por quê? (1947), Novos poemas (1951), 1º de Maio (1954), Poemas e Canções  (1957), O coração descoberto (1961), Águas Móveis (1965), Antologia Poética  (1971), Ilha difícil: antologia poética (1987) Obra Completa (1998); para o teatro, escreveu Um Colar de Vidro, peça estreada em 1958, no Teatro São Pedro; recebeu premiações: Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras, por Céu Vazio, e Prêmio Pablo Neruda, por Novos Poemas; A poeta e militante comunista Lila Ripoll foi presa em 1964, logo após o golpe militar, mas libertada em seguida devido ao seu precário estado de saúde, com câncer em estágio avançado.