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sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Lili Leitão: Em leilão & Operações do amor

 
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Em leilão

Quando o teu coração, poeta, exibiste
uma vez em leilão, para vendê-lo,
na venda original me garantiste
em suma, que era um coração modelo.

E por isso comprei-o, mas, ao vê-lo,
certifiquei-me de que me iludiste:
teu coração é um coração de gelo,
sem fé, sem crença, sem bondade e triste.

Arrependido estou de o ter comprado,
de ter um beijo meu por ele dado,
não tendo ele o valor sequer de um riso.

Podes levá-lo e devolver-me o beijo,
que neste mundo, onde só mágoas vejo,
de coração sem crença eu não preciso!

— o —

Operações do amor

Quando somos solteiros seduzimos,
Perversamente, as moças enganamos,
E as tolinhas, a quem amar fingimos,
São tantas, tantas, tantas, que somamos.

Quando noivos, porém, depois ficamos,
E levamos a sério o que sentimos,
As mentiras de amor que então pregamos
Muito instintivamente diminuímos.

Quando, casados, com fervor gozamos
Da esposa amada os delicados mimos,
A ventura e o prazer multiplicamos.

E, quando somos pais, enfim, sorrimos;
Numa vida feliz que desfrutamos,
A amizade entre os filhos dividimos.

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Lili Leitão, o Café Paris e a vida boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense e niteroiense, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam, e ali discutiam, os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas ...; colaborou em vários jornais, entre os quais n’A Capital, no Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, Niteroiense, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha (de 1922 a 1936); escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933), Caiu no laço, Niterói em cuecas e outras ...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas brabas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Luiz Leitão: A cagada*


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“Certa vez para dar uma cagada,
ou por outra, passar um telegrama,
embarafustei por uma reservada
de um Café que eu nem sei como se chama.

Entro e, ao cagar, sorte danada:
num dos papéis sujos de merda e lama
vejo o retrato da mulher amada,
por quem meu peito o coração se inflama.

Nisto, interrompo minha caganeira,
pego o retrato dela e boto na algibeira,
satisfeito, sorrindo e suspirando.

Que porco!  hão de dizer  mas eu protesto.
Porque assim procedendo, no meu gesto,
Provei que gosto dela até cagando.”

[Comida brava]


* Nota da edição: Poema gentilmente recitado de memória por Gentil da Costa Lima.
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Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933) e outras...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

domingo, 28 de agosto de 2022

Sylvio Figueiredo: Vade retro, Satan!

 
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Vade retro, Satan! Coisa indecente,
mulher de calças, a fazer serviço
que era feito por homens... Deixa disso!
não penses nessa coisa irreverente!

Tu, numa forja1, por exemplo, à frente
da fornalha! Imagina, ó meu derriço2,
pensa bem, anjo meu, terno e roliço,
tu, no trabalho da barbuda gente!

Lérias3, o idiota  feminismo  estulto4!
não se coaduna o forte e o vil trabalho
com ser gentil, com feminino vulto.

Por isso é que contigo zango e ralho;
faze o labor doméstico e eu me oculto
no meu... Cada macaco no seu galho5!

Notas de Luiz Antonio Barros:
1. Forja: oficina de ferreiro: fundição. ([dicionário] Aurélio)
2. Derriço: xodó; namorada. ([dicionário] Houaiss, 2001)/(Houaiss/Aurélio)
3. Lérias: conversa fiada; tolices ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes [filólogo], 1953);
4. Estulto: insensato, estúpido; que não apresenta um bom discernimento. ([dicionário] Houaiss, 2001)
5. Cada macaco no seu galho: ditado cujo significado é “ninguém deve ir além das suas atribuições ([Enciclopédia e dicionário ilustrado, 1998], [André] Koogan)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal,  2014, Nitpress, Niterói — RJ; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo, fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; obras: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras; pelos traços biográficos do autor, relatados neste Os Poetas Satíricos..., ficamos sabendo que embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris, Niterói (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; ressalte-se também que, conforme já citado, em 1913 o poeta já publicara Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Sylvio Figueiredo: Recessus lacertaes*

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A minha casa é pequenina e pobre
Como convém a um pobre e pequenino:
Não tem varandas nem entrada nobre,
É o jardim algo menos que mofino**

Conta, porém, dos pássaros com o hino
E logo vê quem minha esquina dobre
Que não lhe falte o raio purpurino***
Do mesmo sol que as outras casas cobre.

Nela é que fruindo meus modestos gozos,
Vivo entre os meus amigos tagarelas
E os meus livros amigos silenciosos.

Nela a ilusão ao menos me conforta
De que do mundo as ríspidas procelas****
Vêm morrer surdamente à minha porta!

(Forja 1962)

Notas de Luiz Antonio Barros:
* Recessus lacertae (latim): Significa “O esconderijo do lagarto”.
** Mofino: de pequenas dimensões, acanhado (Aurélio)
*** Purpurino: púrpura; cor vibrante vermelho-escura, tendente para ao roxo (idem)
**** Procelas: temporais; grandes tumultos. (ibidem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo, fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; obras: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras; pelos traços biográficos do autor, relatados neste Os Poetas Satíricos..., ficamos sabendo que embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris, Niterói (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; ressalte-se também que, conforme já citado, em 1913 o poeta já publicara Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café. 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Sylvio Figueiredo*: Mora a pequena em minha vizinhança

 
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Mora a pequena em minha vizinhança,
Na avenida mais chic da cidade;
É linda e a cabecinha não descansa,
Viva, astuta e repleta de maldade.

Tem namorado: um paspalhão de pança,
Que lhe fala feliz, muito à vontade
E que os ouvidos seus mimosos cansa
Com farta dose de boçalidade.

Eu, que no amor não tenho tal ventura,
Invejo a esse magano sem decoro,
Que o amor possui de tão gentil criatura.

“Ah, Deus dá nozes...” penso e assim, mofino,
Para ter tanta sorte no namoro,
Sinto o desejo até de ser cretino!

* Nota do Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que pelos traços biográficos de Sylvio Figueiredo, anotados por Luiz Antonio Barros  organizador deste Os Poetas Satíricos ..., ficamos sabendo que embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; antes, em 1913, o poeta publicou Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café.
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo, fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; obras: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Luiz Leitão: Treze

 
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O treze é um caso sério, meus senhores!
É o grande peso1 da população:
O maior malfeitor dos malfeitores,
A urucubaca2 da numeração.

Para mais aumentar os seus horrores,
Pragueja esta infernal superstição:
Da mesa, a que houver treze comedores,
O mais pesado3 vai para o caixão...

Morre... De fato, foi o que se deu
Numa ceia supimpa, colossal,
Em que champanha à beça4 se bebeu.

Éramos treze ao todo, a conta feia;
Doze, porém, rasparam-se, e, afinal,
O pesado fui eu morri5 na ceia...


Notas da edição de Vida apertada (Glossário, estabelecido por Luiz Antonio Barros):
  1. peso: ver pesado. [nota 3 abaixo];
  2. urucubaca: má sorte no que se faz ou intenta; ziquizira. Etim.: vocábulo expressivo, cuja base é urubu, ave de agouro que pressente os cadáveres; José Pedro Machado relata que Bueno afirma ser o vocábulo da época da gripe espanhola (1918), quando era muito utilizado. ([dicionário] Houaiss, 2001);
  3. pesado: infeliz ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes [filólogo], 1953); sem sorte: ([Novo dicionário da gíria brasileira, Manuel] Viotti, 1957);
  4. à beça: em grande quantidade, a valer, em grande intensidade. ([dicionário] Houaiss, 2001);
  5. morri: morrer: despender dinheiro para fazer um pagamento, quitar uma dívida etc. ([dicionário] Houaiss, 2001).
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário estabelecido por Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Sylvio Figueiredo*: No dia 3 mais uma primavera

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No dia 3 mais uma primavera
contas, formosa e escreves-me, pedindo
que eu compareça ao bródio ameno e lindo,
que a tal festa não falte... ai! quem me dera!

Eu, que sou nos folguedos mesmo cuera,
vou faltar desta vez. Horror infindo!
É que o meu terno podre está se esvaindo
de tão batido e pálido. Pudera!

Tenho razões, bem vês, minhas candongas,
De não comparecer à linda festa,
A ouvir ao piano as belas arapongas...

Nesta minha pindaíba se concentra
a causa disso... É a explicação que resta
... e em festa de jacu nhambu não entra!

* Nota deste Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que pelos traços biográficos de Sylvio Figueiredo, anotados por Luiz Antonio Barros organizador deste Os Poetas Satíricos ..., ficamos sabendo que, embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; antes, em 1913, o poeta publicou Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café.
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo), fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; obras: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Luiz Leitão: Amor e medo

 
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Arranjei, certa vez, uma conquista
Ao telefone, numa enguiçadela1
Uma Ivone, que amei, de voz singela,
Por obra e graça da telefonista.

Mas, sabendo, depois, que essa donzela,
Que me fez quase um vate futurista,
Era noiva de um tal Lulu Batista,
Respeitado no morro da Favela...

Nunca mais quis saber da dita-cuja:
Desprezei, para sempre, a D. Ivone,
Com medo de acabar numa água-suja2.

Inda hoje me arrependo, e me arrepio:
Por causa desse amor ao telefone,
A minha vida esteve por um fio3...


Notas da edição de Vida apertada (Glossário, estabelecido por Luiz Antonio Barros):
  1. enguiçadela: má sorte, problema. ([dicionário] Houaiss, 2001);
  2. água-suja: escândalo. ([Novo dicionário da gíria brasileira, Manuel] Viotti, 1957);
  3. por um fio: por um triz; por uma fração de segundos; por pouco. ([dicionário] Houaiss, 2001). O autor faz um trocadilho com o fio telefônico.
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário estabelecido por Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

sábado, 27 de março de 2021

Luiz Leitão: Minhas dívidas

 
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Devo a vida a meus pais; ao professor,
O meu preparo, que não vale nada;
Devo à loja, à pensão, devo ao doutor...
Tenho a vida de dívida crivada.

Devo tudo: almofadas, cobertor,
Quarto, mobília, luz, roupa lavada...
Até meu terno, velho, já sem cor,
Estou devendo a um gringo * camarada.

Devo, não nego: estou devendo à beça!
Aos próprios santos, de quem não desdenho,
A cada um deles, devo uma promessa.

E apesar de viver endividado,
Para aumentar as dívidas que tenho
Eu vivo sempre a conversar fiado **...


Notas da edição de Vida apertada: (Glossário, estabelecido por Luiz Antonio Barros):
* gringo: estrangeiro louro ou ruivo; o argentino, o uruguaio. Judeu que vende a prestações. ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes, 1953)
** conversar fiado: ser dado a conversa fiada, ou seja, propósito de quem não tem interesse de cumprir o que promete, não tenciona cumprir o que promete, conversa sem interesse nem resultado. [idem, ibidem]
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário estabelecido por Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Luiz Leitão: Ao público *

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Publicando estes versos incolores,
Que ao respeitável público ofereço,
Peço um sorriso apenas, dos leitores,
Já que boas risadas não mereço.

Fi-los por ter o espírito travesso,
Para, espalhando-os pelos compradores,
Minorar as torturas, que padeço,
Da vil perseguição dos meus credores.

Fi-los sem pretensões e sem vaidades,
Para abrandar um pouco a prontidão **,
A mais horrível das enfermidades.

São versos de uma musa atrapalhada,
De quem procura ver se fica são ***,
De quem vive, afinal, VIDA APERTADA...


Notas:
* o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa faz constar que este  Ao público é o primeiro dos poemas constantes em Vida apertada e serve também como dedicatória aos leitores, além da apresentação da obra pelo próprio autor, Luiz Leitão ou Lili Leitão, como era conhecido;
** da edição de Vida apertada, do Glossário, de Luiz Antonio Barros: prontidão: condição de pronto, isto é, sem dinheiro. ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes, 1953);
*** em mais um atrevimento, este aprendiz de blogueiro supõe/entende que o poeta-humorista registra ver se fica são, neste segundo terceto do soneto, para trocadilhar com versificação.
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário de Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Itamar Siqueira: Visita à casa da sogra

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Como urubu que regressasse ao ninho,
A ver se ainda um bom caminho logra,
Eu quis rever também a minha sogra,
O meu primeiro e virginal carinho.

Entrei. Pé ante pé, devagarzinho,
O fantasma, talvez, daquela cobra...
Tomou-me as mãos, olhou-me bem, de sobra...
E levou-me para dentro, de mansinho.

Era este quarto, oh! se me lembro, e quando...
Em que, à luz da lua que brilhava,
O pau roncava forte, tanto e tanto,

No costado da gente, sem piedade,
Um cacete bem grosso lá no canto...
Minhas costas choraram de saudade...


(Humor e Humorismo, organizado por Idel Becker  1961)

Livro: Humor e Humorismo Parodias - Idel Becker | Estante Virtual
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, e Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; sobre Itamar Siqueira, autor deste poema-paródia, nada consta neste Poetas Satíricos, nem mesmo pode-se afirmar que o autor tivesse frequentado o Café Paris; Luiz Antonio Barros registrou nas Referências Biográficas desta obra que o poema foi colhido de Humor e Humorismo (Brasiliense, São Paulo  SP, 1961), organizado por Idel Becker; o aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa, até onde pode pesquisar, também nada encontrou a respeito do poeta e do poema; fica o agradecimento a quem se aprofundar a respeito e quiser repartir com o blogue.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Lili Leitão: Suíte

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Paro aqui. Tenho o livro terminado.
De continuar a versejar desisto.
Já dei sofrivelmente1 o meu recado.
Neste soneto, agora, ponho o visto.

Peço, entretanto, por amor de Cristo,
Que comigo ninguém fique zangado,
Pois, brevemente, se inda cuidar disto,
Voltarei mais feliz, mais engraçado.

Por esta vez, já chega de chalaça2.
Estou pronto3, e o dinheiro cabuloso4
É o meu maior fornecedor de graça.

Eis o meu derradeiro sonetinho;
Vou tratar de outro ofício mais rendoso:
Meus amáveis leitores, adeusinho...

Resultado de imagem para Lili Leitão

Notas de Luiz Antonio Barros:
1 Sofrivelmente: de modo sofrível, isto é, que não é bom, mas também não é inteiramente mau; passável, tolerável. (Lili Leitão)
2 Chalaça: dito ou gracejo de mau gosto, escárnio. (idem)
3 Pronto: sem dinheiro. (ibidem)
4 Cabuloso: azarento, importuno, antipático. (ibidem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.