____________________
Olhai: — é o beijo azul dos
namorados,
na boca em flor da carne
pubescente;
beijo cinza — na face, o indiferente;
beijos da sedução, beijos doirados.
Beijo verde, de um par de mal-casados;
e o da ternura, em nácar esplendente;
beijo rubro, minaz, mostrando o
dente,
beijo do ciúme, dos desesperados!
Beijo da mágoa, beijo da desgraça,
em roxo, em lírio, e em desolado
assomo,
o beijo róseo dos amantes passa...
Beijo amarelo e um outro negro
vejo:
os de inveja e traição; mas nenhum
como
o branco, o eterno, o derradeiro
beijo!
[Plumário — 1905]
____________________
Antologia de Poetas Fluminenses (várias
autorias) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record
Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 — 1916),
nascido no Arraial de Boa Esperança, em Rio Bonito — RJ, começou a trabalhar muito
cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares no mesmo arraial onde nasceu;
depois, mudando-se para o Rio de Janeiro, foi funcionário público concursado do
Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Tribuna Popular
e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio; suas obras: Cromos (1881,
2ª ed. 1896), Pizzicatos (comédia elegante, em versos, Rio, 1886), Dona Carmen (poema,
1890), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio,
1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, ...; consta
de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o
“Manifesto Simbolista” em 1890 junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mulato,
cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido
funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à
vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.