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sábado, 14 de junho de 2025

B. Lopes: Marcha dos Beijos


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Olhai: é o beijo azul dos namorados,
na boca em flor da carne pubescente;
beijo cinza na face, o indiferente;
beijos da sedução, beijos doirados.

Beijo verde, de um par de mal-casados;
e o da ternura, em nácar esplendente;
beijo rubro, minaz, mostrando o dente,
beijo do ciúme, dos desesperados!

Beijo da mágoa, beijo da desgraça,
em roxo, em lírio, e em desolado assomo,
o beijo róseo dos amantes passa...

Beijo amarelo e um outro negro vejo:
os de inveja e traição; mas nenhum como
o branco, o eterno, o derradeiro beijo!

[Plumário — 1905]

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Antologia de Poetas Fluminenses (várias autorias) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança, em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares no mesmo arraial onde nasceu; depois, mudando-se para o Rio de Janeiro, foi funcionário público concursado do Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio; suas obras: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (comédia elegante, em versos, Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1890), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, ...; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890 junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

sábado, 24 de maio de 2025

B. Lopes: Velho Muro


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Velho muro da chácara! Parcela
Do que já foste: resto do passado,
Bolorento, musgoso, úmido, orlado
De uma coroa víride e singela.

Forte e novo eu te vi, na idade bela
Em que, falando para o namorado,
Tinhas no ombro de pedra debruçado
O corpo senhoril de uma donzela…

Linda epoméia te bordava a crista;
Eras, ao luar de leite, um linho albente,
Folha de prata, ao sol, ferindo a vista.

Em ti pousava a doce borboleta…
E quantas noites viste, ermo e silente,
Romeu beijando as mãos de Julieta!

[Plumário — 1905]

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Antologia de Poetas Fluminenses (várias autorias) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança, em Rio Bonito RJ, começou a trabalhar muito cedo enquanto frequentava os primeiros anos escolares no mesmo arraial onde nasceu; depois, mudando-se para o Rio de Janeiro, foi funcionário público concursado do Correio Geral, jornalista e poeta; escreveu artigos para o periódico Tribuna Popular e também colaborou no Novidades, ambos da cidade do Rio; suas obras: Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (comédia elegante, em versos, Rio, 1886), Dona Carmen (poema, 1890), Brasões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres, ...; consta de sua biografia ter sido um dos precursores do simbolismo no país, ao lançar o “Manifesto Simbolista” em 1890 junto com o poeta Emiliano Perneta; o poeta mulato, cuja “gente tivera raízes na senzala”, conforme Andrade Muricy, embora tenha sido funcionário público concursado, nunca se portou como um burocrata: entregou-se à vida boêmia carioca e ao alcoolismo e desafiou a todo tempo as convenções sociais.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Casimiro de Abreu: O que é simpatia


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(A uma menina)

Simpatia é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.

Simpatia são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.

São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.

Simpatia meu anjinho,
É o canto do passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu de agosto,
É o que me inspira teu rosto...
Simpatia é quase amor!

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Casimiro José Marques de Abreu (1839 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), tendo recebido tão somente a instrução primária (de 1849 a 1852) no Instituto Freeze, em Nova Friburgo, por vontade paterna mudou-se para o Rio e praticou o comércio por um período; foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); suas obras: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesias, 1859) e outros títulos; morreu de tuberculose aos 21 anos de idade; tornou-se um dos poetas mais populares do Romantismo no país; Casimiro de Abreu é o patrono da Cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Casimiro de Abreu: Primaveras


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[O Primavera! gioventú dell'anno,
Gioventú! primavera della vita.
METASTASIO.]

[ I ]

A primavera é a estação dos risos,
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o lago
Da brisa louca aos amorosos frisos.

Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores
Melhor perfume a violeta exala.

Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.

A natureza se desperta rindo,
Um hino imenso a criação modula,
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo.

Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa: Como é linda a veiga!
Responde a rosa: Como é doce o orvalho!

[ I I ]

Mas como às vezes sobre o céu sereno
Corre uma nuvem que a tormenta guia,
Também a lira alguma vez sombria
Solta gemendo de amargura um treno.

São flores murchas; o jasmim fenece,
Mas bafejado se erguerá de novo
Bem como o galho do gentil renovo
Durante a noite, quando o orvalho desce.

Se um canto amargo de ironia cheio
Treme nos lábios do cantor mancebo,
Em breve a virgem do seu casto enlevo
Dá-lhe um sorriso e lhe entumece o seio.

Na primavera na manhã da vida
Deus às tristezas o sorriso enlaça,
E a tempestade se dissipa e passa
À voz mimosa da mulher querida.

Na mocidade, na estação fogosa,
Ama-se a vida a mocidade é crença,
E a alma virgem nesta festa imensa
Canta, palpita, se extasia e goza.

[1 de julho, 1858]
[Primaveras — 1859]

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Casimiro José Marques de Abreu (1839 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), tendo recebido tão somente a instrução primária (de 1849 a 1852) no Instituto Freeze, em Nova Friburgo, por vontade paterna mudou-se para o Rio e praticou o comércio por um período; foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); suas obras: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesias, 1859) e outros títulos; morreu de tuberculose aos 21 anos de idade; tornou-se um dos poetas mais populares do Romantismo no país; Casimiro de Abreu é o patrono da Cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Ibrantina Cardona: Calmo, à brisa que o afaga, o mar azul embala . . . [soneto 'Ondas']


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Calmo, à brisa que o afaga, o mar azul embala
o flutígeno berço; ao léu da esteira mansa
vem à praia uma onda, e beijando-a, resvala,
e volta ao seio d'água, e desfaz-se em bonança.

Sucede à brisa o vento, e embrusca o céu de opala;
turvo, agita-se o mar; empola-se a onda, avança,
e estruge contra a praia; em fúria, a açoita, estala,
e ao seio bramidor, de retorno, se lança.

Alma ansiosa, és igual a esse mar: ora, presa
das ilusões, o amor, a paz e os teus antolhos
expandes, num sorriso; ora, atada à tristeza,

sob a dor que exaspera, estuando, dentre escolhos,
da tormenta moral rebentas a represa
e as ondas sobrevêm nas lágrimas dos olhos.

[Heptacórdio — 1922]


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Ibrantina Cardona, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve o que se segue:
Ao se casar com o jornalista Francisco Cardona, mudou-se para Mogi-Mirim, no interior de São Paulo. Com ele, viveu um casamento considerado, no mínimo, "estranho”. Descrito pelo vigário da cidade, Monsenhor José Nardini, como uma pessoa de temperamento forte e violento, Francisco pode ter sido o grande responsável pela separação do casal. Uma separação também diferente: viviam na mesma casa, ele na parte da frente e ela, na de trás. O banheiro tinha duas portas; uma para ele, outra para ela. As refeições eram servidas separadamente, sendo que no fim do casamento, os almoços e jantares chegaram a ser feitos por pessoas diferentes. Francisco e Ibrantina não trocavam uma palavra. Quando necessário, se comunicavam por meio de bilhetes.’ (trecho do texto Não somos alegres nem tristes: somos poetas, transcrito de A Voz da Serra — sexta-feira, 14 de março de 2014, Nova Friburgo — RJ)
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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona (1868 1956), nascida em Nova Friburgo RJ, foi poeta e escritora; colaborou intensamente em periódicos da época: Revista Feminina, Senhorita X!..., A Mensageira, Gazeta de Paraopeba, ...; escreveu e publicou Plectros (1897), Primavera do Amor (1915), Heptacórdio (1922), Cleópatra (1923), Asas Rubras (1939), Cosmos (poesias de vários tempos, 1951), ...; em 1976, a poetisa foi biografada por Antônio Arruda Dantas em Ibrantina Cardona, publicado pela Editora Pannartz; Ibrantina foi membro da Academia Fluminense de Letras, participou do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, da Associação Paulista de Imprensa etc.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Luís Pistarini: Não sei quem seja, — aparição divina, . . . [soneto]


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Não sei quem seja, aparição divina,
santa ou mulher, arcanjo ou flor, contudo,
não me sai da cabeça esta menina
de olhos de treva e gorro de veludo.

Quanto tempo, de pé, postado à esquina,
por vê-la, estive, estupefato e mudo!
Sorriu... Fitei-a... Olhou-me... e, peregrina,
seguiu: segui-a o meu amor! E é tudo,

tudo o que sei dessa gentil criança
que eu vi, para que enchesse a alma de escolhos,
numa infundada e fútil esperança.

E há de estes versos ler, sem ver que eu morro,
fanatizado por aqueles olhos
e apaixonado por aquele gorro!...

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Luis Pistarini ou Luiz Pistarini (1877 1918), fluminense de Resende, em sua juventude residiu em São Paulo e no Rio de Janeiro, foi jornalista e poeta; começou a escrever aos onze anos, muito embora tenha cursado apenas quatro anos da escola primária; colaborou com revistas literárias da época, trabalhou em jornais de Resende, Barra Mansa e do Rio de Janeiro, então capital federal; dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo, foi redator da revista O Malho, editor do jornal A Lira e trabalhou na Câmara Municipal de Resende; o poeta também assinou textos com o pseudônimo Lívio Peralta; suas obras: Bandolim (1899), De Luto (1898), Sombrinhas, Postais (1907) e Agonias e Ressurreição (publicação póstuma, com prefácio do poeta Luís Murat); foi autor do Hino de Resende, sua cidade natal; é patrono da cadeira nº 27 da Academia Fluminense de Letras, sediada em Niterói, à época capital do estado; é tido que levou uma vida “atormentado por enfermidades”.

sábado, 29 de junho de 2024

Noel de Carvalho: Justiça divina


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Se tudo o que se passa no universo,
Se o mais simples fenômeno da vida
Depende da vontade indiscutida
De um Ser supremo, eterno, incontroverso;

Se Deus, que vive lá nos céus imerso,
Dirige o amor, a lágrima vertida,
A mão que salva e a mão homicida,
De modo agindo, em tudo, tão diverso;

Se Dele nasce a luz, o movimento,
A essência que produz o pensamento
Que cria e elimina em vã porfia,

Trazendo a natureza submissa:
Ou Deus não tem noção do que é justiça
Ou se dá tudo à sua revelia.
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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Noel de Carvalho (1878 1942), fluminense de Resende, foi tabelião de profissão, poeta e também musicista; por trabalhar desde cedo, pouco estudou em colégios, o que não o impediu de adquirir, por conta própria, “larga cultura, tornando-se bom conhecedor da filosofia positivista”, é o que aponta o publicitário Frederico de Carvalho, seu filho, no estudo literário Um poeta, publicado no Correio da Manhã, sábado, 29 de abril de 1967; Noel de Carvalho chegou a residir em São Paulo e na Guanabara (à época, Distrito Federal e, hoje, Rio de Janeiro); no Rio, foi presidente da Federação Metropolitana de Futebol em duas gestões e, em Resende, onde nasceu e viveu a maior parte de sua vida, há, em sua homenagem, a Escola Municipal Noel de Carvalho; não teve livro publicado.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Ibrantina Cardona*: O rio


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No cabeço da serra e sob a aquosa bruma,
num leito de granito o rio se desloca;
flóculos de frouxéis na tona albente espuma,
e múrmuro rasteja, a lamber a barroca.

Dorso frisado ao vento, em forma de alva pluma,
por uma nesga estreita a massa fluída emboca;
da garganta de pedra a escorrê-la se apruma,
galga ao largo o pedrouço e afunda sob a loca.

De súbito ei-lo avante... Engrossando a cascata
de água viva que freme, as válvulas descerra,
dos saltos, vence o abismo, escachoa e desata

o selvagem caudal... Desde o pendor da serra,
numa conquista audaz com que avassala e mata,
o rio a plaga inteira empolga, vence e aterra.


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Ibrantina Cardona, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve o que se segue:
Ao se casar com o jornalista Francisco Cardona, mudou-se para Mogi-Mirim, no interior de São Paulo. Com ele, viveu um casamento considerado, no mínimo, "estranho”. Descrito pelo vigário da cidade, Monsenhor José Nardini, como uma pessoa de temperamento forte e violento, Francisco pode ter sido o grande responsável pela separação do casal. Uma separação também diferente: viviam na mesma casa, ele na parte da frente e ela, na de trás. O banheiro tinha duas portas; uma para ele, outra para ela. As refeições eram servidas separadamente, sendo que no fim do casamento, os almoços e jantares chegaram a ser feitos por pessoas diferentes. Francisco e Ibrantina não trocavam uma palavra. Quando necessário, se comunicavam por meio de bilhetes.’ (trecho do texto Não somos alegres nem tristes: somos poetas, transcrito de A Voz da Serra — sexta-feira, 14 de março de 2014, Nova Friburgo — RJ)
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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona (1868 1956), nascida em Nova Friburgo RJ, foi poeta e escritora; colaborou intensamente em periódicos da época: Revista Feminina, Senhorita X!..., A Mensageira, Gazeta de Paraopeba, ...; escreveu e publicou Plectros (1897), Primavera do Amor (1915), Heptacórdio (1922), Cleópatra (1923), Asas Rubras (1939), Cosmos (poesias de vários tempos, 1951), ...; em 1976, a poetisa foi biografada por Antônio Arruda Dantas em Ibrantina Cardona, publicado pela Editora Pannartz; Ibrantina foi membro da Academia Fluminense de Letras, participou do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, da Associação Paulista de Imprensa etc.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Luciano Gualberto: Os mártires


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Quem eram? Pouco importa. Uma idéia os guiava
De onde vinham? Porque se sorriam da fome?!
Teto todos os céus; leito a savana brava;
Fortuna, uma sotaina; a miséria por nome.

No gozo de sofrer cada qual se separava,
Porque a alma se faz luz se o corpo se consome;
Corpo, argila infeliz das ambições escrava...
Que o cilício te expurgue e a tortura te dome.

O pensamento em Deus, ninguém os demovia,
Nem os reis, nem a plebe, os alfanjes, as feras.
E só tinham às mãos uma cruz como guia.

E, para eles, a glória excelsa e verdadeira,
Eram, heróis da fé, grandes almas sinceras,
Os três fulcros da cruz e as chamas da fogueira.

[Poemas 1944]

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Luciano Gualberto de Oliveira (1883 1959), fluminense de Petrópolis, formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico, professor e reitor universitário, poeta e frequentador da Roda Literária do Café Paris de Niterói; com apenas dezesseis anos iniciou sua carreira jornalístico-literária com a publicação de um seu poema n’O Reverbero, logo depois, também publicou n’A Revista e n’A Nova Geração, todos periódicos de Petrópolis, e também n’O Bandolim, n’A Constelação, n’O Rabecão; daí vieram publicações n’A Estação e no Tagarela, ambos do Rio de Janeiro, n’O Pharol, de Juiz de Fora MG e em outros jornais e revistas; suas obras: Poemas (1944), Torre de Babel (1948), Gôndola Azul (poemas, previsto e não publicado, pelo menos com este nome), além de ter participado em coletâneas poéticas; também consta de seus traços biobibliográficos ter escrito as ficções Cidade Moderna e O Homem que perdeu a Fé; Luciano Gualberto, entre outros cargos administrativos, foi reitor da USP Universidade de São Paulo (19501951), vereador, deputado estadual, vice prefeito e prefeito interino da capital paulista.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Casimiro de Abreu: Canção do Exílio (Meu lar)


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Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
          Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
          Cantar o sabiá!

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro
          Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo
          Os gozos do meu lar!

O país estrangeiro mais belezas
          Do que a pátria, não tem;
E este mundo não vale um só dos beijos
          Tão doces duma mãe!

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava
          Lá na quadra infantil;
Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,
          O céu do meu Brasil!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos
          Meu Deus! não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
          Cantar o sabiá!

Quero ver esse céu da minha terra
          Tão lindo e tão azul!
E a nuvem cor-de-rosa que passava
          Correndo lá do sul!

Quero dormir à sombra dos coqueiros,
          As folhas por dossel;
E ver se apanho a borboleta branca,
          Que voa no vergel!

Quero sentar-me à beira do riacho
          Das tardes ao cair,
E sozinho cismando no crepúsculo
          Os sonhos do porvir!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
          Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
          A voz do sabiá!

Quero morrer cercado dos perfumes
          Dum clima tropical,
E sentir, expirando, as harmonias
          Do meu berço natal!

Minha campa será entre as mangueiras,
          Banhada do luar,
E eu contente dormirei tranquilo
          À sombra do meu lar!

As cachoeiras chorarão sentidas
          Porque cedo morri,
E eu sonho no sepulcro os meus amores
          Na terra onde nasci!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
          Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
          Cantar o sabiá!

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Casimiro José Marques de Abreu (1839 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), tendo recebido tão somente a instrução primária (de 1849 a 1852) no Instituto Freeze, em Nova Friburgo, por vontade paterna mudou-se para o Rio e praticou o comércio por um período; foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); suas obras: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesias, 1859) e outros títulos; morreu de tuberculose aos 21 anos de idade; tornou-se um dos poetas mais populares do Romantismo no país; Casimiro de Abreu é o patrono da Cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 14 de maio de 2024

Casimiro de Abreu: Juramento


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Tu dizes, ó Mariquinhas
Que não crês nas juras minhas,
Que nunca cumpridas são!
Mas se eu não te jurei nada,
Como hás de tu, estouvada,
Saber se eu as cumpro ou não?!

Tu dizes que eu sempre minto,
Que protesto o que não sinto,
Que todo poeta é vário,
Que é borboleta inconstante;
Mas agora, neste instante,
Eu vou provar-te o contrário.

Vem cá, sentada a meu lado
Com esse rosto adorado
Brilhante de sentimento,
Ao colo o braço cingido,
Olhar no meu embebido,
Escuta o meu juramento.

Espera: inclina essa fronte...
Assim!... Pareces no monte
Alvo lírio debruçado!
Agora, se em mim te fias,
Fica séria, não te rias,
O juramento é sagrado.

Eu juro sobre estas tranças,
“E pelas chamas que lanças
“Desses teus olhos divinos;
“Eu juro, minha inocente,
“Embalar-te docemente
“Ao som dos mais ternos hinos!

“Pelas ondas, pelas flores,
“Que se estremecem de amores
“Da brisa ao sopro lascivo;
“Eu juro, por minha vida,
“Deitar-me a teus pés, querida,
“Humilde como um cativo!

“Pelos lírios, pelas rosas,
“Pelas estrelas formosas,
“Pelo sol que brilha agora,
Eu juro dar-te, Maria,
“Quarenta beijos por dia
“E dez abraços por hora!”

O juramento está feito,
Foi dito com a mão no peito
Apontando ao coração;
E agora por vida minha,
Tu verás, ó moreninha
Tu verás se o cumpro ou não!...

[Rio — 1857]

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Casimiro José Marques de Abreu (1839 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), tendo recebido tão somente a instrução primária (de 1849 a 1852) no Instituto Freeze, em Nova Friburgo, por vontade paterna mudou-se para o Rio e praticou o comércio por um período; foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); suas obras: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesias, 1859) e outros títulos; morreu de tuberculose aos 21 anos de idade; tornou-se um dos poetas mais populares do Romantismo no país; Casimiro de Abreu é o patrono da Cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras.

sábado, 20 de abril de 2024

Euclides da Cunha: Ontem, quando soberba, escarnecias . . . [soneto]


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[Rimas]

Ontem, quando, soberba, escarnecias
dessa minha paixão louca, suprema,
e no teu lábio, essa rosada algema,
a minha vida gélida prendias,

eu meditava em loucas utopias,
tentava resolver grave problema:
 Como engastar tua alma num poema?
Se eu não chorava quando tu rias...

Hoje, que vives desse amor ansioso
e és minha, és minha, extraordinária sorte,
hoje eu sou triste sendo tão ditoso!...

E tremo e choro pressentindo, forte
Vibrar, dentro em meu peito fervoroso,
esse excesso de vida, que é a morte...


* Nota do blogue Verso e Conversa: A respeito da vida de Euclides da Cunha, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe o que se segue:
     ‘"Tragédia da Piedade" — A esposa de Euclydes, conhecida como Anna de Assis, tornou-se amante de um jovem cadete 17 anos mais novo do que ela, Dilermando de Assis. Ainda casada com Euclides, teve dois filhos de Dilermando. Um deles morreu ainda bebê. O outro filho era chamado por Euclides de "a espiga de milho no meio do cafezal", por ser  único louro numa família de morenos. Aparentemente, Euclides aceitou como seu esse menino.
     A traição de Anna desencadeou uma tragédia em 1909, quando Euclydes entrou armado na casa de Dilermando dizendo-se disposto a matar ou morrer. Dilermando reagiu e matou Euclides, mas foi absolvido pela justiça militar. Até hoje discute-se o episódio. Dilermando mais tarde casou-se com Anna. O casamento durou 15 anos.’ [transcrito de https://pt.wikipedia.org/wiki/Euclides_da_Cunha]
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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 1909), nascido em Cantagalo RJ, onde também iniciou sua vida escolar Colégio Caldeira , foi morar com os avós, em Salvador BA, época em que estudou no Colégio Carneiro Ribeiro, de volta ao Rio de Janeiro, frequentou algumas outras escolas, matriculou-se na Escola Politécnica, desistiu por razões financeiras, e ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, complementando depois seus estudos na Escola Superior de Guerra; foi escritor, sociólogo, ensaísta, repórter jornalístico, historiador, engenheiro militar e também poeta; seu grande feito literário foi ter escrito Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos reportagens do jornal O Estado de São Paulo, à época A Província de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora na cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos — diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos; em poesia, registre-se Caderno Ondas: 1883 — 1884; Postais: 1902 — 1906 e Esparsas: 1885 — 1909; Euclides da Cunha, que em 1884 fizera sua estréia publicando um artigo em O Democrata, jornal criado por ele e seus amigos, depois, por várias ocasiões colaborou com a então A Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, e também na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, além de em outros periódicos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras a ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro.