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[traduzido por Álvaro de
Castro Lima]
Do elevado mirante, o Egito
que dormia
contemplavam os dois, sob um
céu sufocante,
e o Rio que através do delta,
sussurrante,
para Bubaste ou Saïs a onda
rola sombria.
Sob a espessa couraça o
"Imperator" sentia
— guerreiro acalentando o sono
de um infante —
volutuoso tombar, sobre seu
peito ovante,
o corpo escultural que em seus
braços fremia.
As pálidas feições, entre o
negror da coma,
volvendo a Marco Antônio — ela
o régio tesouro
dos lábios lhe ofertou para um
ósculo infindo...
E, inclinado sobre ela, o
caudilho de Roma
viu cintilar nos olhos seus,
mosqueados de ouro,
todo o infinito mar com
galeras fugindo...
Antoine et Cléopâtre
Tous deux ils regardaient, de
la haute terrasse,
L'Égypte s'endormir sous un
ciel étouffant
Et le Fleuve, à travers le
Delta noir qu'il fend,
Vers Bubaste ou Saïs rouler
son onde grasse.
Et le Romain sentait sous la
lourde cuirasse,
Soldat captif berçant le
sommeil d'un enfant,
Ployer et défaillir sur son
coeur triomphant
Le corps voluptueux que son
étreinte embrasse.
Tournant sa tête pâle entre
ses cheveux bruns
Vers celui qu'enivraient
d'invincibles parfums,
Elle tendit sa bouche et ses
prunelles claires;
Et sur elle courbé, l'ardent
Imperator
Vit dans ses larges yeux
étoilés de points d'or
Toute une mer immense où
fuyaient des galères.
[Les Trophées — 1893]
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O Mundo Maravilhoso do Soneto,
de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho,
1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; José María de Heredia Girard (1842 — 1905), nascido
em Cuba (à época, colônia espanhola), na localidade de Cafeyre, próxima a Santiago
de Cuba, aos oito anos tendo sido mandado para a França, estudou e bacharelou-se no colégio dos
padres vicentinos, o liceu Saint-Vincent, em Senlis, foi poeta, escritor e tradutor;
em 1859, de volta a Cuba, Havana, onde permaneceu por pouco mais de um ano, aprofundou
os conhecimentos da língua e da literatura espanhola, compôs seus primeiros poemas
franceses que chegaram até nós, e depois retornou para Paris — França; fez parte
do grupo que tinha em Leconte de Lisle um “chefe e mestre”, e do qual também participavam
François Coppée, Sully Prudhomme, Paul Verlaine e outros, todos se tornando conhecidos
como os poetas do Parnaso, “os parnasianos”; José María de Heredia, que naturalizou-se
francês, publicou Les Trophées (118 sonetos e 4 poemas de maior extensão, 1893) e no ano seguinte foi eleito
membro da Academia Francesa; também foi diretor da Biblioteca do Arsenal, de Paris,
e organizou uma edição crítica das obras do poeta André Chénier; Heredia é
reconhecido como um dos poetas do Parnasianismo francês, embora com “produção pouco
abundante, mas de boa qualidade”; além da já citada publicação de Les Tropheés,
deixou-nos também sua obra esparsa em revistas literárias da época e contribuiu
para a Revue de Deux Mondes, o Le Temps e o Journal des Débats; traduziu, do espanhol
para o francês, A Verdadeira História da Conquista da Nova-Espanha — 3 volumes,
do Capitão Bernal Diaz del Castillo (Véridique histoire de la conquête de la Nouvelle-Espagne
— 3 volumes, 1877-1878).