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domingo, 17 de abril de 2022

Jorge Guillén: Galo do Amanhecer

 
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[traduzido por Henriqueta Lisboa]

Meia sombra. Pouca cena.
Arrogante1 irrompe2 o galo.
Eu.
          Eu.
               Eu.
                    Não, não me calo!

E resplendendo ressoa,
tartamelo3
de uma véspera festiva:
Sim.
            Sim.
                  Sim.
                         Quiquiriqui!

Ai!
     Voz ou cor de carmim4,
     eleva-te à luz por mim,
     canta, brilha,
     desafoga-me esta pena.

E diante da aurora pálida
levanta-se a crista: Sim!
(Aberto o céu. Tudo é cena.)


Gallo del amanhecer

(Sombras aún. Poca escena.)
Arrogante irrumpe el gallo.
Yo.
          Yo.
               Yo.
                    ¡No, no me callo!

Y alumbrándose resuena,
Guirigay
De una súbita verbena:
Sí.
         Sí.
             Sí.
                ¡Quiquiriquí!

¡Ay!
Voz o color carmesí,
Álzate a más luz por mi,
Canta, brilla,
Arrincóname la pena.

Y ante la aurora amarilla
La cresta se yergue: ¡Sí!
(Hay cielo. Todo es escena.)

Notas da edição:
1. arrogante: atrevido
2. irrompe: fala
3. tartamelo: tagarela
4. carmim: vermelho
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Guillén Álvarez (1893 1984), espanhol de Valladolid, estudou Filosofia, formou-se na Universidade de Granada, doutorou-se na Universidade de Madri, foi professor universitário, poeta, crítico literário e cronista; participante ativo da revista literária Verso y Prosa, teve seus textos críticos e poemas publicados em jornais e revistas: La Libertad, Index, La Verdad, Espanha, La Pluma, El Norte de Castilla, entre outros periódicos; desde 1919 e até 1928 publicou poesias na Revista do Occidente, o que se tornaria a primeira edição de Cântico; em 1936, início da Guerra Civil Espanhola, sofre perseguição, é processado, preso e depois segue para o exílio; obras: Cântico (poesia, 1ª edição em 1928 e outras três edições sempre acrescidas de novos e muitos poemas), Clamor. Maremagnum (poesia, 1957), Linguagem e poesia (prosa, 1962), Rise of the Circumstances (poesia, 1963), Tributo (poesia, 1967), O enredo da obra (prosa, 1969), Y otros poemas (1973), Final (poesia, 1981) etc.; recebeu premiações por sua obra.

terça-feira, 8 de março de 2022

Federico García Lorca: Canção Tonta

 
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[traduzido por J. Carlos Lisboa]

Mamãe,
eu quero ser de prata.

Filhinho,
terás muito frio.

Mamãe,
eu quero ser de água.

Filhinho,
terás muito frio.

Mamãe,
borda-me na tua almofada.

Isso, sim:
agora mesmo!

F. García Lorca

Canción tonta

Mamá,
yo quiero ser de plata.

Hijo,
tendrás mucho frío.

Mamá.
Yo quiero ser de agua.

Hijo,
tendrás mucho frío.

Mamá.
Bórdarme en tu almohada.

¡Eso sí!
¡Ahora mismo!

[Canciones 1921 — 1924 (1928)]
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Federico García Lorca: O Lagarto Está Chorando

 
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[traduzido por J. Carlos Lisboa]

O lagarto está chorando.
A lagarta está chorando.

O lagarto e a lagarta
com seus aventaizinhos brancos.

Perderam, não sabem como,
as alianças1 de casados.

Ai, o anelzinho de chumbo,
ai, anelzinho chumbado!

Um céu imenso e sem gente
levanta em seu globo2 os pássaros.

O sol, capitão redondo,
veste um jaleco3 dourado.

Repara como são velhos,
tão velhinhos os lagartos!

Ai, como choram e choram;
como os dois estão chorando!

Federico García Lorca

El lagarto está llorando

El lagarto está llorando.
La lagarta está llorando.

El lagarto y la lagarta
con delantalitos blancos.

Han perdido sin querer
su anillo de desposados.

¡Ay, su anillito de plomo,
ay, su anillito plomado!

Un cielo grande y sin gente
monta en su globo a los pájaros.

El sol, capitán redondo,
lleva un chaleco de raso.

¡Miradlos qué viejos son!
¡Qué viejos son los lagartos!

¡Ay, cómo lloran y lloran!
¡ay, ¡ay, cómo están llorando!

Notas da edição:
1. as alianças: os anéis
2. globo: espaço
3. jaleco: casaco
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Edmond Rostand: Maneira de Fazer Pastéis de Amêndoa Doce*

 
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[traduzido por Ricardo Gonçalves]

Com três ovos cada clara
Bem batida, uma por uma,
Se prepara
Uma xícara de espuma
Branca e leve qual se fosse
Neve pura; põe-se então,
Com leite de amêndoa doce,
Quinze gotas de limão.

Depois se bate e adelgaça,
Visando-se obra perfeita,
Fina massa
Que se deita
Numas formas especiais.
E em cada pastel brocado
Lado a lado,
Põe-se a espuma e nada mais.

Os pastéis assim obtidos
São no forno muito quente,
Docemente,
Com cautela introduzidos.
Espera-se um pouco e, após,
Na bandejinha que os trouxe,
Enfileiram-se ante nós
Os pastéis de amêndoa doce.

Edmond Rostand

Comment on fait les tartelettes amandines

Battez, pour qu'ils soient mousseux,
Quelques oeufs;
Incorporez à leur mousse
Un jus de cédrat choisi;
Versez-y
Un bon lait d'amande douce;
Mettez de la pâte à flan
Dans le flanc
De moules à tartelette;
D'un doigt preste, abricotez
Les côtés;
Versez goutte à gouttelette
Votre mousse en ces puits, puis
Que ces puits
Passent au four, et, blondines,
Sortant en gais troupelets,
Ce sont les
Tartelettes amandines!

* Nota do Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página registra que o poema-receita Maneira de Fazer Pastéis de Amêndoa Doce (Comment on fait les tartelletes amandines) é apresentado na comédia teatral Cyrano de Bergerac (Acte II, Scene 4) como parte de uma fala de Ragueneau, poeta e pasteleiro, um dos personagens da peça.
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Edmond Eugène Alexis Rostand (1868 1918), francês de Marselha, formado em Direito, sem nunca ter exercido a profissão, foi poeta, escritor e dramaturgo; tornou-se conhecido como dramaturgo, pela autoria da peça Cyrano de Bergerac; obras: Le Gant Rouge (peça, A Luva Vermelha, 1888), Ode à la Musique (poesia, 1890), Les Musardises (Divagações, poesia, 1891), Les Deux Pierrots (Os Dois Pierrôs, 1893), Les Romanesques, comédia, 1893), La Princesse Lontaine (A Princesa Longínqua, peça escrita em versos, 1895), La Samaritaine (A Samaritana, peça escrita em versos, 1897), Pour la Grèce (poesia, 1897), Cyrano de Bergerac (comédia dramática escrita em versos, 1897), L’Aiglon (O Filhote de Águia, drama, 1900), Un Soir à Hernani (poesia, 1902), La Dernière Nuit de Don Juan (A Última Noite de Don Juan, peça, 1911) e outros textos.

domingo, 31 de outubro de 2021

Gabriela Mistral: Dá-me Tua Mão

 
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[traduzido por Tasso da Silveira]

Dá-me tua mão, e dançaremos;
dá-me tua mão, e me amarás.
Uma flor única seremos,
uma só flor, e nada mais...

a mesma estrofe1 cantaremos,
ao mesmo passo bailarás2.
Como uma espiga ondularemos,
como uma espiga, e nada mais...

Chamas-te Rosa, eu Esperança;
mas o teu nome olvidarás3,
porque seremos uma dança
sobre a colina, e, nada mais...


Dame la mano

Dame la mano y danzaremos;
dame la mano y me amarás.
Como una sola flor seremos,
como una flor, y nada más...

El mismo verso cantaremos,
al mismo paso bailarás.
Como una espiga ondularemos,
como una espiga, y nada más.

Te llamas Rosa y yo Esperanza;
pero tu nombre olvidarás,
porque seremos una danza
en la colina, y nada más...

Notas da edição:
1. estrofe: conjunto de versos
2. bailarás: dançarás
3. olvidarás: esquecerás
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada em sua cidade natal, foi poetisa, educadora, diplomata e feminista; tornou-se referência em pedagogia ao trabalhar nos Planos de Reforma Educacional no Ministério de Educação do México; a poeta foi redatora da revista El Tiempo, de Bogotá, e colaborou no Jornal do Brasil; obras: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Lecturas para Mujeres (1923), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Recados Contando a Chile (1957), Poema de Chile (1967), e outros títulos; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Gabriela Mistral: Medo

 
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[traduzido por Henriqueta Lisboa]

Não quero que minha filha
se transforme em andorinha.
Para o céu iria voando
sem tocar a minha esteira1.
Nos beirais2 faria ninho
sem que a penteassem meus dedos.
Não quero que minha filha
se transforme em andorinha.

Não quero que minha filha
se mude numa princesa.
Calçando sandálias de ouro
não brincaria no prado3.
E quando a noite descesse
não dormiria a meu lado.
Não quero que minha filha
Se mude numa princesa.

E menos quero que um dia
ela venha a ser rainha.
Sentá-la-iam num trono
a que meus pés não alcançam.
E quando a noite chegasse
niná-la eu não poderia.
Não quero que minha filha
venha um dia a ser rainha.

Gabriela Mistral

Miedo

Yo no quiero que a mi niña
golondrina me la vuelvan.
Se hunde volando en el cielo
y no baja hasta mi estera;
en el alero hace nido
y mis manos no la peinan.
Yo no quiero que a mi niña
golondrina me la vuelvan.

Yo no quiero que a mi niña
la vayan a hacer princesa.
Con zapatitos de oro
¿cómo juega en las praderas?
Y cuando llegue la noche
a mi lado no se acuesta…
Yo no quiero que a mi niña
la vayan a hacer princesa.

Y menos quiero que un día
me la vayan a hacer reina.
La subirían al trono
a donde mis pies no llegan.
Cuando viniese la noche
yo no podría mecerla...
¡Yo no quiero que a mi niña
me la vayan a hacer reina!

Notas da edição:
1. esteira: cama
2. beirais: beiras de telhado
3. prado: campo
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada em sua cidade natal, foi poetisa, educadora, diplomata e feminista; tornou-se referência em pedagogia ao trabalhar nos Planos de Reforma Educacional no Ministério de Educação do México; a poeta foi redatora da revista El Tiempo, de Bogotá, e colaborou no Jornal do Brasil; suas obras: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Lecturas para Mujeres (1923), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Recados Contando a Chile (1957), Poema de Chile (1967), e outros títulos; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

sábado, 10 de julho de 2021

Antônio Nobre: Na praia lá da Boa Nova, um dia, . . . [soneto]

 
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Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei1 (foi esse o grande mal)
Alto castelo, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazúli e coral2!

Naquelas redondezas, não havia
Quem se gabasse dum domínio igual:
Oh, castelo tão alto! parecia
O território dum Senhor-feudal3!

Um dia (não sei quando, nem sei donde)
Um vento seco de Deserto e spleen
Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

O meu condado4, o meu condado, sim!
Porque eu já fui um poderoso Conde,
Naquela idade em que se é conde assim...


Notas da edição:
1. edifiquei: construí
2. lápis-azúli e coral: pedras coloridas
3. Senhor-feudal: dono de muitas terras
4. condado: sonho (propriedades de um conde)
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; escreveu e publicou (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX, além de Despedidas e Primeiros Versos, editadas postumamente.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Olegário Mariano: Cigarra

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Cigarra! Levo a ouvir-te o dia inteiro,
Gosto da tua frívola cantiga,
mas vou dar-te um conselho, rapariga:
trata de abastecer o teu celeiro.

Trabalha, segue o exemplo da formiga!
Aí vem o inverno, as chuvas, o nevoeiro;
e tu, não tendo um pouso hospitaleiro,
pedirás... E é bem triste ser mendiga!

E ela, ouvindo os conselhos que eu lhe dava,
(quem dá conselhos sempre se consome...)
continuava cantando... continuava...

Parece que no canto ela dizia:
 Se eu deixar de cantar, morro de fome;
que a cantiga é o meu pão de cada dia.

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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889  1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta, jornalista e letrista musical; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como o 'poeta das cigarras' por causa de um de seus temas prediletos; obra literária: Angelus  (1911), Sonetos (1912), Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913), Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918), Últimas Cigarras (1920), Bataclan (crônicas em versos, 1923), Canto da minha terra (1930), Destino (1931), Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933), A Vida que já vivi, memórias (1945), Mundo Encantado (1955), e tantos outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Joubert de Carvalho (‘Cai, cai balão’, ’Tutu-marambá’ e outros); também fez parceria musical com diversos outros autores.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Mário Quintana: Dorme, Ruazinha. . . É Tudo Escuro! . . . [soneto]

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Dorme, ruazinha… É tudo escuro…
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos…

Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro…
Nem guardas para acaso persegui-los…
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos…

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão…
Dorme, ruazinha… Não há nada…

Só os meus passos… Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração…

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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Mário de Miranda Quintana (1906  1994), gaúcho de Alegrete, foi jornalista, tradutor e poeta; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968),  Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1978), Prosa e Verso (1978), Baú de Espantos (1986) etecétera, etecétera, etecétera, além de participação em antologias; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Mário de Andrade: Lenda do Céu

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Andorinha, andorinha,
Andorinha avoou,
Andorinha caiu,
Curumim a pegou.

 Piá, não me maltrata, não!
Eu levo você pro mato
Enxergar bichos tamanhos
E correr com os guanumbis…

O menino brincava,
Andorinha sofria
E dum lado pra outro
Atordoada gemia:

 Piá, não me maltrata, não!
Eu levo você pro mar
Ver as ondas, ver as praias
Ver os peixinhos do mar…

O menino malvado
Taperá machucou.
E já morremorrendo
A coitada falou:

 Piá, não me maltrata, não!
Eu levo você pro céu…
E nunca ninguém não cansa
De ver as coisas do céu…
É um sítio bonito mesmo
Beiradeando o trem-de-ferro,
Lá você acha sua gente
Que faz muito que morreu.
Assegura em minha penas,
Vamos embora com Deus…

Andorinha, andorinha,
Andorinha avoou,
Foi subindo pro céu,
Curumim carregou.

 Assegura bem, menino,
Não olha pra baixo não.
Não tem sodade do mundo
Que o mundo é só perdição.

E avoando avoando
Afinal se chegou.
Andorinha desceu.
Curumim apeou.

Abriu os olhos e viu.
Era o céu… oh boniteza!
Tinha espingarda, gangorra
Estilingue... Tinha bichos
E tinha tantas surpresas
Que era mesmo um desperdício.

Olha um cachorro janguar!
Olha a ave seriema!
Olha aquelas três-marias
Da gente bolear nhandus!...

Era que nem um pomar
Com tanta fruta aromando
Que o ar ficava que ficava
Bonzinho de respirar.

O curumim caminhava
Seguindo os postes da linha,
Lá pelo varjão se ouvia
Duma fordeca a chispada,
E no meio-dia quente
Amulegando maneiro
Um aboio tão chorado
Que acuava no corpo doce
O sono do brasileiro.

Tinha mandioca e assaí
Mate cana arroz café
Muita banana e feijão
Milho cacau... Tinha até

Pra lá do cercado novo
Cheio de taperebás
Um rancho do nosso povo
Com seu mastro de São João.

No galpão um homem comprido
Duma quente morenez,
Com a pele bem sapecada
Pelo Sol deste país,
Gemia numa sanfona
Úa mazurca tão linda
Que se parava um bocado
O ouvido cantava ainda.

O menino olhou pro homem
E gritou:  B’as tardes tio!
 Meu sobrinho, entra no rancho,
Nossa gente já está aí.

E o piá se rindo matava
Saudades do coração.
Tomava a benção da mãe,
Do pai, abraçava o irmão,
Afinal topou com o primo
Que era unha-e-carne com ele
E comovidos os dois,
Os dois se deram a mão.

E foram brincar pra sempre
Pelos pagos abençoados
Do meio-dia do céu.

No céu sempre é meio-dia...
Não tem noite, não tem doença
E nem outra malvadez...
A gente vive brincando...
E não se morre outra vez.

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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Mário Raul de Morais Andrade (1893  1945), paulista e paulistano, formou-se em Ciências e Letras e, depois, em Canto no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, foi poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, ensaísta, folclorista, professor de Música e de Artes e um dos expoentes da Semana de Arte Moderna de 1922 e do Modernismo; colaborou com os periódicos A Gazeta e O Echo (São Paulo), A Cigarra (São Paulo), Papel e TintaRevista do BrasilIllustração Brasileira, Klaxon, Revista de AntropofagiaTerra Roxa (revistas modernistas, em São Paulo e no Rio de Janeiro), Jornal do Commércio (São Paulo), Diário Nacional (São Paulo), O Estado de São Paulo e em outros veículos informativos e de arte pelo país afora; bibliografia: Há uma gota de sangue em cada poema (1917), Paulicéia desvairada (1922), A escrava que não é Isaura (1925), Amar, verbo intransitivo (1927), Ensaios sobre a música brasileira (1928), Macunaíma (romance, 1928), Compêndio da história da música (1929), Modinhas imperiais (1930), Música, doce música (1933), Belazarte (1934), Música do Brasil e Poesias (ambos em 1941), O Movimento Modernista (1942),  Aspectos da Literatura Brasileira (1943) e tantos outros títulos em verso, prosa e canto.