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terça-feira, 28 de junho de 2011

Vladimir Safatle: Tributos desiguais, concentração de renda...

Reproduzo, abaixo, texto no qual o professor Vladimir Safatle aborda o assunto "tributação" aqui neste Brasil desigual  e faz comparação com o que ocorre em países do chamado Primeiro Mundo. Concordo com a síntese feita pelo filósofo  se o Diabo, astuto, quer nos convencer de sua própria não-existência, o pensamento conservador (dos liberais, neo-liberais e que tais) pretende nos fazer crer ser a luta de classes um delírio de "dinossauros" sobreviventes.
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(Folha de São Paulo  28 de junho de 2011)

Ricos pagam pouco 

        Há alguns dias, uma pesquisa veio mostrar o que todos aqueles que realmente se preocupam com reforma tributária no Brasil sabem: os ricos pagam pouco imposto.
        Quem recebe R$ 3.300 por mês, leva para casa, descontados Imposto de Renda e Previdência, 84% do seu salário. Já alguém que ganha R$ 26.600 por mês, leva 74%.
        Um profissional holandês, por exemplo, pode contar apenas com 55% de seu salário, e mesmo um norte-americano traz para casa menos que um brasileiro: 70%.
        Ao mesmo tempo em que descobríamos a vida tranquila dos ricos brasileiros, chega a notícia de que a quantidade de milionários no Brasil aumentou 5,9% em 2010, atingindo a marca de 115,4 mil pessoas com fortuna de, ao menos, US$ 1 milhão.
        O que não deveria nos surpreender. Afinal, vivemos em um país onde o processo de concentração de renda está tão institucionalizado que as classes mais abastadas têm um sistema de defesa de seus rendimentos sem par em outros países industrializados.
        Dentro de alguns anos, a chamada nova classe média descobrirá que não conseguirá mais continuar sua ascensão social. Entre outras coisas, ela tomará consciência de como seu orçamento é brutalmente corroído por despesas com educação e saúde.
        Um Estado preocupado com seu povo taxaria os ricos e as grandes fortunas a fim de ter dinheiro suficiente para criar um verdadeiro sistema público de educação e saúde.
        Por que não criar, por exemplo, um imposto sobre grandes fortunas vinculado exclusivamente à educação? Isto permitiria que essa nova classe média continuasse sua ascensão social.
        Tal ascensão seria ainda mais facilitada se a carga tributária brasileira parasse de privilegiar o consumo, e focasse a renda. Uma carga focada no consumo, ou seja, embutida em produtos, é mais sentida por quem ganha menos.
        Há pouco, um estudo mostrou como o 0,1% mais bem pago no Reino Unido recebia, em 1979, 1,3% dos salários.
        Hoje, recebe 5% e, em 2030, deve receber 14%.
        Costuma-se dizer que uma das maiores astúcias do Diabo é nos convencer de que ele não existe. Uma das maiores astúcias do discurso conservador é nos convencer, diante de dados dessa natureza, de que conflito de classe é um delírio de esquerdista centenário.
        Mesmo que vejamos um processo brutal de concentração de renda institucionalizado e intocado por qualquer partido que esteja no poder, mesmo que vejamos a tendência de espoliação dos recursos de países industrializados por camadas mais ricas da população, tudo deve ser um complô dos incompetentes contra aqueles que bravamente venceram na vida graças apenas a seu entusiasmo e capacidade visionária, não é mesmo?
Vladimir Safatle é professor no departamento de filosofia da USP.
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Genésio dos Santos é aprendiz de blogueiro e tem um lado; entorta, mas não verga pra direita.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O Espelho SP: Leão, patos e tomates

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano III  n° 25  20 de agosto a 20 de setembro de 1982)

Oi, Satélio!

Tô de volta e o leão também. Ele, que em todo o ano passado nos mordeu religiosamente deixando profundas cicatrizes no nosso lombo, prometeu que até junho deste ano nos daria o troco e com correção monetária. Não cumpriu o que devia. Está atrasando as restituições e, de lambuja, nos presenteou com uma nova tabela de descontos na fonte a vigorar a partir de outubro.

O bicho, que é esperto, fingiu que não tinha mais fome e arrotou. Para os menos observadores foi uma pequena boa ação do rei. Mas, a verdade é que, com a inflação a cem por ano, a fera se recusou a nos morder a torto e a direito, pois, o troco que nos cabe no ano que vem será acrescido de noventa e cinco por cento e é evidente que sobre o que ela nos toma nos últimos três meses do ano a inflação não consegue corroer totalmente. Aí a fera teria que desembolsar mais tutu, se não reajustasse a tabela. O que era bom para o bicho, deixaria de ser. Passava a sê-lo para os homens. E já não interessava. Aliás, foi por esse mesmo motivo  que faz algum tempo o monstro proibiu o desconto na fonte sobre o 13° salário.

O certo, Satélio, é que a patéia agradecida, digo, a platéia agradecida e desatenta, aplaudiu a boa nova. E o leão, que nunca foi pato, anda pelas ruas rindo à toa como se tivesse acertado a quina na loto.

O mamífero é vivo! Aproveitou o pleito na Europa para nos passar a perna. Se não fosse o político Paolo Rossi talvez a gente nem tivesse percebido a manobra. Foi preciso o italianíssimo nos dar um pito para que a gente acordasse. E, no que acordamos, vimos que o Delfim já estava acordado de véio. Vimos outros mamíferos, com cédulas em branco, tentando nos empacotar de vez. Vimos o Maluf e o Reinaldão distribuindo rosas e jantares, inaugurando pontes e postes. E nem eram mais governador e prefeito. Vimos também o Afif vendendo laranja. E o pessoal da plurioposição discutia se realmente o Toninho Cerezo, candidato do PDS mineiro, era o culpado pela derrota da eleição na Espanha.

Pra encompridar o papo, fiquei sabendo que o Tejero Molina saiu da toca. Voltando a agir, urrou que, se alguns candidatos da plurioposição fossem votados pelo povo, ele entraria de metralhadora em punho no congresso e acabaria com a festa. Quando ouvi isso, empertiguei-me todo, fiz continência e lasquei um viva ao democrático regime canarinho.

Como patriota foi que resolvi almoçar no Gervásio. Fazia tempo que eu não passava por lá. Estava com saudades. Entrei na fila, peguei o arroz, o feijão. Ia pegar a salada... e surpresa! Vi um CEB no pratinho de verdura. Isso mesmo, um Corpo Estranho Boiando! Um tomate, mais vermelho que comunista assumido.

Fiquei rubro, Satélio! Não por ter encontrado o safado do tomatinho, mas é que, durante o almoço, conversando com outros patriotas, fiquei sabendo que o BB quer implantar o CCQ. O famoso Círculo de Controle de Qualidade da não menos famosa Teoria Z. Dizem que deu certo no Japão e na Conchinchina. O Banco quer trazer isso pra cá, bem nas nossas barbas. Ouvi falar que rende mais que RDB. É aguardar e conferir.

Parece que no tal do CCQ está sendo previsto inclusive representantes de seção. Estamos sendo vaselinados, Satélio!

Que jeito, hein?!

Saudações verde-amarelas,

P.da Silva
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P.da Silva, Satélio e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.

O Espelho SP: Satélio e a fera

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano II  n° 13  Abril de 1981)

Com mil dragões! Nestes últimos dias a cidade está em polvorosa. Jornais, rádio e televisão dão ampla cobertura às malvadezas de um tal leão que, escapulido de algum circo, anda solto por aí amedrontando ricos e pobres, gregos e troianos. O caso até fez com que despertasse em mim uma certa onda de saudosismo. E são raras as vezes em que isso me acontece. Foi então que chegando em casa, após o expediente, passei a revirar minha discoteca e encontrei o que queria para aliviar a tal sede saudosística - um elepê do meu ídolo daqueles idos de setenta e um: Roberto Carlos, móóóóóra!!!

Liguei o meu quadrifônico Polyvox e fiquei a me deleitar com a composição "Um leão está solto nas ruas". Naquela época, aproveitando-se do carnaval descontraído que fizemos pela conquista do tricampeonato, com nossos soldados brigando contra soldados italianos em terras mexicanas, um leão andou às soltas pela cidade e se alimentou fartamente do povo. O bicho almoçou, jantou e palitou os dentes. Como os mais velhos devem estar lembrados, acreditávamos tratar-se de um milagre. Religiosos nós éramos e ainda somos. E nisso ninguém põe dúvida. Até somos convictos de que Deus é brasileiro!

Pois é! Mais de dez anos depois a fera está de volta e, ao que tudo indica, pra nos fazer de sobremesa. Isso é o que a gente pode chamar de apetite de leão. Cruzes! Até parece revanchismo!

Desta feita, conforme o publicado em jornais, rádio e tevê, o bicho anda atacando em tudo quanto é lugar, na base do vou-te-abater. Satélio (este vocês conhecem, né!), ele me contou que dia destes abriu a porta de sua casa pra atender a um chamado da campainha e deu de cara com o tal leão. O bicho, após as apresentações e formalidades iniciais, queria saber como Satélio vivia, quanto ganhara no ano passado, se era solteiro ou casado, se pagava aluguel ou residia em casa própria e outras perguntas mais. Satélio respondeu que sim, que graças a Deus e ao suor do seu rosto, tudo ia mais ou menos. Que trabalhava no Banco do Brasil, que era B-2, solteirinho da silva e que ganhara por volta de quatrocentos mil cruzeiros durante o ano de oitenta. Disse mais ainda, que vivia de aluguel pois a poupança que vinha fazendo só ia dar pra comprar uma tevê a cores e sobraria um pouco pra dar de entrada num fiat. Mas que ia ser duro de pagar as prestações.

O leão, com ar de sabido, mexeu na sua Hewlett-Packard, fez cálculos, multiplicou, diminuiu, deduziu, consultou umas tabelas e completou: Você tem sorte, sr. contribuinte (pelo que se apurou até agora, ele chama todo mundo de sr. contribuinte). Dessa vez, você só vai sofrer uns arranhõezinhos. E palavras proferidas, ato realizado. Pegou num braço de Satélio e meteu suas garras afiadas, deixando um sulco formidável. Depois, como vampiro, chupou o sangue que escorria. Satélio sentiu um calafrio. O Leão, dono de si, ainda fez um comentário antes de se despedir. Disse que se Satélio fosse casado e tivesse um filho, possivelmente nem os arranhõezinhos ele sofresse. Que talvez escapasse ileso.

Satélio acha que mesmo sendo solteiro ele teve melhor sorte que outros senhores contribuintes, e cita o caso de um fulano que recebeu mais de um milhão durante o ano passado. Por azar, não paga aluguel. Tem casa própria. É solteiro e não tem família pra tratar. O leão chegou, ouviu, consultou os folhetos e tabelas já com um sorriso meio disfarçado e lambendo os beiços. Calculou, somou, multiplicou e comeu o contribuinte por uma perna. O fulano teve que tratar do leão.

Tem muitos casos mais. O leão anda fazendo e desfazendo por aí. Chega, investiga, calcula, soma, multiplica e come um por uma perna, outro por um braço e outro ainda pela perna e pelo braço. Está deixando muita gente aleijada pra engrossar o rol dos deficientes físicos neste ano internacional.

Fato inusitado porém se deu com outro contribuinte. Comentam que o leão chegou fazendo as perguntas de praxe e obteve a resposta na bucha: Faturei seis milhões no ano passado! O leão nem se deu ao luxo de calcular coisa alguma. De imediato lançou-se num bote fulminante, com a boca escancarada, pronto pra engolir o contribuinte. Em fração de segundos porém, o sicrano complementou que se tratava de rendimentos não tributáveis, e o rei das selvas, entre chocado e envergonhado, parou no ar com a bocarra aberta. E sumiu, querendo subir pelas paredes, de raiva. O contribuinte foi salvo pelo gongo. Cáspite!

Tem outro caso horrível que está sendo muito comentado por aí. Um outro beltrano, ouvindo o tilintar da campainha, abriu a porta da sala e deu de chofre com o tal leão. Apavorado, conseguiu fugir pelos fundos indo direto ao consultório do psicanalista da família. Chegou, ajeitou-se no divã e foi botando pra fora: — Tem um leão lá em casa! Tem um leão lá em casa! E o psicanalista, ouvindo, ouvindo. O beltrano tranquilizou-se e, refeito, voltou pra casa. Foi comido pela fera.

Sossega, leão!
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P.da Silva, Satélio e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.