segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Alfonsina Storni: Bem pode ser

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[traduzido por José Jeronymo Rivera]

Bem pode ser que tudo o que em meu verso hei sentido
Não seja mais que aquilo que nunca pôde ser,
Não seja mais do que algo vedado e reprimido
De família em família, de mulher em mulher.

Dizem que nos solares dos meus, sempre medido
Estava tudo aquilo que se tinha a fazer...
Silenciosas dizem que as mulheres hão sido
Em meu materno lar. Ah, sim, bem pode ser...

Às vezes minha mãe terá sentido o anseio
De liberar-se, e logo viu subir-lhe do seio
Uma funda amargura, e na sombra chorou.

E tudo de mordaz, vencido, mutilado,
Tudo o que se encontrava em sua alma guardado,
Creio que sem querer fui eu quem libertou.

Alfonsina Storni

Bien pudiera ser...

Pudiera ser que todo lo que en verso he sentido
No fuera más que aquello que nunca pudo ser,
No fuera más que algo vedado y reprimido
De familia en familia, de mujer en mujer.

Dicen que en los solares de mi gente, medido
Estaba todo aquello que se debía hacer...
Dicen que silenciosas las mujeres han sido
De mi casa materna... Ah, bien pudiera ser...

A veces en mi madre apuntaron antojos
De liberarse, pero, se le subió a los ojos
Una honda amargura, y en la sombra lloró.

Y todo eso mordiente, vencido, mutilado,
Todo eso que se hallaba en su alma encerrado,
Pienso que sin quererlo lo he libertado yo.
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Antologia Poética  Alfonsina Storni, Selección por Alfredo Veirave (Biblioteca Argentina Fundamental, Capitulo 34), 1968, Centro Editor de America Latina, Buenos Aires Argentina; Alfonsina Storni Martignoni (1892 1938), nascida em Sala Capriasca Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, levou uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento familiar, trabalhou como costureira e operária; colaborou com seus textos nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, e nos jornais La Nota e La Nacion; escreveu e publicou La inquietud del rosal (1916), El dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Poemas de amor (em prosa, 1926), Dos farsas pirotécnicas Cimbellina en 1900 y pico e Polixena y la cenicienta (peças teatrais, 1931), Mundo de siete pozos (1934) e outros títulos em verso, prosa e para teatro; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada por Mercedes Sosa; seu corpo foi resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se envia para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

José Albano: Trovas com eco

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Debaixo desta alta fronde
Ninguém me ouvirá gemer
Co'a tristeza e desprazer
Que dentro da alma se esconde.

                      Eco

                                          Onde?

Chorai, olhos meus, chorai,
Que eu não abafo o que sinto;
No coração quase extinto
Quanto tormento me vai!

                      Eco

                                          Ai!

Eco saudoso e brando,
Que tens compaixão de mim,
Se sabes gemer assim,
Andas acaso penando?

                      Eco

                                          Ando.

Dura sorte o Céu te deu,
Mas eu sou mais desgraçado,
Pois quem por ordem do fado
Tem pesar igual ao meu?

                      Eco

                                          Eu.

JOSÉ ALBANO
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Coleção Nossos Clássicos — José Albano, poesia, Volume 30, por Braga Montenegro, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; José d'Abreu Albano (1882  1923), cearense de Fortaleza, iniciou seus estudos em seminário da cidade e, depois, em colégios religiosos da Inglaterra, da Áustria e da França; bem jovem ainda, de volta à terra natal, começou a publicar seus poemas no jornal A República; estudou no Liceu do Ceará, onde também foi professor de Latim; poliglota, escrevia em francês, inglês e alemão, contudo, como lembra Manoel Bandeira, "tão versado em idiomas estrangeiros, prezava como ninguém a pureza do vernáculo"; após ter trabalhado no Ministério das Relações Exteriores, no Rio de Janeiro, e no consulado brasileiro, em Londres, abandonou a carreira pública para viajar pelo mundo; Europa, Ceará e Rio de Janeiro marcaram as várias etapas de sua vida; publicaram-se suas obras em Barcelona  Espanha: Rimas de José Albano — RedondilhasRimas de José Albano — Alegoria e Rimas de José Albano — Cançam a Camoens (todas em 1912), Ode à Língua PortuguesaFour Sonets by José Albano, with Portuguese prosetranslation e Antologia Poética de José Albano (todas em 1918); Manuel Bandeira e Braga Montenegro foram os responsáveis pela divulgação de seus escritos em terras brasileiras, ao publicarem Rimas, de José Albano (1948).

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein: Quatorze versos; rimas e medida . . . [soneto]

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Quatorze versos; rimas e medida
para que a forma seja sem defeito.
E na primeira quadra 
 ainda escondida,
a imagem sugestiva ou algum conceito.

Para à segunda quadra dar efeito,
o poeta, muita vez, tem dura lida;
pois, num ritmo melódico e escorreito,
a idéia deve ser compreendida.

O primeiro terceto vai subindo
a escala da emoção e é sempre lindo,
dela trazendo a máxima expressão.

Depois, a chave-de-ouro, enclausurando
a jóia num escrínio, e revelando
o poder imortal da Inspiração!

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1882  1963), ou Colombina, paulista e paulistana, fez parte de seus estudos na Alemanha; cronista e poetisa, publicou seus primeiros poemas por volta de 1900, n’A Tribuna, de Santos  SP; colaborou com revistas e jornais da época, como O Malho, Fon-Fon, Careta, Jornal das Moças, muitas vezes usando os pseudônimos Colombina ou Paula Brasil; criou a Casa do Poeta Lampião de Gás e O Fanal, periódico da Casa, por ela editado e do qual foi diretora; escreveu e publicou Vislumbres (poesias, 1908), Versos em Lá menor (1930), Lampião de Gás (1937), Uma cigarra cantou para você (1946), Distância: poemas de amor e de renúncia (1948), Trovas (1955), Cantigas ao Luar (1960), Rapsódia Rubra: Poemas à Carne (1961) e outros títulos; a poetisa, poliglota, falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano, além da língua pátria.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Henrique Guimarães Lagden: A Vida

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Só o Passado é real; o Futuro, fantasma
Com que a mente dá forma à coisa inexistente.
E o minuto, que voa, e chamamos Presente
Já ficou para trás tão depressa entusiasma.

Toda a vaga ilusão que a humana ambição plasma
E supõe realizar hoje mesmo, fremente,
Lembra a sorte cruel da gota intercadente
Que mal tomba e já abriga o infusório e o miasma.

Toda vida é um Passado. O Presente subsiste
Como ideal concepção de um desejo, que insiste
Nesta glória de abrir ao sonho novas portas.

Mas a vida, em si mesma, a existência, afinal,
No Presente, fugaz, falaciosa, irreal,
Essa existe, direi, mas são as coisas mortas.
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Poetas Cariocas em 400 Anos — Frederico Trotta, 1966, Casa Editora Vecchi, Rio de Janeiro — RJ; Henrique Guimarães Lagden (1888 1953), foi advogado, professor, filólogo, jornalista e fotógrafo; deixou quase todos os seus escritos esparsos em jornais e revistas da época; escreveu Vetusta Carmina; pertenceu às Academias Fluminense e Carioca de Letras e à Academia Brasileira de Filologia.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Antero de Quental: Tormento do Ideal

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Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Recebi o batismo dos poetas,
E, assentado entre as formas incompletas,
Para sempre fiquei pálido e triste.

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Antero de Quental — Sonetos, Coleção de Clássicos Sá da Costa, edição organizada e anotada por Antônio Sérgio e prefaciada por Oliveira Martins, terceira edição, 1968, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa — Portugal; Antero Tarquínio de Quental (1842 1891), natural de Ponta Delgada Portugal, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta e escritor; publica seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publica Odes Modernas, na qual enaltece a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português;  em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou: Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886) entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Gonçalves Crespo: O juramento do árabe

Nossos Clássicos 93: Gonçalves Crespo
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A Teixeira de Queirós

Baçus, mulher de Ali, pastora de camelas,
Viu de noite, ao fulgor das rútilas estrelas,
Wail, chefe minaz de bárbara pujança,
Matar-lhe um animal. Baçus jurou vingança;
Corre, célere voa, entra na tenda e conta
A um hóspede de Ali a grave e inulta afronta.
"Baçus”, disse tranqüilo o hóspede gentil,
"Vingar-te-ei com meu braço, eu matarei Wail."

Disse e cumpriu.
                       Foi esta a causa verdadeira
Da guerra pertinaz, horrível, carniceira
Que as tribos dividiu. Na luta fratricida,
Omar, filho de Amru, perdera o alento e a vida.

Amru que lanças mil aos rudes prélios leva,
E que em sangue inimigo, irado, os ódios ceva,
Incansável procura, e é sempre embalde, o vil
Matador de seu filho, o tredo Muhalhil.

Uma noite, na tenda, a um moço prisioneiro,
Recém-colhido em campo, o indómito guerreiro
Falou severo assim:
                       "Escravo, atende, e escuta:
Aponta-me a região, o monte, o plaino, a gruta,
Em que vive o traidor Muhalhil; dize a verdade;
Dá-me que o alcance vivo, e é tua a liberdade!"

E o moço perguntou:
                      "É por Alá que o juras?"

"Juro!", o chefe tornou.
                      "Sou o homem que procuras!
Muhalhil é o meu nome, eu fui que despedacei
A lança de teu filho, e aos pés o subjuguei!"
E intrépido fitava o atônito inimigo.

Amru volveu:  "És livre, Alá seja contigo!"

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Coleção Nossos Clássicos — Gonçalves Crespo, Volume 93, Apresentação de Rolando Morel Pinto, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1967, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Cândido Gonçalves Crespo (1846  1883), nascido no Rio de Janeiro, filho de mãe escrava à época de seu nascimento e de pai negociante português, fez seus estudos em Lisboa e formou-se em Direito na Universidade de Coimbra; dedicou-se no entanto ao jornalismo e à poesia, colaborando com os periódicos O Ocidente e a Folha, na qual também publicavam Guerra Junqueiro e Antero de Quental, entre outros notáveis da época; escreveu e publicou Miniaturas (primeira edição, 1871), Noturnos (1882).

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Florbela Espanca: Vaidade

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Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo ! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...

Livro das Mágoas  1919

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Poesia de Florbela Espanca, Volume I (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro das Mágoas) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Mello Nóbrega: Duas rimas procuro e, num quarteto, . . . [soneto]

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[Parafraseando August Schlegel (1767  1845), em 'Das Sonett']

Duas rimas procuro e, num quarteto,
as vou dispondo, em versos bem medidos:
e, em pares, uns por outros envolvidos,
a seguir as repito e as entremeto.

Novos elos de sons, por um terceto
e depois, em segundo, repartidos,
no mais terso dos poemas preferidos,
dão-me a medida e a forma do soneto.

E ele me fala:  “Aquele que não gosta
de mim, e julga falsas minhas leis,
dou o silêncio, apenas, em resposta.

Mas vós, que, em poucos versos, penetrastes
meu encanto secreto, alcançareis
a harmonia serena dos contrastes”.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Humberto Mello Nóbrega (1901  1978), foi escritor, historiador literário e poeta; escreveu e publicou Batista Cepelos (ensaio, 1937), O Outro Lado da Montanha (poesia, 1938), Oitenta e Nove (teatro, 1941), História de um rio: o Tietê ( 1948), O Soneto de Arvers (1954), Os Sonetos do Soneto (1959) Rima e Poesia (ensaio, 1965) e outros, além de obras inéditas e/ou inacabadas e libretos que compôs para óperas de Francisco Mignone.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Florbela Espanca: Caravelas

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Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar-Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram.

Caravelas doiradas a bailar...
Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...

Livro de Sóror Saudade  1923

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Poesia de Florbela Espanca, Volume 2 (Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 298, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894  1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae, Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Alfonsina Storni: Vou dormir

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[traduzido por Héctor Zanetti]

Dentes de flores, touca de sereno,
Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.

Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho

Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos…
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos

Para que esqueças… obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que saí…

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Alfonsina Storni

Voy a dormir

Dientes de flores, cofia de rocío,
manos de hierbas, tú, nodriza fina,
tenme prestas las sábanas terrosas
y el edredón de musgos escardados.

Voy a dormir, nodriza mía, acuéstame.
Ponme una lámpara a la cabecera;
una constelación; la que te guste;
todas son buenas; bájala un poquito.

Déjame sola: oyes romper los brotes…
te acuna un pie celeste desde arriba
y un pájaro te traza unos compases

para que olvides… Gracias. Ah, un encargo:
si él llama nuevamente por teléfono
le dices que no insista, que he salido...

Mascarilla y Trébol — 1938
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Antologia Poética — Alfonsina Storni, Selección por Alfredo Veirave (Biblioteca Argentina Fundamental, Capitulo 34), 1968, Centro Editor de America Latina, Buenos Aires — Argentina; Alfonsina Storni Martignoni (1892 1938), nascida em Sala Capriasca Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, levou uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento familiar, trabalhou como costureira e operária; colaborou com seus textos nas revistas Caras y Caretas, Fray Mocho, e nos jornais La Nota e La Nacion;escreveu e publicou La inquietud del rosal (1916), El dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Poemas de amor (em prosa, 1926),  Dos farsas pirotécnicas Cimbellina en 1900 y pico e Polixena y la cenicienta (peças teatrais, 1931), Mundo de siete pozos (1934), Mascarilla y Trébol círculos imantados (1938) e outros títulos em verso, prosa e para teatro; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, e tal ato foi registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada por Mercedes Sosa; seu corpo foi resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se envia para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Atílio Milano: Os poetas repudiam-te, soneto!

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Os poetas repudiam-te, soneto!
Dão outra forma às suas produções.
Chamam-te arcaico, dizem-te obsoleto
como Horácio, a Arte Poética e os Pisões. *

Mas tu não morrerás, és o esqueleto
da idéia, que resiste às construções.
O pensamento vive em ti, completo,
de Ronsard, de Petrarca, de Camões!

Disse Boileau que vales todo um poema!
Dentro de ti, como num cofre, coube
de chave de ouro, a inspiração de Arvers,

o poeta que em quatorze versos soube,
na arte da tua síntese suprema,

eternizar o amor a uma mulher!


* Nota do Organizador: Pisão (Lúcio Calpúrnio)  (48 a.C. 32 d.C.) governador da Trácia. Horácio lhe dedicou a "Arte Poética" ("Epistola ad Pisonem"  Ars Poetica).
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Atílio Milano (1897  1955), nascido no Rio de Janeiro, diplomado pela Escola Dramática, foi inspetor de ensino e poeta; colaborou em jornais e revistas  O Malho, Revista da Semana, Fon-Fon, Suplemento Letras e Artes (jornal A Manhã) etc.; de sua biografia, consta que, exceto n’ O Pensamento e o Sentimento do Povo Brasileiro: Os Árcades (1927) e em um ou outro artigo ‘de circunstância’, sua produção foi toda em versos; escreveu Poesias (1924), Livro da Verdadeira Dúvida (1933), Poesias Escolhidas (1937), Panegírico da Morte (1939), Todos os Poemas (1942), 25 Poemas (1949); o poeta foi filho de um casal de músicos  o pai, violinista, a mãe, professora de piano  e irmão de Dante Milano, também poeta; Atílio Milano foi um dos fundadores da Academia Carioca de Letras e ocupou a Cadeira 16.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Áureo Contreiras: Faço um soneto sem contar nos dedos . . . [soneto]

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Faço um soneto sem contar nos dedos
as sílabas de sua construção.
Quatorze versos. Líricos enredos.
Quatorze espinhos no meu coração.

Ponho nele o cetim dos arvoredos
e a cor das lindas tardes de verão.
Faço dele a caixinha de segredos,
todos trancados pela minha mão.

Quatorze tristes catedrais vazias,
cujo silêncio esmaga as harmonias
dos meus desejos vãos de Perfeição.

Faço um soneto. Ó, essas mãos esguias
roubando estrelas pelas noites frias,

nas minhas noites de meditação!
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Áureo Contreiras, soteropolitano, foi jornalista, poeta e editor de revistas ilustradas; colaborou no jornal A Tarde e no Diário de Notícias; dirigiu a revista A Luva, escreveu textos para publicações baianas de sua época, entre as quais, Renascença  revista voltada para a educação profissional feminina e inserção da mulher na vida cívica e cultural da cidade, Samba ...; foi um dos fundadores de Associação Baiana de Imprensa.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Florbela Espanca: Maria das Quimeras

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Maria das Quimeras me chamou
Alguém... Pelos castelos que eu ergui
P'las flores d'oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.

Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minh'alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi
Que da minh'alma, Alguém, tudo levou!

Maria das Quimeras, que fim deste
Às flores d'oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos tresloucados que fizeste?

Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?...
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?...

Livro de Sóror Saudade — 1923

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Poesia de Florbela Espanca, Volume 2 (Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 298, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894 1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae, Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).