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domingo, 1 de janeiro de 2023

Leconte de Lisle: Os Elefantes

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[traduzido por Olegário Mariano]

Mar sem limite, o areal vermelho abrasa e estua
Em seu leito onde o sol raios de ouro espadana.
Ondula, em fumos no ar, sobre a planície nua,
O amplo horizonte onde fervilha a vida humana.

Nenhum rumor. Somente os leões dormem saciados,
Cem léguas em redor, no antro absconso das feras.
Bebe a girafa a água dos veios azulados.
Sob as palmas doce asilo das panteras.

Nem um pássaro, um só, num voo abandono,
Corta com o alfanje da asa o infinito que escalda.
Por vezes a serpente, acordada em seu sono
Move as escamas lampejantes de esmeralda.

E enquanto o espaço abafa em mormaços violentos
E em tudo pesa a lassidão de um sono incerto,
Os Elefantes vão, rudes viageiros lentos,
Rumo ao país natal, através do deserto...

De um ponto do horizonte, entre nuvens de poeira,
Mexem-se com vagar, tardos e desconformes...
E em linha regular soldados em fileira
Dunas levam rolando entre as patas enormes.

À frente, marcha o velho chefe. Tem o dorso
Áspero. É um tronco exposto ao tempo que o espezinha.
A cabeça é uma rocha; e, num mínimo esforço,
Dobra, crespo e brutal, o arco mole da espinha

Conservando na marcha um ritmado compasso,
Ele indica o país que o Destino lhes marca...
E, abrindo a areia, os peregrinos, passo a passo,
Seguem passivamente o velho patriarca...

A orelha em leque, a tromba a rolar entre dentes,
Caminham sempre... Os ventres negros lhe latejam;
No ar abrasado o suor sobe, em volutas quentes,
Enquanto, em derredor, milhões de insetos voejam...

Que lhes importa a sede e a inclemência maldita
Do sol de brasas? E o moscardo que os ameaça?
Se eles sonham com a terra encantada onde habita
Entre figueiras, longe, a sua heróica raça?!

Verão, a cascatear de altos montes incultos
O rio em que rolava o hipopótamo a fio...
Onde em noites de luar, vinham, mirando os vultos
N’água, em torno aos juncais, beber a água do rio.

É por todo esse ideal que os enche de saudade,
Que eles cortam o areal longínquo que se explana...
E o deserto retoma a ampla imobilidade,
Quando, ao longe, se perde a lenta caravana...


Les Éléphants

Le sable rouge est comme une mer sans limite,
Et qui flambe, muette, affaissée en son lit.
Une ondulation immobile remplit
L’horizon aux vapeurs de cuivre où l’homme habite.

Nulle vie et nul bruit. Tous les lions repus
Dorment au fond de l’antre éloigné de cent lieues,
Et la girafe boit dans les fontaines bleues,
Là-bas, sous les dattiers des panthères connus.

Pas un oiseau ne passe en fouettant de son aile
L’air épais, où circule un immense soleil.
Parfois quelque boa, chauffé dans son sommeil,
Fait onduler son dos dont l’écaille étincelle.

Tel l’espace enflammé brûle sous les cieux clairs.
Mais, tandis que tout dort aux mornes solitudes,
Lés éléphants rugueux, voyageurs lents et rudes
Vont au pays natal à travers les déserts.

D’un point de l’horizon, comme des masses brunes,
Ils viennent, soulevant la poussière, et l’on voit,
Pour ne point dévier du chemin le plus droit,
Sous leur pied large et sûr crouler au loin les dunes.

Celui qui tient la tête est un vieux chef. Son corps
Est gercé comme un tronc que le temps ronge et mine
Sa tête est comme un roc, et l’arc de son échine
Se voûte puissamment à ses moindres efforts.

Sans ralentir jamais et sans hâter sa marche,
Il guide au but certain ses compagnons poudreux;
Et, creusant par derrière un sillon sablonneux,
Les pèlerins massifs suivent leur patriarche.

L’oreille en éventail, la trompe entre les dents,
Ils cheminent, l’oeil clos. Leur ventre bat et fume,
Et leur sueur dans l’air embrasé monte en brume;
Et bourdonnent autour mille insectes ardents.

Mais qu’importent la soif et la mouche vorace,
Et le soleil cuisant leur dos noir et plissé?
Ils rêvent en marchant du pays délaissé,
Des forêts de figuiers où s’abrita leur race.

Ils reverront le fleuve échappé des grands monts,
Où nage en mugissant l’hippopotame énorme,
Où, blanchis par la Lune et projetant leur forme,
Ils descendaient pour boire en écrasant les joncs.

Aussi, pleins de courage et de lenteur, ils passent
Comme une ligne noire, au sable illimité;
Et le désert reprend son immobilité
Quand les lourds voyageurs à l’horizon s’effacent.

(Poèmes Barbares, 1862)
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: Poèmes antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Le Chemin de la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Olegário Mariano: O pintinho cego

 
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É ridículo, não nego:
Mas como me comovia
Aquele pintinho cego
Que eu criava e não me via.

O meu cuidado primeiro,
Quando cansado chegava,
Era indagar do caseiro
Meu ceguinho como estava.

E ele que vivia a sós,
Num momento aparecia.
Certamente conhecia
O timbre da minha voz.

Vinha vindo e tateando
Pela grama do jardim.
Abaixava-se piando
A esperar com alegria
A festa que eu lhe fazia
Quando o tinha junto a mim.

Uma vez... (se bem me lembro
Era o mês de dezembro)
Pus a criadagem tonta...
Ninguém dele dava conta.

Fiquei louco, furibundo,
Pus em campo todo mundo,
Gente corria assustada
Pelo jardim, pela estrada,

Até que o acharam com frio,
Longe, num campo baldio,
Tonto, sem poder voltar.
O seu caminho de volta
Era escuro e misterioso
Como uma noite sem luar.

Então resolvi prendê-lo:
Fiz-lhe uma casa de palha
E a todo instante ia vê-lo.
Desse modo procurava
Dar-lhe paciência e esperança
Enquanto ele era criança,
Para aguardar o futuro
Mais escuro que o esperava.

Mas o destino, na trama1
Como a aranha o prendeu.

O caseiro resolveu
Soltá-lo um pouco na grama...
E ele desapareceu.
Quando no fim de semana
Voltei à minha choupana...
Vinha feliz! Mal sabia
Que ele não mais existia.

E me acreditem, não nego,
Chorei com pena e saudade
Daquele pintinho cego
Que não via a claridade
Do sol que ilumina o dia,
Que dá vida a todos nós,
E entanto me conhecia
E era feliz quando ouvia
O timbre da minha voz.


Vocabulário:
1. Trama: fio grosso.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta, jornalista e letrista musical; fez o primário e o secundário em Recife e cedo mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo estreado na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, e vivido o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Careta e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como ‘o poeta das cigarras’ por causa de um de seus temas prediletos; obras: Angelus (1911), Sonetos (1912), Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913), Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918), Últimas Cigarras (1920), Bataclan (crônicas em versos, 1923), Canto da minha terra (1930), Destino (1931), Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933), A Vida que já vivi (memórias, 1945), Tangará Conta Histórias (poemas infantis, 1953), Mundo Encantado (1955), e tantos outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Joubert de Carvalho (‘Cai, cai balão’, ’Tutu-marambá’ e outros); também fez parceria musical com diversos outros autores.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Olegário Mariano: Ao calor da lareira

 
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Mesmo só, quando ao pé do fogo da lareira
Ponho-me a recordar o que fui e o que sou,
A minha sombra  a eterna companheira
Que em dias bons e maus sempre me acompanhou,
Fica perto de mim de tal maneira
Que não parece sombra, é alguém que ali ficou.

Somos dois, cada qual mais tristes e mais calado.
Anda lá fora o luar garoando no jardim…
Tenho pena da sombra imóvel a meu lado
Possuída da expressão de um silêncio sem fim.
E recordo em voz alta o meu tempo passado,
E a sombra chega mais para perto de mim

Ah! Quem me dera ter um bem que se pareça,
Que lembre vagamente outro que longe vai:
As mãos da minha mãe sobre a minha cabeça,
O consolo de amigo e a fala do meu pai.
E antes que a noite passe e a alma se enterneça,
Abro a janela e espio a lua que se esvai…
Qual! é inútil, por mais que esta lembrança esqueça,
Uma lágrima cresce em meus olhos e cai…

Deus há de permitir que eu adormeça
Com as mãos da minha mãe sobre a minha cabeça,
Ouvindo a fala comovida do meu pai.

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Antologia de Poemas para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta, jornalista e letrista musical; fez o primário e o secundário em Recife e cedo mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo estreado na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, e vivido o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Careta e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como ‘o poeta das cigarras’ por causa de um de seus temas prediletos; obra literária: Angelus (1911), Sonetos (1912), Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913), Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918), Últimas Cigarras (1920), Bataclan (crônicas em versos, 1923), Canto da minha terra (1930), Destino (1931), Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933), A Vida que já vivi, memórias (1945), Tangará Conta Histórias (poemas infantis, 1953), Mundo Encantado (1955), e tantos outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Joubert de Carvalho (‘Cai, cai balão’, ’Tutu-marambá’ e outros); também fez parceria musical com diversos outros autores.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Félix Arvers: Tenho um mistério na alma e um segredo na vida: . . . [soneto]

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[traduzido por Olegário Mariano]

Tenho um mistério na alma e um segredo na vida:
Eterno amor que, num momento, apareceu.
Mal sem remédio, é dor que conservo escondida
E aquela que o inspirou nem sabe quem sou eu.

A seu lado serei sempre a sombra esquecida
De um pobre homem de quem ninguém se apercebeu.
E hei de esse amor levar ao fim da humana lida,
Certo de que dei tudo e ele nada me deu.

E ela que Deus formou terna, pura e distante,
Passa sem perceber o murmúrio constante
Do amor que, a acompanhar-lhe os passos, seguirá.

Fiel ao dever que a fez tão fria quanto bela,
Perguntará, lendo estes versos cheios dela:
“Que mulher será esta?” E não compreenderá.

(Texto colhido em Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, de 23.12.1951.
Publicado, antes, em Letras e Artes, suplemento de A Manhã, em 10.6.51.)

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Félix Arvers

Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour éternel en un moment conçu:
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
N’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre.
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.
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O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega — 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Aléxis-Félix Arvers (1806  1850), francês e parisiense, estudou Direito, foi funcionário de cartório e perseguiu o desejo de ser poeta e escritor; fez sucesso com uma peça teatral, uma comédia que caiu no esquecimento, e levou uma vida de dandy por Paris; um seu poema, conhecido como ‘Soneto de Arvers’ e aqui transcrito, despertou grande polêmica nos meios literários à época, com todos curiosos em descobrir quem teria sido sua musa inspiradora, ‘Quelle est donc cette femme?’, ‘Quem será essa mulher?’; o ‘Soneto de Arvers’ foi amplamente traduzido para os mais diversos idiomas, inclusive para o esperanto; em língua portuguesa contam-se em dezenas os tradutores, entre os quais Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, José Oiticica, Gondim da Fonseca, J. G. de Araújo Jorge, José Lino Grünewald, Lúcio de Mendonça, Benedicto Lopes, Bastos Tigre, além de ter inspirado outras criações em resposta ou citando o soneto famoso; Félix Arvers escreveu e publicou Minhas horas perdidas (Mes heures perdues, poesias, 1833), com o referido soneto incluso.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Olegário Mariano: Deslumbramento

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É amor? Não sei. Esta intranquilidade,
Este gozo na dor, esta alegria
Triste que vem de manso e que me invade
A alma, enchendo-a e tornando-a mais vazia;

Este cansaço extremo, esta saudade
De uma coisa que falta à vida... O dia
Sem sol, as noites ermas, a ansiedade
Que exalta e a solidão que anestesia,

É amor. Egoísmo de sofrer sozinho,
De as penas esconder do humano açoite,
De transformar as pedras do caminho

Em carícias sutis para colhê-las
E andar como um sonâmbulo, na noite,
Escancarando os olhos às estrelas...

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Os Sonetos (Antologia — Diversos autores), Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S.A., LR Editores Ltda, São Paulo — SP; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889  1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta, jornalista e letrista musical; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Careta e Para Todos  com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como ‘o poeta das cigarras’ por causa de um de seus temas prediletos; obra literária: Angelus (1911), Sonetos (1912), Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913), Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918), Últimas Cigarras (1920), Bataclan (crônicas em versos, 1923), Canto da minha terra (1930), Destino (1931), Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933), A Vida que já vivi, memórias (1945), Mundo Encantado (1955), e tantos outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Joubert de Carvalho (‘Cai, cai balão’, ’Tutu-marambá’ e outros); também fez parceria musical com diversos outros autores.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Álvaro Armando: Olegário Mariano

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O. M.

(ad imortalitatem)

Poeta, embora “imortal”. Produto fim de raça.
Apesar de viver das rendas de um cartório
Que o Getúlio lhe deu, justiça se lhe faça:
Notário ele só foi, depois de ser notório.

Perpétuo sonhador. Soturno. Merencório.
Passam-se as gerações, mas seu verso não passa,
Já nos tempos d’El Rei, soltando o palavrório,
Recitava o Sinhá, dos serões à luz baça.

Das cigarras é o dono, eterno e indiscutido.
Trata as ditas por tu, chama-as pelo apelido.
Dos seus cantos de amor guarda-os no relicário.

Por isso é que o Ademar pergunta galhofeiro:
 Afinal, qual dos dois veio ao mundo primeiro:
A primeira cigarra ou o verso do Olegário?

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Helena Ferraz, em evento na ABI
(na foto, a única mulher)
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Na Berlinda — Versos de Álvaro Armando, Caricaturas de Théo e Apresentação-prefácio de Gondin da Fonseca, 1947, Editora Civilização Brasileira S. A., Rio de Janeiro — RJ; Álvaro Armando, pseudônimo de Helena Ferraz de Abreu (1906  1979), natural do Rio de Janeiro, foi escritora e jornalista; nascida Helena Marília Bastos Tigre (filha do poeta Bastos Tigre, a quem só veio a conhecer quando mocinha, proibida que fora por seus ‘dela’ familiares), já aos oito anos escrevia crônicas e poesias para o jornal manuscrito O Potoka; depois, criou o Correio Universal (suplemento semanal que circulava em dezenas de jornais espalhados pelo país), colaborou nos jornais Correio da Manhã (foi responsável pela coluna 'Pingos e Respingos'), O Jornal, dos Diários Associados, (escreveu a coluna ‘Janela Indiscreta’), O Globo (colunas diárias em ‘Humorglobinas’ e ‘Na Boca do Globo’), dirigiu A Cigarra Feminina (suplemento de A Cigarra), além de ter trabalhado em revistas de grande circulação nacional, como Careta e Manchete; Helena Ferraz também exerceu atividades em publicidade e em programas radiofônicos e televisivos (Rádio MEC, Rádio Globo e TV Tupi); satirizou figuras públicas da época; foi eleita a primeira mulher diretora na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e, até o fim da vida, dirigiu a Biblioteca Bastos Tigre; teria sido o uso do pseudônimo masculino, Álvaro Armando, que a pusera tão à vontade no exercício da poesia satírica, o que tornara possível uma extensa carreira em jornais de grande circulação e destaque no Brasil da época; bibliografia: Na Berlinda  Versos de Álvaro Armando (ilustrações de Théo, 1947).

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Olegário Mariano: Cigarra

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Cigarra! Levo a ouvir-te o dia inteiro,
Gosto da tua frívola cantiga,
mas vou dar-te um conselho, rapariga:
trata de abastecer o teu celeiro.

Trabalha, segue o exemplo da formiga!
Aí vem o inverno, as chuvas, o nevoeiro;
e tu, não tendo um pouso hospitaleiro,
pedirás... E é bem triste ser mendiga!

E ela, ouvindo os conselhos que eu lhe dava,
(quem dá conselhos sempre se consome...)
continuava cantando... continuava...

Parece que no canto ela dizia:
 Se eu deixar de cantar, morro de fome;
que a cantiga é o meu pão de cada dia.

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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889  1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta, jornalista e letrista musical; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como o 'poeta das cigarras' por causa de um de seus temas prediletos; obra literária: Angelus  (1911), Sonetos (1912), Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913), Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918), Últimas Cigarras (1920), Bataclan (crônicas em versos, 1923), Canto da minha terra (1930), Destino (1931), Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933), A Vida que já vivi, memórias (1945), Mundo Encantado (1955), e tantos outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Joubert de Carvalho (‘Cai, cai balão’, ’Tutu-marambá’ e outros); também fez parceria musical com diversos outros autores.