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quinta-feira, 7 de maio de 2026

John Donne: Magia pela imagem


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[traduzido por Augusto de Campos]

Fixo meu olho no teu olho e flagro uma
Sombra de mim queimando no teu olho.
Meu retrato afogado numa lágrima
        Logo abaixo recolho.
Se entendesses de imagens e magias,
Com minha imagem nas pupilas frias,
De quantos modos tu me matarias?

Tuas lágrimas sorvo, doce humor,
E ainda que outras caiam, vou deixar-te;
Meu retrato se esvai, vai-se o temor
De ser enfeitiçado por tal arte;
        Só reténs, afinal,
Minha imagem num único local:
Teu coração, livre de todo o mal.

John Donne

Witchcraft by a Picture

I fix mine eye on thine, and there
        Pity my picture burning in thine eye,
My picture drowned in a transparent tear,
        When I look lower I espy;
                Hadst thou the wicked skill
By pictures made and marred, to kill,
How many ways mightst thou perform thy will?

But now I have drunk thy sweet salt tears,
         And though thou pour more, I'll depart;
My picture vanished, vanish all fears,
        That I can be endamaged by that art;
                Though thou retain of me
One picture more, yet that will be,
Being in thine own heart, from all malice free.
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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativa de Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; John Mayra Donne (1572 1631), inglês e londrino, estudou na Hart Hall, atual Hertford College Oxford, depois consta ter ingressado na Universidade de Cambridge, ter concluído o curso, mas não ter sido diplomado devido sua recusa da prestação do Juramento da Supremacia juras de lealdade à rainha, protestante exigido dos formandos, por ele ser da religião católico-romana; foi poeta, pastor, diácono e sacerdote, advogado e reitor da Saint Paul Cathedral, em Londres; de sua biografia, também consta que após os estudos viajou pela Espanha e Itália e, de retorno a Londres, estudou Direito, primeiro no Thavies Inn e depois no Lincoln’s Inn; a poesia de John Donne, em sua grande maioria, não foi publicada com o poeta ainda em vida; seu legado poético foi preservado em cópias manuscritas que eram feitas e distribuídas a um pequeno e seleto grupo de admiradores e amantes da poesia; ao longo do século XVIII e grande parte do XIX, o poeta e sacerdote foi pouco lido e pouco apreciado, consta que apenas no final do ano 1800 “a poesia de Donne foi avidamente adotada por um grupo crescente de leitores e escritores de vanguarda. Sua prosa permaneceu praticamente despercebida até 1919”; publicações do autor: poemas: The Anniversaries (1621), Holy Sonnets (1633), The Good-Morrow (1633), The Canonization (1633), Love Poems (1905), John Donne: Divine Poems, Sermons, Devotions and Prayers (1990), The Complete English Poems (1991), John Donne’s Poetry (1991), John Donne: The Majors Works (2000), Poems on Several Occasions (2001), The Complete Poetry and Selected Prose of John Donne (2001), prosa: Devotions Upon Emergent Occasions and Death’s Duel (1624), Six Sermons (1634), Fifty Sermons (1649), Essayes in Divinity (1651), Paradoxes, Problems, Essayes, Characters (1652), Sermons Never Before Published (1661)...; John Donne “foi um importante poeta inglês da escola metafísica” e “é frequentemente considerado o maior poeta de amor da língua inglesa”.

terça-feira, 24 de março de 2026

John Donne: Elegia: Indo para o leito

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
        Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
        Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
        Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

John Donne

Elegy: Going to Bed

Come, Madam, come, all rest my powers defy;
Until I labour, I in labour lie.
The foe oft-times, having the foe in sight,
Is tired with standing, though he never fight.
Off with that girdle, like heaven's zone glittering,
But a far fairer world encompassing.
Unpin that spangled breastplate, which you wear
That th'eyes of busy fools may be stopped there.
Unlace yourself, for that harmonious chime,
Tells me from you, that now it is bed-time.
Off with that happy busk, which I envy,
That still can be, and still can stand so nigh.
Your gowns going off, such beauteous state reveals,
As when from flowery meads th'hill's shadow steals.
Off with your wiry coronet, and show
The hairy diadem which on you doth grow.
Off with those shoes; and then safely tread
In this love's hallowed temple, this soft bed.
In such white robes heaven's Angels used to be
Receaved by men; Thou Angel bringst with the
A heaven like Mahomet's Paradise; and though
Ill spirits walk in white, we easily know,
By this these Angels from an evil sprite;
They set our hairs, but these our flesh upright.
        Licence my roving hands, and let them go,
Behind, before, above, between, below.
O my America, my new-found-land,
My kingdom, safeliest when with one man manned,
My Mine of precious stones, My Empery;
How blessed am I in this discovering thee!
To enter into these bonds, is to be free;
Then where my hand is set, my soul shall be.
        Full nakedness! All joys are due to thee,
As souls unbodied, bodies unclothed must be,
To taste whole joys. Gems which you women use
Are as Atlanta's balls, cast in men's views,
That when a fool's eye lighteth on a gem,
His earthly soul may covet theirs, not them.
Like pictures, or like books' gay coverings made
For lay-men, are all women thus arrayed;
Themselves are mystic books, which onely we
(Whom their imputed grace will dignify)
Must see reveal'd. Then since that I may know,
As liberally, as to a midwife, show
Thy self: cast all, yea, this white linen hence;
Here is no penance due to innocence.
        To teach thee, I am naked first: why then
What needst thou have more covering than a man.
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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativa de Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; John Mayra Donne (1572 1631), inglês e londrino, estudou na Hart Hall, atual Hertford College Oxford, depois consta ter ingressado na Universidade de Cambridge, ter concluído o curso, mas não ter sido diplomado devido sua recusa da prestação do Oath of Supremacy Juramento de Supremacia ,  juras de lealdade à rainha, protestante exigido dos formandos, por ele ser da religião católico-romana; foi poeta, pastor, diácono e sacerdote, advogado e reitor da Saint Paul Cathedral, em Londres; de sua biografia, também consta que após os estudos viajou pela Espanha e Itália e, de retorno a Londres, estudou Direito, primeiro no Thavies Inn e depois no Lincoln’s Inn; a poesia de John Donne, em sua grande maioria, não foi publicada com o poeta ainda em vida; seu legado poético foi preservado em cópias manuscritas que eram feitas e distribuídas a um pequeno e seleto grupo de admiradores e amantes da poesia; ao longo do século XVIII e grande parte do XIX, o poeta e sacerdote foi pouco lido e pouco apreciado, consta que apenas no final do ano 1800 “a poesia de Donne foi avidamente adotada por um grupo crescente de leitores e escritores de vanguarda. Sua prosa permaneceu praticamente despercebida até 1919”; publicações do autor: poemas: The Anniversaries (1621), Holy Sonnets (1633), The Good-Morrow (1633), The Canonization (1633), Love Poems (1905), John Donne: Divine Poems, Sermons, Devotions and Prayers (1990), The Complete English Poems (1991), John Donne’s Poetry (1991), John Donne: The Majors Works (2000), Poems on Several Occasions (2001), The Complete Poetry and Selected Prose of John Donne (2001), prosa: Devotions Upon Emergent Occasions and Death’s Duel (1624), Six Sermons (1634), Fifty Sermons (1649), Essayes in Divinity (1651), Paradoxes, Problems, Essayes, Characters (1652), Sermons Never Before Published (1661)...; John Donne “foi um importante poeta inglês da escola metafísica” e “é frequentemente considerado o maior poeta de amor da língua inglesa”.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

John Donne: A Pulga

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Repara nesta pulga e aprende bem
Quão pouco é o que me negas com desdém.
Ela sugou-me a mim e a ti depois,
Mesclando assim o sangue de nós dois.
E é certo que ninguém a isto alude
Como pecado ou perda de virtude.
        Mas ela goza sem ter cortejado
        E incha de um sangue em dois revigorado:
        É mais do que teríamos logrado.

Poupa três vidas nesta que é capaz
De nos fazer casados, quase ou mais.
A pulga somos nós e este é o teu
Leito de núpcias. Ela nos prendeu,
Queiras ou não, e os outros contra nós,
Nos muros vivos deste Breu, a sós.
        E embora possas dar-me fim, não dês:
        É suicídio e sacrilégio, três
        Pecados em três mortes de uma vez.

Mas tinges de vermelho, indiferente,
A tua unha em sangue de inocente.
Que falta cometeu a pulga incauta
Salvo a mínima gota que te falta?
E te alegras e dizes que não sentes
Nem a ti nem a mim menos potentes.
        Então, tua cautela é desmedida.
        Tanta honra hei de tomar, se concedida,
        Quanto a morte da pulga à tua vida.

John Donne

The Flea

        Mark but this flea, and mark in this,
How little that which thou deny’st me is;
        Me It suck’d first, and now sucks thee,
And in this flea, our two bloods mingled be;
        Confess it, this cannot be said
A sin, or shame, or loss of maidenhead,
                Yet this enjoys before it woe,
And pamper’d swells with one blood made of two,
And this, alas, is more than we would do.

        Oh stay, three lives in one flea spare,
Where we almost, nay more than married are:
        This flea is you and I, and this
Our marriage bed, and marriage temple is;
        Though parents grudge, and you, we'are met,
And cloisterd in these living walls of Jet.
                Though use make thee apt to kill me,
Let not to this, self murder added be,
And sacrilege, three sins in killing three.

        Cruel and sudden, hast thou since
Purpled thy nail, in blood of innocence?
        In what could this flea guilty be,
Except in that drop which it sucked from the?
        Yet thou triumph’st, and say'st that thou
Find’st not thy self, nor me the weaker now;
                ’Tis true; then learn how false, fears be;
Just so much honor, when thou yield’st to me,
Will waste, as this flea’s death took life from thee.
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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativa de Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; John Mayra Donne (1572 1631), inglês e londrino, estudou na Hart Hall, atual Hertford College Oxford, depois consta ter ingressado na Universidade de Cambridge, ter concluído o curso, mas não ter sido diplomado devido sua recusa da prestação do Oath of Supremacy Juramento de Supremacia ,  juras de lealdade à rainha, protestante exigido dos formandos, por ele ser da religião católico-romana; foi poeta, pastor, diácono e sacerdote, advogado e reitor da Saint Paul Cathedral, em Londres; de sua biografia, também consta que após os estudos viajou pela Espanha e Itália e, de retorno a Londres, estudou Direito, primeiro no Thavies Inn e depois no Lincoln’s Inn; a poesia de John Donne, em sua grande maioria, não foi publicada com o poeta ainda em vida; seu legado poético foi preservado em cópias manuscritas que eram feitas e distribuídas a um pequeno e seleto grupo de admiradores e amantes da poesia; ao longo do século XVIII e grande parte do XIX, o poeta e sacerdote foi pouco lido e pouco apreciado, consta que apenas no final do ano 1800 “a poesia de Donne foi avidamente adotada por um grupo crescente de leitores e escritores de vanguarda. Sua prosa permaneceu praticamente despercebida até 1919”; publicações do autor: poemas: The Anniversaries (1621), Holy Sonnets (1633), The Good-Morrow (1633), The Canonization (1633), Love Poems (1905), John Donne: Divine Poems, Sermons, Devotions and Prayers (1990), The Complete English Poems (1991), John Donne’s Poetry (1991), John Donne: The Majors Works (2000), Poems on Several Occasions (2001), The Complete Poetry and Selected Prose of John Donne (2001), prosa: Devotions Upon Emergent Occasions and Death’s Duel (1624), Six Sermons (1634), Fifty Sermons (1649), Essayes in Divinity (1651), Paradoxes, Problems, Essayes, Characters (1652), Sermons Never Before Published (1661)...; John Donne “foi um importante poeta inglês da escola metafísica” e “é frequentemente considerado o maior poeta de amor da língua inglesa”.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

John Donne: A mensagerm

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Devolve os pobres olhos que eu perdi
E que te habitam, desde que te vi.
Mas se eles já sofreram tal castigo
        E tantos danos,
        Tantos enganos,
                Tal rigor,
                Que a dor
Os fez inúteis, guarda-os contigo.

Devolve o coração que te foi dado
Sem jamais cometer qualquer pecado.
Porém, se ele contigo já aprendeu
        Como se mata
        E se maltrata
                E se tortura
                Uma alma pura,
Guarda, também, esse ex-pedaço meu.

Melhor, devolve olhos e coração,
Para que eu possa ver a traição,
E possa rir, quando chegar a hora
        De te ver
        Padecer
                Por alguém
                Que tem
Um coração como o que tens agora.

John Donne

The Message

Send home my long strayed eyes to me,
Which, (Oh) too long have dwelt on thee;
Yet since there they have learn'd such ill,
        Such forc’d fashions,
        And false passions,
                That they be
                Made by thee
Fit for no good sight, keep them still.

Send home my harmless heart again,
Which no unworthy thought could stain;
Which if it be taught by thine
        To make jestings
        Of protestings,
                And cross both
                Word and oath,
Keep it, for then 'tis none of mine.

Yet send me back my heart and eyes,
That I may know, and see thy lies,
And may laugh and joy, when thou
        Art in anguish
        And dost languish
                For some one
                That will none,
Or prove as false as thou art now.
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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativa de Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; John Mayra Donne (1572 1631), inglês e londrino, estudou na Hart Hall, atual Hertford College Oxford, depois consta ter ingressado na Universidade de Cambridge, ter concluído o curso, mas não ter sido diplomado devido sua recusa da prestação do Oath of Supremacy Juramento de Supremacia ,  juras de lealdade à rainha, protestante exigido dos formandos, por ele ser da religião católico-romana; foi poeta, pastor, diácono e sacerdote, advogado e reitor da Saint Paul Cathedral, em Londres; de sua biografia, também consta que após os estudos viajou pela Espanha e Itália e, de retorno a Londres, estudou Direito, primeiro no Thavies Inn e depois no Lincoln’s Inn; a poesia de John Donne, em sua grande maioria, não foi publicada com o poeta ainda em vida; seu legado poético foi preservado em cópias manuscritas que eram feitas e distribuídas a um pequeno e seleto grupo de admiradores e amantes da poesia; ao longo do século XVIII e grande parte do XIX, o poeta e sacerdote foi pouco lido e pouco apreciado, consta que apenas no final do ano 1800 “a poesia de Donne foi avidamente adotada por um grupo crescente de leitores e escritores de vanguarda. Sua prosa permaneceu praticamente despercebida até 1919”; publicações do autor: poemas: The Anniversaries (1621), Holy Sonnets (1633), The Good-Morrow (1633), The Canonization (1633), Love Poems (1905), John Donne: Divine Poems, Sermons, Devotions and Prayers (1990), The Complete English Poems (1991), John Donne’s Poetry (1991), John Donne: The Majors Works (2000), Poems on Several Occasions (2001), The Complete Poetry and Selected Prose of John Donne (2001), prosa: Devotions Upon Emergent Occasions and Death’s Duel (1624), Six Sermons (1634), Fifty Sermons (1649), Essayes in Divinity (1651), Paradoxes, Problems, Essayes, Characters (1652), Sermons Never Before Published (1661)...; John Donne “foi um importante poeta inglês da escola metafísica” e “é frequentemente considerado o maior poeta de amor da língua inglesa”.

domingo, 12 de janeiro de 2025

John Donne: A Relíquia

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Quando um segundo hóspede vier
        A este meu tálamo comum
(Pois isto os túmulos têm da mulher:
        Ser leito para mais de um),
        E virem, ao abrir o fosso,
Que um bracelete de cabelos luz
                Em torno do osso,
        Nos deixarão, talvez, em paz,
Pensando: esse adorável par que aí jaz
Achou que as duas almas poderia
Juntar aqui no derradeiro dia?

Se isto acontecer em tempo ou terra
        Onde a superstição for lei,
Esse que o nosso túmulo descerra
        Nos levará ao Bispo e ao Rei
        Como Relíquias do lugar.
Serás a Madalena dessa gente
                E eu, um santo parente.
As mulheres virão nos adorar,
E como nos compete praticar
Milagres, vou dizer em poucas frases
De que milagres nós fomos capazes.

Primeiro amamos com paixão intensa
                Sem sabermos porque
E sem vermos no sexo diferença
                Mais do que um anjo vê.
Ao chegar e partir um beijo apenas
E nada entre tais práticas amenas.
Nem nossas mãos tocaram nunca os selos
                Que abrem outros apelos:
Esses milagres viu a nossa era,
Mas nem fala nem fábula pudera
Contar-lhes o milagre que Ela era.

John Donne

The Relic

        When my grave is broke up again
        Some second guest to entertaine,
        (For graves have learn'd that woman-head,
        To be to more than one a Bed)
                And he that digs it, spies
A bracelet of bright hair about the bone,
                Will he not let'us alone,
And think that there a loving couple lies,
Who thought that this device might be some way
To make their souls, at the last busy day,
Meet at this grave, and make a little stay?

        If this fall in a time, or land,
        Where mis-devotion doth command,
        Then, he that digs us up, will bring
        Us to the Bishop, and the King,
                To make us Relics; then
Thou shalt be a Mary Magdalen, and I
                A something else thereby;
All women shall adore us, and some men;
And since at such times, miracles are sought,
I would have that age by this paper taught
What miracles we harmless lovers wrought.

        First, we loved well and faithfully,
        Yet knew not what we loved, nor why,
        Difference of sex no more we knew,
        Than our Guardian Angels do;
                Coming and going, we
Perchance might kiss, but not between those meals;
                Our hands ne'er touched the seals,
Which nature, injured by late law, sets free:
These miracles we did; but now alas,
All measure, and all language, I should pass,
Should I tell what a miracle she was.
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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativa de Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; John Mayra Donne (1572 1631), inglês e londrino, estudou na Hart Hall, atual Hertford College Oxford, depois consta ter ingressado na Universidade de Cambridge, ter concluído o curso, mas não ter sido diplomado devido sua recusa da prestação do Oath of Supremacy Juramento de Supremacia ,  juras de lealdade à rainha, protestante exigido dos formandos, por ele ser da religião católico-romana; foi poeta, pastor, diácono e sacerdote, advogado e reitor da Saint Paul Cathedral, em Londres; de sua biografia, também consta que após os estudos viajou pela Espanha e Itália e, de retorno a Londres, estudou Direito, primeiro no Thavies Inn e depois no Lincoln’s Inn; a poesia de John Donne, em sua grande maioria, não foi publicada com o poeta ainda em vida; seu legado poético foi preservado em cópias manuscritas que eram feitas e distribuídas a um pequeno e seleto grupo de admiradores e amantes da poesia; ao longo do século XVIII e grande parte do XIX, o poeta e sacerdote foi pouco lido e pouco apreciado, consta que apenas no final do ano 1800 “a poesia de Donne foi avidamente adotada por um grupo crescente de leitores e escritores de vanguarda. Sua prosa permaneceu praticamente despercebida até 1919”; publicações do autor: poemas: The Anniversaries (1621), Holy Sonnets (1633), The Good-Morrow (1633), The Canonization (1633), Love Poems (1905), John Donne: Divine Poems, Sermons, Devotions and Prayers (1990), The Complete English Poems (1991), John Donne’s Poetry (1991), John Donne: The Majors Works (2000), Poems on Several Occasions (2001), The Complete Poetry and Selected Prose of John Donne (2001), prosa: Devotions Upon Emergent Occasions and Death’s Duel (1624), Six Sermons (1634), Fifty Sermons (1649), Essayes in Divinity (1651), Paradoxes, Problems, Essayes, Characters (1652), Sermons Never Before Published (1661)...; John Donne “foi um importante poeta inglês da escola metafísica” e “é frequentemente considerado o maior poeta de amor da língua inglesa”.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

John Donne: Em despedida: proibindo o pranto

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[traduzido por Augusto de Campos]

Como esses santos homens que se apagam
        Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”,
Enquanto alguns dos amigos amargos
        Dizem: “Respira ainda.” E outros: “Não.”

Nos dissolvamos sem fazer ruído,
        Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,
Fora profanação nossa ao ouvido
        Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
        E o que ele faz expõe a toda a gente,
Mas a trepidação do firmamento,
        Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
        (Cuja alma é só sentidos) não resiste
A ausência, que transforma em singulares
        Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
        Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
        Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só,
        Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
        Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas, o são similarmente
        Às duas duras pernas do compasso:
Tua alma é a perna fixa, em aparente
        Inércia, mas se move a cada passo

Da outra, e se no centro quieta jaz,
        Quando se distancia aquela, essa
Se inclina atentamente e vai-lhe atrás,
        E se endireita quando ela regressa.

Assim serás para mim que pareço
        Como a outra perna obliquamente andar.
Tua firmeza faz-me, circular,
        Encontrar meu final em meu começo.

John Donne

A Valediction: Forbidding Mourning

As virtuous men pass mildly away
        And whisper to their souls to go,
Whilst some of their sad friends do say,
        The breath goes now, and some say, no:

So let us melt, and make no noise,
        No tear-floods, nor sigh-tempests move;
T’were profanation of our joys
        To tell the laity our love.

Moving of th' earth brings harms and fears,
        Men reckon what it did and meant;
But trepidation of the spheres,
        Though greater far, is innocent.

Dull sublunary lovers love
        (Whose soul is sense) cannot admit
Absence, because it doth remove
        Those things which elemented it.

But we by a love, so much refined
        That our selves know not what it is,
Inter-assured of the mind,
        Care less, eyes, lips, and hands to miss.

Our two souls therefore, which are one,
        Though I must go, endure not yet
A breach, but an expansion,
        Like gold to aery thinness beat.

If they be two, they are two so
        As stiff twin compasses are two;
Thy soul, the fixed foot, makes no show
        To move, but doth, if th’other do.

And though it in the center sit,
        Yet when the other far doth rome,
It leans and hearkens after it,
        And grows erect, as that comes home.

Such wilt thou be to me, who must,
        Like th'other foot, obliquely run;
Thy firmness makes my circle just,
        And makes me end, where I begun.
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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativa de Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; John Mayra Donne (1572 1631), inglês e londrino, estudou na Hart Hall, atual Hertford College Oxford, depois consta ter ingressado na Universidade de Cambridge, ter concluído o curso, mas não ter sido diplomado devido sua recusa da prestação do Oath of Supremacy Juramento de Supremacia ,  juras de lealdade à rainha, protestante exigido dos formandos, por ele ser da religião católico-romana; foi poeta, pastor, diácono e sacerdote, advogado e reitor da Saint Paul Cathedral, em Londres; de sua biografia, também consta que após os estudos viajou pela Espanha e Itália e, de retorno a Londres, estudou Direito, primeiro no Thavies Inn e depois no Lincoln’s Inn; a poesia de John Donne, em sua grande maioria, não foi publicada com o poeta ainda em vida; seu legado poético foi preservado em cópias manuscritas que eram feitas e distribuídas a um pequeno e seleto grupo de admiradores e amantes da poesia; ao longo do século XVIII e grande parte do XIX, o poeta e sacerdote foi pouco lido e pouco apreciado, consta que apenas no final do ano 1800 “a poesia de Donne foi avidamente adotada por um grupo crescente de leitores e escritores de vanguarda. Sua prosa permaneceu praticamente despercebida até 1919”; publicações do autor: poemas: The Anniversaries (1621), Holy Sonnets (1633), The Good-Morrow (1633), The Canonization (1633), Love Poems (1905), John Donne: Divine Poems, Sermons, Devotions and Prayers (1990), The Complete English Poems (1991), John Donne’s Poetry (1991), John Donne: The Majors Works (2000), Poems on Several Occasions (2001), The Complete Poetry and Selected Prose of John Donne (2001), prosa: Devotions Upon Emergent Occasions and Death’s Duel (1624), Six Sermons (1634), Fifty Sermons (1649), Essayes in Divinity (1651), Paradoxes, Problems, Essayes, Characters (1652), Sermons Never Before Published (1661)...; John Donne “foi um importante poeta inglês da escola metafísica” e “é frequentemente considerado o maior poeta de amor da língua inglesa”.

sábado, 6 de julho de 2024

John Donne: O triplo louco


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[traduzido por Augusto de Campos]

        Sou dois loucos, confesso,
        Por amar e, possesso,
        Confessá-lo em meu verso.
Mas quem não quereria estar em mim
        Se ela dissesse sim?
Como os sulcos que o mar na areia grava
Purgam do sal amargo a sua água,
        Julguei que, ao espremer a minha mágoa
Nas comportas do verso, a afogava.
É menos dor, domada pela rima,
A dor que pelos números se exprima.

        Mas alguém, logo após,
        Para exibir a voz
        Com arte e com destreza,
Vai libertar de novo essa tristeza
        No anel dos versos presa.
Amor e dor em verso são prezados,
Mas não quando escutam com prazer.
        Ambos crescem ao ver
Seus triunfos, assim, patenteados,
E eu, que fui dois loucos de uma vez,
Três vezes vivo a minha insensatez.

John Donne

The triple fool

        I am two fools, I know,
    For loving, and for saying so
        In whining poetry;
But where's that wiseman, that would not be I,
        If she would not deny?
Then as th'earth's inward narrow crooked lanes
Do purge sea waters fretful salt away,
        I thought, if I could draw my pains,
Through rimes vexation, I should them allay,
Grief brought to numbers cannot be so fierce,
For, he tames it, that fetters it in verse.

        But when I have done so,
    Some man, his art and voice to show,
        Doth set and sing my pain;
And by delighting many, frees again
        Grief, which verse did restrain.
To love, and grief tribute of verse belongs,
    But not of such as pleases when 'tis read,
        Both are increased by such songs,
For both their triumphs so are published,
And I, which was two fools, do so grow three;
Who are a little wise, the best fools be.
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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativa de Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; John Mayra Donne (1572 1631), inglês e londrino, estudou na Hart Hall, atual Hertford College Oxford, depois consta ter ingressado na Universidade de Cambridge, ter concluído o curso, mas não ter sido diplomado devido sua recusa da prestação do Juramento da Supremacia juras de lealdade à rainha, protestante exigido dos formandos, por ele ser da religião católico-romana; foi poeta, pastor, diácono e sacerdote, advogado e reitor da Saint Paul Cathedral, em Londres; de sua biografia, também consta que após os estudos viajou pela Espanha e Itália e, de retorno a Londres, estudou Direito, primeiro no Thavies Inn e depois no Lincoln’s Inn; a poesia de John Donne, em sua grande maioria, não foi publicada com o poeta ainda em vida; seu legado poético foi preservado em cópias manuscritas que eram feitas e distribuídas a um pequeno e seleto grupo de admiradores e amantes da poesia; ao longo do século XVIII e grande parte do XIX, o poeta e sacerdote foi pouco lido e pouco apreciado, consta que apenas no final do ano 1800 “a poesia de Donne foi avidamente adotada por um grupo crescente de leitores e escritores de vanguarda. Sua prosa permaneceu praticamente despercebida até 1919”; publicações do autor: poemas: The Anniversaries (1621), Holy Sonnets (1633), The Good-Morrow (1633), The Canonization (1633), Love Poems (1905), John Donne: Divine Poems, Sermons, Devotions and Prayers (1990), The Complete English Poems (1991), John Donne’s Poetry (1991), John Donne: The Majors Works (2000), Poems on Several Occasions (2001), The Complete Poetry and Selected Prose of John Donne (2001), prosa: Devotions Upon Emergent Occasions and Death’s Duel (1624), Six Sermons (1634), Fifty Sermons (1649), Essayes in Divinity (1651), Paradoxes, Problems, Essayes, Characters (1652), Sermons Never Before Published (1661)...; John Donne “foi um importante poeta inglês da escola metafísica” e “é frequentemente considerado o maior poeta de amor da língua inglesa”.