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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Miroslav Antić: Marcha fúnebre dos clowns [trechos]

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović *]

[III]

Quando eu morrer,
tenho ao menos a certeza:
ninguém há de arrastar-se para cuspir-me na face.

Todos hão de tornar-se amigos de um[a] só vez
e buscarão ainda prestar-me uma homenagem qualquer.

Compreendo-vos perfeitamente:
as pessoas mortas não são malfeitores,
tampouco são nojentas,
ou assassinas.

A morte é absolvição.

A morte é a forma mais adequada de partir,
sem apertos de mão,
sem promessas,
em paz.

A morte é a invalidez para os heróis
de crânios cortados,
e a insônia das cinzas
em que as almas pedem ventos de gramados.

Com a partida lucra-se bastante:
emplacam o nome e sobrenome das pessoas
pelos cantos
em papéis finos,
e todos lêem o vosso nome,
lêem,
como se de uma só vez vos tornásseis exposição de relevo,
concerto
ou pré-estréia de teatro.

[VII]

Quando eu morrer,
sentirei apenas pelos pássaros,
porque o tempo todo fiquei sonhando verões,
e o resto todo não possuía para mim
sentido ou significação extraordinários.

E vós sorris
quando descerem o grande clown na sepultura
e seus mundos compreensíveis
cansados das anedotas da vida.

E que tudo passe sem rezas
e sem patriotismo.
Para as mulheres das ruas a roupa íntima
das vestimentas monásticas!

Não fui ícone,
nem comandante militar,
nem cidadão provincial
cujos filhos o reconhecimento educa.

Os circos
foram o meu amor mais oculto
e o meu patriotismo mais policromado.

E multipliquei-me
quando os outros por mim
e pelo futuro da humanidade caíam mortos.
e morria
quando as guerras vindas da treva
novamente ressuscitam enevoadas.

Miroslav Antić

Posmrtni marš klovnova

III

Kad umrem,
bar sam siguran:
niko se neće dovući da mi pljune u lice.

Svi ćete mi odjednom biti prijatelji,
i ko zna kakvo izmisliti priznanje.

Potpuno vas razumem:
mrtvi ljudi nisu zločinci,
nisu gadovi,
nisu ubice.

Smrt je pomilovanje.

Smrt je najpristojniji način da se ode
bez rukovanja,
bez obećanja,
na miru.

Smrt je invalidnima herojima
za odrezane lobanje,
i nesanica pepela
u kojoj duše trava vetrove ištu.

Odlaskom se znatno dobija:
plakatiraju čovekovo ime i prezime
po uglovima
na finijem papiru,
i svako vas čita,
čita,
kao da ste odjednom postali važna izložba,
koncert
ili premijera u pozorištu.

VII

Kad umrem,
samo će mi biti žao ptica,
jer sve vreme sam sanjao letove,
pa ono drugo za mene nije imalo
naročitog smisla i značenja.

A vi se nasmejte
kad spušte u raku velikog klovna
i njegove nerazumljive svetove,
umorne od životnog šegaćenja.

I neka sve prodje bez molitvi
i rodoljublja.
Uličarkama donji veš
od kaludjerskih riza!

Nisam bio ni ikona,
ni vojskovodja,
ni graždanin provincijski
kome bone decu vaspitavaju.

Cirkusi su bili
moja najmračnija ljubav
i moj najšareniji patriotizam,

i radjao sam se
kad su drugi za mene
i za budućnost čovečanstva ginuli,
a umro
kad ratovi iz mraka
ponovo potmulo vaskrsavaju.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca, São Paulo — SP; Miroslav Antić (1932 1986), sérvio de Mokrin, Kikinda, região de Vóivodina, Reino da Iugoslávia, cursou o ensino primário e o médio em sua cidade natal e em Pančevo, onde morou, estudou na Faculdade de Filosofia (Estudos Eslavos, Tcheco e Russo), em Belgrado, foi editor, poeta e, indo além da literatura, também lidou com pintura, jornalismo e cinema, atuando como diretor de longas-metragens e documentários e também como cenografista; escreveu seus primeiros versos aos dezesseis anos, os quais foram publicados na revista Mladost; trabalhou no jornal Pancevac, de Pancevo, foi editor dos jornais Ritam, Dnevnik (ambos de Belgrado), Mladog pokolenja (de Novi Sad) e dirigiu os filmes Areia Sagrada (Sveti pijesak, 1968), Café da Manhã com o Diabo (Doručak s đavlom, 1971), As Folhas são Largas (Shiroko je liješte, 1981), O Leão Terrível ...; suas obras literárias: publicou mais de 20 livros dentre os quais "Desculpado pela primavera" (Ispričano za proljeća, coletânea de poemas-canções, 1950), Blasfêmias da ternura (Psovke nježnosti, 1959), Concertos para 1001 tambores (Koncert za 1001 bubanj, 1974), O Livro Cosido (Sašava Knjiga, 1972), “esta última obra tem encantado crianças, adultos e velhos, de modo indistinto”; foi várias vezes premiado por seus textos, tendo sido eleito membro da Associação de Escritores da Sérvia; parte de seus filmes, especialmente o Café da Manhã com o Diabo, foi proibida pelo governo comunista da época e, na década de 90, foram encontrados, restaurados e tornados público; suas atividades no jornalismo lhe possibilitaram conhecer pessoas cultas e outras culturas, ao viajar por vários países; seus poemas-canções foram traduzidos para os idiomas russo, macedônio, albanês, inglês, turco, húngaro, eslovaco, tcheco, francês, romeno, polonês e esloveno; antes de adquirir fama como poeta, Miroslav Antić já havia sido ajudante de pedreiro, porteiro no cais, operário de cervejaria, marinheiro e trabalhara em teatro de fantoches, em serviços de encanamento e esgoto, em telhados, carpintaria e vários outros ofícios.