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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Adelaide Petters Lessa: Heráclita

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Orfã, cresceu com sua avó
francesa, desligada, nonchalante,
a placidez das plácidas.
Tout casse, tout lasse, tout passe.
O tempo era a carruagem
da tolerância. Laissez-faire, laissez aller.

Um bicho carpinteiro, o avô luso
sentia horror às mãos vadias:
 Se não tens o que fazer
a saia descostures e tornes a cosê-la.

Penélope de Portugal, a jovenzinha
passou de roca-e-fuso a um tear elétrico
e a um micro digital, plug and play, delete,
que o ir e vir da Nasa é retorno santo.

O namorado, sobre a ponte, fez notar
que rio nenhum é o mesmo, onda nenhuma
se eleva e cai igual à outra
para nenhum surfista.

Então ela se vai
de namorado em namorado,
cíclica, ardendo como buscapé,
que o ir e vir da Lua é trabalho
para a maré.

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Quase poética do meu próximo — Adelaide Petters Lessa, 2000, Escrituras Editora, São Paulo — SP; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, licenciada em Pedagogia e doutora em Ciências Humanas (ambas pela USP-SP), é educadora, psicóloga clínica, professora universitária, tradutora e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase (1995), Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus — o Sol da Meia-Noite e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo...

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Adelaide Petters Lessa: Treinador

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Eu abomino o jogo desleal,
de pés sem a cabeça.

Profissionais de trancos e pisões,
propositais, maldosos.
Chuteiras atingindo os genitais do outro.
Rasteiras que estraçalham com joelhos.
Adversários retorcidos sobre a maca,
sujeitos ao derrame, ocaso e morte.
Rejeito o jogador fingido,
suas desculpas de má sorte.
O falso craque, descoberto o dopping.
O brutamontes, o comprado,
o covarde.

Prefiro o fair-play, cavalheiresco abraço
do jogador vencido ao vencedor.
A troca de camisas e bandeiras.
Todo o requinte e a graça soberana
de ginasta perfeito e bailarino.

Eu gosto é da refrega entre os atletas
de inteligência e destreza, criadoras,
da Folha seca, do Chapéu, do Gol Olímpico,
dos dribles sucessivos,
da Bicicleta sem visão da meta.

Mais belo ainda é o lance plug-and-play
que nasce do goleiro, sobrevoa
a meia-lua e chega ao peito e aos pés
de um atacante alerta.
A garra, intuição, certeza e fé
de uma vitória limpa.

Meninos, nosso esporte se enriqueça
de auto-controle. Dignidade.
A taça com a posse de si mesmo.

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Quase poética do meu próximo — Adelaide Petters Lessa, 2000, Escrituras Editora, São Paulo — SP; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, licenciada em Pedagogia e doutora em Ciências Humanas (ambas pela USP-SP), é educadora, psicóloga clínica, professora universitária, tradutora e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase (1995), Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus — o Sol da Meia-Noite e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo...

sábado, 7 de março de 2020

Adelaide Petters Lessa: Rasteira

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Seguido por um jovem sorrateiro
que lhe deu a rasteira pelas costas,
na íngreme ladeira um velho trôpego
permaneceu caído, contraído,
os dedos do ladrão em sua boca.

Dos bolsos, a mão solta recolheu
o minguante salário-desemprego,
um vale-refeição, o passe do metrô
e as moedinhas do café pingado.

Ladeira abaixo deslizou, alegre,
sumindo aos saltos e pinotes: entrechats
de êxito e fortuna temporários.

Estendido no chão, o idoso tinha
o sol dentro dos olhos. Ponderou:

 Estou com vida. Vou lavar meu terno,
Bolsos puídos, lábios poluídos.

O traiçoeiro me roubou. Esmolas?
Não sou mendigo. Trabalho
nas folgas de um amigo ascensorista.
Entrego as cartas, os jornais. Não quero
um alfinete que não seja
meu.

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Quase poética do meu próximo — Adelaide Petters Lessa, 2000, Escrituras Editora, São Paulo — SP; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, licenciada em Pedagogia e doutora em Ciências Humanas (ambas pela USP-SP), é educadora, psicóloga clínica, professora universitária, tradutora e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase (1995), Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus — o Sol da Meia-Noite e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo...

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Adelaide Petters Lessa: Raiva

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Por que me ensinam a enterrar sementes,
colher os frutos e dizer amém?

Por que não brotam minha mãe e o pai
da terra que escondeu os meus irmãos?

Eu sinto raiva de quem diz à toa
que suicídio é grande covardia:
Um bicho é morto, nunca ele se mata.
Aceita a morte, homem, ela é um bem.

Que bem? Que terra nunca me devolve
meu cão e meu cavalo, meus canários,
meu poço de água benta e a bem-amada?

Gritava de abandono! Um velho bonzo
gritou mais alto, com mais raiva ainda:

— Então se enterre e brote da campina
se for capaz de ser um bom feijão.

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Quase poética do meu próximo — Adelaide Petters Lessa, 2000, Escrituras Editora, São Paulo — SP; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, licenciada em Pedagogia e doutora em Ciências Humanas (ambas pela USP-SP), é educadora, psicóloga clínica, professora universitária, tradutora e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase (1995), Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus — o Sol da Meia-Noite e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo...

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Adelaide Petters Lessa: Akhmátova *

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A solitária, a linda, a íntegra, a digna
que aprendeu com a mãe a dizer versos
sobre as dores dos pobres e da pátria
               o sol se parecia ao chefe dos rebeldes
                 entrando numa aldeia
a poetisa forte, a que sabia
       não sou tão terrível que ingenuamente
        possa matar; nem tão ingênua
        que não saiba quanto a vida é terrível
viúva, um filho, lúcida-amorosa,
atravessou, magra e cardíaca,
três eras  do Czar, de Lênin e de Stálin 
       eu estava bem no meio de meu povo,
       Lá onde meu povo infelizmente estava,
                a Rússia inocente torcia-se de dor,
                a vela gotejava em frente ao ícone.

Viu traições de perto, suicídios,
exílios, liberais assassinados,
e tirania dos expurgos,
prisões, deportação, epidemia
de fome gigantesca, e de torturas.
Em casa, microfones delatores:
Sua compulsória transferência para o Sul
 Tashkent, Uzbequistão, sujeita aos
olhos de lince asiáticos.

Das guerras não fugiu, nunca emigrou
porque a poesia vinha de viver sua Rússia
com toda a compaixão de uma mulher.

Nem burguesa, nem proletária, Perseguida.
Simplicidade extrema. Tísica em penúria.
       O filho preso por ser filho de poeta.
       Digam por mim uma oração.

Ela amava Tolstoi, e Dostoievski, e Brodski.
               Não é amargo ficarmos sem um teto
               desde que te preservemos, língua russa,
                       grande verbo russo!

Clandestina poesia, mãe coragem,
que a tirania usou quando Mujestvo**
acrescentou fervor à luta anti-nazista.
Sua Petersburgo (Stalingrado) venceria
com seus versos frementes na memória
dos combatentes delirantes.

Amada por seu povo, Oxford a fez,
Em guerra fria, doutora honoris causa.

No quarto enfarte, desembaraçada
de seu famoso chale negro
                 livre de cativeiro
sobrepairou, Altiva Alma da Rússia,

que sempre há de lembrar
quem redigiu seus versos calcinados,
na fronte uma coroa
                       de espinhos em ferrugem.

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Notas da edição:
* Anna [Ana] Akhmátova (1889  1966)
** Mujestvo: coragem
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Quase poética do meu próximo — Adelaide Petters Lessa, 2000, Escrituras Editora, São Paulo — SP; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, licenciada em Pedagogia e doutora em Ciências Humanas (ambas pela USP-SP), é educadora, psicóloga clínica, professora universitária, tradutora e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase (1995), Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus — o Sol da Meia-Noite e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo...

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Adelaide Petters Lessa: Crente

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Cantava hinos luminosamente.
Gritante a formosura de seu rosto.
Cabelos longos, Bíblia aos domingos.

Beleza de seu corpo disfarçada
pelos babados fartos
do vestido engomado, rosa nívea.

       Queria um namorado, um servo do Senhor,
              candeia de Jeová.

              De iron horse o sedutor lançou
              convite à mais bonita na calçada.
Cantante, pia, acreditou
que iria, na garupa, conhecer
a mãe, o pai, a casa dele, a avó
após o culto de uma Páscoa santa.
Branco engomou o seu melhor vestido
de cassa rebordada.
Derrubada voltou, em lágrimas e suja,
mordida, violada, gaga, em soluços
de lírio praguejante:

                     — Siquém deflorador. Maldito.
                       Piolho das terras do Egito.
                       Profanador. Sacrílego. Maligno.
                       Debulha de satã. Plebeu das Trevas.
                       Agora sou Diná, contaminada...

Chamava pela espada
de seu irmão do Norte,
              tão distante de Hamor,
              pai de Siquém.

                                     (Gênese, 34)

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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Adelaide Petters Lessa: Narcisa

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Se houve traição não foi só dele
        que amava desfrutar várias amantes,
        ou simultâneas, ou em séries,
        desde que, apaixonadas, fossem elas.

Se apaixonado, perderia o mando.
        Jamais enlouquecido, ele gozava
        do gozo das mulheres temporárias,
        nunca poroso, nunca transvazante,

                      apenas entretido em salivar
                      um selo no postal às que jogava,
                      aos sórdidos cassinos, em soluços.

Narcisa, a última da agenda,
por quem ele daria o sangue e a vida,
essa o traiu, clone risonho
de sua irresponsável jogatina.

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Quase poética do meu próximo — Adelaide Petters Lessa, 2000, Escrituras Editora, São Paulo — SP; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, licenciada em Pedagogia e doutora em Ciências Humanas (ambas pela USP-SP), é educadora, psicóloga clínica, professora universitária, tradutora e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase (1995), Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus — o Sol da Meia-Noite e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo...

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Adelaide Petters Lessa: Doutoramento em Ciências Humanas

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“De hora em hora, Deus melhora.”
Rezava a bisavó, uma estrangeira.

“De hora em hora, Deus não gora.”
Geava em cafezal, de avó, já brasileira.

“De hora em hora, Deus me escora.”
Foi mãe de onze filhos, a engenheira.

“De hora em hora, Deus me assessora.”
Esta filha é juíza e mãe solteira.

“Em terra, mar e céu, Deus é o Agora.”
Pilota, a neta, um jato de carreira.

“De agora em agora, Deus se evapora”,
se eu não rezo, bisneta e curandeira.

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O Jogo do Êxtase — Deus em meu Verso, de Adelaide Petters Lessa, 1995, João Scortecci Editora, São Paulo — SP; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, licenciada em Pedagogia e doutora em Ciências Humanas (ambas pela USP-SP), é educadora, psicóloga clínica, professora universitária, tradutora e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase (1995), Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus — o Sol da Meia-Noite e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo...

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Adelaide Petters Lessa: Soror, Sorores

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Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa,
Cora Coralina, Adélia Prado,
Florbela Espanca, Anna Akhmátova,
Delmira Agustini, Alfonsina Storni,
Elizabeth Browning, Emily Dickinson,
Gabriela Mistral, Gertrude von le Fort,
e outras mulheres que rascunharam versos,
em papel de linho ou de arroz chinês,
em pele de cabra ou em papiro egípcio,

seus livros já ganham
editoração eletrônica,
composição gráfica de seus poemas
por computadores e raio laser.

Mas, entre meus dedos, seus livros são
de organdi suíço bordado de flores,
sáris tecidos de ouro e de pérolas,
arraiolos de paina e cristais de neve,
terrinas de aveia, glaçúcar e leite,

olhinhos argutos de serelepes,
ovinhos de rola, rosnar de raposas,
Marílias, Isoldas, Carmelos e Trapas,
auréola e fulgores de santas extáticas,
brocado de estigmas de Tereza Neumann,

lágrimas de Julieta, sêmen de Romeu,
papos-de-anjo e dores de Deus.

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O Jogo do Êxtase — Deus em meu Verso, de Adelaide Petters Lessa, 1995, João Scortecci Editora, São Paulo — SP; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, licenciada em Pedagogia e doutora em Ciências Humanas (ambas pela USP-SP), é educadora, psicóloga clínica, professora universitária, tradutora e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase (1995), Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus — o Sol da Meia-Noite; e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo...

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Adelaide Petters Lessa: Evolução

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Seremos de tal lirismo
que por descuido somente
voltaremos ao instinto
de comer grãos de pólen.

Tão luminosos seremos,
de tal pureza divina,
que em nós haverá tormento
se o néctar for ingerido
e mancharemos o amor
se houver escolha de sumo
e pesaremos o dobro
com os perfumes dos frutos.

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Coletânea de Poetas Paulistas — Seleção, Organização e Introdução de Enéas de Moura, 1951, Editora Minerva, Rio de Janeiro — RJ; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, é educadora, psicóloga clínica, doutora em Ciências Humanas pela USP, professora universitária e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase, Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus o Sol da Meia-Noite; e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo...