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terça-feira, 3 de março de 2015

Menotti Del Picchia: Poesia é Ouro

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Onde está a poesia?

Na imaginação do garimpeiro
ainda oculta na pepita lasca de luz na quina da pedra bruta.

Ouro é ouro
mineral na terra, puro. Fundido
não degradado no amálgama embora sofisticado
em molde e moda
no brinco barroco na cintilação do dente
no céu de esmalte de uma boca jovem
concha aberta num sorriso.

Poesia é ouro
carregada de história no cunho da moeda antiga
mística na âmbula, sagrada no romance
do anel nupcial amor alegria sofrimento vida.

Não importa forma ou fôrma não importa o lugar
não importa
se jovem é o ourives ou velho o garimpeiro.

O que vale é a incontaminada essência.

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Antologia de Poetas Brasileiros — Seleção e Coordenação de Mariazinha Congílio, Prefácio de José Fernando Tavares, 1a. edição, 2000, Universitária Editora Ltda., Lisboa — Portugal; Paulo Menotti Del Picchia (1892 1988), paulista e paulistano, poeta, jornalista, romancista, contista, ensaísta, teatrólogo e historiador, empenhou-se em polêmicas na defesa da Semana De Arte Moderna, embora com uma poesia com poucos sinais de vanguardismo; em período tardio lança O Deus sem rosto (1968) onde estão contidos os mais modernistas de seus poemas; estreou na literatura com Poemas do Vício e da Virtude (1913), depois escreveu Juca Mulato (1917), Chuva de Pedra (1924), República dos Estados Unidos do Brasil (1928), Jesus (1933), Noturno (1970), entre tantos outros títulos; trabalhou nos jornais A Tribuna (de Santos), A Gazeta, Correio Paulistano, Diário de São Paulo e Diário da Noite; fundou a revista Papel e Tinta (com Oswald de Andrade) e o jornal Anhanguera (orgão informativo do movimento Bandeira, criado junto com Cassiano Ricardo e Cândido Mota Filho).

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Paulo Vanzolini: Valsa das Três da Manhã

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Eu não bebo para esquecer,
bebo para lembrar.
Eu bebo e cambaleio e tenho você ao meu lado
é o meu instante de felicidade.
Vou andando na neblina das ruas
conversando com você
cantigas da perdida felicidade.
Seu perfume se mistura
ao cheiro bom da madrugada.
sua mão nem pesa no meu braço
mas seu contacto é doce, doce
e o rumor do seu passo
é música, é música pura.

               Só não vejo você.
               Mas não faz mal.
               Sei que você está ao meu lado
               isso me basta
               e vou andando na neblina, feliz,
               até cair.




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Antologia de Poetas Brasileiros — Seleção e Coordenação de Mariazinha Congílio, Prefácio de José Fernando Tavares, 1a. edição, 2000, Universitária Editora Ltda., Lisboa — Portugal; Paulo Emílio Vanzolini (1924 2013), paulista e paulistano, um dos idealizadores da FAPESP Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e ativo colaborador do Museu de Zoologia da USP Universidade de São Paulo, foi zoólogo e compositor brasileiro; Vanzolini foi o autor de canções (Ronda, Volta por Cima, Boca da Noite, ...) que, entre as décadas de 50 e 60, se tornaram famosas e o fez famoso e conhecido, pelas vozes de cantores e cantoras da boemia paulistana (Noite Ilustrada, Luís Carlos Paraná, Maísa, ...); em discografia, deixou-nos Onze Sambas e uma Capoeira (vários intérpretes, 1967), A Música de Paulo Vanzolini (1974), Por Ele Mesmo (1981), Acerto de Contas (2003); escreveu e publicou Lira de Paulo Vanzolini (1967), Tempos de Cabo (com ilustrações de Aldemir Martins, 1981), An annotated bibliography of the land and fresh-water reptiles of South América: 1758 1975 (dois volumes, 1977 e 1978); recebeu premiações por suas atividades artísticas (APCA Associação Paulista de Críticos de Arte, 2013) e como cientista (Fundação Guggenheim, Nova Iorque, 2008).

domingo, 18 de janeiro de 2015

Menotti Del Picchia: Os Mortos

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É inútil que cubram de terra os corpos.

Eles saem do chão 
não como fantasmas
mas vivos.

Sentam-se às nossas mesas
comem soturnos nossa sopa misturada com lágrimas.

Sabemos que não são imortais
e que essa sobrevivência tem prazo.

Um dia, porém

quando?

(dessa data nem nos damos conta)

evaporam-se...

Somos nós que matamos nossos mortos
e os enterramos em nós mesmos.

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Antologia de Poetas Brasileiros — Seleção e Coordenação de Mariazinha Congílio, Prefácio de José Fernando Tavares, 1a. edição, 2000, Universitária Editora Ltda., Lisboa — Portugal; Paulo Menotti Del Picchia (1892 1988), paulista e paulistano, poeta, jornalista, romancista, contista, ensaísta, teatrólogo e historiador, empenhou-se em polêmicas na defesa da Semana De Arte Moderna, embora com uma poesia com poucos sinais de vanguardismo; em período tardio lança O Deus sem rosto (1968) onde estão contidos os mais modernistas de seus poemas; estreou na literatura com Poemas do Vício e da Virtude (1913), depois escreveu Juca Mulato (1917), Chuva de Pedra (1924), República dos Estados Unidos do Brasil (1928), Jesus (1933), Noturno (1970), entre tantos outros títulos; trabalhou nos jornais A Tribuna (de Santos), A Gazeta, Correio Paulistano, Diário de São Paulo e Diário da Noite; fundou a revista Papel e Tinta (com Oswald de Andrade) e o jornal Anhanguera (órgão informativo do movimento Bandeira, criado junto com Cassiano Ricardo e Cândido Mota Filho).

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Lêdo Ivo: Segunda Lição

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Ivo viu o pão
atrás do balcão.

Viu a liberdade
entre o céu e as grades.

Ivo viu o amor
na concha: negror

Ivo viu a fome
na barriga do homem.

E a carne, esperança,
pesar-se em balança.

Ivo viu a usura
na oferta e procura.

Viu depois a rosa
cercada de espinhos.

E uma vez passando
perto de um moinho

Ivo viu um homem
parado sozinho

com seu cheiro antigo
de centeio e trigo

com cheiro de pão
antes do balcão.

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Antologia de Poetas Brasileiros — Seleção e Coordenação de Mariazinha Congílio, Prefácio de José Fernando Tavares, 1a. edição, 2000, Universitária Editora Ltda., Lisboa — Portugal; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; produção literária: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Gilberto Mendonça Teles: A Falta

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Onde começa, onde termina a forma
do silêncio mais puro e fabuloso,
ausência primitiva e provisória
no cenário mais íntimo das coisas?

E onde a língua infalível, a que exibe
seu ermo de rascunho e desafogo,
deixando apenas um sinal de elipse,
o balbucio de um desejo rouco?

Por ele nem sou pouco nem sou muito,
nem clamo, nem recuso, nem ignoro
que algo fascina e dói, imperativo,

e vai repercutindo, bem no fundo,
o eco longínquo, o gaguejar remoto
da voz de um índio que ficou sem tribo.

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Antologia de Poetas Brasileiros — Seleção e Coordenação de Mariazinha Congílio, Prefácio de José Fernando Tavares, 1a. edição, 2000, Universitária Editora Ltda., Lisboa — Portugal; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesia, Alvorada (1955), Estrela-d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Amar (1977), Saciologia Goiana (1982), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária e também reconhecido fora do país, tem livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.