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segunda-feira, 4 de abril de 2022

José Carlos Limeira: Diariamente

 
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A mim me basta o espelho
a calça azul
o papel, o lápis
e essa coragem
de sair todos os dias de manhã
encontrar as mesmas pessoas
os mesmos sobressaltos
o relógio de ponto
o telefone
os documentos.

A mim basta
essa coragem teimosa
de engolir teimosia
de engolir o café das nove de fumar o quinto cigarro
com a mesma determinação
de destruir
o que resta dos pulmões.

Me basta mesmo essa coragem quase suicida
de erguer a cabeça
e ser um negro
vinte e quatro horas por dia.

Quilombo de palavras: a literatura
dos afrodescendentes — 2000

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; José Carlos Limeira Marinho Santos (1951 2016), baiano de Salvador, formou-se em Engenharia Mecânica pela Universidade de Santa Úrsula Rio de Janeiro e em Letras pela Universidade Católica de Salvador BA, reconhecido mais por seu trabalho no campo das letras e como militante do Movimento Negro, foi poeta e escritor; obras: em poesia, Zumbi... dos (1971), Lembranças (1971), O arco-íris negro (com Éle Semog, 1978), Atabaques (com Éle Semog, 1983), Black intentions / Negras Intenções (edição bilíngue, 2003) e Encantadas (2015); participou dos Cadernos negros desde o início dos anos 80, teve ensaios e outros textos em verso e prosa divulgados em revistas e livros, inclusive com edições traduzidas para as línguas alemã e inglesa; foi fundador do Afro Axé Terê Babá, primeiro bloco Afro Cultural do Rio de Janeiro RJ, e do GENS Grupo de Escritores Negros de Salvador BA.

domingo, 6 de março de 2022

José Carlos Limeira: Detalhe relevante

 
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Tinha um ar correto,
Uma postura coerente,
Combinava o terno e a gravata
Aspectos exteriores.

Revistaram-lhe a face,
Currículo geral,
Vida, fatos,
Quando repentinamente
Por descuido próprio,
Deixou que lhe percebessem
Um lado da mente.

Foi preterido.
Imperfeito por dentro,
Positivamente, concluíram depois,
ele não tinha alma branca.

Quilombo de palavras: a literatura
dos afrodescendentes — 2000

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; José Carlos Limeira Marinho Santos (1951 2016), baiano de Salvador, formou-se em Engenharia Mecânica pela Universidade de Santa Úrsula Rio de Janeiro e em Letras pela Universidade Católica de Salvador BA, reconhecido mais por seu trabalho no campo das letras e como militante do Movimento Negro, foi poeta e escritor; obras: em poesia, Zumbi... dos (1971), Lembranças (1971), O arco-íris negro (com Éle Semog, 1978), Atabaques (com Éle Semog, 1983), Black intentions / Negras Intenções (edição bilíngue, 2003) e Encantadas (2015); participou dos Cadernos negros desde o início dos anos 80, teve ensaios e outros textos em verso e prosa divulgados em revistas e livros, inclusive com edições traduzidas para as línguas alemã e inglesa; foi fundador do Afro Axé Terê Babá, primeiro bloco Afro Cultural do Rio de Janeiro RJ, e do GENS Grupo de Escritores Negros de Salvador BA.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

José Carlos Limeira: Mais um negro

 
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Sou um negro,
mais um,
destes que não aceitam,
como adjetivo a alma branca.

Sou um negro,
mais um,
consciente da nossa história,
que não se ilude com os heróis
que me forçam a aceitar.

Sou um negro,
mais um,
destes que não usariam henê no cabelo,
por não querer cabelos lisos.

Sou um negro,
mais um,
meio louco,
meio torto
esperando muitos outros
para engrossar o cordão,
e horrorizar de espanto,
este engodo imbecil,
a tal convencionada,
Democracia Racial.

Atabaques — 1983

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; José Carlos Limeira Marinho Santos (1951 2016), baiano de Salvador, formou-se em Engenharia Mecânica pela Universidade de Santa Úrsula Rio de Janeiro e em Letras pela Universidade Católica de Salvador BA, reconhecido mais por seu trabalho no campo das letras e como militante do Movimento Negro, foi poeta e escritor; obras: em poesia, Zumbi... dos (1971), Lembranças (1971), O arco-íris negro (com Éle Semog, 1978), Atabaques (com Éle Semog, 1983), Black intentions / Negras Intenções (edição bilíngue, 2003) e Encantadas (2015); participou dos Cadernos negros desde o início dos anos 80, teve ensaios e outros textos em verso e prosa divulgados em revistas e livros, inclusive com edições traduzidas para as línguas alemã e inglesa; foi fundador do Afro Axé Terê Babá, primeiro bloco Afro Cultural do Rio de Janeiro RJ, e do GENS Grupo de Escritores Negros de Salvador BA.

domingo, 14 de setembro de 2014

José Carlos Limeira: Identidade

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Houve um tempo em que
constava de sua carteira
o dado cor
na minha: pardaescuracabeloscarapinhados.

Diante do espelho, me pergunto
que faço com estes lábios grossos,
este nariz achatado?
Que faço com esta memória
de tantos grilhões,
destas crenças me lambendo as entranhas?

Será que não é demais não ter o direito
de ser negro?
Causa espanto?
Pardaescura é o aspecto que vocês deram
à nossa história.

Morra de susto!
Sou, vou sempre ser: NEGRO!
ENE, É, GÊ, ÉRRE, Ó
Aqui Ó!
(Atabaques — 1983)

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; José Carlos Limeira Marinho Santos, nascido em 1951, baiano de Salvador, formado em Engenharia Mecânica, é reconhecido mais por seu trabalho no campo das letras e como militante do Movimento Negro; escreveu e publicou Zumbi... dos (1971), Lembranças (1971), O arco-íris negro (com Éle Semog, 1978), Atabaques (com Éle Semog, 1983), Negras Intenções (2003); participante dos Cadernos Negros desde o início dos anos 80, teve ensaios e outros textos em verso e prosa divulgados em revistas e livros, inclusive com edições traduzidas para as línguas alemã e inglesa.