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terça-feira, 19 de setembro de 2023

Robert Browning: Lembranças longe da pátria

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[traduzido por José Lino Grünewald]

Ó, estar na Inglaterra
Agora que abril é lá.
E qualquer um que acorde na Inglaterra
Distraído, certa manhã verá
Que os ramos baixos, feixes de silvado,
No tronco do olmo são sutis folhados,
Enquanto o pardal canta no pomar
Agora na Inglaterra; estar!

E depois de abril, quando maio vinha
E obram os pássaros, as andorinhas
Ouça! em sebe meu pé de pereira em flor, lá
Inclina-se no campo e semeia nos trevos
Pólen, pingos de orvalho na úmida orla
O sábio tordo canta em dois enlevos,
Porque há de retomar, para surpresa,
A primeira indefesa bela presa!
Se os campos, tristes, no alvo rociar,
Tudo alegre ao meio-dia em despertar.
Ranúnculos, mais brilho, nos dons das crianças
Que esta flor de melão sem mais pujança.

Robert Browning

Home Thoughts, From Abroad

Oh, to be in England
Now that April's there,
And whoever wakes in England
Sees, some morning, unaware,
That the lowest boughs and the brush-wood sheaf
Round the elm-tree bole are in tiny leaf,
While the chaffinch sings on the orchard bough
In England now!

And after April, when May follows,
And the whitethroat builds, and all the swallows!
Hark, where my blossomed pear-tree in the hedge
Leans to the field and scatters on the clover
Blossoms and dewdrops at the bent spray's edge
That's the wise thrush; he sings each song twice over,
Lest you should think he never could recapture
The first fine careless rapture!
And though the fields look rough with hoary dew,
All will be gay when noontide wakes anew
The buttercups, the little children's dower.
Far brighter than this gaudy melon-flower!
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Robert Browning (1812 1889), inglês nascido em Londres, teve grande parte de sua educação obtida em casa com seu pai e foi poeta e dramaturgo; suas obras: Pauline: A Fragment of a Confession (poesia, 1833), Paracelsus (drama metafísico, poesia, 1835), Strafford (teatro, 1837), Sordello (poema, 1840), Bells and Pomegranates (teatro, séries de I a VIII, 18411846), Kong Victor and King Charles (tragédia, 1842), Men and Women (coletânea de poesias, 1855), Dramatics Personae (1864), The Ring and The Book (romance em versos, 18681869) e outros títulos; consta da biografia de Robert Browning que seu poema The Pied Piper of Hamelin, no qual relata/reconta a história infantil de O Flautista de Hamelin, adquiriu grande repercussão naquela época vitoriana e se tornou sua principal contribuição para o cânone da literatura infantil.

segunda-feira, 7 de março de 2022

Robert Browning: Encontro à noite

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

O mar cinzento, a longa terra escura,
Baixa, ampla, meia-lua amarelada,
E as ondas em alarme a se impelir
Em ígneos aros vindos ao dormir;
Com proa em riste chego à enseada,
E afogo a rapidez na areia impura.

Milha de praia quente, odor de mar;
Três campos a cruzar, até o recanto;
Um bater na vidraça, o lesto riscado
E jato azul de um fósforo inflamado;
Voz menos alta, em seu temor e encanto,
Então dois corações: soar soar.

Robert Browning

Meeting at night

The grey sea and the long black land;
And the yellow half-moon large and low;
And the startled little waves that leap
In fiery ringlets from their sleep,
As I gain the cove with pushing prow,
And quench its speed i' the slushy sand.

Then a mile of warm sea-scented beach;
Three fields to cross till a farm appears;
A tap at the pane, the quick sharp scratch
And blue spurt of a lighted match,
And a voice less loud, through its joys and fears,
Than the two hearts beating each to each!
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Robert Browning (1812 1889), inglês nascido em Londres, teve grande parte de sua educação obtida em casa com seu pai e foi poeta e dramaturgo; obras: Pauline: A Fragment of a Confession (poesia, 1833), Paracelsus (drama metafísico, poesia, 1835), Strafford (teatro, 1837), Sordello (poema, 1840), Bells and Pomegranates (teatro, séries de I a VIII, 18411846), Kong Victor and King Charles (tragédia, 1842), Men and Women (coletânea de poesias, 1855), Dramatics Personae (1864), The Ring and The Book (romance em versos, 18681869) e outros títulos; consta da biografia de Robert Browning que seu poema The Pied Piper of Hamelin, no qual relata/reconta a história infantil de O Flautista de Hamelin, adquiriu grande repercussão naquela época vitoriana e se tornou sua principal contribuição para o cânone da literatura infantil.

sábado, 21 de agosto de 2021

Robert Browning: Minha última duquesa

 
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[traduzido por Décio Pignatari]

Ali está a minha última duquesa
Na parede. Parece viva. Que beleza
De obra! Fra Pandolfo não poupou esforço
E ei-la de corpo inteiro, não em busto ou torso.
Você não quer sentar-se para ver melhor?
Não por acaso mencionei o seu pintor,
Pois não costumo a estranhos olhos desvelar
A profundeza da paixão que há nesse olhar,
Que só a mim é dirigido (pois só eu
Abro a cortina), mas eu sinto, percebeu?,
Que quem a vê logo se indaga: de onde veio
Esse olhar? Com você, meu caro, não receio,
É a mesma coisa. Pois eu digo: simplesmente,
A presença do esposo é pouco para a mente
Que procura a razão daquela mancha rosa
De prazer no seu rosto. Uma frase ociosa,
Talvez, de Fra Pandolfo. “Eu acho que o seu manto
Cobre demais o pulso”, ou: “Não pode tanto
A arte, não, reproduzir não pode o leve
Rubor em sua garganta, a ir e vir tão breve”.
Galanteria cortês, não mais  o suficiente
Para fazer brilhar um rosto, de repente.
Tinha um jeito, a duquesa, um coração aberto
Ao gostar… ao olhar… Contentamento certo,
O dela; incerto, o meu… Ela não distinguia
Entre gozar das graças que eu lhe concedia,
O declínio da luz ao sol poente, o ramo
De cerejas que um bobo serviçal do amo
Lhe oferecia, a mula branca que montava
Pela terraça, a rir  a tudo ela igualava
Com uma boa palavra, ou um rubor, ao menos.
Que agradecesse, tudo bem  mas é somenos
Equiparar o dom dos novecentos anos
Do meu nome a presentes sem nome? Até planos
De dissuadi-la… Rebaixar-me a isso… O dom
Da palavra me falta… E como, alto e bom som,
Chegar a ela, assim: “Olhe, sua atitude
Me desagrada, passou do ponto, mude”?
Que aceitasse o sermão e até mostrasse medo,
Isto, pra mim, seria ceder, e eu nunca cedo.
Claro, meu caro, de passagem, um sorriso
Ela me dava  mas a quem não dava? Aviso
Não dei, dei ordens: os sorrisos, de imediato,
Murcharam. Mas já pode levantar-se… É fato…
Nesse retrato, agora, ela parece viva…
Podemos ir? Embaixo, a companhia festiva
Nos aguarda. Repito: a generosidade
Do conde, seu senhor, sem dúvida há de
Saber pesar a minha justa pretensão
Ao dote da menina, a cujas graças vão
Os meus melhores sentimentos. De passagem,
Olhe essa peça de escassíssima tiragem:
É um bronze de Netuno domando um delfim,
Que Claus de Innsbruck fez fundir só para mim.

Robert Browning

My last duchess

[Ferrara]

That’s my last Duchess painted on the wall,
Looking as if she were alive. I call
That piece a wonder, now: Fra Pandolf’s hands
Worked busily a day, and there she stands.
Will’t please you sit and look at her? I said
“Fra Pandolf” by design, for never read
Strangers like you that pictured countenance,
The depth and passion of its earnest glance,
But to myself they turned (since none puts by
The curtain I have drawn for you, but I)
And seemed as they would ask me, if they durst,
How such a glance came there; so, not the first
Are you to turn and ask thus. Sir, ’twas not
Her husband’s presence only, called that spot
Of joy into the Duchess’ cheek: perhaps
Fra Pandolf chanced to say “Her mantle laps
Over my lady’s wrist too much,” or “Paint
Must never hope to reproduce the faint
Half-flush that dies along her throat”: such stuff
Was courtesy, she thought, and cause enough
For calling up that spot of joy. She had
A heart how shall I say? too soon made glad,
Too easily impressed; she liked whate’er
She looked on, and her looks went everywhere.
Sir, ’twas all one! My favour at her breast,
The dropping of the daylight in the West,
The bough of cherries some officious fool
Broke in the orchard for her, the white mule
She rode with round the terrace all and each
Would draw from her alike the approving speech,
Or blush, at least. She thanked men, good! but thanked
Somehow I know not how as if she ranked
My gift of a nine-hundred-years-old name
With anybody’s gift. Who’d stoop to blame
This sort of trifling? Even had you skill
In speech (which I have not) to make your will
Quite clear to such an one, and say, “Just this
Or that in you disgusts me; here you miss,
Or there exceed the mark” and if she let
Herself be lessoned so, nor plainly set
Her wits to yours, forsooth, and made excuse,
E’en then would be some stooping; and I choose
Never to stoop. Oh sir, she smiled, no doubt,
Whene’er I passed her; but who passed without
Much the same smile? This grew; I gave commands;
Then all smiles stopped together. There she stands
As if alive. Will’t please you rise? We’ll meet
The company below, then. I repeat,
The Count your master’s known munificence
Is ample warrant that no just pretence
Of mine for dowry will be disallowed;
Though his fair daughter’s self, as I avowed
At starting, is my object. Nay, we’ll go
Together down, sir. Notice Neptune, though,
Taming a sea-horse, thought a rarity,
Which Claus of Innsbruck cast in bronze for me!
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31 Poetas 214 Poemas — do Rig-Veda e Safo a Apollinaire: Antologia de poemas traduzidos, Seleção, Apresentação, Notas e Comentários de Décio Pignatari, 1996 — Companhia das Letras, São Paulo — SP; Robert Browning (1812 1889), inglês nascido em Londres, teve grande parte de sua educação obtida em casa com seu pai e foi poeta e dramaturgo; obras: Pauline: A Fragment of a Confession (poesia, 1833), Paracelsus (drama metafísico, poesia, 1835), Strafford (teatro, 1837), Sordello (poema, 1840), Bells and Pomegranates (teatro, séries de I a VIII, 18411846), Kong Victor and King Charles (tragédia, 1842), Men and Women (coletânea de poesias, 1855), Dramatics Personae (1864), The Ring and The Book (romance em versos, 18681869) e outros títulos; consta da biografia de Robert Browning que seu poema The Pied Piper of Hamelin, no qual relata/reconta a história infantil de O Flautista de Hamelin, adquiriu grande repercussão naquela época vitoriana e se tornou sua principal contribuição para o cânone da literatura infantil.