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quarta-feira, 1 de março de 2023

Waldemar Lopes: Soneto das almas vazias

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XXIX

As almas maduravam na surpresa
de viver; e era nítida, na face
e no âmago das coisas, a beleza
imaginada. Embora perdurasse,

em meio à cinza fria, a chama acesa
para a noite do espírito, fugace
foi o pacto do sim contra a dureza
e o anátema do não. Estranho enlace

de esperança e memória! (A duras penas
a mão do tempo, no íntimo do ser,
urde a trama no trânsito dos dias.)

E a perfeição do sonho? Sobra apenas
a vazia surpresa de viver
nas almas maduradas, mas vazias.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Waldemar Lopes: Soneto da abstração

 
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XXVI

Vem da infância ou da tarde o som errante
das cítaras caladas? Verde flauta
nos laranjais doirados, onde a incauta
alegria, em teu sopro soluçante?

No céu imaginário um anjo ou nauta
em roteiros de nuvens navegante
repõe a solidão no véu do instante,
halo de azul magia. Mas, na pauta

do límpido silêncio, o sopro e o voo
restauram a visão do sonho antigo, o
timbre das vozes mortas. Estrangeiro,

um céu de pedra capta esse ressoo
do rio das memórias, uno e ambíguo,
de si mesmo prisão e prisioneiro.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; suas obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

sábado, 30 de julho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto das raízes

 
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XX

De múltiplas imagens se estrutura
essa efígie inconclusa. Aço de medos,
a alquimia do sonho, o ar de aventura,
tons de espanto nos íntimos degredos

em reinos de lembrança; ou a textura
das fibras ancestrais, os arremedos
do que é flama na cinza da moldura:
águas/séculos idos entre os dedos

nos silêncios rurais desentranhando
testemunhos do tempo, luz secreta
ora rememorada, ora vivida;

e os pousos de renúncia mesmo quando
do infinito do ser partia a seta
nas chamas das raízes incendida.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; suas obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto da insônia

 
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XXI

Na emanação da noite o leve peso
das sombras ancestrais. Vozes tardias
em vago marulhar, talvez desprezo
às turvas ambições, seiva dos dias.

E sobre o ser profundo, vivo-aceso,
o lume das vigílias. (Nas sombrias
urnas do tempo há de ficar defeso
o enigma das mortais mitologias

imunes à esperança.) Agora é essa
onipresença onírica, ou apenas
a ácida indiferença à vã promessa:

em seu ambíguo reino indefinido
a consciência noturna sofre as penas
da vida, o rude esforço sem sentido.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto da meditação

 
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XXIV

A essência decifrada: ao gesto lento
ante o frio cristal, dói a madura
angústia do contido sentimento,
sopro do tempo em meio à selva escura.

No sortilégio dúplice a insegura
luz das certezas, ou pressentimento
da límpida presença, chama pura
na face primitiva. O pensamento

mais ido que vivido; e este cansaço
 sombra de asa no limo dos escombros
ou limite mortal ao sonho e ao passo ;

mais o impulso da herança impressentida:
sobre o cego cristal, fonte de assombros,
joga-se o coração, um deus suicida.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto do olvido

 
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XXII

Ante a nave do tempo as misteriosas
ilhas de solidão. Sombra hesitante
em obscura sondagem: mortas rosas
junto aos deuses imêmores. Adiante,

os presságios do olvido, as enganosas
senhas de lenda para o sonho andante,
posto restaure o canto, ainda piedosas,
as dádivas do acaso, em seu instante

fugaz, sopro e semente de poesia;
ressoe no escuro bojo a hora reversa
da aventura perdida; e a nostalgia

colha na asa da noite a sombra leve:
a luz dura da vida jaz submersa
entre a flor desflorida e a estrela breve.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto do exílio

 
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XXIII

Mais além, leve e alada, a imaginária
arquitetura irreal, sombra a crescer
sobre a terra dos mortos, solitária.
Na falsa noite não deixou de ser

ouvida a melodia perdulária.
Se acaso o húmus da vida fez nascer
luz esquiva na angústia milenária,
é chegado o momento de esquecer

as obscuras heranças desvividas
por desamor e amor: frágil reinado
em manhãs de magia, pressentidas

além de tempo e espaço. (E, roto o manto,
na torre enoitecida um exilado
rei de si mesmo. Que lhe resta? O canto.)

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Waldemar Lopes: Soneto da áspera jornada

 

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XXVII

Sob o signo impreciso a meta e as rotas
da mísera aventura. Indecifrada
na superfície neutra a encruzilhada
além do mais-além. Céus de derrotas

na senha das estrelas. Rumo ao nada
sobre o mar das auroras naus remotas
resgatam para o canto as frágeis quotas
da secreta emoção, voz exilada.

Nu, o olhar; os pés cegos ante a fábula,
face e acaso de tudo. O homem não vence o
efêmero das coisas, a parábola

da luz do tempo ao sonho das criaturas.
(No pânico torpor, nós de silêncio
vão recompondo as íntimas roturas.)

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

terça-feira, 3 de maio de 2022

Waldemar Lopes: Soneto do fim

 
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XXX

Não a rosa na pedra. Só a austera
desesperança; e, nela, a inexaurida
visão do que em si mesmo dilacera
o tênue fio que une à morte a vida.

Não o lume no mármore. Ainda a espera
entre o ser e o não-ser, indefinida
antemanhã de oculta primavera
à luz do tempo: seiva, sol, medida

para as searas do verbo; e a ressonância
de secreto clamor, voz encantada
dos sonhos imaturos, dor da infância.

Nem a flor, nem a chama. Só importe
no íntimo da palavra descarnada
o frêmito da vida (também morte).

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Waldemar Lopes: Vida e sonho, inconsúteis. Mas o canto, . . . [soneto da vida e do sonho]

Vida e sonho, inconsúteis. Mas o canto,
esse, sobre dois polos bipartido,
um de auroras banhado, outro perdido
já nas sombras da tarde, e em seu encanto.

Enfim, tudo é memória: o só vivido
ou o apenas sonhado; mas enquanto
amor e solidão ou tédio e espanto
no remate dos tempos terão sido

legados transitórios, redivivo
o canto eternefêmero chorado
de novo é sentimento, no futuro;

e mostra, além da morte, este cativo
exercício da vida compensado
na prática do sonho, o vício puro.

Resultado de imagem para Waldemar Lopes Sonetos do Tempo Perdido Editorial Palmares
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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911  2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; sua obra literária: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Waldemar Lopes: O tempo de calar está maduro. [soneto da contradição]

O tempo de calar está maduro.
Sobre a trama incompleta dos minutos
o óleo do tédio escorre espesso e escuro
na emanação secreta de outros lutos.

Morte? Não é. A flor arde no muro,
dádiva subsolar. E, resolutos,
passos passados soam no futuro.
A vida flui-reflui em seus astutos

engodos de ir e vir, mas duplicados
na alma dúplice e vária, posto que ágil
entre as sombras dos túmulos caiados;

e a música das horas silenciosas
reaviva no tempo o encanto frágil
do amor, das madrugadas e das rosas.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; sua obra literária: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal  (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Waldemar Lopes: O labirinto e a esfinge. O resto é o laço . . . [soneto do desencontro]

O labirinto e a esfinge. O resto é o laço
das surpresas, a ambígua segurança,
ou o lento volver, a cada passo,
às raízes perdidas da esperança.

Encontro ou desencontro, esse embaraço
dos seres, na aparente semelhança,
ante a mesma visão do alfange de aço,
sol do amanhã na paz da noite mansa.

Em giros de memória, a sombra vaga
e a imprecisão do acaso: agora e ausente,
começo de chegar e despedida.

(Dom de amor, dor de amar funda e pressaga!
de que vale seu êxtase pungente
se antes nos lembra a morte do que a vida?)

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro  RJ; Waldemar Freire Lopes (1911  2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife),  n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; sua obra literária: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Waldemar Lopes: São clamores? são gritos? são gemidos? . . . [soneto dos bois na madrugada]

São clamores? são gritos? são gemidos?
Entre a música líquida, nos ares,
a lâmina de angústia dos mugidos
fere os nervos da noite. ... Os passos pares.

Verdores de vergéis. A brisa. Os idos
acalantos de aboio. E sóis de luares.
Velhos pastos do tempo, remoídos
nas doçuras rurais, e em seus vagares.

Era a vida? Floriu, dor libertada.
Rubra rosa na relva, eis a recente
memoração da morte: céu de engano

refletido no sangue da alvorada,
sob o triste clamor puro e pungente
desse pranto animal  e mais que humano.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro  RJ; Waldemar Freire Lopes (1911  2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife),  n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; sua obra literária: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

domingo, 10 de julho de 2016

Waldemar Lopes *: soneto nº 18 [Um homem e a sua solidão. Nua . . .]

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Um homem e a sua solidão. Nua,
a escura angústia. E o vário sonho e o intento 
puro logo tempo, flor de lua,
imagem de seu próprio alumbramento.

Lento, o frio do tédio se insinua
como no amor a morte: lento e lento.
(Sombra que pela sombra continua,
quem o sonho, no fim? O esquecimento)

Ânsia do eterno: ó Deus! Ó nada! Claro
enigma de existir: em sim e não
o dilema do ser, fosso e anteparo.

Semente a apodrecer em céu e chão,
ou hóspede do tempo, em mundo avaro,
quem vive? O homem e a sua solidão.

Sonetos do Tempo Perdido



* No Prefácio da 1ª. edição desta Antologia, o poeta Vinícius de Moraes escreveu a propósito dos bissextos: “... poetas que nós, seus íntimos, chamamos cordialmente de bissextos — poetas sem livros de versos — bissextos pela escassez de sua produção, cuja excelência sem embargo os coloca ao lado dos mais citados”.
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta bissexto e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; sua obra literária: Legenda (1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.