terça-feira, 30 de agosto de 2016

Rubens Rodrigues Torres Filho: história do poeta apaixonado

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Era uma vez um poeta
muito fraco e muito triste
mas difícil de atingir

Vai um dia sem querer
 um poeta é quase um homem 
sentiu uma coisa nova

Que coisa nova tão nova!
É isso que chamam de amor?
Que coisa nova uma ova?

Bravo poeta! ingênuo poeta!

Todo-mundo já sentiu
Todo-mundo já cantou
E ainda assim ela está nova

Foi então que sem pensar
com a sensação tão fluida
o semipoeta se fez poeta.

Caminhou esparsos passos
Empreendeu compactos pactos
Anotou diversos versos

Bravo poeta! calmo poeta!

Sentiu-a música e imagem
Sentiu-a fluida e sonora
Sentiu quase uma coragem

A minha amada tem olhos
A minha amada tem braços
A minha amada é um amor!

A amada é foco da vida
A amada é vida é folhagem
A amada é sono e calor.

Pobre poeta! triste poeta!

A amada disse: — Poeta,
vá embora. Eu te quero muito
mas eu não te posso amar.

A amada não quer o poeta
a amada despede o poeta
Manda o poeta passear

Triste poeta! infeliz poeta!

Mas um dia lendo um verso
que o poeta havia escrito
comovente sem querer

a amada lendo seu verso
Teve uma ternura súbita
Por sua frase tão frágil

Veja poeta, como é belo
Amam tua arte, teu verso
Que te importa amar você?

Grande poeta! Artista poeta!
A tua amada te lê.

(1959)

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Novolume — Rubens Rodrigues Torres Filho (5 livros de poesias, poemas novos, inéditos, avulsos e traduções), Apresentação de Fernando Paixão, 1997, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH  Universidade São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº. 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), entre outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

domingo, 28 de agosto de 2016

Baudelaire: As promessas de um rosto

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[traduzido por José Paulo Paes]

Amo, ó pálida beleza, os teus cenhos curvados
       Que dão às trevas todo o império;
Teus olhos, embora negros, me inspiram cuidados
       Que não têm nada de funéreos.

Teus olhos, que imitam a negrura dos cabelos
       Da tua longa crina elástica,
Teus olhos langues me dizem: “Amante, se o apelo
       Queres seguir da musa plástica

Que infundimos no teu ser, ou tudo que contigo
       Em matéria de gosto trazes,
Poderás ver, desde as nádegas até o umbigo,
       Que nós te fomos bem verazes;

Encontrarás, sobre dois belos seios pontudos,
       Dois grandes medalhões de bronze,
E sob o ventre liso, macio como veludo,
       Amorenado como bronze,

Um rico tosão que á tua enorme cabeleira
       Copia no negrume e na espessura;
De tão sedoso e encrespado, ele te iguala inteira,
       Noite sem astros, Noite escura!”

Baudelaire

Les promesses d’um visage

J'aime, ô pâle beauté, tes sourcils surbaissés,
D'où semblent couler des ténèbres;
Tes yeux, quoique três-noirs, m'inspirent des pensers
Qui ne sont pas du tout funèbres.

Tes yeux, qui sont d'accord avec tes noirs cheveux,
Avec ta crinière élastique,
Tes yeux, languissamment, me disent : " Si tu veux,
Amant de la muse plastique,

Suivre l'espoir qu'en toi nous avons excité,
Et tous les goûts que tu professes,
Tu pourras constater notre véracité
Depuis le nombril jusqu'aux fesses;

Tu trouveras, au bout de deux beaux seins bien lourds,
Deux larges médailles de bronze,
Et sous un ventre uni, doux comme du velours,
Bistré comme la peau d'un bonze,

Une riche toison qui, vraiment, est la soeur
De cette énorme chevelure,
Souple et frisée, et qui t'égale en épaisseur,
Nuit sans étoiles, Nuit obscure!"
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Poesia Erótica (vários autores) — Seleção, Introdução, Tradução e Notas de José Paulo Paes, 2006, 1ª  edição, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Charles-Pierre Baudelaire (1821  1867), nascido em Paris França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

sábado, 27 de agosto de 2016

Emiliana Delminda: Ontem e hoje

Resultado de imagem para coletânea de poetas paulistas Editora minerva enéas de moura
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Nos tempos que vão longe  amor era um segredo,
um sonho, que agitava o coração da gente:
Um aperto de mão furtivo, quase a medo,
um tímido sorriso, um olhar... simplesmente.

Hoje é bem outro o amor  um frívolo brinquedo,
uma febre exterior, que o coração não sente.
Não encerra o dulçor de afeto puro e ledo,
não traduz a emoção do amor de antigamente.

No amor já não existe o áureo pomo vedado
do paraíso ideal, tanto mais desejado
quanto mais proibido. É uma coisa banal...

Começa pelo fim. A abelha do desejo
queima as asas febris ma volúpia do beijo
e a flâmula do amor apaga-se, afinal.

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Coletânea de Poetas Paulistas Seleção, Organização e Introdução de Enéas de Moura, 1951, Editora Minerva, Rio de Janeiro RJ; Emiliana Delminda do Amaral (1865  1963?), paulista de Silveiras, foi romancista, poetisa e professora autodidata; durante anos deu aulas particulares; seus textos foram divulgados pela imprensa paulista (A Tribuna e Flama, de Santos, Clarim, de Matão, Nova Era, de Franca, e outros periódicos); escreveu e publicou Violetas (poesia, 1906), Miragens (poesia, 1908), Crepúsculo (poesia, 1914), Fragmentos d’Alma (poesia, 1918), Segredo Fatal (romance, 1925), Calvário do Amor (romance, 1935), Folhas Caídas (poesia, 1947); deixou inéditos Minúsculas (contos) O despertar da luz (poesia).

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Henriqueta Lisboa: O Menino Poeta

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O menino poeta
não sei onde está.
Procuro daqui
procuro de lá.
Tem olhos azuis
ou tem olhos negros?
Parece Jesus
ou índio guerreiro?
Trá-la-lá-lá-li
trá-lá-lá-lá-lá
Mas onde andará
que ainda não o vi?
Nas águas de Lambari,
nos reinos do Canadá?
Estará no berço,
brincando com os anjos,
na escola, travesso,
rabiscando bancos?
O vizinho ali
disse que acolá
existe um menino
com dó dos peixinhos.
Um dia pescou
pescou por pescar
um peixinho de âmbar
coberto de sal.
Depois o soltou
outra vez nas ondas.
Ai! que esse menino
será, não será?…

Certo peregrino
(passou por aqui)
conta que um menino
das bandas de lá
furtou uma estrela.
Tra-lá-li-lá-lá.
A estrela num choro
O menino rindo.
Porém de repente
(menino tão lindo!)
subiu pelo morro
tornou a pregá-la
com três pregos de ouro
nas saias da lua.
Ai! que esse menino
será, não será?...

Procuro daqui
procuro de lá.
O menino poeta
quero ver de perto
quero ver de perto
para me ensinar
as bonitas cousas
do céu e do mar.

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Antologia de Poemas para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Henriqueta Lisboa (1901  1985), mineira de Lambari, poeta, ensaísta e professora universitária, dedicou sua vida à poesia e foi considerada um dos grandes nomes da lírica modernista; a autora manteve-se sempre ativa e em contato com os literatos de sua geração, angariando, assim, muitos leitores ilustres, dentre eles, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Gabriela Mistral; deixou-nos extenso legado de poesias, ensaios, coletâneas e traduções; alguns de seus livros de poemas: Fogo-fátuo (1925), Enternecimento (1929), Velório (1936), Prisioneiro da noite (1941), O menino poeta (1943), A face lívida (1945), Flor da morte (1949), e muitos outros títulos; pelo seu livro Enternecimento, recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia (1929), e, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis (1984), honrarias concedidas pela ABL  Academia Brasileira de Letras, entidade a que pertenceu, tendo sido eleita em 1963; foi a primeira mulher a ocupar uma cadeira nesta entidade; lecionou Literatura Hispano-Americana e Literatura Brasileira nas faculdades mineiras Pontifícia Universidade Católica e Universidade Federal.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

J. G. de Araújo Jorge: Poema do amor universal

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A Osmundo Lima

Love
liebe
amour
amor!
parecem diferentes, no entanto se ela está
nos teus braços presa,
hás de ver com certeza
que
love
liebe
amour
amor,
é tudo a mesma coisa: dois olhares tontos,
duas bocas ansiosas,
dois corpos que se estreitam com o mesmo calor!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Se o amor conhecesse idiomas,
se houvesse gramáticas para os amantes
que seria dos marinheiros nos portos distantes?


(1940)

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O Canto da Terra — poemas — J. G. de Araújo Jorge, 1945, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; J. G. de Araújo Jorge (1914 1987), acreano de Tarauacá, foi poeta, locutor, redator de programas radiofônicos, professor de História e Literatura e político; estudou nos colégios Anglo-Americano e Pedro II, no Rio de Janeiro, e formou-se pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, atual Faculdade de Direito UFRJ; escrevendo poemas desde os tempos ginasianos, teve seus textos divulgados pelos periódicos cariocas Correio da Manhã e Almanaque Bertrand; colaborou também nos jornais A Manhã, Tribuna da Imprensa, A Nação e nas revistas Carioca, Vamos Ler, etc.; escreveu e publicou Meu Céu Interior (1934), Bazar de ritmos (1935), Cântico dos Cânticos (1937), Amo! (1938), Poesias (1938), Cântico do Homem Prisioneiro (1941), Um Besouro contra a Vidraça (1942), Eterno Motivo (1943), O Canto da Terra (1945), Festa de Imagens, Harpa Submersa e outros títulos, além de ter gravado 3 LPs poéticos: Poemas de Amor, Amor e A Sós.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Pablo Neruda: Cavalheiro só

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[traduzido por José Paulo Paes]

Os jovens homossexuais e as mocinhas amorosas,
e as longas viúvas que sofrem de insônia delirante,
e as jovens senhoras há trinta horas emprenhadas,
e os gatos roufenhos que atravessam meu jardim em trevas,
como um colar de palpitantes ostras sexuais
rodeiam minha casa solitária,
inimigos jurados de minha alma,
conspiradores em traje de dormir,
que trocaram por senha grandes beijos espessos.

O verão radiante conduz os namorados
em uniformes regimentos melancólicos
de pares gordos magros e alegres tristes pares:
sob os coqueiros elegantes, junto ao mar e à lua,
há uma vida contínua de calças e galinhas,
um rumor de meias de seda acariciadas,
e seios femininos a brilhar como dois olhos.

O pequeno empregado, depois de tanta coisa,
depois do tédio semanal e das novelas lidas na cama toda noite,
seduziu sua vizinha inapelavelmente
e a leva agora a cinemas miseráveis
onde os heróis são potros ou são príncipes apaixonados,
e lhe acaricia as pernas, véu macio,
com suas mãos ardentes, úmidas que cheiram a cigarro.

As tardes do sedutor e as noites dos esposos 
se unem, dois lençóis que me sepultam,
e as horas de após almoço em que os jovens estudantes
e as jovens estudantes, e os padres se masturbam,
e os animais fornicam sem rodeios
e as abelhas cheiram a sangue e zumbem coléricas as moscas,
e os primos brincam de estranho jeito com as primas,
e os médicos olham com fúria o marido da jovem paciente,
e as horas da manhã nas quais, como que por descuido, o professor
cumpre os seus deveres conjugais e desjejua,
e inda mais os adúlteros, que com amor verdadeiro se amam
sobre leitos altos, amplos como embarcações:
seguramente, eternamente me rodeia
este respiratório e enredado grande bosque
com grandes flores e com dentaduras
e raízes negras em forma de unhas e sapatos.

Pablo Neruda

Caballero solo

Los jóvenes homosexuales y las muchachas amorosas,
y las largas viudas que sufren el delirante insomnio,
y las jóvenes señoras preñadas hace treinta horas,
y los roncos gatos que cruzan mi jardín en tinieblas,
como un collar de palpitantes ostras sexuales
rodean mi residencia solitaria,
como enemigos establecidos contra mi alma,
como conspiradores en traje de dormitorio
que cambiaran largos besos espesos por consigna.

El radiante verano conduce a los enamorados
en uniformes regimientos melancólicos
hechos de gordas y flacas y alegres y tristes parejas:
bajo los elegantes cocoteros, junto al océano y la luna
hay una continua vida de pantalones y polleras,
un rumor de medias de seda acariciadas,
y senos femeninos que brillan como ojos.

El pequeño empleado, después de mucho,
después del tedio semanal, y las novelas leídas de noche en cama
ha definitivamente seducido a su vecina,
y la lleva a los miserables cinematógrafos
donde los héroes son potros o príncipes apasionados,
y acaricia sus piernas llenas de dulce vello
con sus ardientes y húmedas manos que huelen a cigarrillos.

Los atardeceres del seductor y las noches de los esposos
se unen como dos sábanas sepultándome,
y las horas después del almuerzo en que los jóvenes estudiantes
y las jóvenes estudiantes, y los sacerdotes se masturban,
y los animales fornican directamente,
y las abejas huelen a sangre, y las moscas zumban coléricas,
y los primos juegan extrañamente con sus primas,
y los médicos miran con furia al marido de la joven paciente,
y las horas de la mañana en que el profesor, como por descuido,
cumple con su deber conyugal, y desayuna,
y más aún los adúlteros, que se aman con verdadero amor
sobre lechos altos y largos como embarcaciones:
seguramente, eternamente me rodea
este gran bosque respiratorio y enredado
con grandes flores como bocas y dentaduras
y negras raíces en forma de uñas y zapatos.
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Poesia Erótica (vários autores) — Seleção, Introdução, Tradução e Notas de José Paulo Paes, 2006, 1ª edição, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftali Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970), Confieso que he vivido (1974) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971).

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Lautréamont: Os Cantos de Maldoror [excerto]

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[traduzido por José Lino Grünewald]

(Canto primeiro  estrofe 1)

          Quisera Deus que o leitor, estimulado e tornado momentaneamente feroz como aquilo que lê, encontre, sem se desorientar, seu caminho abrupto e selvagem através dos pântanos assolados destas páginas sombrias e prenhes de veneno; pois, a não ser que ele empregue em sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos igual à sua desconfiança, as emanações mortais deste livro embeberão sua alma como a água no açúcar. Não é aconselhável que todo mundo leia as páginas que se seguem; apenas alguns irão saborear este fruto amargo, sem perigo. Em decorrência, alma tímida, antes de penetrar mais longe em tais terras inexploradas, conduza teus passos para trás e, não, em frente. Ouça bem o que te digo: conduza teus passos para trás e, não, em frente, como os olhos de um filho que se desvia respeitosamente da contemplação augusta da face materna; ou, antes, como um ângulo infinito de grous friorentos projetando-se em grande número, que, durante o inverno, voam vigorosamente através do silêncio, todas as asas estendidas, em direção de um ponto determinado do horizonte, de onde, súbito, vem um vento estranho e violento, precursor da tormenta. O grou mais velho e que sozinho forma a vanguarda, vendo isso, sacode a cabeça como uma pessoa de bom senso, em conseqüência também seu bico que ele faz estalar, e não está alegre (eu também não o estaria em seu lugar), enquanto seu velho pescoço, despojado de penas e contemporâneo de três gerações de grous, agita-se em ondulações exasperadas a pressagiar a tempestade que, mais e mais, se aproxima. Depois de ter, a sangue-frio, olhado diversas vezes por todos os lados com olhos que contêm a experiência, prudentemente, o primeiro (pois é ele que possui o privilégio de mostrar as plumas de sua cauda aos outros grous inferiores em inteligência), com seu grito vigilante de sentinela melancólico, a fim de rechaçar o inimigo comum, gira com flexibilidade o vértice da figura geométrica talvez um triângulo, mas não se vê o terceiro lado que formam no espaço essas curiosas aves migratórias), seja a bombordo, seja a estibordo, como um capitão sagaz; e, manobrando com asas que aparentam não serem maiores do que aquelas de um pardal, porque ele não é tolo, toma assim um outro caminho filosófico e mais seguro.

Lautréamont

(Les Chants de Maldoror:
Chant premier  strophe 1)

Plût au ciel que le lecteur, enhardi et devenu momentanément féroce comme ce qu'il lit, trouve, sans se désorienter, son chemin abrupt et sauvage, à travers les marécages desoles de ces pages sombres et pleines de poison; car, à moins qu'il n'apporte dans sa lecture une logique rigoureuse et une tension d'esprit égale au moins à sa défiance, les émanations mortelles de ce livre imbiberont son âme comme l'eau le sucre. Il n'est pas bon que tout le monde lise les pages qui vont suivre; quelques-uns seuls savoureront ce fruit amer sans danger. Par conséquent, âme timide, avant de pénétrer plus loin dans de pareilles landes inexplorées, dirige tes talons en arrière et non en avant. Écoute bien ce que je te dis: dirige tes talons en arrière et non en avant, comme les yeux d'un fils qui se détourne respectueusement de la contemplation auguste de la face maternelle; ou, plutôt, comme un angle à perte de vue de grues frileuses méditant beaucoup, qui, pendant l'hiver, volent
puissamment à travers le silence, toutes voiles tendues, vers un point déterminé de l'horizon, d'où tout à coup part un vent étrange et fort, précurseur de la tempête. La grue la plus vieille et qui forme à elle seule l'avant-garde, voyant cela, branle la tête comme une personne raisonnable, conséquemment son bec aussi qu'elle fait claquer, et n'est pas contente (moi, non plus, je ne le serais pas à sa place), tandis que son vieux cou, dégarni de plumes et contemporain de trios générations de grues, se remue en ondulations irritées qui présagent l'orage qui s'approche de plus en plus. Après avoir de sang-froid regardé plusieurs fois de tous les côtés avec des yeux qui renferment l'expérience, prudemment, la première (car, c'est elle qui a le privilége de montrer les plumes de sa queue aux autres grues inférieures en intelligence), avec son cri vigilant de mélancolique sentinelle, pour repousser l'ennemi commun, elle vire avec flexibilité la pointe de la figure géométrique (c'est peut-être un triangle, mais on ne voit pas le troisième côté que forment dans l'espace ces curieux oiseaux de passage), soit à bâbord, soit à tribord, comme un habile capitaine; et, manoeuvrant avec des ailes qui ne paraissent pas plus grandes que celles d'un moineau, parce qu'elle n'est pas bête, elle prend ainsi un autre chemin philosophique et plus sûr. 
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Isidore Lucien Ducasse (1846  1870), uruguaio de Montevidéu, mais conhecido pelo pseudônimo literário Conde de Lautréamont, foi poeta, viveu e estudou na França; sua obra: Os Cantos de Maldoror (Les Chants de Maldoror1869) e Poesias (textos em prosa de natureza ensaística, 1870); consta que André Breton (1896 1966), escritor tido como pai e fundador do Movimento Surrealista, considerava Lautréaumont, de certa forma, como um dos precursores do surrealismo; é o que se encontrou de sua biografia.