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[traduzido por José Lino Grünewald]
(Canto primeiro — estrofe 1)
Quisera Deus
que o leitor, estimulado e tornado momentaneamente feroz como aquilo que lê,
encontre, sem se desorientar, seu caminho abrupto e selvagem através dos pântanos
assolados destas páginas sombrias e prenhes de veneno; pois, a não ser que ele
empregue em sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos
igual à sua desconfiança, as emanações mortais deste livro embeberão sua alma
como a água no açúcar. Não é aconselhável que todo mundo leia as páginas que se
seguem; apenas alguns irão saborear este fruto amargo, sem perigo. Em decorrência,
alma tímida, antes de penetrar mais longe em tais terras inexploradas, conduza
teus passos para trás e, não, em frente. Ouça bem o que te digo: conduza teus
passos para trás e, não, em frente, como os olhos de um filho que se desvia
respeitosamente da contemplação augusta da face materna; ou, antes, como um ângulo
infinito de grous friorentos projetando-se em grande número, que, durante o
inverno, voam vigorosamente através do silêncio, todas as asas estendidas, em
direção de um ponto determinado do horizonte, de onde, súbito, vem um vento
estranho e violento, precursor da tormenta. O grou mais velho e que sozinho
forma a vanguarda, vendo isso, sacode a cabeça como uma pessoa de bom senso, em
conseqüência também seu bico que ele faz estalar, e não está alegre (eu também
não o estaria em seu lugar), enquanto seu velho pescoço, despojado de penas e
contemporâneo de três gerações de grous, agita-se em ondulações exasperadas a
pressagiar a tempestade que, mais e mais, se aproxima. Depois de ter, a sangue-frio,
olhado diversas vezes por todos os lados com olhos que contêm a experiência,
prudentemente, o primeiro (pois é ele que possui o privilégio de mostrar as
plumas de sua cauda aos outros grous inferiores em inteligência), com seu grito
vigilante de sentinela melancólico, a fim de rechaçar o inimigo comum, gira com
flexibilidade o vértice da figura geométrica (é talvez um triângulo, mas não se
vê o terceiro lado que formam no espaço essas curiosas aves migratórias), seja
a bombordo, seja a estibordo, como um capitão sagaz; e, manobrando com asas que
aparentam não serem maiores do que aquelas de um pardal, porque ele não é tolo,
toma assim um outro caminho filosófico e mais seguro.
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| Lautréamont |
(Les Chants de Maldoror:
Chant premier — strophe
1)
Plût au ciel que le
lecteur, enhardi et devenu momentanément féroce comme ce qu'il lit, trouve,
sans se désorienter, son chemin abrupt et sauvage, à travers les marécages desoles
de ces pages sombres et pleines de poison; car, à moins qu'il n'apporte dans sa
lecture une logique rigoureuse et une tension d'esprit égale au moins à sa
défiance, les émanations mortelles de ce livre imbiberont son âme comme l'eau
le sucre. Il n'est pas bon que tout le monde lise les pages qui vont suivre;
quelques-uns seuls savoureront ce fruit amer sans danger. Par conséquent, âme timide,
avant de pénétrer plus loin dans de pareilles landes inexplorées, dirige tes
talons en arrière et non en avant. Écoute bien ce que je te dis: dirige tes
talons en arrière et non en avant, comme les yeux d'un fils qui se détourne respectueusement
de la contemplation auguste de la face maternelle; ou, plutôt, comme un angle à
perte de vue de grues frileuses méditant beaucoup, qui, pendant l'hiver, volent
puissamment à travers le silence, toutes voiles tendues, vers un point
déterminé de l'horizon, d'où tout à coup part un vent étrange et fort,
précurseur de la tempête. La grue la plus vieille et qui forme à elle seule
l'avant-garde, voyant cela, branle la tête comme une personne raisonnable,
conséquemment son bec aussi qu'elle fait claquer, et n'est pas contente (moi,
non plus, je ne le serais pas à sa place), tandis que son vieux cou, dégarni de
plumes et contemporain de trios générations de grues, se remue en ondulations
irritées qui présagent l'orage qui s'approche de plus en plus. Après avoir de
sang-froid regardé plusieurs fois de tous les côtés avec des yeux qui renferment
l'expérience, prudemment, la première (car, c'est elle qui a le privilége de
montrer les plumes de sa queue aux autres grues inférieures en intelligence),
avec son cri vigilant de mélancolique sentinelle, pour repousser l'ennemi
commun, elle vire avec flexibilité la pointe de la figure géométrique (c'est
peut-être un triangle, mais on ne voit pas le troisième côté que forment dans
l'espace ces curieux oiseaux de passage), soit à bâbord, soit à tribord, comme
un habile capitaine; et, manoeuvrant avec des ailes qui ne paraissent pas plus
grandes que celles d'un moineau, parce qu'elle n'est pas bête, elle prend ainsi
un autre chemin philosophique et plus sûr.
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Poetas Franceses do Século XIX —
Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino
Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Isidore
Lucien Ducasse (1846 — 1870), uruguaio de Montevidéu, mais conhecido pelo
pseudônimo literário Conde de Lautréamont, foi poeta, viveu e estudou na
França; sua obra: Os Cantos de Maldoror (Les Chants de Maldoror, 1869) e
Poesias (textos em prosa de natureza ensaística, 1870); consta que André Breton
(1896 — 1966), escritor tido como pai e fundador do Movimento Surrealista,
considerava Lautréaumont, de certa forma, como um dos precursores do
surrealismo; é o que se encontrou de sua biografia.