domingo, 28 de agosto de 2016

Baudelaire: As promessas de um rosto

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[traduzido por José Paulo Paes]

Amo, ó pálida beleza, os teus cenhos curvados
       Que dão às trevas todo o império;
Teus olhos, embora negros, me inspiram cuidados
       Que não têm nada de funéreos.

Teus olhos, que imitam a negrura dos cabelos
       Da tua longa crina elástica,
Teus olhos langues me dizem: “Amante, se o apelo
       Queres seguir da musa plástica

Que infundimos no teu ser, ou tudo que contigo
       Em matéria de gosto trazes,
Poderás ver, desde as nádegas até o umbigo,
       Que nós te fomos bem verazes;

Encontrarás, sobre dois belos seios pontudos,
       Dois grandes medalhões de bronze,
E sob o ventre liso, macio como veludo,
       Amorenado como bronze,

Um rico tosão que á tua enorme cabeleira
       Copia no negrume e na espessura;
De tão sedoso e encrespado, ele te iguala inteira,
       Noite sem astros, Noite escura!”

Baudelaire

Les promesses d’um visage

J'aime, ô pâle beauté, tes sourcils surbaissés,
D'où semblent couler des ténèbres;
Tes yeux, quoique três-noirs, m'inspirent des pensers
Qui ne sont pas du tout funèbres.

Tes yeux, qui sont d'accord avec tes noirs cheveux,
Avec ta crinière élastique,
Tes yeux, languissamment, me disent : " Si tu veux,
Amant de la muse plastique,

Suivre l'espoir qu'en toi nous avons excité,
Et tous les goûts que tu professes,
Tu pourras constater notre véracité
Depuis le nombril jusqu'aux fesses;

Tu trouveras, au bout de deux beaux seins bien lourds,
Deux larges médailles de bronze,
Et sous un ventre uni, doux comme du velours,
Bistré comme la peau d'un bonze,

Une riche toison qui, vraiment, est la soeur
De cette énorme chevelure,
Souple et frisée, et qui t'égale en épaisseur,
Nuit sans étoiles, Nuit obscure!"
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Poesia Erótica (vários autores) — Seleção, Introdução, Tradução e Notas de José Paulo Paes, 2006, 1ª  edição, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Charles-Pierre Baudelaire (1821  1867), nascido em Paris França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

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