terça-feira, 2 de agosto de 2016

Nhô Bento: Doce de cidra

Resultado de imagem para coletânea de poetas paulistas Editora minerva enéas de moura
____________________
Eu trúxe pra mecê este docinho,
impetecádo ansim, imbruiadinho,
nesta páia de mío...
É só mecê pegá, afroxá este amarrío,
abrí a páia dele justo bem no meio,
ferrá os dente e cumê!

É bão doce de cidra!
E este doce veio
lôco pra móde vê
bem pertinho a boquinha de mecê
só pra móde adoçá sua boquinha,
boquinha de bunéca, ô de pombinha!

Tóme! Garre ele logo na sua mão...
Mas antes de cumê
magine bem o que ele qué dizê!
Fáis de conta que tô le dando o coração
que inté se açucarô...
doce de tanto amô!

Próve como ele tá mais bão que rapadura!

ói só que gostusura!
Espremente, pra vê,
se não é taliquá que eu désse pra mecê
que véve que nem lôco,
que nem cavalo que não dá baxêro
pra quarqué cavaiêro,
só pruquê ele já sabe que iscoieu
o dono mais mió que apareceu!
Eu sei que mecê vai gostá quando cumê
o docinho que eu trúxe pra mecê...

Ah, quem déra que eu fosse esse docinho,

iguazínho co'ele, direitinho
pra mecê nunca mais me chamá eu de azedo!
que nem mecê me chamô onte, de minhã cedo!

Coma o seu doce, vá! Apinche fóra a páia,

pruquê quem não ajuda, não trapáia!
Desimbrúie ele ansim, devagazinho,
adesmánche com jeito este nòzinho,
puxe a páia pra cá... pra lá, despois...
taliquá com nóis dois
que primêro se oiêmo...
despois se cunhecêmo...
despois se riu... eu se ri, regatêro...
mecê ponhô ni mim seus oínho mortêro...
e então, desimbruiêmo a páia direitinho,
táliquá tô agora le ensinando
essa páia que tá rodeando o seu docinho!

O amô pra se bão, pra sê doce devéra,

doce mais doce ainda que o melado,
não deve andá correndo atrupeládo,
iguá côs pinto quando vê quiréra...

O amô só pode sê um doce bão,

iguá doce de cidra, ô doce de mamão,
quando fica guardado e amarradinho,
que é pra gente í tirando a páia cúm jeitinho...

Desse jeito o amô fica mesmo um doção!

Pruquê sinão,
ele garra a melá
que não dá nem vontade de pegá...
Inlambúza co'as mão
e é capais de azedá!

Eu não quiría nunca que mecê pensásse

que o meu amô um dia se azedásse...
Nem não quiría que mecê dissésse
que o doce que eu le trúxe se azedô e não présta...
Pruquê mecê bem sabe, se eu pudésse
fazia tudo o dia sê dia de festa,
só pra móde arranjá e trazê pra mecê
um docinho de cidra pra mecê cumê!

Foi ansim que eu pensei

de falá pra mecê, mas não falei,
tudo dirêito, taliquá pensei,
na horínha que le dei
um docinho de cidra guardadinho
numa páia de mío, e amarradinho
taliquá um coração drênto do peito...

Mecê cumeu, nem disse se gostô...

Se riu, agardeceu,
oiô bem n'eu,
abaxô-se de banda, isticô seu bracinho,
garrô uma frô de talo compridinho,
e ponhô a frô drênto da minha mão,
me dizendo co'a fala amolicida:

 "Tóme, guarde esta frô

que eu tô dando pra ocê,
que é pra nunca dizê
que eu sô ingrata e malagradecida...
Co'ésta frô tô pagando o seu docinho...
Pruquê este amô prêfeito
também é o coração
que eu ranquei do meu peito,
pra dá ele interinho só pra ocê!"

Pra me dá o que me deu,
falando o que falô,
decérto ela gostô
do doce que cumêu!

____________________
Coletânea de Poetas Paulistas Seleção, Organização e Introdução de Enéas de Moura, 1951, Editora Minerva, Rio de Janeiro — RJ; Nhô Bento, ou José Bento de Oliveira (1902 1968), paulista de São Sebastião, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Henrique Botelho, trabalhou como funcionário público estadual, foi poeta, declamador e radialista; Nhô Bento manteve por longo tempo um programa na Rádio Gazeta, em São Paulo, onde declamava e apresentava seus textos; escreveu e publicou Rosário de Capiá — poemas caboclos (prefácio de Monteiro Lobato e ilustrações de Belmonte e outros, 1946); o poeta declamador também teve seus textos gravados em disco de vinil pela RGE Discos do Brasil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário