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segunda-feira, 13 de março de 2023

Laura Riding: Morte como morte

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Conceber a morte como morte,
É dificuldade conseguida facilmente,
Brancura se precipitando entre
Imagens de entendimento,
A morte essa mão fria e veloz
Sobre a testa quente de suicídio.
Assim é conseguida facilmente
Por um instante só. Fornalhas, outra vez,
Rugem nas orelhas, de novo o inferno revolve-se,
E o olho elástico detém o paraíso
A uma visível distância da cegueira,
E atordoado o corpo ecoa
“Assim, assim, como nada mais.”

Como nada  uma similaridade
Sem semelhança. O olho profético,
Que se fecha à dificuldade,
Se abre se comparado,
Dividindo a realidade
Como um presente simples demais, para a qual
Gratidão não tem linguagem,
Nem previsão tem visão.

Laura Riding

Death as death

To conceive death as death
Is difficulty come by easily,
A blankness fallen among
Images of understanding,
Death like a quick cold hand
On the hot slow head of suicide.
So is it come by easily
For one instant. Then again furnaces
Roar in the ears, then again hell revolves,
And the elastic eye holds paradise
At visible length from blindness,
And dazedly the body echoes
‘Like this, like this, like nothing else.’

Like nothing — a similarity
Without resemblance. The prophetic eye,
Closing upon difficulty,
Opens upon comparison,
Halving the actuality
As a gift too plain, for which
Gratitude has no language,
Foresight no vision.
____________________
Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Laura Riding: Os problemas de um livro

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

O problema de um livro é, primeiro, não ser
Pensamentos para ninguém
E ficará tão inescrito
Quanto permanecerá não lido
E construir um autor palavra por palavra
E ocupar sua cabeça
Até que a cabeça feche pra balanço
Para publicar a todos
Seu esvaziamento.

O segundo problema de um livro
É ficar desperto e pronto
À escuta como um dono de pousada
Querendo, não querendo hóspedes,
Indeciso entre a esperança de folga nenhuma
E a esperança de folga.
Vacilantes, as páginas cochilam
E piscam para os dedos que passam
Com sorriso proprietário, e fecham-se.

O terceiro problema de um livro é
Dar seu sermão e virar as costas
Suscitando comoção nas margens
Onde a língua cruza o olho,
Sem declarar nenhuma experiência de pânico,
Nenhuma cumplicidade neste tumulto.
A provação de um livro é não dar pistas
De ser provação, é ser neutro e leigo
No sentido reto do impresso.

O problema de um livro, principalmente,
É ser só livro na superfície;
Vestir capa como capa,
Se enterrar em morte-livro
Mas se sentir tudo menos livro,
Respirar palavras vivas, mas com o hálito
Das letras; endereçar vivacidade
Nos olhos que leem, ser respondido
Com letras e livrescidade.

Laura Riding

The troubles of a book

The trouble of a book is first to be
No thoughts to nobody,
Then to lie as long unwritten
As it will lie unread,
Then to build word for word an author
And occupy his head
Until the head declares vacancy
To make full publication
Of running empty.

The trouble of a book is secondly
To keep awake and ready
And listening like an innkeeper,
Wishing, not wishing for a guest,
Torn between hope of no rest
And hope of rest.
Uncertainly the pages doze
And blink open to passing fingers
With landlord smile, then close.

The trouble of a book is thirdly
To speak its sermon, then look the other way,
Arouse commotion in the margin,
Where tongue meets the eye,
But claim no experience of panic,
No complicity in the outcry.
The ordeal of a book is to give no hint
Of ordeal, to be flat and witless
Of the upright sense of print.

The trouble of a book is chiefly
To be nothing but book outwardly;
To wear binding like binding,
Bury itself in book-death,
Yet to feel all but book;
To breathe live words, yet with the breath
Of letters; to address liveliness
In reading eyes, he answered with
Letters and bookishness.
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Laura Riding: Verdade


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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Sempre procuramos a Verdade.
Ela tem medo de ser pega.
Livros são gaiolas.
Verdade não é um canário
Para ciscar palavras com paciência
E morrer depois de comer todas.

A verdade não gostaria de viver
Na cabeça ou na garganta ou no coração de alguém.
Não tente achá-la ali.

A verdade não é dríade pra ser punida numa árvore.
A verdade não é nenhuma náiade.
A verdade certamente se afogaria numa fonte.

Deixe a terra em paz.
A verdade não deixa pegadas.
Não escute
Até o silêncio se pôr com a lua.
A verdade não faz ruídos.
Não siga a luz
Que segue o sol
Que segue a noite.
A verdade dança além da luz
E do sol
E da noite.
A verdade não pode ser vista.

Deixe a curiosidade ficar em casa.
Ela pode se perder.
(A verdade freqüenta antros estranhos.)
Se, criança, o segredo se calça,
Um dia será imprudência.

Deixe a verdade em paz.
A verdade não pode ser pega.
Acho que ela não vive nada, não,
Pois teria medo de morrer, então.

Laura Riding

Truth

We keep looking for Truth.
Truth is afraid of being caught.
Books are bird-cages.
Truth is no canary
To nibble patiently at words
And die when they're all eaten up.

Truth would not like
To live in people's heads or hearts or throats.
Don't try to find her there.

Truth is no dryad to be punished in a tree.
Truth is no naiad.
Truth would be surely drowned in a spring.

Don't worry the earth.
Truth leaves no footprints.
Don't listen
Before silence has set with the moon.
Truth makes no noise.
Don't follow the light
That follows the sun
That follows the night.
Truth dances beyond the light
And the sun
And the night.
Truth can't be seen.

Let curiosity stay at home.
It may get lost.
(Truth has strange haunts.)
If stealth wears shoes
It grows up to imprudence.

Leave truth alone.
Truth can't be caught.
I think Truth doesn't live at all because
She'd have to be afraid of dying, then.
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

domingo, 9 de outubro de 2022

Laura Riding: Sono transgredido


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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Uma hora do dia foi subtraída
Para fazê-lo durar mais uma hora.
O dia dilatado cresceu
No que tinha sido interrompido.
Mais uma hora do sono foi subtraída,
Até que todo o sono fosse transgredido,
Embora o curso do dia
Durasse mais, mais se adiasse.

E o sono, sumido.
E o mesmo dia nunca termina,
Um dia enorme, e a insônia,
Um gradual entardecer rumo a logo se deitar.

Logo, logo.
E o sono, esquecido,
Tipo: o que foi nascer?
E nenhuma morte até aqui, o fim tão lento,
Parecemos partir mas permanecemos.

E se permanecemos
Algo mais há de ser feito
E nunca termine embora muito termine.
Pois o muito mantém os olhos bem abertos,
Muito aberto é muito mais sono esquecido,
Sono esquecido é sono transgredido,
Sono transgredido é a mente durando bem mais,
Mais pensamento, mais dizendo,
Em vez de dormindo, piscado, piscando,
Piscando de pé e por causa de sonhos
Que são iguais a todas as coisas comuns,
As coisas comuns iguais a todos os sonhos.

Laura Riding

Sleep contravened

An hour was taken
To make the day an hour longer.
The longer day increased
In what had been unfinished.
Another hour from sleep was taken,
Till all sleep was contravened,
Yet the day’s course
More long and more undone.

And the sleep gone.
And the same day goes on and on,
A mighty day, with sleeplessness
A gradual evening toward soon lying down.

Soon, soon.
And sleep forgotten,
Like: What was birth?
And no death yet, the end so slowly,
We seem departing but we stay.

And if we stay
There will be more to do
And never through though much is through.
For much keeps the eyes so much open,
So much open is so much sleep forgotten,
Sleep forgotten is sleep contravened,
Sleep contravened is so much longer mind,
More thought, more speaking,
Instead of sleep, blinking, blinking,
Blinking upright and with dreams
Same as all usual things,
Usual things same as all dreams.
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia), e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Laura Riding: Muito funciona

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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Muito funciona em fazer o mundo
Mais seguro por ser mais bonito.
Mas belezas demais esmagam a prova.
Beleza demais é um Letes.

A sucessão das coisas lindas
Deleita, não ilumina.
Não sabemos nada, nada ainda.
Beleza será verdade só uma vez.

Troque o multiplicado desnorteio
Por uma única apresentação do fato pela beleza;
E a revelação será instantânea.
Morreremos depressa.

Laura Riding

There is much at work

There is much at work to make the world
Surer by being more beautiful.
But too many beauties overwhelm the proof.
Too much beauty is Lethe.

The succession of fair things
Delights, does not enlighten.
We still know nothing, nothing.
Beauty will be truth but once.

Exchange the multiplied bewilderment
For a single presentation of fact by fairness;
And the revelation will be instantaneous.
We shall all die quickly.
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

sábado, 13 de agosto de 2022

Laura Riding: Nada até aqui


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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Até aqui só o luar,
Onde a mente está;
Nada naquele lugar, neste domínio,
A nos dominar;
Só suas sombras sem faces para anunciar
Que talvez elas venham
Nem eles mesmos sabem
Para onde as projetam.

Ainda aqui, tudo o que fica
Quando cada um tem sido o universo:
Universo algum, mas cada um, ou nada.
Eis o aumento futuro que se recurva
Para tudo o que foi.

O que fomos, então,
Antes de começar o ser de nós mesmos?
Até aqui só estranheza,
Aonde os momentos da mente regressam.
Por pouco perdemos nosso lugar
Ao partir para lugares mais estranhos.

Até aqui quase
A antiga agonia íntima
De nunca ter partido;
E palavras mais baixas que um sussurro que,
Se vigiadas covas de homens vivos
Pudessem trazer seus nomes e rostos para casa.

Faz uma promessa carinhosa a si mesma,
Mulher de verdade, que ali
Mais presenças se prometem
Do que parece à luz difícil.
Não aparece a não ser a manhã do luar
Como se contar sob sua luz fosse espalhar
O aspecto da noite passada livre das traças.

Laura Riding

Nothing so far

Nothing so far but moonlight
Where the mind is;
Nothing in that place, this hold,
To hold;
Only their faceless shadows to announce
Perhaps they come
Nor even do they know
Whereto they cast them.

Yet here, all that remains
When each has been the universe:
No universe, but each, or nothing.
Here is the future swell curved round
To all that was.

What were we, then,
Before the being of ourselves began?
Nothing so far but strangeness
Where the moments of the mind return.
Nearly, the place was lost
In that we went to stranger places.

Nothing so far but nearly
The long familiar pang
Of never having gone;
And words below a whisper which
If tended as the graves of live men should be
May bring their names and faces home.

It makes a loving promise to itself,
Womanly, that there
More presences are promised
Than by the difficult light appear.
Nothing appears but moonlight’s morning
By which to count were as to strew
The look of day with last night’s rid of moths.
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

domingo, 31 de julho de 2022

Laura Riding: O porquê do vento


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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Frequentemente temos considerado o vento,
Os imutáveis porquês do vento.
De outro tempo nenhum de nós se espanta.
Já conhecemos essas mudanças 
Nossa saúde não é diferente.
Acordamos com um calafrio,
Vamos pra cama com febre:
Esses são os turnos pelos quais persiste a natureza,
Pelos quais, bem ou doentes,
Vivemos variavelmente,
Tantos nós misturados, e um mundo tão variável.
É a regra do que medra,
Um dia ser de um jeito, no outro, de outro.
Não especulamos.
Quando chega o frio fechamos a janela.
Aquilo é inverno, e entendemos.
Também nosso sangue não faz o mesmo,
Ora gela, ora queima por dentro,
De acordo com os climas ritminstáveis
De nossas convivências com a gente?

Mas quando o vento salta como um cão sem dentes
E nem sequer somos mordidos,
Só como se censurados pelo que não sabemos,
E isso não podemos responder
O que fazer, senão entender?
E isso não podemos,
Embora quando o vento está solto
Nossas mentes vão arfando, infeccionadas de vento,
Até nossos corações maternos,
Perseguindo em porquês de sangue
A lógica desse massacre do pensamento.

Quando o vento corre, a gente corre com ele.
Não podemos entender porque não existimos
Quando o vento leva nossas mentes.
Estes são lapsos como um ódio pela terra.
Ficamos como se em lugar nenhum,
Soprados de interrupção a interrupção,
Daí fugimos para o que somos
E acusamos nossa sóbria natureza
De selvagem deserção de si mesma,
E perguntamos o motivo como um traidor
A mendigar ao rei um porquê da traição.

Devemos aprender melhor
O que somos e não somos.
Não somos o vento.
Não somos cada humor nômade que tenta
Nossas mentes com vertigem desterrada.
Devemos distinguir melhor
Entre nós mesmos e estranhos.
Há tanta coisa que não somos.
Há tanta coisa que não é.
Há tanta coisa que não precisamos ser.
Nos rendemos ao vento imenso
Contra nossa letrada insignificância.
Mas sempre voltamos e lamentamos:
“Por que fiz isso?”

Laura Riding

The why of the wind

We have often considered the wind,
The changing whys of the wind.
Of other weather we do not so wonder.
These are changes we know.
Our own health is not otherwise.
We wake up with a shiver,
Go to bed with a fever:
These are the turns by which nature persists,
By which, whether ailing or well,
We variably live,
Such mixed we, and such variable world.
It is the very rule of thriving
To be thus one day, and thus the next.
We do not wonder.
When the cold comes we shut the window.
That is winter, and we understand.
Does our own blood not do the same,
Now freeze, now flame within us,
According to the rhythmic-fickle climates
Of our lives with ourselves?

But when the wind springs like a toothless hound
And we are not even savaged,
Only as if upbraided for we know not what
And cannot answer —
What is there to do, if not to understand?
And this we cannot,
Though when the wind is loose
Our minds go gasping wind-infected
To our mother hearts,
Seeking in whys of blood
The logic of this massacre of thought.

When the wind runs we run with it.
We cannot understand because we are not
When the wind takes our minds.
These are lapses like a hate of earth.
We stand as nowhere,
Blow from discontinuance to discontinuance,
Then flee to what we are
And accuse our sober nature
Of wild desertion of itself,
And ask the reason as a traitor might
Beg from the king a why of treason.

We must learn better
What we are and are not.
We are not the wind.
We are not every vagrant mood that tempts
Our minds to giddy homelessness.
We must distinguish better
Between ourselves and strangers.
There is much that we are not.
There is much that is not.
There is much that we have not to be.
We surrender to the enormous wind
Against our learned littleness,
But keep returning wailing
‘Why did I do this?’
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Laura Riding: Como nasce um poema


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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Para James F. Mathias

A necessidade nos acossa como acusação de impotência:
Você pode ou não falar mais alto,
Provar que está presente?
O que você precisa encontrar para dizer,
Para passar o saber que você existe
À revelia dos crentes ou descrentes
Da nossa espécie em cada um,
Você pode chegar junto ao chegar perto deles
E deixar o assunto de aceitação
Suspenso entre sua oferta
E seu destino com eles no tempo.
(Isto se chama "prosa"!)
Ou você pode convidar ouvintes,
Sem esperar por eles
Fazendo do que você acha para dizer
Um testemunho de si, se ausente de ouvintes.
(Assim o poema se constrói:
Para ser entregue numa distância curta.
Mesmo sem plateia, fala.)

A realidade num poema é inextensível.
Abrange a vontade de falar mais alto,
Mas, se presume incluir
A vontade visitante de ouvir o que é dito,
Finge ser uma Presença além da sua mesma.

O que mais pode ser feito?
Não falamos mais um com o outro?
Pomos palavras no ar e no papel
Que viajam entre nós como se o real,
Sob a proteção do tempo,
Com nem tudo perdido entre uma e outra,
Estas, aquelas e suas outras,
Ou perdidas de uma vez?

Não fosse isto um poema
Eu falaria sobre o falar,
Escreveria sobre o falar (e sobre o escrever),
Que se guardaria para o outro, outros,
Se construiria para todo mundo,
Ou para ninguém, contendo em si sua força viajante,
Sem precisar de uma graça de tempo para resgatá-Io
De uma perda total.

Ou eu falaria, escreveria, assim,
Esforçando-me para construir, quero dizer,
Algo ligando nossos entendimentos
Numa realidade de palavras, de eus, de outros,
Mais dizível, mais penetrável, habitável, aberta.

Laura Riding

How a poem comes to be

for James F. Mathias

Necessity haunts us as an accusation of impotence:
Can you or can you not speak up,
Prove yourself present?
What do you have to find to say,
To deliver the knowledge that you are
To the mercies of the believing and not-believing
Of our kind in one another,
You may gather as you approached them,
And leave the issue of acceptance
Suspended between your offering
And its fate with them in time.
(This is named ‘prose’!)
Or you may call for listeners,
And not wait upon them
Making what you find to say
Self-witnessing, be listeners absent.
(Thus does the poem constructs itself:
As for delivery within narrow throw.
If there is no attendance, it yet speaks.)

Reality in a poem is inextensible.
It embraces the will to speak up,
But, if it presumes to include
Visiting will to hear the said,
It feigns Presence to it besides its own.

What else can be done?
Do we not speak to one another?
Put words into the air and on paper
That travel between us as real,
Under the protection of time,
Not all lost between one and another,
These, those, and their others,
Or lost all at once?

Were this not a poem
I would speak on speaking,
Write on speaking (and writing),
That saved itself for the other, others,
Constructed itself for one and all,
Or none, contained its travel-force within it,
Needed no grace of time to rescue it
From total loss.

Or I would so speak, so write,
Endeavour to construct, I mean,
Something binding our understandings
In a reality of words, selves, others,
More utterable, enterable, occupiable, open.
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.