[traduzido por Paulo Hecker Filho]
Não tive uma vez uma juventude amável, heróica, fabulosa, a ser narrada sobre folhas de ouro, — muita sorte! — Por que crime, por que erro, mereci minha fraqueza atual? Os que creem que os animais têm soluços de pena, que os doentes desesperam, que os mortos tenham maus sonhos, tratem de contar a minha queda e o meu sono. Eu não posso me explicar mais que o mendigo com seus contínuos Pater e Ave Maria. Não sei mais falar!
Porém hoje creio ter terminado o relato do meu inferno. Era o inferno; o velho, de que o filho do homem abriu as portas.
Do mesmo deserto, à mesma noite, sempre meus olhos cansados se abrem para a estrela de prata, sempre, sem que se comovam os reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da sabedoria nova, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, adorar — os primeiros! — O Natal na terra!
O Cântico dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.
Uma Temporada no Inferno — 1873
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| Rimbaud |
Matin
N'eus-je pas une fois une jeunesse aimable, héroïque, fabuleuse, à écrire sur des feuilles d'or, — trop de chance! Par quel crime, par quelle erreur, ai-je mérité ma faiblesse actuelle? Vous qui prétendez que des bêtes poussent des sanglots de chagrin, que des malades désespèrent, que des morts rêvent mal, tâchez de raconter ma chute et mon sommeil. Moi, je ne puis pas plus m'expliquer que le mendiant avec ses continuels Pater et Ave maria. Je ne sais plus parler!
Pourtant, aujourd'hui, je crois avoir fini la relation de mon enfer. C'était bien l'enfer; l'ancien, celui dont le fils de l'homme ouvrit les portes.
Du même désert, à la même nuit, toujours mes yeux las se réveillent à l'étoile d'argent, toujours, sans que s'émeuvent les Rois de la vie, les trois mages, le coeur, l'âme, l'esprit. Quand irons-nous, par delà les grèves et les monts, saluer la naissance du travail nouveau, la sagesse nouvelle, la fuite des tyrans et des démons, la fin de la superstition, adorer — les premiers! — Noël sur la terre!
Le chant des cieux, la marche des peuples! Esclaves, ne maudissons pas la vie.
Une saison en enfer — 1873
____________________Rimbaud — Uma temporada no inferno (edição bilíngue) seguido de Correspondência (Cartas familiares, Correspondência com Verlaine, Agonia em Marselha, Cartas da África), Edição, Introdução e Notas de Ivan Pinheiro Machado e Tradução de Paulo Hecker Filho, Alexandre Ribondi, Júlia da Rosa Simões e Ivo Barroso, Coleção Rebeldes & Malditos, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 — 1891), nascido em Charleville — França, foi poeta do simbolismo francês, recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandona a literatura e retoma a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.


