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quinta-feira, 2 de julho de 2020

Rimbaud: Manhã

UMA TEMPORADA NO INFERNO SEGUIDO DE CORRESPONDÊNCIA - Arthur ...
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

               Não tive uma vez uma juventude amável, heróica, fabulosa, a ser narrada sobre folhas de ouro, muita sorte! Por que crime, por que erro, mereci minha fraqueza atual? Os que creem que os animais têm soluços de pena, que os doentes desesperam, que os mortos tenham maus sonhos, tratem de contar a minha queda e o meu sono. Eu não posso me explicar mais que o mendigo com seus contínuos Pater e Ave Maria. Não sei mais falar!
               Porém hoje creio ter terminado o relato do meu inferno. Era o inferno; o velho, de que o filho do homem abriu as portas.
               Do mesmo deserto, à mesma noite, sempre meus olhos cansados se abrem para a estrela de prata, sempre, sem que se comovam os reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da sabedoria nova, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, adorar os primeiros! O Natal na terra!
               O Cântico dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

Uma Temporada no Inferno — 1873

Rimbaud

               Matin

               N'eus-je pas une fois une jeunesse aimable, héroïque, fabuleuse, à écrire sur des feuilles d'or, trop de chance! Par quel crime, par quelle erreur, ai-je mérité ma faiblesse actuelle? Vous qui prétendez que des bêtes poussent des sanglots de chagrin, que des malades désespèrent, que des morts rêvent mal, tâchez de raconter ma chute et mon sommeil. Moi, je ne puis pas plus m'expliquer que le mendiant avec ses continuels Pater et Ave mariaJe ne sais plus parler!
               Pourtant, aujourd'hui, je crois avoir fini la relation de mon enfer. C'était bien l'enfer; l'ancien, celui dont le fils de l'homme ouvrit les portes.
               Du même désert, à la même nuit, toujours mes yeux las se réveillent à l'étoile d'argent, toujours, sans que s'émeuvent les Rois de la vie, les trois mages, le coeur, l'âme, l'esprit. Quand irons-nous, par delà les grèves et les monts, saluer la naissance du travail nouveau, la sagesse nouvelle, la fuite des tyrans et des démons, la fin de la superstition, adorer les premiers! Noël sur la terre!
               Le chant des cieux, la marche des peuples! Esclaves, ne maudissons pas la vie.

Une saison en enfer — 1873 
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Rimbaud — Uma temporada no inferno (edição bilíngue) seguido de Correspondência (Cartas familiares, Correspondência com Verlaine, Agonia em Marselha, Cartas da África), Edição, Introdução e Notas de Ivan Pinheiro Machado e Tradução de Paulo Hecker Filho, Alexandre Ribondi, Júlia da Rosa Simões e Ivo Barroso, Coleção Rebeldes & Malditos, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), nascido em Charleville França, foi poeta do simbolismo francês, recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandona a literatura e retoma a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Rimbaud: Delírios II — Alquimia do Verbo [excerto]

UMA TEMPORADA NO INFERNO SEGUIDO DE CORRESPONDÊNCIA - Arthur ...
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

               Para mim. A história das minhas loucuras.
               Há muito me gabava de possuir todas as paisagens possíveis, e julgava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia moderna.
               Gostava das pinturas idiotas, em portas, decorações, telas circenses, placas, iluminuras populares; a literatura fora de moda, o latim da igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossos antepassados, contos de fadas, pequenos livros infantis, velhas óperas, estribilhos ingênuos, ritmos ingênuos.
               Sonhava com as cruzadas, viagens de descobertas de que não existem relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião esmagadas, revoluções de costumes, deslocamentos de raças e continentes: acreditava em todas as magias.
               Inventava a cor das vogais!  A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde. Regulava a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, me vangloriava de ter inventado um verbo poético acessível, um dia ou outro, a todos os sentidos. Era comigo traduzi-los.
               Foi primeiro um experimento. Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.

Longe dos pássaros, do gato, dos campônios,
O que eu bebia, de joelhos no gramado,
Entre os doces troncos das aveleiras,
Na névoa quente e verde da tarde?

Que podia beber no juvenil Oise
 Olmos sem voz, grama sem flores, céu coberto! 
Das cabaças amarelas, longe da minha choupana
Querida? Algum álcool dourado, de suar.

Fazia uma torta tabuleta de albergue.
 Uma tormenta vem tapar o céu. À noite,
A água das árvores se perdia nas areias virgens,
O vento de Deus jogava granizos nos banhados;

Chorando, via o ouro  e não pude beber.

No verão às quatro da manhã
O sono do amor ainda dura.
Sob o arvoredo se evapora
             O odor da noite de festa.

Ali, na vasta cocheira,
Das Hespérides* ao sol,
Já, em mangas de camisa,
                          Se movem os Carpinteiros.

Em seus Desertos de seiva, tranqüilos,
Preparam os belos painéis
                          em que a cidade terá
             seus falsos céus.

Aos atraentes operários,
Súditos de um rei da Babilônia,
Vênus deixa um instante os Amantes
             Coroada por suas almas.

             Ó Rainha dos Pastores,
Traz a aguardente aos que trabalham,
Para manter-lhes as forças até o banho
Do meio-dia no mar.

( . . . )
Uma Temporada no Inferno — 1873

Arthur Rimbaud | Carrilho, Fotos e Literatura
Rimbaud

               Delires II — Alchimie du Verbe

               À moi. L’histoire d’une de mes folies.
               Depuis longtemps je me vantais de posséder tous les paysages possibles, et trouvais dérisoires les célébrités de la peinture et de la poésie moderne.
               J’aimais les peintures idiotes, dessus des portes, décors, toiles de saltimbanques, enseignes, enluminures populaires ; la littérature démodée, latin d’église, livres érotiques sans orthographe, romans de nos aïeules, contes de fées, petits livres de l’enfance, opéras vieux, refrains niais, rythmes naïfs.
               Je rêvais croisades, voyages de découvertes dont on n’a pas de relations, républiques sans histoires, guerres de religion étouffées, révolutions de meurs, déplacements de races et de continents : je croyais à tous les enchantements.
               J’inventai la couleur des voyelles ! — A noir, E blanc, I rouge, O bleu, U vert. — Je réglai la forme et le mouvement de chaque consonne, et, avec des rythmes instinctifs, je me flattai d’inventer un verbe poétique accessible, un jour ou l’autre, à tous les sens. Je réservais la traduction.
               Ce fut d’abord une étude. J’écrivais des silences, des nuits, je notais l’inexprimable, je fixais des vertiges.

Loin des oiseaux, des troupeaux, des villageoises,
Que buvais-je, à genoux dans cette bruyère
Entourée de tendres bois de noisetiers,
Dans un brouillard d’après-midi tiède et vert?

Que pouvais-je boire dans cette jeune Oise,
— Ormeaux sans voix, gazon sans fleurs, ciel couvert! —
Boire à ces gourdes jaunes, loin de ma case
Chérie? Quelque liqueur d’or qui fait suer.

Je faisais une louche enseigne d’auberge.
— Un orage vint chasser le ciel. Au soir
L’eau des bois se perdait sur les sables vierges,
Le vent de Dieu jetait des glaçons aux mares;

Pleurant, je voyais de l’or — et ne pus boire. —

A quatre heures du matin, l’été,
Le sommeil d’amour dure encore.
Sous les bocages s’évapore
             L’odeur du soir fêté.

Là-bas, dans leur vaste chantier
Au soleil des Hespérides,
Déjà s’agitent — en bras de chemise —
                          Les Charpentiers.

Dans leurs Déserts de mousse, tranquilles,
Ils préparent les lambris précieux
                          Où la ville
             Peindra de faux cieux.

Ô, pour ces Ouvriers charmants
Sujets d’un roi de Babylone,
Vénus! quitte un instant les Amants
             Dont l’âme est en couronne.

             Ô Reine des Bergers,
Porte aux travailleurs l’eau-de-vie,
Que leurs forces soient en paix
En attendant le bain dans la mer à midi.

( . . . )
Une saison en enfer — 1873

* Nota do Tradutor: as três filhas de Atlas. Tinham um jardim que dava frutos de ouro sob a guarda de um dragão de cem cabeças. Hércules, no décimo primeiro de seus doze trabalhos, mata o dragão e pega os frutos.
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Rimbaud — Uma temporada no inferno (edição bilíngue) seguido de Correspondência (Cartas familiares, Correspondência com Verlaine, Agonia em Marselha, Cartas da África), Edição, Introdução e Notas de Ivan Pinheiro Machado e Tradução de Paulo Hecker Filho, Alexandre Ribondi, Júlia da Rosa Simões e Ivo Barroso, Coleção Rebeldes & Malditos, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), nascido em Charleville França, foi poeta do simbolismo francês, recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandona a literatura e retoma a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.

sábado, 2 de março de 2019

Rimbaud: O clarão

UMA TEMPORADA NO INFERNO SEGUIDO DE CORRESPONDÊNCIA - Arthur ...
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

                    O trabalho humano! é a explosão que ilumina meu abismo de tempos em tempos.
                    “Nada é vaidade; à ciência, e avante!” clama o Eclesiastes moderno, isto é, Todo mundo. E no entanto os cadáveres dos maus e dos mandriões tombam sobre o coração dos outros... Ah! se apresse, se apresse um pouco; lá, além da noite, as recompensas futuras, eternas... Escapamos delas?...
                     O que posso? Conheço o trabalho; e a ciência é lenta demais. Que a prece galopa e a luz pulsa... vejo bem. É simples, quente demais; podem passar sem mim. Tenho meu dever, e o orgulho de o pôr de lado, como tantos outros.
                    Minha vida está gasta. Vamos! finjamos, preguicemos, ó piedade! E existiremos nos distraindo, sonhando amores prodigiosos e universos fantásticos, nos queixando e discutindo as aparências do mundo, saltimbanco, mendigo, artista, bandido  podre! Na minha cama no hospital, o odor do incenso me voltou tão poderoso; guardador dos aromas sagrados, confessor, mártir...
                    Nisso reconheço minha má educação na infância. Mas quê!... Andar meus vinte anos, se os outros andam os seus...
                    Não! Não! no momento me revolto contra a morte! O trabalho me parece leve demais ao meu orgulho; minha traição ao mundo seria um suplício demasiado breve. No último instante, acometeria à direita, à esquerda...
                    Então  oh!  querida alminha, a eternidade estaria perdida para nós!

Uma temporada no inferno — 1873

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Arthur Rimbaud

                  L'Éclair

                    Le travail humain! c'est l'explosion qui éclaire mon abîme de temps en temps.
                    "Rien n'est vanité; à la science, et en avant!" crie l'Ecclésiaste moderne, c'est-à-dire Tout le monde. Et pourtant les cadavres des méchants et des fainéants tombent sur le cœur des autres... Ah! vite, vite un peu; là-bas, par-delà la nuit, ces récompenses futures, éternelles... les échappons-nous?...
                     Qu'y puis-je? Je connais le travail; et la science est trop lente. Que la prière galope et que la lumière gronde... je le vois bien. C'est trop simple, et il fait trop chaud; on se passera de moi. J'ai mon devoir, j'en serai fier à la façon de plusieurs, en le mettant de côté.
                    Ma vie est usée. Allons! feignons, fainéantons, ô pitié! Et nous existerons en nous amusant, en rêvant amours monstres et univers fantastiques, en nous plaignant et en querellant les apparences du monde, saltimbanque, mendiant, artiste, bandit,  prêtre! Sur mon lit d'hôpital, l'odeur de l'encens m'est revenue si puissante; gardien des aromates sacrés, confesseur, martyr...
                    Je reconnais là ma sale éducation d'enfance. Puis quoi!... Aller mes vingt ans, si les autres vont vingt ans...
                    Non! non! à présent je me révolte contre la mort! Le travail paraît trop léger à mon orgueil: ma trahison au monde serait un supplice trop court. Au dernier moment, j'attaquerais à droite, à gauche...
                    Alors,  oh!  chère pauvre âme, l'éternité serait-elle pas perdue pour nous!

Une saison en enfer — 1873
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Rimbaud  Uma temporada no inferno (edição bilíngue) seguido de Correspondência (Cartas familiares, Correspondência com Verlaine, Agonia em Marselha, Cartas da África), Edição, Introdução, e notas de Ivan Pinheiro Machado e Tradução de Paulo Hecker Filho, Alexandre Ribondi, Júlia da Rosa Simões e Ivo Barroso, Coleção Rebeldes & Malditos, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre  RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 — 1891), nascido em Charleville  França, foi poeta do simbolismo francês, recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandona a literatura e retoma a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém, escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.