Mostrando postagens com marcador Rodolfo Witzig Guttilla. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rodolfo Witzig Guttilla. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Helena Kolody: dois haicais

____________________

RESSONÂNCIA

Bate breve o gongo
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.


OS TRISTES

Em seus caramujos
os tristes sonham silêncios.
Que ausência os habita?



____________________
Boa companhia — haicai (diversos poetas), Organização, Seleção e Introdução de Rodolfo Witzig Guttilla, 2009, primeira reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; a poetisa Helena Kolody (1912 2004), paranaense de Cruz Machado, começou a escrever jovem e, em 1930, já em Curitiba, teve seus poemas publicados em jornais e revistas; professora, lecionou na Escola Normal de Curitiba (Instituto de Educação); publicou Paisagem Interior (1941), Música Submersa (1945), A Sombra no Rio (1951), Vida Breve (1965), Era Espacial e Trilha Sonora (1966), Tempo (1970), Infinito Presente (1980), Sempre Palavra (1985), Poesia Mínima (1986), Ontem, Agora (1991), Reika (1993), Caixinha de Música (1996), além de reedições e coletâneas; em 1992 foi homenageada pelo cineasta Sylvio Back com o filme Babel de Luz, vencedor dos prêmios de melhor curta-metragem e melhor montagem no 25º Festival de Brasília.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

José Paulo Paes: À Bengala & outros haicais

____________________

À BENGALA

Contigo me faço
pastor do rebanho
de meus próprios passos.


TEORIA DA RELATIVIDADE

devagar se vai longe
mais perto de deus o ateu
do que o monge


CRONOLOGIA

AC
DC
WC


LAR

espaço que separa
o volkswagen
da televisão


APOCALIPSE

o dia em que cada
habitante da China
tiver o seu volkswagen

Resultado de imagem para josé paulo paes
____________________
Boa companhia — haicai (diversos poetas), Organização, Seleção e Introdução de Rodolfo Witzig Guttilla, 2009, primeira reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 — 1948),  dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; escreveu e publicou: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Ovídio, Níkos Kazantzákis, entre tantos outros; foi laureado com diversos prêmios literários, nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Lêdo Ivo: Dia a Dia & outros haicais

____________________
DIA A DIA

Noite? Manhã? Tarde?
O meu dia é eterno
sem nenhum alarde.


NO MEIO DA RUA

Exilado na multidão
sou silêncio e segredo, e venho
quando os outros vão.


A CAMA

Amor silencioso!
Só a cama gemia,
parceira insaciável.


A VERDADE DA NOITE

No copo d’água
a dentadura postiça:
o riso no aquário.


ESCONDERIJO

A palavra-chave
sempre se esconde
atrás da porta.

____________________
Boa companhia — haicai (diversos poetas), Organização, Seleção e Introdução de Rodolfo Witzig Guttilla, 2009, primeira reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Lêdo Ivo (1924  2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; produção literária: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Cyro Armando Catta Preta: haicais

____________________
LIBERTAÇÃO

A vizinha voou...
Avezinha bem velhinha,
desengaiolou...



DESOLAÇÃO

Fim de estrada. Só.
Sem espaço para os passos.
Adiante e atrás: pó.


CYRO ARMANDO CATTA PRETA
____________________
Boa companhia — haicai (diversos poetas), Organização, Seleção e Introdução de Rodolfo Witzig Guttilla, 2009, primeira reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Cyro Armando Catta Preta, (1922 2010), paulista de Orlândia, foi advogado, jornalista, professor, escritor e poeta; como haicaista está incluído nas antologias Cem Haicaistas Brasileiros e Antologia do Haicai Latino Americano (publicadas pela Aliança Cultural Brasil-Japão), e antologia "Frogpond" (publicada pela "Haiku" Society of America, New York); obra poética: Areia Dourada (1956), Moto-Perpétuo (1963), Ao Redor da Mesa, Enigma-Estigma, Veredas Auriverdes, Moenda dos Olhos (haicais, 1986), Palhas do Tempo (haicais), Frestas (haicais, 1996), Querença e outros títulos.

Abel Pereira: Norte verdadeiro & outros haicais

____________________
NORTE VERDADEIRO

Traço o rumo à frente
de alguém que me segue bem
paralelamente.


A MOENDA

Na dureza insana,
girando, range esmagando
toda a alma da cana.


O OCASO

No rio profundo
o sol parece outro sol
a emergir do fundo.


Um grão bem miúdo...
Um nada à margem da estrada...
Um nada que é tudo.


Poucos vaga-lumes,
e a costureira não pôde
enfiar a agulha.


Ai, dos vaga-lumes!
Eles são muitos, e minha
horta é pequena!

____________________
Boa companhia  haicai (diversos poetas), Organização, Seleção e Introdução de Rodolfo Witzig Guttilla, 2009, primeira reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo  SP; Abel Silva Pereira (1908 2006), baiano de Ilhéus, foi poeta haicaísta e jornalista; publicou Colheita (1957), Poesia até Ontem (1977), Mármore Partido (1989) e Vagaluminosos poesia haikais (1989); colaborou com vários periódicos e foi membro participante de diversas instituições e associações culturais e literárias.