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Para o Santa Rita Júnior
A luz daquele olhar que eu canto no meu verso,
Daquele olhar sombrio, olhar triste, aziago,
Andar doente faz-me, andar soturno, imerso
Da mais austera dor no funerário lago.
Daquele olhar tristonho, olhar que eu amo e afago,
A luz mortiça e calma o riso faz inverso...
Faz-me o cálix sorver do amargor, trago a trago,
Do amargor mais cruel que existe no Universo...
Aquele olhar, silente, olhar duns negros olhos,
Banha-me da tristeza atroz do cemitério
E me enche do terror que infunde um mar de escolhos...
Tem-me feito sofrer e me fará, magoado,
Descer à sepultura, ao badalar funéreo
Dos sinos duma igreja em dobres de finado!...
Bahia — 1902.
(Necrotério d’Alma, 2ª edição, pág. 11, Curitiba, 1953.)
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Panorama da Poesia Brasileira,
Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira,
Rio de Janeiro — RJ; Cícero Marcondes de França (1884 — 1908), paranaense nascido
em Fazendinha, hoje Fazenda Rosal do Cruzeiro, município de Palmas — PR, estudou
no Colégio Paranaense, consta ter frequentado as Faculdades de Direito de São Paulo,
Rio de Janeiro e Bahia, mas não chegou a concluir o curso, foi poeta do simbolismo;
ainda estudante colegial, escreveu seus primeiros versos e os publicou n’O Estudo,
periódico cultural do Colégio; em 1905, já acometido da tuberculose e debilitado
há algum tempo, em Curitiba, organizou e lançou o livro Necrotério d’Alma (obra
composta por 26 sonetos) e, em União da Vitória, fundou o jornal O Rebate; ainda
em 1905, a revista simbolista Stellario, de Curitiba, contou com a colaboração do
poeta; consta das escassas notícias e notas biográficas a respeito de Cícero França
que, em 1908, já tendo se afastado dos estudos e bastante enfraquecido, o poeta,
acompanhado de seu irmão caçula Vespertino França, de doze anos de idade, em viagem
de Curitiba com destino a Porto União, na passagem por Ponta Grossa hospedou-se
no Hotel Palermo e ali faleceu na noite de 10 de julho; o relato de seu irmão é
que conversaram até quase de madrugada e foram dormir: Vespertino, a testemunha
do fato, foi a última e “a única pessoa presente nas suas derradeiras horas de vida”
e a primeira pessoa que viu o corpo na manhã do dia seguinte; a obra Necrotério
d’Alma, que teve uma segunda edição em 1953 (acrescida de Pedras Brutas, póstumo,
incluindo outros 27 sonetos), nos revela o poeta simbolista e decadentista e assim
também Cícero França é consignado quando citado por estudos e antologias literárias
do simbolismo.