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domingo, 23 de outubro de 2022

R. J. Hollingdale: O universitário [trecho cap. 3 de Nietzsche, uma biografia]

 
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[traduzido por Maria Luisa de Abreu Lima Paz]

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É também graças a [Paul Jakob] Deussen [1845 1919] que sabemos de um incidente, em fevereiro de 1865, que ganhou certa notoriedade e tem importância em qualquer consideração sobre a posterior insanidade de Nietzsche. Segundo afirma, Nietzsche lhe contou que viajara sozinho a Colônia; um cocheiro o conduziu num passeio pela cidade e, por fim, ele pediu que o levasse a um bom restaurante. Segundo afirma, Nietzsche lhe contou que viajara sozinho a Colônia; um cocheiro o conduziu num passeio pela cidade e, por fim, ele pediu que o levasse a um bom restaurante. Em vez disso, foi levado para um bordel. “De repente me vi rodeado por meia dúzia de figuras com lantejoulas e véus, que me olhavam com expectativa”, dizia Nietzsche. “Fiquei mudo por um instante. Depois, fui instintivamente até um piano que havia na sala como se fosse o único ser vivo ali e toquei alguns acordes. Eles quebraram o encanto e saí correndo.” Na opinião de Deussen, este incidente foi singular na vida de Nietzsche e as palavras mulieram nunquam attigit poderiam se aplicar a ele. Já não se pode concordar com isso, pois temos hoje evidências das quais Deussen não dispunha quando escreveu. É praticamente certo que a doença que vitimou Nietzsche foi uma demência paralítica; isso significa que certamente deve ter contraído sífilis, e a maioria dos que estudam sua vida concorda que ele a contraiu, provavelmente na juventude. [Clarence] Crane Brinton [1898 1968] afirma: “O fato de Nietzsche ter mesmo tido sífilis pode ser considerado comprovado (até onde uma coisa do tipo pode ser comprovada)”; Walter [Arnold] Kaufmann [1921 1980] é mais cauteloso ao afirmar: “Tudo que podemos dizer e todos os tratados médicos sérios e não sensacionalistas sobre o assunto parecem concordar com isto Nietzsche muito provavelmente contraiu sífilis.”. Richard Blunck [1895 1962] reproduz evidências a partir das quais é impossível duvidar de que Nietzsche tenha se tratado de uma infecção sifilítica com dois médicos de Leipzig durante o ano de 1867, embora talvez não tenha sido informado quanto à natureza de sua enfermidade. Como a contraiu ainda é uma questão estritamente especulativa, embora não seja muito difícil deduzir: um jovem na situação de Nietzsche dificilmente teria entrado em contato com a doença em outro lugar que não um bordel. H. W. Brann [ ? ? ] sugere que o poema “Die Wüste wächst” inserido na quarta parte de Zaratustra é uma reminiscência de uma visita a um bordel, baseando sua sugestão em alguns ecos no poema das palavras usadas por Nietzsche para descrever a Deussen sua experiência de fevereiro de 1865; Thomas Mann [1875 1955] supõe que, depois de ter sido levado a um deles contra sua vontade, tenha retornado voluntariamente. Seja como for, as evidências existentes descartam qualquer necessidade de acreditar que Nietsche herdou a insanidade de seu pai e que, portanto, “sempre foi louco”. Pois seu destino estava longe de ser incomum. A sífilis não tinha cura e, por isso, em geral o paciente não era informado de que a contraíra: a consequência era uma vida pontuada de acessos cada vez mais graves de uma “doença misteriosa” que muitas vezes terminava em loucura e morte prematura. Já foi sugerido que Nietzsche possa ter contraído sífilis quando trabalhou como enfermeiro na Guerra Franco-Prussiana, mas a partir das evidências apresentadas por Blunck de que já se tratara da doença em 1867. Torna-se impossível que a tivesse contraído apenas em 1870 e improvável que viesse a ter contato com ela de alguma outra forma que não esta apenas sugerida.

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R. J. Hollingdale
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Nietzsche — uma biografia: R. J. Hollingdale, Tradução de Maria Luisa de Abreu Lima Paz e Prefácio da edição revisada de Little Venice, 1ª edição, 2015, Edipro, São Paulo — SP; Reginald John “RJ” Hollingdale (1930 2001), britânico nascido em Streatham, distrito londrino, Inglaterra, autodidata, aos 16 anos abandonou a Bec Grammar School, Totting, tornou-se jornalista, foi biógrafo e tradutor de filosofia e literatura alemã; trabalhou em um jornal de Croydon, bairro londrino, foi subeditor no The Guardian e crítico no The Times Literary Supplement; mesmo sem formação universitária foi eleito presidente de uma sociedade acadêmica e atuou como professor visitante na University of Melbourne, Australia; suas obras: Nietzsche: The Man and his Philosophy (Nietzsche: O homem e sua filosofia,biografia, 1965 e edição revisada, 1999), Thomas Mann: A Critical Study (biografia, 1973), A Nietzsche Reader (1978), Western Philosophy: An Introduction (1994) ...; traduziu Essays and Aphorisms, selections from Parerga and Paralipomena, by Arthur Schopenhauer (1973), Electives Affinities, by Goethe (1978), Tales of Hoffmann, by E. T. A. Hoffmann (1982), Aphorisms, by Georg Christoph Lichtenberg (1990), além de várias obras de Nietzsche.