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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]
Safadeza na cozinha!
As batatas sibilam.
Isso é Hollywood, sem janelas,
A luz fluorescente oscila como
uma enxaqueca terrível.
Nas portas, tiras de papel —
Cortinas de teatro, o cabelo
crespo da viúva.
E eu, Amor, sou uma mentirosa
patológica,
E minha filha — olhe só pra
ela, de cara no assoalho,
Fantoche sem cordas, tremendo
até sumir —
Como é esquizofrênica,
Sua cara corada e pálida, em
pânico:
Você botou os gatos dela pra
fora da janela
Numa caixa com areia
Onde podem vomitar e cagar e
miar sem que ela possa ouvir.
Você diz que não suporta mais,
A putinha.
Você queimou suas válvulas
como um rádio velho
Limpo de vozes e história, o
ruído novo
Da estática.
Você diz que eu afogaria os
gatinhos. Que fedor!
Você diz que eu afogaria minha
filha.
Ela vai cortar a garganta aos
dez se não pirar aos dois.
O sorriso do bebê, lesma
obesa,
Nos losangos lustrados de linóleo
laranja.
Você podia comê-lo. É um
menino.
Você diz que seu marido não é
bom pra você.
Sua mãe judia vigia seu sexo
como jóia.
Você tem um bebê, eu tenho
dois.
Eu bem podia me sentar numa
rocha e me pentear.
Podia usar colã de tigresa e
ter um affair.
A gente bem que podia se ver
na outra vida, se ver no ar,
Só eu e você.
Porém há um cheiro de banha e
cocô de bebê.
Estou dopada e enjoada depois
do último sonífero.
Fumaça de cozinha, fumaça
infernal
Nos sobrevoa, rivais
venenosas,
Nossos ossos, nossos pêlos.
Te xingo de Órfã, órfã. Você
esta doente.
O sol te dá úlcera, o vento,
tuberculose.
Um dia você foi bonita.
Em Nova York, em Hollywood, os
homens te diziam: "Acabou?
Gata, você é demais!".
Você servia, servia, servia
pro papel.
E o marido brocha sai pra
tomar um café.
Tento segurá-lo, não saio,
Relâmpago para um velho
pára-raio,
Os banhos ácidos, um céu
inteiro cheio de você.
Ele despenca da colina de
plástico,
Trem desgovernado. Faíscas
azuis se espalham,
Trincando como quartzo em
milhões de pedacinhos.
O jóia! Ó valiosa!
Naquela noite a lua
Arrastou seu saco de sangue,
animal
Doente
Por sobre as luzes do cais.
Então voltava ao crescente,
Dura, branca e ausente.
Na areia o brilho das escamas
me matava de medo.
A gente as apanhava aos
montes, curtindo,
Modelando-as como massa, um
corpo mulato,
Grãos de seda.
Um cachorro pegou seu marido
cachorro. E se mandou.
Agora estou quieta, ódio
Até o pescoço,
Grosso, grosso.
Não falo nisso.
Empacoto batatas como roupas
finas,
Empacoto os bebês,
Empacoto os gatos doentes.
Oh, ampola de ácido,
É de amor que você esta cheia.
Você sabe quem você odeia.
Ele ruge e arrasta as
correntes pelo portão
Que se abre pro mar
Onde ele invade, preto e
branco,
E o vomita de volta.
Você o enche com seus papos
profundos, como um jarro.
Você está um trapo.
Sua voz, meu brinco,
Voa e suga, morcego que ama
sangue.
Isso é isso. Aquilo é aquilo.
Você escuta atrás da porta,
Bruxa triste. "Toda
mulher é uma puta.
Não consigo dialogar."
Vejo seu fino décor
Te fechando como o punho de um
bebê
Ou uma anêmona, esse mar,
Meu bem, cleptomaníaco.
Ainda estou crua.
Quem sabe um dia eu vou
voltar.
Você sabe pra que servem as
mentiras.
Nem no seu paraíso Zen a gente
vai se cruzar.
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| Sylvia Plath |
Lesbos
Viciousness in the kitchen!
The potatoes hiss.
It is all Hollywood,
windowless,
The fluorescent light wincing
on and off like a terrible migraine,
Coy paper strips for doors —
Stage curtains, a widow’s
frizz.
And I, love, am a pathological
liar,
And my child — look at her,
face down on the floor,
Little unstrung puppet,
kicking to disappear —
Why she is schizophrenic,
Her face is red and white, a
panic,
You have stuck her kittens
outside your window
In a sort of cement well
Where they crap and puke and
cry and she can’t hear.
You say you can’t stand her,
The bastard’s a girl.
You who have blown your tubes
like a bad radio
Clear of voices and history,
the staticky
Noise of the new.
You say I should drown the
kittens. Their smell!
You say I should drown my
girl.
She’ll cut her throat at ten
if she’s mad at two.
The baby smiles, fat snail,
From the polished lozenges of
orange linoleum.
You could eat him. He’s a boy.
You say your husband is just
no good to you.
His Jew-Mama guards his sweet
sex like a pearl.
You have one baby, I have two.
I should sit on a rock off Cornwall
and comb my hair.
I should wear tiger pants, I
should have an affair.
We should meet in another
life, we should meet in air,
Me and you.
Meanwhile there’s a stink of
fat and baby crap.
I’m doped and thick from my
last sleeping pill.
The smog of cooking, the smog
of hell
Floats our heads, two venemous
opposites,
Our bones, our hair.
I call you Orphan, orphan. You
are ill.
The sun gives you ulcers, the
wind gives you T. B.
Once you were beautiful.
In New York, in Hollywood, the
men said: 'Through?
Gee baby, you are rare.'
You acted, acted for the
thrill.
The impotent husband slumps
out for a coffee.
I try to keep him in,
An old pole for the lightning,
The acid baths, the skyfuls
off of you.
He lumps it down the plastic
cobbled hill,
Flogged trolley. The sparks
are blue.
The blue sparks spill,
Splitting like quartz into a
million bits.
O jewel! O valuable!
That night the moon
Dragged its blood bag, sick
Animal
Up over the harbor lights.
And then grew normal,
Hard and apart and white.
The scale-sheen on the sand
scared me to death.
We kept picking up handfuls,
loving it,
Working it like dough, a
mulatto body,
The silk grits.
A dog picked up your doggy
husband. He went on.
Now I am silent, hate
Up to my neck,
Thick, thick.
I do not speak.
I am packing the hard potatoes
like good clothes,
I am packing the babies,
I am packing the sick cats.
O vase of acid,
It is love you are full of.
You know who you hate.
He is hugging his ball and
chain down by the gate
That opens to the sea
Where it drives in, white and black,
Then spews it back.
Every day you fill him with
soul-stuff, like a pitcher.
You are so exhausted.
Your voice my ear-ring,
Flapping and sucking,
blood-loving bat.
That is that. That is that.
You peer from the door,
Sad hag. 'Every woman’s a
whore.
I can’t communicate.'
I see your cute décor
Close on you like the fist of
a baby
Or an anemone, that sea
Sweetheart, that kleptomaniac.
I am still raw.
I say I may be back.
You know what lies are for.
Even in your Zen heaven we
shan’t meet.
18 October 1962
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas
de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão,
2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 — 1963),
estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no
Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista
e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em
1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo
Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou
sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em
jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric, Grecourt Review,
Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic
Monthly e Encounter; desde 1956 viveu na Inglaterra após se casar com o
britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems
(1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de
Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The
Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos;
Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em
1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta,
que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental,
concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.