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sábado, 24 de agosto de 2024

Tove Ditlevsen: O trio eterno


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[traduzido por José Paulo Paes]

Há dois homens neste mundo
que cruzam sempre a minha estrada;
um é aquele a quem amo,
o outro, por quem sou amada.

Um está nos sonhos que à noite
me enchem de sombras a mente;
à porta do meu coração,
bate o outro inutilmente.

Um me deu primaveril
ventura logo consumida;
sem nada ganhar em troca,
o outro me deu sua vida.

Um canta no sangue, onde o amor
é puro, livre, risonho;
o outro une-se ao dia triste
onde se afogam os sonhos.

entre os dois, tão pura e amada
é toda mulher que talvez
ocorra a cada cem anos
num só se fundirem os três.

Tove Ditlevsen

De evige tre

Der er to mænd i verden, der
bestandig krydser min vej;
den ene er ham jeg elsker,
den anden elsker mig.

Den ene er i en natlig drøm
der bor i mit mørke sind,
den anden står ved mit hjertes dør,
jeg lukker ham aldrig ind.

Den ene gav mig et vårligt pust
af lykke, der snart fo'r hen,
den anden gav mig sit hele liv
og fik aldrig en time igen.

Den ene bruser i blodets sang,
hvor elskov er ren og fri,
den anden er eet med den triste dag,
drømmene drukner i.

Hver kvinde står mellem disse to,
forelsket, elsket og ren
een gang hvert hundrede år kan det ske,
de smelter sammen til een.
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Quinze Poetas Dinamarqueses, edição bilíngue, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de Jorge H. Wolff, Coleção Poesia Traduzida, Volume II, 1997, Letras Contemporâneas, Florianópolis — SC; Tove Irma Margit Ditlevsen (1918 1976), dinamarquesa de Copenhague, nascida no bairro Vesterbro, em ambiente de extrema pobreza e problemas sociais por que passava a classe trabalhadora, recebeu pouca educação escolar formal e, autodidata, tornou-se escritora, romancista, contista, memorialista e poeta; sua escrita transitou “entre o autobiográfico e o ficcional, com foco na ansiedade e na dor, na criança queimada e nos problemas psicológicos dos adultos”; teve seu primeiro poema publicado no Vild Invede, jornal editado por Viggo F. Møller, seu marido à época; em 1939, publicou Pigesind, sua coleção de poesias de estréia na literatura; suas obras: Pigesind (poesias, 1939), Man did et barn træð (romance, 1941), Lille verden (poesias, 1942), Barndommens gade (romance, 1943), Den fulde frihed (contos, 1944), Dommeren (contos, 1948), Paraplyen (contos, 1952), Kvindesind (poesias, 1955), Annelise — tretten år (literatura infantil, 1959), Hva nå, Annelise? (literatura infantil, 1960), Den hemmelige rude (poesias, 1961), Den onde lykke (contos, 1963), Ansigterne (romance, 1968), De voksne (poesias, 1969), Det tidlige forår — erindringene Barndom og Ungdom (memórias, Infância e Juventude, 2 volumes, 1969), Gift (memória, Dependência, 1971), Vilhelms værelse (romance, 1975) e outros títulos; a poeta, já adulta, viveu adoecida, tratou de ansiedade, foi internada mais de uma vez em hospitais psiquiátricos, foi medicada e viciou-se em drogas até o fim da vida, suicidando-se entre os dias 4 e 7 de março de 1976 devido overdose de comprimidos para dormir, tendo sido encontrada em 8 de março; já havia tentado o suicídio dois anos antes; suas obras e sua vida inspiraram musicistas, tornaram-se performance teatral, foram transportadas para o cinema, caso do filme Barndommens gade (1986), baseado no romance de igual nome; além de autora, Ditlevsen foi editora da coluna de cartas [caixa do correio] na revista Famile Journalen; premiações: Emil Aarestrup-medaljen (1954), Undervisningsministeriets (prêmio do Livro Infantil, 1959), Søren Gyldendal-prisen (1971) ...; hoje a poeta faz parte da lista de autores canônicos daneses e compõe o rol das leituras obrigatórias na escola primária; seus três livros de memórias, Barndom, Ungdom e Gift, também são conhecidos como Trilogia de Copenhagen: Infância, Juventude e Dependência.

domingo, 7 de julho de 2024

Tove Ditlevsen: Noite de verão

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

Olhos despertos como os de um animal em prontidão,
Copenhague estira-se ante as estrias azuis da alvorada;
torres finas se erguem para as brancas nuvens de verão,
a água brilha e ondeia entre os barcos de proas levantadas.

Eu e tu, tu e eu, eis tudo: o resto do mundo é zero.
Se queres saber quem sou, pergunta às ondas verdes do mar.
Irresponsável como elas, eu nunca sei o que quero.
A noite é boa, cálida, e o pecado, que pode importar?

Fica em total silêncio, a cidade está bem perto de mim.
Na brisa de Langelinge a voz de minha mãe ressoa.
Minha alma, carícia da noite, envolve as árvores. Sou, sim,
 e nunca mais vais esquecê-lo a um só tempo má e boa.

Beija a minha boca e diz-me o que meu coração procura.
Quando rio ou choro, é como se ondas estivessem batendo
contra um negro branco crês seja de amor, porventura?
Percebes o que estás ganhando agora e o que estarás perdendo?

Guardamos silêncio: tudo é jogo, sonho, nevoeiro.
Ergo a fronte para a bétula, que tem alvuras de arminho.
És jovem e feliz, e as trevas te envolvem por inteiro,
mas Deus e eu podemos ver como estás só, como estás sozinho.

Tove Ditlevsen

Sommernat

København har vågne øjne, som et vagtsomt dyr,
strækker sig mod morgengryets første, solblå stribe,
slanke tårne rankes imod hvide sommerskyr,
vandet vugger blankt og blidt on havnens høje skibe.

Du og jeg, jeg og du, ingenting er til
vil du vide hvem jeg er, sa spørg de grønne bølger;
jeg er ansvarsløs som de, ved aldrig hvad jeg vil.
Natten er så god og varm, og synd har ingen følger.

Du skal tie ganske stille, byen er mig nær,
Langelinjes saltvandsbrise er min moders stemme,
og min sjæl er nattens kærtegn om de unge trær,
jeg er god og ond og den du aldrig mer kan glemme.

Kys min mund og lær mig hvad det er mit hjerte vil.
Når jeg ler og græder, er det bølgerne der brister
mod de sorte skibe tror du kærlighed er til?
Ved du hvad du vinder nu og ved du hvad du mister?

Ganske stille står vi, alt er tåge, drøm og leg,
og jeg løfter panden mod de hvide birkegrene.
Du er lykkelig og ung, og mørket skjuler dig,
så kun Gud og jeg kan se, at du er helt alene.
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Quinze Poetas Dinamarqueses, edição bilíngue, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de Jorge H. Wolff, Coleção Poesia Traduzida, Volume II, 1997, Letras Contemporâneas, Florianópolis — SC; Tove Irma Margit Ditlevsen (1918 1976), dinamarquesa de Copenhague, nascida no bairro Vesterbro, em ambiente de extrema pobreza e problemas sociais por que passava a classe trabalhadora, recebeu pouca educação escolar formal e, autodidata, tornou-se escritora, romancista, contista, memorialista e poeta; sua escrita transitou “entre o autobiográfico e o ficcional, com foco na ansiedade e na dor, na criança queimada e nos problemas psicológicos dos adultos”; teve seu primeiro poema publicado no Vild Invede, jornal editado por Viggo F. Møller, seu marido à época; em 1939, publicou Pigesind, sua coleção de poesias de estréia na literatura; suas obras: Pigesind (poesias, 1939), Man did et barn træð (romance, 1941), Lille verden (poesias, 1942), Barndommens gade (romance, 1943), Den fulde frihed (contos, 1944), Dommeren (contos, 1948), Paraplyen (contos, 1952), Kvindesind (poesias, 1955), Annelise — tretten år (literatura infantil, 1959), Hva nå, Annelise? (literatura infantil, 1960), Den hemmelige rude (poesias, 1961), Den onde lykke (contos, 1963), Ansigterne (romance, 1968), De voksne (poesias, 1969), Det tidlige forår — erindringene Barndom og Ungdom (memórias, Infância e Juventude, 2 volumes, 1969), Gift (memória, Dependência, 1971), Vilhelms værelse (romance, 1975) e outros títulos; a poeta, já adulta, viveu adoecida, tratou de ansiedade, foi internada mais de uma vez em hospitais psiquiátricos, foi medicada e viciou-se em drogas até o fim da vida, suicidando-se entre os dias 4 e 7 de março de 1976 devido overdose de comprimidos para dormir, tendo sido encontrada em 8 de março; já havia tentado o suicídio dois anos antes; suas obras e sua vida inspiraram musicistas, tornaram-se performance teatral, foram transportadas para o cinema, caso do filme Barndommens gade (1986), baseado no romance de igual nome; além de autora, Ditlevsen foi editora da coluna de cartas [caixa do correio] na revista Famile Journalen; premiações: Emil Aarestrup-medaljen (1954), Undervisningsministeriets (prêmio do Livro Infantil, 1959), Søren Gyldendal-prisen (1971) ...; hoje a poeta faz parte da lista de autores canônicos daneses e compõe o rol das leituras obrigatórias na escola primária; seus três livros de memórias, Barndom, Ungdom e Gift, também são conhecidos como Trilogia de Copenhagen: Infância, Juventude e Dependência.

terça-feira, 25 de junho de 2024

Pia Juul: Romance


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[traduzido por José Paulo Paes]

Eu os faço acordar certa manhã numa grande casa de
quartos quase vazios. Não se ouve o roçagar dos lençóis
porque estão amaciados pelo uso.
Um dos dois é franzino
O outro não está nu é uma mulher
vestida com muitas camadas de roupa, de seda e algodão,
tule que pica, lã que coça, tudo em preto,
ela não quer tirá-las,
nunca as tira, mas ele a toca,
torna a tocá-la agora,
e ela suspira, encalorada
de tanta roupa,
não diz nada e o toca em resposta,
ele está deitado quase sob o seu flanco,
não é senão pele,
e assim deve ser, e assim é, e assim tem
sido a noite toda. Eu os deixo deitados onde acordaram,
podem ficar ali deitados, que fiquem, que a roupa dele
continue sumida, que as portas sejam trancadas, que eles fiquem
sempre
ali deitados, ela o contaminando com o seu calor, que
os quartos ecoem a toda volta os ruídos deles, que eles sejam.
Que eles sejam.

Pia Juul

Roman

Jeg lader dem vågne en morgen i et stort hus med
næsten tomme rum. Sengetøjet knitrer ikke
for det er brugt og blødt.
Den ene er tynd.
Den anden er ikke nøgen det er en kvinde,
hun er klædt i mange lag af stof, den er silke og bomuld,
tyll der stikker, uld der kradser, det er altsammen sort,
hun vil ikke tage det af,
hun tager det aldrig af, men han har rørt ved hende,
nu rører han ved hende igen,
og hun sukker, hun er varm,
der er så meget tøj
hun siger ingenting, hun rører tilbage,
han ligger næsten under hendes side,
han er ikke andet end hud,
og sådan skal det være, sådan har det
været hele natten. Jeg lader dem ligge hvor de er vågnet,
de kan blive liggende dér, lad dem ligge, lad hans tøj
være blevet borte, lad dørene være låst, lad dem altid
ligge der, lad hende være varm, lad det smitte ham, lad
rummene give ekko omkring deres lyde, lad dem være.
Lad dem være

[Poesi 93, publicação do festival internacional de poesia
de Copenhague de 1993]
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Quinze Poetas Dinamarqueses, edição bilíngue, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de Jorge H. Wolff, Coleção Poesia Traduzida, Volume II, 1997, Letras Contemporâneas, Florianópolis — SC; Pia Elisabeth Juul (1962 2020), dinamarquesa de Korsør, concluiu seus estudos secundários em 1981, no Hobro Gymnasium (do hoje município de Mariagerfjord), depois matriculou-se em estudos de Inglês na Universidade de Aarhus, logo desistiu, foi poeta, escritora de prosa, dramaturga e tradutora; a poeta foi co-editora da revista literária dinamarquesa Den Blå Port, professora na escola de redação Forfatterskolen, em Copenhague, e traduziu literatura, inglesa, americana e sueca; suas obras: levende og lukket (coleção de poemas, 1985), i brand måske (poemas, 1987), Forgjort (poemas, 1989), Skaden (romance, 1990), En død mands nys (poemas, 1993), Olsen (contos, 1996), Mit forfærdelige ansigt (contos, 2001), Gespenst & andre spil (drama, 2002), Lidt ligesom mig (livro infantil, 2004), Dengang med hunden (contos, 2005), Helt i skoven (poemas, 2005), På jagt (livro infantil, 2005), Mordet på Halland (romance, 2009), Radioteatret (poemas, 2010) e outros títulos; premiações: Aarestrup-medaljen (1994), Beatrice Prisen (da Academia dinamarquesa, 2000), Danske Banks Litteraturpris (pelo romance Mordet på Halland, 2009), Montanas Litteraturpris (pela coleção de poesias Radioteatret, 2010), etc.

domingo, 2 de junho de 2024

Tom Kristensen: O Ateu

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[traduzido por José Paulo Paes]

Ele fuma tranquilo seu cachimbo
enquanto sangra o dia no poente.
Sob o beiral das casas, vai seguindo
contra o vento da tarde. Então a gente
que por trás das janelas o vigia
vê que um clarão as faces lhe enrubesce.
Mas como pode estar em paz alguém
que nem mesmo ao seu próprio Deus conhece?

Um rosto acobreado de semita
com ideias de bordos aguçados.
Dedos sensíveis de amador de livros
em cima de um in-fólio amarelado.
Ele é visto a passear pelas vielas
quando os ruídos da cidade acalmam-se
e o azul do entardecer lento se vela.

Ei-lo que pára para encher de fumo
o cachimbo que traz na mão. A gente
que, segura, o espia das janelas,
divisa um homem culto mas silente
que, sob sol ou neve, como os astros,
segue tranquilo por caminhos seus.
Embora manso, é perigoso, pois
não reconhece absolutamente a Deus.

E a gente segura atrás das janelas
lhe teme o perfil de homem do deserto,
as sobrancelhas de viés, satânicas,
e o seu sorriso estranhamente aberto;
como se frios raios de cristal
lançados pelos mil prismas da vida
surgissem de entre  absurda claridade 
lábios e sobrancelhas soerguidas.

E a gente segura atrás das janelas
despreza-lhe o andar gingado, mas
receia os seus olhos gastos nos livros
e a ironia que o seu riso traz.
Crêem que a casa ante a qual ele pára,
para encher o cachimbo, foi marcada
pela morte: as janelas dessa casa
estarão amanhã cedo enlutadas.

E de novo eles martelam no piano
baixos e agudos popularizados
quando vêem sumir a capa dele,
o seu cachimbo e in-fólio amarelado;
foi-se o semita e a digna ordem burguesa
pode enfim fazer uma parada
como o capim que diante dos pés de Átila
tornou-se em palha seca e chamuscada.

E novamente à rua com beirais
é dado dormitar em lerdo idílio
e à gente segura atrás das janelas
passear sob os brancos alnos do estio.
e quando a tarde de junho põe-se atrás
dos murmurantes jardinzinhos seus,
os vizinhos, fumando nos cachimbos,
sentem-se todos em casa com Deus.

Tom Kristensen

Atheisten

Han ryger saa stille en Pibe,
naar Dagen forbløder i Vest.
I Læ af de gavlede Huse
han lunter for Aftens Blæst.
Og Folk, som spejder bag Ruden,
ser Gløden mod Ansigtets Hud.
Hvorledes kan han føle Hvile?
Han kender jo ikke til Gud.

Det mørke, semitiske Ansigt
med Tankens skarpt optrukne Kant.
De følende Bogelskerfingre
paa Vagt ved en gul Foliant
I sort og folderig Kappe
han se slangs med Stræderne gaa,
naar en Dæmper er lagt over Larmen,
og Aftenen lukker sig blaa.

Han dvæler med Piben i Haanden
og stopper Tobakken til Rand,
og Folk bag de sikrende Ruder
besér den kulturtyste Mand.
Med Ro som Stjernernes Bane
han vandrer i Sol som i Slud,
saa blid, men dog dirrende farlig:
han kender jo ikke til Gud.

Og Folk bag de sikrende Ruder
har Skræke for hans Ørken-Profil
med skæve, sataniske Bryn og
med underligt ridsende Smil;
thi Livets talrige Prismer
har sendt de krystalkolde Lyn,
som splintrer i meningsløs Klarhed
fra Læber of løftede Bryn.

Og Folk bag de sikrende Ruder
foragter hans luntende Gang
men frygter hans bogtrætte Øjne,
hans Latters ironiske Klang.
De tror, det Hus, hvor han standser
og stopper sin Pibe paany,
vil mærkes af Døden ag stirre
med sorgblanke Ruder ved Gry.

Nu klimprer de atter Piano
med folkelig Bas og Diskant;
de saa jo hans Kappe forsvinde
og Pibe og gul Foliant;
thi hvor Semitten har vandret,
gaar Borgerligheden i Staa,
som Græsset for Atillas Fødder
blev visne og afsvedne Straa.

Og atter den gravlede Gade
kan slumre i døsig Idyl,
og Folk bag de sikrende Ruder
gaa ud under sommerhvid Hyld.
Og Juniaftenen hælder
bag Smaahavers hviskende Skrud,
og Naboer ryger paa Pibe
og føler sig hjemme hos Gud.
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Quinze Poetas Dinamarqueses, edição bilíngue, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de Jorge H. Wolff, Coleção Poesia Traduzida, Volume II, 1997, Letras Contemporâneas, Florianópolis — SC; Tom Kristensen (1893 1974), nasceu em Londres Inglaterra, desde a infância viveu no interior de Copenhague Dinamarca, foi poeta, escritor, letrista, jornalista, tradutor, revisor e crítico literário; como crítico, escreveu para o Politiken, primeiro jornal dinamarquês de tendência socialista; suas obras: Fribytterdrømme (Os sonhos do pirata, coleção de poesia, 1920), Livets arabesk (poesia, 1921), En Anden (romance autobiográfico, 1923), Hærværk (romance, 1930), Aabenhjertige Fortielser (memórias, 1966) ...; o poeta traduziu Kafka, Joyce, D. H. Lawrence, Hemingway, T. S. Eliot, e outros, para o idioma danês, tornando-se o responsável pela divulgação de tais autores na Dinamarca; teve poemas musicados..

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Sophus Claussen: não desperteis os cisnes

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[traduzido por José Paulo Paes]

Meu assobio de primavera, venceu-o o alvoroço
dos patos no tanque. E os cisnes volveram seus pescoços.

Num roçagar de penas, mediram-me sem alarme
com olhares de viés, afetando suportar-me.

Só um veio vogando, de manso, para o meu lado:
se és amigo dos cisnes, deita-te e fica calado...

Aos cisnes, qualquer coisa pode ferir ou matar;
é nosso fado: a vida existe para nos lesar.

Não divirtas com notas de pássaro migrador,
dos sonhos de gelo que os cisnes sonham, o tremor...

A vida é uma culpa quem a expia somos nós,
que nascemos já com a própria morte em nossa voz.

Não queiras inflamar-nos do calor e inquietação
que se mesclam nos gritos das aves de arribação

Se aos sinos da tarde não pudermos dormitar mais,
erguemos vôo. Ai de vós que com a vida engodais!

Erguemos vôo. Nossa capa de penas se inflama.
De asas aparadas só nos resta morrer em chamas.

Ah, atraem os cisnes apenas para juntá-los
a todos num só bando numeroso... e então matá-los.

Até que o inverno eterno mantenha os mares fechados
e as nevascas tapem a boca dos vulcões irados

não desperteis, com arroubos e ardores de batalha,
o forte bamboleio, o manto de penas que farfalha.

Vestes de festa, jogos de sonho, dai diversão
aos aflitos, mas aos cisnes não os desperteis, não.

Sophus Claussen | Danske forfattere (iBog)
Sophus Claussen

V
æk ikke Svanerne

Mit Vaarfløjt blev nedstemt af Andedams-Claquerne.
Selv Svanerne rystede Svanenakkerne.

Fjerhammene bruste, mens næppe de målte mig
med Sideblikke, der lod, som de tålte mig.

En enkelt kom sagtelig sejlende hen:
Lig stille og ti, er du Svanernes Ven...

Det er Svane-Skæbne, at alt må dræbe os,
Livet er til for at efterstræbe os.

Kom ikke med Trækfugletoner forlystende
til Svanen, som drømmer sin Isdrøm, den rystende...

En Brøde er Livet, og vi vi er Sonerne,
kun født til at synge med Døden i Tonerne.

Men ildner du os med det hede og higende
den dobbelt Islæt i Trækfugleskrigene

og må vi ej blunde til Solnedgangsklokkerne,
vi rejser os. Ve over Livs-Forlokkerne!

Vi rejser os. Fyrige svulmer da Hammene.
I Fald vi er stækkede dø må vi flammende.

Ak, Svanerne lokker man kun for at slæbe dem
i Hobevis sammen... og derefter dræbe dem.

Til evige Vintre har stængt Oceanerne
og Snefald får Mundene lukt paa Vulkanerne

væk ikke, med Ildhu og krigerisk dystende,
de Vingefjer-brusende, kraftig sig brystende!

Lad Feskrud og Lege på Drømmebanerne
forlyste de sorgfulde. Væk ikke Svanerne!
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Quinze Poetas Dinamarqueses, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de Jorge H. Wolff, edição bilíngue, Coleção Poesia Traduzida Volume II, 1997, Letras Contemporâneas, Florianópolis — SC; Sophus Niels Christen Claussen (1865 1931), dinamarquês de Helletoft, ilha de Langeland, estudou Direito em Copenhague, foi jornalista, pintor, escultor, escritor e poeta lírico; o poeta recebeu influência dos simbolistas franceses e muito influenciou os poetas modernistas dinamarqueses das décadas de 1940 1960; Claussen viveu vários anos em Paris  França e na Itália e traduziu alguns de seus poetas favoritos, Percy Bysshe Shelley, Heinrich Heine e Charles Baudelaire entre outros; bibliografia: Naturbørn (Filhos da Natureza, 1887), Pilefløjter (1899), Ungt Folk (1894), Djævlerier (1904), Dansk Vers (1912), Fábulas (1917), Heroica (1925), além de vários livros de viagem e contos de prosa lírica da vida em pequenas cidades dinamarquesas.

domingo, 19 de abril de 2020

Ole Sarvig: Noite de vigília

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[traduzido por José Paulo Paes]

Estou só dentro da noite
debaixo das estrelas.
E me vem a ideia
de que os muitos sóis e planetas de sóis
que giram lá no alto
ao redor uns dos outros
em sistemas rebrilhantes,
são outros tantos átomos
de um imenso corpo.

Nós mesmos talvez estejamos em sua testa.
Talvez estejamos no seu olho
ou então num dos seus cabelos,
mas ele, como eu,
contempla o seu céu estrelado
que, por sua vez, é feito dos átomos
de uma forma que também
olha pensativamente para as estrelas.

E eu mesmo sou uma infinitude
de mundos.
Levo em mim sistemas solares
com planetas de mares e planícies
e de seres vivos
que, por sua vez, levam em si
miríades de seres
na mesma proporção
daqueles.

Talvez neste exato momento esteja nascendo
um Cristo do espírito em algum
dos muitos e obscuros planetas do meu corpo.
Talvez campeiem guerras e montanhas tremam
em algum dos seus incontáveis planetas
 talvez estejam nascendo muitos sóis
neste exato momento,
talvez se esteja extinguindo um planeta vivo
no frio da noite cósmica
 mas eu pensativo contemplo
o enxamear das estrelas.

E esse imenso corpo
de que falamos
quem sabe não é um homem comum
também ansioso e preocupado
com idéias sobre a infinitude

Sarvig, Ole | 6.000 historiske pressefotos - John Stæhr copyright ...
Ole Sarvig

Vaagen nat

Jeg staar alene i natten
under stjernerne.
Og den tanke kommer til mig,
at de mange sole og soles planeter,
som kredser deroppe
og drejer sig om hverandre
i blinkende systemer,
er andre atomer
i den væeldiges legeme.

Vi sidder maaske i hans pande.
Maaske er vi i hans øje
eller et haar paa hans hode,
mens han som jeg
staar og ser op mod sin stjerne-himmel
der atter er nogle faa atomer
af en skikkelse, der ogsaa
staar og ser tankefuld op i stjernerne.

Og selv er je gen uendelighed
af verdener.
Jeg bærer solsystemer
og kloder med sletter og have
og levende væsener i mig.
Og de bærer atter
myriader af verdener i sig
i det samme størrelsesforhold
som her.

Maaske fødes netop nu
en Kristus af aand I mit legeme
paa en af de mange mørke kloder.
Maaske raser krige og skælver bjerge
på en af mine uttalige planeter,
 maaske fødes mange sole
netop nu,
maaske slukkes en levende klode
i rumnattens kulde,
 mens jeg tankefuld staar
og ser op mod stjernervrimlen.

Og denne vældige,
som vi jo kender ham,
er maaske en jævn mand
og selv urolig og bekymret
ved tanken om uendeligheden.
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Quinze Poetas Dinamarqueses, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de Jorge H. Wolff, edição bilíngue, Coleção Poesia Traduzida Volume II, 1997, Letras Contemporâneas, Florianópolis — SC; Ole Sarvig (1921 1981), dinamarquês de Copenhague, foi poeta, ficcionista, ensaísta, crítico de arte e dramaturgo; com outros escritores e poetas, participou da revista literária Heretica; é/foi autor de 15 coleções de poesia, 10 coleções de ensaio, 4 romances e algumas peças de teatro; bibliografia: Green Poems (Poemas Verdes, 1943), Jeghuset (poesia, 1944), Legende (poesia, 1946), Menneske (poesia, 1948), Krisens Billedbog (ensaios de arte, 1950), Stenrosen (novela, 1955), De Sovende (novela, 1958), Havet under mit Vindue (romance, 1960) e outros textos em verso e prosa, ensaios e também para teatro; em 1967 recebeu o Grande Prêmio da Academia Dinamarquesa; Ole Sarvig cometeu suicídio em dezembro de 1981.